segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Demônio nosso de cada dia nos dai hoje

Heresia? Como eu costumo falar para os meus alunos "primeiro a frase herética, depois a explicação que lhe dá sentido". Conversando com um amigo e uma amiga sobre o demônio, tive um "insight" que agora sou levado a repetir: as pessoas hoje "precisam" tanto do diabo quanto de Deus.

Entendo... A última frase pareceu pior do que o título. Mas permita-me explicar melhor. A história de Israel e Judá é marcada com o grande conflito entre monoteísmo e politeísmo. A bem da verdade é que, na história da fé do Antigo Israel, Javé não se apresentava como o único Deus existente, mas como o único Deus a ser adorado. E mesmo as guerras de Javé se apresentavam como guerras entre Javé e os outros deuses. A célebre frase "Quem é como Javé entre os deuses", denota que Israel adora, sim, a um único Deus. Mas, lado a lado, confessa a existência de outros deuses. É o que chamaríamos de monolatria, e não monoteísmo.

Javé era possível ser entendido como "o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores" (superlativo hebraico). Deus, então, é confessado como um Deus maior, mas não como único Deus. Com o passar do tempo, contudo, os deuses dos outros povos passam a ser denominados de ídolos:

"Porque todos os deuses dos povos são ídolos ('eliyl = אֱלִיל ), mas o SENHOR fez os céus. Salmos 96:5"

'eliyl  = de nada, sem valor.

Embora, para o tempo antigo, o ídolo em si não significa o deus, mas apontava para ele. Israel, com sua fé em um único Deus existente já bem desenvolvida, zomba dos ídolos dizendo que eles são sim os deuses dos outros povos. Ou seja, a fé deles é vã pois está depositada em 'eliyl.

Ao lado desse desenvolvimento da fé na unicidade de Deus, pareceu bastante perigoso, para Israel, a crença em anjos ou semi-deuses. Pois, para eles, em algum momento, esses "seres espirituais" poderiam, de alguma forma, concorrer com Javé. De forma que o povo poderia passar a adorá-los.

Contudo, depois da época persa (possivelmente de onde vem o salmo citado), os "Filhos de Deus" parecem já existir. Como filhos, são subordinados a Deus e jamais podem tornar-se superiores ou adversário dele. Por isso mesmo, o texto de Jó, um pouco antes dessa época, trata o assunto falando de um "Obstáculo" (Satanás) que vive na corte de Deus entre os seus filhos. Esse "Adversário" é, contudo, apenas, adversário do homem (particularmente de Jó). Jamais se tornando um oponente de Deus.

No período helênico, falando ai da apocalíptica bem desenvolvida, os anjos e demônios começam a aparecer. Na mensagem do Livro de Enoque é possível vê-los gerando filhos e ensinando esses mesmos filhos a guerra e as armas. Pervertendo o ser humano. Convertendo-se assim em inimigos de Deus. Porém, são inimigos de Deus, no livro, porque fazem guerra aos homens. Deus, nesse momento, sai em defesa da humanidade subjugada. Mesmo no livro de Daniel, vindo do mesmo período, é possível encontrar Miguel e Gabriel como anjos. Um que interpreta e dá mensagens ao profeta e o outro como guerreiro que batalha em favor dos santos.

No ambiente do Novo Testamento, Satanás atua no mundo entre os seus anjos. Contudo, essa mensagem, está recheada de simbologia, posto que os demônios são, claramente, identificados com a cultura, religião e domínio do império romano. Como exemplo claro está Satanás, no deserto, falando com Jesus, que todos os povos da terra foram entregues a ele (a Deusa Roma é quem domina sobre todos os povos, e  o deus sebastos - César Augusto -  é o senhor do mundo); O demônio gadareno é chamado de Legião (alusão às legiões do exército romano); E a besta do Apocalipse que subjuga o mundo (César) recebe seu poder do Dragão (Satanás a antiga serpente).

Vale, entretanto, a mensagem de que esse "inimigo" sempre está subjugado por Deus. Sempre está abaixo de Deus e abaixo dos "santos". Nunca consegue, de verdade, se tornar alguém realmente que oferece um perigo definitivo. Os poderes do mal são sempre vencidos pelos poderes do bem. A vida é superior à morte. O amor superior ao ódio. Essa é uma das mensagens do Novo Testamento.

Entretanto, o que vemos hoje é uma demonização da fé cristã. Onde os demônios e o próprio Satan tornam-se, de fato, um inimigo que "bate de frente" com Deus e com os santos. Ele, de anjo, ou servo de Javé, tornou-se um deus do mal. Até o "Inferno", lugar destinado ao "diabo e seus anjos", tornou-se morada dele. Não mais o lugar de sua tormenta, mas o seu país, o local onde governa e onde atormenta as almas dos condenados (ridículo!). Existem "legalidades", onde Deus se torna impotente frente ao diabo pois esse "vence nos argumentos da lei". Trazem o pensamento jurídico para dentro da Torah de Deus (orientação e não lei seria a tradução correta).

Orações que expulsam demônios que governam cidades e países são realizadas ao som de "amém e alelulais" mas que não trazem efeito ou resultado nenhum, na prática. As cidades continuam violentas, a injustiça continua a crescer, o mal ainda domina.

Contudo, tentemos retirar os demônios. Tentemos transformá-los em mitos, lendas. Sabe o que acontecerá? O mal passa a ser responsabilidade nossa. A injustiça passa a ter que ser combatida na prática, no corpo, no sangue! Nossos inimigos se transformam em nós mesmos. O diabo é, portanto, hoje, alguém em quem lançamos nossas culpas e nossos erros. É a forma que encontramos de desculpar nossa incapacidade e falta de compromisso com as realidades opressoras do sistema que, "demonicamente", sustentamos.

Se os demônios existem ou se não existem? Não é essa a questão. A questão é que, enquanto a religião continuar nos dando o "demônio nosso de cada dia", teremos desculpas para continuarmos sendo falsos cristãos, falsos religiosos, falsos humanos. Enfim, falsos, que colocam a culpa de sua falta de fidelidade à humanidade, à criação e a Deus, em um "pobre demônio".

Um comentário:

  1. Como estes líderes religiosos iriam sustentar seus templos monumentais dizendo ao povo arrependei-vos e convertei-vos? É mais fácil, muito mais fácil colocar a culpa no diabo. E não estou sendo advogada dele, apenas reconheço minhas falhas e procuro corrigi-las.
    É isso aí PRIMO, manda mais, porque este povo precisa ouvir, ou melhor, ler rsrs.

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