quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um êxodo para nossos dias...

Falar em processo de libertação, de saída de uma situação de opressão para a verdadeira liberdade, biblicamente falando, é relembrar o êxodo. O êxodo é o verdadeiro símbolo da luta e conquista pela liberdade. As narrativas bíblicas das 10 pragas, a fuga pelo deserto, a nuvem que guia o povo, a coluna de fogo e a passagem pelo mar vermelho refletem o caráter milagroso que o êxodo recebeu. Aos olhos do povo não eram eles os fujões, simplesmente, mas Javé era quem os guiava.

A terra de Israel, quando povoada, recebeu vários povos que tinham seu próprio êxodo. A tradição do êxodo do Egito não é a tradição de todas as tribos, mas, especificamente, das tribos do Norte e, principalmente, daquelas associadas a José: Manassés e Efraim.

Outras tribos nascem de outro processo libertador. Antes da idade do ferro (antes de 1200 a.C.) ,na terra de Canaã, havia várias cidades-estados. Eram pequenas cidades lideradas por reis, os "reis de Canaã". Esses pequenos reinados, que eram vassalos do Egito, exerciam seu domínio sobre camponeses, usando a lógica da religião para dominá-los. El-Elyon, por exemplo, é uma divindade associada à Jerusalém, já no Gênesis, na pessoa de Melquiseque.

Como funcionava o domínio da cidade sobre o campo? As cidades não produzem o que consomem. Os produtos utilizados pelos citadinos (cereais, frutas e etc.) são produzidos pelo campo. É o campo que tem a responsabilidade de sustentar às cidades. Isso pelos tributos. Parte do que produz deve ser enviada para o rei e seus nobres. Uma verdadeira sociedade tributária. Com os altos impostos, pouco do que trabalhador rural produz, sobra para seu consumo. Esses mesmos impostos também devem ser enviados ao Egito, que é o grande império da época. Para que o Egito tenha seu tributo e o rei cananeu vassalo tenha o seu, a máquina do governo passa a oprimir mais e mais os contribuintes, trazendo a pobreza para o camponês.

Quando o Egito sofre uma baixa e as cidades passam a se tornar verdadeiras fortalezas, deixando de fora (sem proteção) os camponeses. Surge um momento de paz. Um momento propício para se pensar em fugir e fundar uma nova sociedade, baseada na igualdade, sem rei, sem tributo, sem a religião que justifica a opressão por meio dos dízimos e ofertas dedicados no templo.

Esse grupo de cananeus do campo sobe. Literalmente sobem! Vão para as montanhas. Montanhas até então inabitáveis, justamente porque desacampar os lugares sem o domínio do ferro demandaria a impossibilidade. Já na época do ferro, quando essa quietude e sonho são permitidos, os camponeses vão para as montanhas. São os desbravadores da terra. Conseguem criar cisternas que permitem sobreviver na época de pouca chuva. Lá em cima, onde mais tarde são fundadas as 12 tribos, nasce o sonho da liberdade, da produção igualitária, da divisão correta da terra. E o povo se liga e se identifica como uma grande família. É o êxodo novamente! O êxodo silencioso, mas que produz a utopia: uma sociedade livre! Distante dos vales e dos reis de Canaã, mas próximos um dos outros. Essa proximidade logo é identificada com a proximidade parental. São todos parte de uma grande família.

Curiosos com o que está acontecendo na montanha, pastores do Sinai e outros grupos de pastores se achegam. Integram-se.

E os foragidos do Egito, liderados por Moisés? Esses são também conduzidos às montanhas. E lá contam sua história e são admitidos. E a sua história passa a ser a história de todas as tribos. O êxodo do Egito passa a ser o êxodo de todo o povo! Afinal, nesse êxodo, o derrotado foi o deus Faraó! E Javé, passa a ser identificado como o Deus que dá a liberdade a esse povo.

Povos diferentes, de culturas e deuses diferentes passam a se unir e formar uma liga fraterna! São irmãos agora! Todos são filhos de Abraão, Isaque e Jacó. Todos servos de Javé! O Deus que é a presença libertadora no meio do povo. E nas montanhas a utopia se concretiza! Liberdade, igualdade e fraternidade vividas plenamente!

Contudo, a história mostra que esse povo passou a oprimir seus "irmãos". Salomão, Manassés, Jeroboão II são alguns dos muitos exemplos de reis que feriram o projeto inicial. Aliás, a existência de um rei  nas montanhas (mesmo Davi!) já é a ruptura do projeto de igualdade.

Onde quero chegar?

Quando falo em "Reino Utópico", "Reino de Deus", é precisamente desses êxodos que falo. Precisamos, em nossos dias, viver um processo de libertação que culmine em igualdade e justiça. Essas palavras que possuem um forte poder, se vividas. Contudo, tanto o reino de Deus, pregado e vivido por Jesus Cristo, quanto o projeto tribal do Israel antigo, vivenciado em suas origens, não são impérios que se impõe. Deus não colonizará nossas vidas ou esse mundo.

Parte de cada um de nós, de um desejo igual e de uma luta igual para que esse projeto exista. Inclusive sua permanência e manutenção. Quando ouço falar em avivamentos, transformações e coisas similares, eu lamento muito. Pois muitos julgam que a mágica fará com que nos tornemos pessoas que amam e cuidam um do outro automaticamente. Nada disso! É a luta por liberdade! É a luta contra a hipocrisia! É a luta contra a corrupção, o tráfico, a desigualdade e todos esses males que faz nascer a justiça. A justiça não nasce no coração automaticamente. Ela é fruto de um desejo sincero e de uma decisão por mudança. Ela nasce quando olhamos em volta e percebemos: "alguma coisa está fora do lugar!", "Essa não é a situação desejada por Deus", "Essa não é a situação desejada por mim".

Esperar o advento do Reino de Deus não é algo passivo. O esperar deve ser interpretado como esperança. Esperança que se constrói e não que se aguarda. O Reino de Justiça não é como o império romano que vem destruindo tudo o que julga contrário a si. Muito menos como os Estados Unidos que invadem um país quando "dá na telha". O Reino de Deus aceita convite apenas. A justiça e paz só nos visitam, quando fazemos com que valha a pena sua existência.

Como os escravos do Egito, que fugiram do deus faraó e seus deuses; Como os camponeses da Canaã que se viram solitários e observaram nisso uma oportunidade e não um perigo; Como os pastores do deserto que se sentiram atraídos por essa novidade que propícia a paz. A utopia vivida durante duzentos anos não poderia ser real se aguardassem a vinda de algo sobrenatural. É aqui, em nosso chão, que a liberdade se vive. É aqui, em nosso chão, que a liberdade é construída.

Precisamos fugir! Quem tem coragem?

4 comentários:

  1. em relaçao ao e-mail q vc criticou algumas bandas ..enquanto vc está preocupado com o q os outros falam, cantam ou fazem, vidas estão se perdendo do seu lado, e o que vc está fazendo? Com o jeito deles, torto ou não, estão preocupados em levar a salvação a estas vidas que estão se perdendo. Medite em Provérvios que diz: Quem esconde o ódio tem lábios mentirosos, e quem espalha calúnia é tolo. Quando são muitas as palavras, o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato.

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  2. Arrependei-vos Silvio....Os sensatos evangelizam atraves do Surf. E da junção de mensagens alheias em prol do Reino. E não esqueça de contratar um acessor, pois todos que levam o evangelho possuem um. Abraços Monstroooo

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  3. Eu não iria responder ao comentário, mas, já que esperam isso, resolvi fazer. Tentarei, na medida do possível, nao ser grosseiro. Infelizmente isso nada tem a ver com o assunto da postagem. Explicando para quem está voando, recentemente mandei um e-mail fazendo propaganda desse blog. Nele, fiz um jogo de palavras com o nome de algumas bandas e ministérios de louvor famosos. O sentido era: quem costuma buscar as coisas que esses ministério apresentam, não devem visitar o blog, pois o blog possui uma proposta diferente. Proposta essa que, no e-mail, chamei de "heresia" (no bom sentindo da palavra). Respondendo ao comentário:

    "em relaçao ao e-mail q vc criticou algumas bandas"

    Não critiquei a ninguém, embora não teria problema em fazê-lo. Apenas demonstrei, de forma irônica, que minhas abordagens são diferentes. Se melhores ou não, certamente, não cabe ao autor julgar e sim ao leitor.


    " ..enquanto vc está preocupado com o q os outros falam, cantam ou fazem, vidas estão se perdendo do seu lado, e o que vc está fazendo? Com o jeito deles, torto ou não, estão preocupados em levar a salvação a estas vidas que estão se perdendo."

    Preocupo-me com os que os outros falam porque, felizmente, são pessoas como eu que tomaram (por opção) a responsabilidade de, depois que todo o encanto acaba, consertar as besteiras que algumas doutrinas criam na mente e no coração das pessoas. Quanto aos perdidos, sinto dizer, pensamos diferente. Vejo, na igreja, mais "perdidos" (no sentido que você está usando) do que fora dela.

    O que eu estou fazendo? Para o quê? Para ajudar aos "perdidos"? Sinto dizer, mais uma vez, penso diferente. Eu sou mais um dos perdidos. Procure meu texto sobre a ovelha perdida. Eu me encontro junto com os perdidos e não entre os que "se acham".


    "Medite em Provérvios que diz: Quem esconde o ódio tem lábios mentirosos, e quem espalha calúnia é tolo. Quando são muitas as palavras, o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato."

    Tá, ok, meditei... e? Não consegui ver sentido nesse provérbio dentro do assunto. Preciso de mais "luzes", para entender. "Me perdi" agora.

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  4. Vou orar por vocês.... discutindo enquantos várias almas estão se perdendo... ou se achando... nem sei mas, até eu estou perdido agora!? o.O rsrsrs

    Parabéns pelo blog Silvio, aqui pode ser um ponto de perdição para uns, mas é "salvação" para outros !

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