terça-feira, 11 de outubro de 2011

κυρίου Ἰησοῦ Χριστοῦ X Caesar Augustus Imperatus

É normal as pessoas interpretarem os discursos atribuídos a Jesus, bem como os ensinamentos de Paulo, como que tratando-se de religião no sentido moderno do termo. Alguns, inclusive, falam da separação de Estado e Religião, o que, nos nossos dias, julgo essencial. Mas esse pensamento moderno não pode direcionar nossa leitura das Escrituras. O mundo antigo vivia outra realidade: Estado e Religião não andavam separadas e nem juntas, estavam intimamente ligadas.

Para o Estado se voltavam os ritos. Não é à toa que Roma era muito mais do que uma cidade, Roma era uma deusa, tendo, inclusive, estátuas erguidas em adoração a ela. O imperador Otaviano nao era apenas o líder do império, mesmo em vida, recebera o título de Theos Sebastos (o Deus Augusto).

Portanto, não se deve ler os escritos bíblicos como se fossem religião à margem do cotidiano. Naquela época o conceito de vida secular e vida religiosa não existia. Existia apenas uma vida. E, nela, se dialogavam o "mundano" e "sacro".

Partindo desse princípio básico, vamos reler alguns versículos:

"Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize! João 14:27"


O mundo deve ser entendido como o domínio Romano. Roma possuía, desde Augusto (29 a.C) o que eles chamavam de pax romana. Que foi um período longo de "paz" conseguido por meio da guerra e da subordinação dos outros povos às armas de Roma. Ser fiel à Roma e ao Divino Augusto, Deus de Deus, Filho de Deus (Filho do deificado Júlio César), permitia ao povo conquistado viver na "pax romana" (paz romana). Uma paz por meio da vitória, por meio da guerra, do domínio.

Cristo, apresentado como o Filho de Deus, aliás como único Filho de Deus (repare bem na expressão "único " presente em João, que deixa claro não haver outro Divi filius nem mesmo Otaviano) deixa sua paz. Não uma paz como Roma dá, uma paz diferente. Uma paz em que o coração não precisa ficar perturbado. Uma paz baseada na liberdade e no amor. Veja como esse texto é altamente subersivo, pois desafia a divindade do César como promotor da paz. Apresentando Cristo como doador da paz, de uma paz que tranquiliza e dá segurança, sem guerra.

"Enviaram-lhe alguns fariseus e herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra.
Aproximaram-se dele e disseram-lhe: Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade. É permitido que se pague o imposto a César ou não? Devemos ou não pagá-lo?
Conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu-lhes Jesus: Por que me quereis armar um laço? Mostrai-me um denário.
Apresentaram-lho. E ele perguntou-lhes: De quem é esta imagem e a inscrição? De César, responderam-lhe.
Jesus então lhes replicou. Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele. Mc 12:13-17"


Muitas pessoas compreendem esse texto como Jesus dizendo: a moeda é de César então dê a César e a Deus dê o coração; Outros ainda, não sei como, interpretam que está dizendo: dê o imposto a César e o dízimo a Deus.

Contudo, Jesus, de forma muito sábia diz o seguinte: dê a César o que é de César (até aí pode-se pensar no tributo, pois tem a imagem dele) e a Deus o que é de Deus. Eis o grande problema! Diante de Deus César é dono de nada! Jesus está se opondo ao pagamento do tributo a César quando diz que a Deus deve ser dado o que é de Deus, ou seja, tudo.

Tudo pertence a Deus. Nada pertence a César. Aquela terra onde os romanos estavam - Judéia - pertencia a Deus e ele deu a Abraão e sua descendência. César não é digno dela. Assim como não pertence a ele o imposto dos judeus, a religião dos judeus e nem os próprios judeus.

Veja como Religião e subversão estão lado a lado. Uma subversão sem violência? Sim, óbvio! Pois se alguém te bater na face (o romano é o agressor) oferece-lhe a outra. Revolução! Mais sem violência. Uma revolução baseada no amor, mas bastante consciente.

"Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. 1 Coríntios 8:5-6"

Um só Deus!
Um Só Senhor!

Devemos nos lembrar que "Cristo" é um título, e não sobrenome. Seu significado é ungido, e traduz para o grego o título Messias, vindo do Hebraico (Hebraico מְשִׁיחֶ = mashiach; Grego Χριστός = Christos). Já "César" é um sobrenome pertencente a Júlio, o Júlio César. Seu filho adotivo, Otaviano, o adotou como que se dizendo filho de Júlio. Mais tarde tornando-se o César Augusto (Augusto = digno de adoração) e seus sucessores começaram a repetir o ato de adotar o nome, para se dizer filiado ou continuação de Otaviano. Assim, o sobrenome passou a ser título, ou sobrenome-título.

Jesus era chamado de "Jesus, o Cristo". Ou seja, "Jesus, o Ungido". Os cristãos, contudo, transformam seu título em sobrenome . Jesus Cristo, em oposição a Júlio César, César Augusto, Tibério César, ou qualquer outro que se sinta no direito de se intitular "César". Então, existe um "Nero Cesar", os cristãos confessam um Jesus Cristo. 

Existe um Kyrios (Senhor) que é outro título do César. Augusto é reconhecido como Deus e Senhor (Theós kai Kyrios). Contudo, Paulo afirma: Só existe um Deus (Theos) - negando a divindade do imperador e os deuses de Roma; Um só Senhor (Kyrios) - negando o senhorio do imperador.

Para Paulo e para os primeiros cristãos está claro o seguinte: a mensagem do evangelho não é uma nova religião. É uma nova sociedade, um novo mundo, uma nova ordem, uma nova civilização. Pautados no amor, na graça e na mensagem de paz do evangelho.

Inclusive, a própria expressão "Evangelho de Jesus Cristo" (Boas novidades) se opõe ao "Evangelho de César".

Enfim, o interessante seria abrir a mente para encontrar nas linhas do evangelho muito mais do que uma mensagem preocupada com a "salvação das almas". A mensagem do evangelho, acima de tudo, preocupa-se com a implantação do Reino de Deus. E demonstra-o como um reino que fez ferrenha oposição aos impérios opressores. O reino de Deus é, aqui, desde já, oposição à política  que coisifica o ser humano e cria ídolos que para nada servem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário