segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sobre o Fundamentalismo

Em meados do século XIX nasce um movimento protestante nos EUA que, mais tarde, culminou em uma pequena coleção de livros chamados "Fundamentals: a testimony of the Truth". Esse movimento, a partir de então, sacralizou uma forma de interpretação chamada de "Fundamentalismo".

No fundamentalismo não é a bíblia que é canonizada, apenas, mas, principalmente, uma forma de interpretação "Se Deus consignou sua revelação no Livro Sagrado, então tudo, cada palavra e cada sentença, devem ser verdadeiras e imutáveis". Assim levantou-se contra um outro movimento, já vigente, a chamada Teologia Liberal, que fazia uso dos métodos histórico-críticos para interpretar os textos bíblicos. Este entendia que o "chão" histórico e social do texto devem ser respeitados para, assim, alcançar uma interpretação mais próxima da fidelidade dos autores.

Não quero aqui diferenciar um movimento do outro, pois, acredito, valorando demais um no lugar do outro, sempre se prevalece o fundamentalismo: ou fundamentalismo religioso, ou o fundamentalismo científico. E, ambos - religião e ciência - são mutáveis. Portanto, objetivo explicar, a partir dos "cinco pontos do fundamentalismo", por que não opto por essa interpretação:

Inerrância verbal da Escritura

Esse modo de “encarar" as Escrituras acaba por divinizar textos humanos (inspirados). A Bíblia não é Deus e, a meu ver, somente Deus não erra. Como entender a inerrância bíblica diante de textos que apontam para o heliocentrismo, como no caso da oração de Josué (orou e o sol ficou parado)? Como aceitar a inerrância se em Gênesis há dois relatos da criação e não apenas um? Sabido é que o mundo foi formado apenas de uma forma e não de duas. Como manter tal discurso se há divergências no nascimento, morte e ressurreição de Cristo narrados pelos quatro evangelhos e por Paulo?

Entendo a Bíblia como "a palavra de Deus em palavras humanas" e isso, por si só, já aponta para o limite de seus textos. A beleza da Bíblia não se encontra em sua inerrância. Pelo contrário, está justamente no fato de que homens limitados conseguiram perceber Deus dentro desses limites. A bíblia, para mim, não é Deus e, portanto, não cabe idolatra-la como tal, mas adoro ao Deus que ela, mesmo diante dos limites de suas palavras humanas, aponta.

A divindade de Cristo

Creio nessa confissão, que demorou muito para ser aceita por toda a igreja e, acredito, ainda assim não foi plenamente. Contudo a compreendo de outra forma. Segundo o fundamentalismo Jesus "veio pronto", sabia tudo, conhecia tudo. Contudo Jesus é, segundo Paulo, aquele que se "esvazia". É o Deus, segundo João, que se fez carne. Em outras palavras, limitou-se ao tempo e ao espaço. Podendo morrer, inclusive.

Confesso o 100% Divino e 100% Humano. A grande questão é que, confessar 100% humano existe a verdadeira necessidade de confessá-lo como um aprendiz, como alguém que não sabe tudo. Se for um ser humano comum, então, certamente, cabe a ele apaixonar-se por alguém, machucar-se, errar (diferente de pecar), acertar, enfim, aprender.

Mesmo a carta aos Hebreus entende isso quando afirma "APRENDEU a obediência pelas coisas que sofreu". Reconheço a divindade de Cristo nas palavras de Leonardo Boff: humano como Jesus só pode ser Deus mesmo.

É na humanidade de Jesus que percebo sua divindade.

O nascimento virginal

Esse caminho é perigoso. Nossas igrejas confessam o nascimento virginal como dogma histórico (factual). Nada contra essa interpretação. O grande problema é que o nascimento virginal não quer dizer absolutamente nada nele mesmo. O nascimento virginal - citado apenas pelos evangelistas Mateus e Lucas, cada um a seu modo - possui uma mensagem necessariamente opositora ao governo romano e ao senhorio do César. Sem a mensagem do nascimento virginal, ele mesmo torna-se sem sentido.

Não quero aqui entrar no assunto de confessá-lo ou negá-lo, para tal precisaria de um estudo focado no assunto. Minha intenção é outra, apenas dizer que não existe motivo para aceitar um nascimento milagroso como importante para a fé. Jesus continuaria sendo quem é se fosse filho legítimo de José. Esse dogma fundamental não preserva em nada a fé no Cristo. A fé nele não depende de um nascimento oriundo de uma relação sexual amorosa, estupro ou de um milagre. A fé Cristã é pautada na ressurreição de Cristo e não na forma do seu nascimento.

Doutrina da expiação vicária

Segundo essa doutrina Cristo morreu pelos nossos pecados. De fato existem confissões, principalmente em Paulo, que afirmam exatamente isso. A grande questão é que, conforme a interpretação da doutrina, Jesus morreu em nosso lugar. Deus estava irado conosco e castigou seu Filho, em misericórdia a nós; E seu Filho aceitou, sem reservas, por amor, tal castigo. Pagando o preço que era nosso.

Para mim nada mais danoso do que a fé em um Deus que castiga o inocente por amor ao culpado. Nada mais mentiroso do que servir a um Deus que se diz amor, mas pune quem nada teve a ver com isso. Não compreendo nada mais horrível do que crer em um Deus que, em momento de ira, manda seu Filho à morte.

Será que Deus não conseguiria, simplesmente, ser misericordioso? Em que se sente feliz em matar seu Filho? Como a morte de um santo e inocente pode acalmar a um Deus amoroso? Creio eu que a injustiça do assassinato de um inocente deveria deixá-lo irado, e não o contrário. Ainda assim, essa "ira" deveria ser interpretada, pois, segundo Jonas, Deus é "tardio em irar-se". E o Livro das Lamentações afirma que as misericórdias do Senhor se fazem novas a cada manhã.

Não posso aceitar, de forma alguma, que Cristo morreu para que eu não fosse ao inferno. Para mim, Cristo morre, justamente, porque estamos no "inferno". Negamos seu amor, negamos sua mensagem de paz. Por isso ele morre. Trocamos a bênção do Reino de Deus, o reino do amor, pelo prato de lentilhas de um mundo afundado no egoísmo e no desejo pelo poder. É por isso que Cristo morre! O emissário de um reino de paz é rejeitado por nós. Ele morreu porque nós, humanos, desejamos isso! E não Deus! Do contrário, porque ele diria: Pai, perdoe-os, não sabem o que fazem? E por que Paulo diria que, se os príncipes desse mundo conhecessem o mistério de Cristo, não teriam crucificado o rei da Glória?

Negamos o reino de Deus, e por isso matamos seu rei. Ele morreu por nossos pecados, pois nossos pecados mataram-no.


Ressurreição corporal na segunda vinda de Cristo

Já dei dicas do que penso sobre essa história de "segunda vinda". Entendo-a como um cumprimento de um desejo nosso da vinda de um reino de Deus. Compreendo-a como o cumprimento da realização de um mundo desejoso por reconciliar-se consigo e com o próximo.


Não considero que Cristo não esteja entre nós e, portanto, precise "voltar". Eu acredito em "eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século". Logo, para mim, o Cristo ressurreto está aqui e não em outra dimensão aguardando o momento de aparecer a todos.

Da mesma forma, a ressurreição corporal, ensinada por Paulo e confessada pela igreja, compreendo como "preservação da identidade". Em um mundo antigo (embora hoje também seja assim) onde se confessa que a alma é o verdadeiro "eu" e encontra-se limitada pela carne (corpo) que a impede de ser o que é, os cristãos confessam a ressurreição em um corpo espiritual. Ou seja, um corpo diferente, pois é a união entre matéria (corpo) e espírito (pneuma). Vejo isso como um símbolo de preservação da identidade do ser e valorização do corpo.

Como se dará e se dará a ressurreição no fim, não cabe na mente limitada humana. Portanto, a bíblia, inspirada por Deus, mas escrita em palavras humanas, confessa esse ensino de forma simbólica, pois, somente o símbolo consegue ultrapassar o sentido literal das palavras.

Por tudo isso, não posso ser literalista (fundamentalista) e me prender ao sentido da letra do texto bíblico. O texto bíblico é simbólico e teológico, ou seja, fala muito mais do que o significado das palavras diz.

E nisso digo: Aleluia! (louve a Javé).

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