segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sobre o Fundamentalismo

Em meados do século XIX nasce um movimento protestante nos EUA que, mais tarde, culminou em uma pequena coleção de livros chamados "Fundamentals: a testimony of the Truth". Esse movimento, a partir de então, sacralizou uma forma de interpretação chamada de "Fundamentalismo".

No fundamentalismo não é a bíblia que é canonizada, apenas, mas, principalmente, uma forma de interpretação "Se Deus consignou sua revelação no Livro Sagrado, então tudo, cada palavra e cada sentença, devem ser verdadeiras e imutáveis". Assim levantou-se contra um outro movimento, já vigente, a chamada Teologia Liberal, que fazia uso dos métodos histórico-críticos para interpretar os textos bíblicos. Este entendia que o "chão" histórico e social do texto devem ser respeitados para, assim, alcançar uma interpretação mais próxima da fidelidade dos autores.

Não quero aqui diferenciar um movimento do outro, pois, acredito, valorando demais um no lugar do outro, sempre se prevalece o fundamentalismo: ou fundamentalismo religioso, ou o fundamentalismo científico. E, ambos - religião e ciência - são mutáveis. Portanto, objetivo explicar, a partir dos "cinco pontos do fundamentalismo", por que não opto por essa interpretação:

Inerrância verbal da Escritura

Esse modo de “encarar" as Escrituras acaba por divinizar textos humanos (inspirados). A Bíblia não é Deus e, a meu ver, somente Deus não erra. Como entender a inerrância bíblica diante de textos que apontam para o heliocentrismo, como no caso da oração de Josué (orou e o sol ficou parado)? Como aceitar a inerrância se em Gênesis há dois relatos da criação e não apenas um? Sabido é que o mundo foi formado apenas de uma forma e não de duas. Como manter tal discurso se há divergências no nascimento, morte e ressurreição de Cristo narrados pelos quatro evangelhos e por Paulo?

Entendo a Bíblia como "a palavra de Deus em palavras humanas" e isso, por si só, já aponta para o limite de seus textos. A beleza da Bíblia não se encontra em sua inerrância. Pelo contrário, está justamente no fato de que homens limitados conseguiram perceber Deus dentro desses limites. A bíblia, para mim, não é Deus e, portanto, não cabe idolatra-la como tal, mas adoro ao Deus que ela, mesmo diante dos limites de suas palavras humanas, aponta.

A divindade de Cristo

Creio nessa confissão, que demorou muito para ser aceita por toda a igreja e, acredito, ainda assim não foi plenamente. Contudo a compreendo de outra forma. Segundo o fundamentalismo Jesus "veio pronto", sabia tudo, conhecia tudo. Contudo Jesus é, segundo Paulo, aquele que se "esvazia". É o Deus, segundo João, que se fez carne. Em outras palavras, limitou-se ao tempo e ao espaço. Podendo morrer, inclusive.

Confesso o 100% Divino e 100% Humano. A grande questão é que, confessar 100% humano existe a verdadeira necessidade de confessá-lo como um aprendiz, como alguém que não sabe tudo. Se for um ser humano comum, então, certamente, cabe a ele apaixonar-se por alguém, machucar-se, errar (diferente de pecar), acertar, enfim, aprender.

Mesmo a carta aos Hebreus entende isso quando afirma "APRENDEU a obediência pelas coisas que sofreu". Reconheço a divindade de Cristo nas palavras de Leonardo Boff: humano como Jesus só pode ser Deus mesmo.

É na humanidade de Jesus que percebo sua divindade.

O nascimento virginal

Esse caminho é perigoso. Nossas igrejas confessam o nascimento virginal como dogma histórico (factual). Nada contra essa interpretação. O grande problema é que o nascimento virginal não quer dizer absolutamente nada nele mesmo. O nascimento virginal - citado apenas pelos evangelistas Mateus e Lucas, cada um a seu modo - possui uma mensagem necessariamente opositora ao governo romano e ao senhorio do César. Sem a mensagem do nascimento virginal, ele mesmo torna-se sem sentido.

Não quero aqui entrar no assunto de confessá-lo ou negá-lo, para tal precisaria de um estudo focado no assunto. Minha intenção é outra, apenas dizer que não existe motivo para aceitar um nascimento milagroso como importante para a fé. Jesus continuaria sendo quem é se fosse filho legítimo de José. Esse dogma fundamental não preserva em nada a fé no Cristo. A fé nele não depende de um nascimento oriundo de uma relação sexual amorosa, estupro ou de um milagre. A fé Cristã é pautada na ressurreição de Cristo e não na forma do seu nascimento.

Doutrina da expiação vicária

Segundo essa doutrina Cristo morreu pelos nossos pecados. De fato existem confissões, principalmente em Paulo, que afirmam exatamente isso. A grande questão é que, conforme a interpretação da doutrina, Jesus morreu em nosso lugar. Deus estava irado conosco e castigou seu Filho, em misericórdia a nós; E seu Filho aceitou, sem reservas, por amor, tal castigo. Pagando o preço que era nosso.

Para mim nada mais danoso do que a fé em um Deus que castiga o inocente por amor ao culpado. Nada mais mentiroso do que servir a um Deus que se diz amor, mas pune quem nada teve a ver com isso. Não compreendo nada mais horrível do que crer em um Deus que, em momento de ira, manda seu Filho à morte.

Será que Deus não conseguiria, simplesmente, ser misericordioso? Em que se sente feliz em matar seu Filho? Como a morte de um santo e inocente pode acalmar a um Deus amoroso? Creio eu que a injustiça do assassinato de um inocente deveria deixá-lo irado, e não o contrário. Ainda assim, essa "ira" deveria ser interpretada, pois, segundo Jonas, Deus é "tardio em irar-se". E o Livro das Lamentações afirma que as misericórdias do Senhor se fazem novas a cada manhã.

Não posso aceitar, de forma alguma, que Cristo morreu para que eu não fosse ao inferno. Para mim, Cristo morre, justamente, porque estamos no "inferno". Negamos seu amor, negamos sua mensagem de paz. Por isso ele morre. Trocamos a bênção do Reino de Deus, o reino do amor, pelo prato de lentilhas de um mundo afundado no egoísmo e no desejo pelo poder. É por isso que Cristo morre! O emissário de um reino de paz é rejeitado por nós. Ele morreu porque nós, humanos, desejamos isso! E não Deus! Do contrário, porque ele diria: Pai, perdoe-os, não sabem o que fazem? E por que Paulo diria que, se os príncipes desse mundo conhecessem o mistério de Cristo, não teriam crucificado o rei da Glória?

Negamos o reino de Deus, e por isso matamos seu rei. Ele morreu por nossos pecados, pois nossos pecados mataram-no.


Ressurreição corporal na segunda vinda de Cristo

Já dei dicas do que penso sobre essa história de "segunda vinda". Entendo-a como um cumprimento de um desejo nosso da vinda de um reino de Deus. Compreendo-a como o cumprimento da realização de um mundo desejoso por reconciliar-se consigo e com o próximo.


Não considero que Cristo não esteja entre nós e, portanto, precise "voltar". Eu acredito em "eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século". Logo, para mim, o Cristo ressurreto está aqui e não em outra dimensão aguardando o momento de aparecer a todos.

Da mesma forma, a ressurreição corporal, ensinada por Paulo e confessada pela igreja, compreendo como "preservação da identidade". Em um mundo antigo (embora hoje também seja assim) onde se confessa que a alma é o verdadeiro "eu" e encontra-se limitada pela carne (corpo) que a impede de ser o que é, os cristãos confessam a ressurreição em um corpo espiritual. Ou seja, um corpo diferente, pois é a união entre matéria (corpo) e espírito (pneuma). Vejo isso como um símbolo de preservação da identidade do ser e valorização do corpo.

Como se dará e se dará a ressurreição no fim, não cabe na mente limitada humana. Portanto, a bíblia, inspirada por Deus, mas escrita em palavras humanas, confessa esse ensino de forma simbólica, pois, somente o símbolo consegue ultrapassar o sentido literal das palavras.

Por tudo isso, não posso ser literalista (fundamentalista) e me prender ao sentido da letra do texto bíblico. O texto bíblico é simbólico e teológico, ou seja, fala muito mais do que o significado das palavras diz.

E nisso digo: Aleluia! (louve a Javé).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma aula com Jonas...

Jonas é um personagem factual. Pelo menos assim diz um dos livros dos profetas anteriores 2 Reis 14:25, na época de Jeroboão II (783 a 743 aC):

"Jonas, filho do profeta Amitai, o qual era de Gate-Hefer"

O livro de Jonas, contudo, foi escrito bem depois da vida desse personagem e trata de um assunto bem relevante: a dureza do coração de Israel e seu orgulho oriundo da crença na eleição.

Jonas é considerado um profeta de Deus e, como profeta, conhece bem ao seu Deus e o define como:

"(...) és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal" 4.2b

Compreendendo a grandeza do amor de Deus, não obedece a ordem divina de ir à Nínive e pregar contra ela. Anunciando que os seus pecados "subiram" até Deus. Desobedece porque não quer que Nínive tenha a oportunidade de se arrepender. Deseja, sim, que pague por todos os seus pecados.

Nínive era a capital do Império Assírio. Império esse que eliminou "do mapa" o reino de Israel (reino do Norte) e deportou sua população (722 a.C.), de onde Jonas era. A Assíria, assim como a Babilônia, entrou para a história como símbolo da opressão e símbolo do mal. Vale, contudo, lembrar que, no período de Jeroboão II (momento em que Jonas exerce seu ministério), a Assíria, AINDA, não possui essa imagem. Do contrário, Oséias, que é do mesmo período, não teria exortado ao rei a não fazer aliança com a mesma. Se o rei procura fazer aliança com ela, é porque, de alguma forma, pode lhe ser favorável (Oséias 5:13). Sem contar que, segundo Herbert Donner, em "História de Israel e dos povos vizinhos":

"Jeroboão II era rei de um Estado em paz com as outras nações; interiormente reinavam bem-estar e um grau considerável de prosperidade econômica."

Na época de Jonas, Oséias e Amós – os profetas contemporâneos de Jeroboão II – a exortação é contra Israel, que faz aliança com povos idólatras, comete idolatria e oprime o órfão, a viúva e o estrangeiro.

Sendo assim, a imagem de Nínive como grande pecadora e símbolo de opressão, certamente, é posterior a 722a.C.. Precisamente quando ela eliminou o reino do Norte. Conlui-se, entao, que o livro foi, necessarimente, escrito após essa data.

Os profetas, contudo, afirmavam que Israel e Judá sofreram nas mãos da Assíria e Babilônia, respectivamente, devido a desobediência. Jeremias diz:

"E eu vos enviei todos os meus servos, os profetas, madrugando e enviando a dizer: Ora, não façais esta coisa abominável que odeio. Mas eles não escutaram, nem inclinaram os seus ouvidos, para se converterem da sua maldade (...) 44.4-5".

Profetas com boa vontade e amor ao seu povo não conseguiram fazer com que o chamado "povo de Deus" se convertesse; Um profeta com má vontade, pois esperando e torcendo para que Nínive seja arruinada, consegue fazer com que o povo idólatra se arrependa e seja perdoado por Deus.

Dessa forma, os judeus da época em que o livro foi escrito são obrigados a entender que, não importando que povo - ainda que seja o mais alto opressor -, Deus ama e espera que esse aprenda a viver para o bem. Sendo assim, não devem os judeus achar-se escolhidos como que um privilégio em relação aos outros povos. Como se Deus, por amor a eles, fizesse mal aos outros. São obrigados, por meio do livro de Jonas, entender que Deus não vê etnia boa ou má, mas sim:

"homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda (Jonas 4.11)"

Se existe uma escolha por parte de Deus em relação a Israel, o que está claro devido Jonas ser um profeta israelita, isso deve ser encarado para o povo como responsabilidade e não privilégio. Como Jonas que  é comissionado a anunciar à Nínive. Deus deve ser anunciado pelo seu povo e não restrito a ele.

Em Jonas Deus é o Deus de TODOS OS POVOS.

O que Jonas ensina hoje ao cristianismo protestante ou católico é de que Deus não está interessado em que tipo de religião. O credo religioso não importa para Deus, o que importa para Deus é simples:

"não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive em que estão mais de cento e vinte mil homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais?"

Deus não se importa com "Justos que se acham santos", mas com pessoas que precisam dele. E nisso não importa cor, credo, orientação sexual, nacionalidade ou qualquer outro rótulo que o ser humano crie. Deus apenas vê sua criação, a qual ele diz: é muito bom!

Que aprendamos a valorizar as pessoas e não seus (nossos) rótulos!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um êxodo para nossos dias...

Falar em processo de libertação, de saída de uma situação de opressão para a verdadeira liberdade, biblicamente falando, é relembrar o êxodo. O êxodo é o verdadeiro símbolo da luta e conquista pela liberdade. As narrativas bíblicas das 10 pragas, a fuga pelo deserto, a nuvem que guia o povo, a coluna de fogo e a passagem pelo mar vermelho refletem o caráter milagroso que o êxodo recebeu. Aos olhos do povo não eram eles os fujões, simplesmente, mas Javé era quem os guiava.

A terra de Israel, quando povoada, recebeu vários povos que tinham seu próprio êxodo. A tradição do êxodo do Egito não é a tradição de todas as tribos, mas, especificamente, das tribos do Norte e, principalmente, daquelas associadas a José: Manassés e Efraim.

Outras tribos nascem de outro processo libertador. Antes da idade do ferro (antes de 1200 a.C.) ,na terra de Canaã, havia várias cidades-estados. Eram pequenas cidades lideradas por reis, os "reis de Canaã". Esses pequenos reinados, que eram vassalos do Egito, exerciam seu domínio sobre camponeses, usando a lógica da religião para dominá-los. El-Elyon, por exemplo, é uma divindade associada à Jerusalém, já no Gênesis, na pessoa de Melquiseque.

Como funcionava o domínio da cidade sobre o campo? As cidades não produzem o que consomem. Os produtos utilizados pelos citadinos (cereais, frutas e etc.) são produzidos pelo campo. É o campo que tem a responsabilidade de sustentar às cidades. Isso pelos tributos. Parte do que produz deve ser enviada para o rei e seus nobres. Uma verdadeira sociedade tributária. Com os altos impostos, pouco do que trabalhador rural produz, sobra para seu consumo. Esses mesmos impostos também devem ser enviados ao Egito, que é o grande império da época. Para que o Egito tenha seu tributo e o rei cananeu vassalo tenha o seu, a máquina do governo passa a oprimir mais e mais os contribuintes, trazendo a pobreza para o camponês.

Quando o Egito sofre uma baixa e as cidades passam a se tornar verdadeiras fortalezas, deixando de fora (sem proteção) os camponeses. Surge um momento de paz. Um momento propício para se pensar em fugir e fundar uma nova sociedade, baseada na igualdade, sem rei, sem tributo, sem a religião que justifica a opressão por meio dos dízimos e ofertas dedicados no templo.

Esse grupo de cananeus do campo sobe. Literalmente sobem! Vão para as montanhas. Montanhas até então inabitáveis, justamente porque desacampar os lugares sem o domínio do ferro demandaria a impossibilidade. Já na época do ferro, quando essa quietude e sonho são permitidos, os camponeses vão para as montanhas. São os desbravadores da terra. Conseguem criar cisternas que permitem sobreviver na época de pouca chuva. Lá em cima, onde mais tarde são fundadas as 12 tribos, nasce o sonho da liberdade, da produção igualitária, da divisão correta da terra. E o povo se liga e se identifica como uma grande família. É o êxodo novamente! O êxodo silencioso, mas que produz a utopia: uma sociedade livre! Distante dos vales e dos reis de Canaã, mas próximos um dos outros. Essa proximidade logo é identificada com a proximidade parental. São todos parte de uma grande família.

Curiosos com o que está acontecendo na montanha, pastores do Sinai e outros grupos de pastores se achegam. Integram-se.

E os foragidos do Egito, liderados por Moisés? Esses são também conduzidos às montanhas. E lá contam sua história e são admitidos. E a sua história passa a ser a história de todas as tribos. O êxodo do Egito passa a ser o êxodo de todo o povo! Afinal, nesse êxodo, o derrotado foi o deus Faraó! E Javé, passa a ser identificado como o Deus que dá a liberdade a esse povo.

Povos diferentes, de culturas e deuses diferentes passam a se unir e formar uma liga fraterna! São irmãos agora! Todos são filhos de Abraão, Isaque e Jacó. Todos servos de Javé! O Deus que é a presença libertadora no meio do povo. E nas montanhas a utopia se concretiza! Liberdade, igualdade e fraternidade vividas plenamente!

Contudo, a história mostra que esse povo passou a oprimir seus "irmãos". Salomão, Manassés, Jeroboão II são alguns dos muitos exemplos de reis que feriram o projeto inicial. Aliás, a existência de um rei  nas montanhas (mesmo Davi!) já é a ruptura do projeto de igualdade.

Onde quero chegar?

Quando falo em "Reino Utópico", "Reino de Deus", é precisamente desses êxodos que falo. Precisamos, em nossos dias, viver um processo de libertação que culmine em igualdade e justiça. Essas palavras que possuem um forte poder, se vividas. Contudo, tanto o reino de Deus, pregado e vivido por Jesus Cristo, quanto o projeto tribal do Israel antigo, vivenciado em suas origens, não são impérios que se impõe. Deus não colonizará nossas vidas ou esse mundo.

Parte de cada um de nós, de um desejo igual e de uma luta igual para que esse projeto exista. Inclusive sua permanência e manutenção. Quando ouço falar em avivamentos, transformações e coisas similares, eu lamento muito. Pois muitos julgam que a mágica fará com que nos tornemos pessoas que amam e cuidam um do outro automaticamente. Nada disso! É a luta por liberdade! É a luta contra a hipocrisia! É a luta contra a corrupção, o tráfico, a desigualdade e todos esses males que faz nascer a justiça. A justiça não nasce no coração automaticamente. Ela é fruto de um desejo sincero e de uma decisão por mudança. Ela nasce quando olhamos em volta e percebemos: "alguma coisa está fora do lugar!", "Essa não é a situação desejada por Deus", "Essa não é a situação desejada por mim".

Esperar o advento do Reino de Deus não é algo passivo. O esperar deve ser interpretado como esperança. Esperança que se constrói e não que se aguarda. O Reino de Justiça não é como o império romano que vem destruindo tudo o que julga contrário a si. Muito menos como os Estados Unidos que invadem um país quando "dá na telha". O Reino de Deus aceita convite apenas. A justiça e paz só nos visitam, quando fazemos com que valha a pena sua existência.

Como os escravos do Egito, que fugiram do deus faraó e seus deuses; Como os camponeses da Canaã que se viram solitários e observaram nisso uma oportunidade e não um perigo; Como os pastores do deserto que se sentiram atraídos por essa novidade que propícia a paz. A utopia vivida durante duzentos anos não poderia ser real se aguardassem a vinda de algo sobrenatural. É aqui, em nosso chão, que a liberdade se vive. É aqui, em nosso chão, que a liberdade é construída.

Precisamos fugir! Quem tem coragem?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

κυρίου Ἰησοῦ Χριστοῦ X Caesar Augustus Imperatus

É normal as pessoas interpretarem os discursos atribuídos a Jesus, bem como os ensinamentos de Paulo, como que tratando-se de religião no sentido moderno do termo. Alguns, inclusive, falam da separação de Estado e Religião, o que, nos nossos dias, julgo essencial. Mas esse pensamento moderno não pode direcionar nossa leitura das Escrituras. O mundo antigo vivia outra realidade: Estado e Religião não andavam separadas e nem juntas, estavam intimamente ligadas.

Para o Estado se voltavam os ritos. Não é à toa que Roma era muito mais do que uma cidade, Roma era uma deusa, tendo, inclusive, estátuas erguidas em adoração a ela. O imperador Otaviano nao era apenas o líder do império, mesmo em vida, recebera o título de Theos Sebastos (o Deus Augusto).

Portanto, não se deve ler os escritos bíblicos como se fossem religião à margem do cotidiano. Naquela época o conceito de vida secular e vida religiosa não existia. Existia apenas uma vida. E, nela, se dialogavam o "mundano" e "sacro".

Partindo desse princípio básico, vamos reler alguns versículos:

"Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize! João 14:27"


O mundo deve ser entendido como o domínio Romano. Roma possuía, desde Augusto (29 a.C) o que eles chamavam de pax romana. Que foi um período longo de "paz" conseguido por meio da guerra e da subordinação dos outros povos às armas de Roma. Ser fiel à Roma e ao Divino Augusto, Deus de Deus, Filho de Deus (Filho do deificado Júlio César), permitia ao povo conquistado viver na "pax romana" (paz romana). Uma paz por meio da vitória, por meio da guerra, do domínio.

Cristo, apresentado como o Filho de Deus, aliás como único Filho de Deus (repare bem na expressão "único " presente em João, que deixa claro não haver outro Divi filius nem mesmo Otaviano) deixa sua paz. Não uma paz como Roma dá, uma paz diferente. Uma paz em que o coração não precisa ficar perturbado. Uma paz baseada na liberdade e no amor. Veja como esse texto é altamente subersivo, pois desafia a divindade do César como promotor da paz. Apresentando Cristo como doador da paz, de uma paz que tranquiliza e dá segurança, sem guerra.

"Enviaram-lhe alguns fariseus e herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra.
Aproximaram-se dele e disseram-lhe: Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade. É permitido que se pague o imposto a César ou não? Devemos ou não pagá-lo?
Conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu-lhes Jesus: Por que me quereis armar um laço? Mostrai-me um denário.
Apresentaram-lho. E ele perguntou-lhes: De quem é esta imagem e a inscrição? De César, responderam-lhe.
Jesus então lhes replicou. Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele. Mc 12:13-17"


Muitas pessoas compreendem esse texto como Jesus dizendo: a moeda é de César então dê a César e a Deus dê o coração; Outros ainda, não sei como, interpretam que está dizendo: dê o imposto a César e o dízimo a Deus.

Contudo, Jesus, de forma muito sábia diz o seguinte: dê a César o que é de César (até aí pode-se pensar no tributo, pois tem a imagem dele) e a Deus o que é de Deus. Eis o grande problema! Diante de Deus César é dono de nada! Jesus está se opondo ao pagamento do tributo a César quando diz que a Deus deve ser dado o que é de Deus, ou seja, tudo.

Tudo pertence a Deus. Nada pertence a César. Aquela terra onde os romanos estavam - Judéia - pertencia a Deus e ele deu a Abraão e sua descendência. César não é digno dela. Assim como não pertence a ele o imposto dos judeus, a religião dos judeus e nem os próprios judeus.

Veja como Religião e subversão estão lado a lado. Uma subversão sem violência? Sim, óbvio! Pois se alguém te bater na face (o romano é o agressor) oferece-lhe a outra. Revolução! Mais sem violência. Uma revolução baseada no amor, mas bastante consciente.

"Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. 1 Coríntios 8:5-6"

Um só Deus!
Um Só Senhor!

Devemos nos lembrar que "Cristo" é um título, e não sobrenome. Seu significado é ungido, e traduz para o grego o título Messias, vindo do Hebraico (Hebraico מְשִׁיחֶ = mashiach; Grego Χριστός = Christos). Já "César" é um sobrenome pertencente a Júlio, o Júlio César. Seu filho adotivo, Otaviano, o adotou como que se dizendo filho de Júlio. Mais tarde tornando-se o César Augusto (Augusto = digno de adoração) e seus sucessores começaram a repetir o ato de adotar o nome, para se dizer filiado ou continuação de Otaviano. Assim, o sobrenome passou a ser título, ou sobrenome-título.

Jesus era chamado de "Jesus, o Cristo". Ou seja, "Jesus, o Ungido". Os cristãos, contudo, transformam seu título em sobrenome . Jesus Cristo, em oposição a Júlio César, César Augusto, Tibério César, ou qualquer outro que se sinta no direito de se intitular "César". Então, existe um "Nero Cesar", os cristãos confessam um Jesus Cristo. 

Existe um Kyrios (Senhor) que é outro título do César. Augusto é reconhecido como Deus e Senhor (Theós kai Kyrios). Contudo, Paulo afirma: Só existe um Deus (Theos) - negando a divindade do imperador e os deuses de Roma; Um só Senhor (Kyrios) - negando o senhorio do imperador.

Para Paulo e para os primeiros cristãos está claro o seguinte: a mensagem do evangelho não é uma nova religião. É uma nova sociedade, um novo mundo, uma nova ordem, uma nova civilização. Pautados no amor, na graça e na mensagem de paz do evangelho.

Inclusive, a própria expressão "Evangelho de Jesus Cristo" (Boas novidades) se opõe ao "Evangelho de César".

Enfim, o interessante seria abrir a mente para encontrar nas linhas do evangelho muito mais do que uma mensagem preocupada com a "salvação das almas". A mensagem do evangelho, acima de tudo, preocupa-se com a implantação do Reino de Deus. E demonstra-o como um reino que fez ferrenha oposição aos impérios opressores. O reino de Deus é, aqui, desde já, oposição à política  que coisifica o ser humano e cria ídolos que para nada servem.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Demônio nosso de cada dia nos dai hoje

Heresia? Como eu costumo falar para os meus alunos "primeiro a frase herética, depois a explicação que lhe dá sentido". Conversando com um amigo e uma amiga sobre o demônio, tive um "insight" que agora sou levado a repetir: as pessoas hoje "precisam" tanto do diabo quanto de Deus.

Entendo... A última frase pareceu pior do que o título. Mas permita-me explicar melhor. A história de Israel e Judá é marcada com o grande conflito entre monoteísmo e politeísmo. A bem da verdade é que, na história da fé do Antigo Israel, Javé não se apresentava como o único Deus existente, mas como o único Deus a ser adorado. E mesmo as guerras de Javé se apresentavam como guerras entre Javé e os outros deuses. A célebre frase "Quem é como Javé entre os deuses", denota que Israel adora, sim, a um único Deus. Mas, lado a lado, confessa a existência de outros deuses. É o que chamaríamos de monolatria, e não monoteísmo.

Javé era possível ser entendido como "o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores" (superlativo hebraico). Deus, então, é confessado como um Deus maior, mas não como único Deus. Com o passar do tempo, contudo, os deuses dos outros povos passam a ser denominados de ídolos:

"Porque todos os deuses dos povos são ídolos ('eliyl = אֱלִיל ), mas o SENHOR fez os céus. Salmos 96:5"

'eliyl  = de nada, sem valor.

Embora, para o tempo antigo, o ídolo em si não significa o deus, mas apontava para ele. Israel, com sua fé em um único Deus existente já bem desenvolvida, zomba dos ídolos dizendo que eles são sim os deuses dos outros povos. Ou seja, a fé deles é vã pois está depositada em 'eliyl.

Ao lado desse desenvolvimento da fé na unicidade de Deus, pareceu bastante perigoso, para Israel, a crença em anjos ou semi-deuses. Pois, para eles, em algum momento, esses "seres espirituais" poderiam, de alguma forma, concorrer com Javé. De forma que o povo poderia passar a adorá-los.

Contudo, depois da época persa (possivelmente de onde vem o salmo citado), os "Filhos de Deus" parecem já existir. Como filhos, são subordinados a Deus e jamais podem tornar-se superiores ou adversário dele. Por isso mesmo, o texto de Jó, um pouco antes dessa época, trata o assunto falando de um "Obstáculo" (Satanás) que vive na corte de Deus entre os seus filhos. Esse "Adversário" é, contudo, apenas, adversário do homem (particularmente de Jó). Jamais se tornando um oponente de Deus.

No período helênico, falando ai da apocalíptica bem desenvolvida, os anjos e demônios começam a aparecer. Na mensagem do Livro de Enoque é possível vê-los gerando filhos e ensinando esses mesmos filhos a guerra e as armas. Pervertendo o ser humano. Convertendo-se assim em inimigos de Deus. Porém, são inimigos de Deus, no livro, porque fazem guerra aos homens. Deus, nesse momento, sai em defesa da humanidade subjugada. Mesmo no livro de Daniel, vindo do mesmo período, é possível encontrar Miguel e Gabriel como anjos. Um que interpreta e dá mensagens ao profeta e o outro como guerreiro que batalha em favor dos santos.

No ambiente do Novo Testamento, Satanás atua no mundo entre os seus anjos. Contudo, essa mensagem, está recheada de simbologia, posto que os demônios são, claramente, identificados com a cultura, religião e domínio do império romano. Como exemplo claro está Satanás, no deserto, falando com Jesus, que todos os povos da terra foram entregues a ele (a Deusa Roma é quem domina sobre todos os povos, e  o deus sebastos - César Augusto -  é o senhor do mundo); O demônio gadareno é chamado de Legião (alusão às legiões do exército romano); E a besta do Apocalipse que subjuga o mundo (César) recebe seu poder do Dragão (Satanás a antiga serpente).

Vale, entretanto, a mensagem de que esse "inimigo" sempre está subjugado por Deus. Sempre está abaixo de Deus e abaixo dos "santos". Nunca consegue, de verdade, se tornar alguém realmente que oferece um perigo definitivo. Os poderes do mal são sempre vencidos pelos poderes do bem. A vida é superior à morte. O amor superior ao ódio. Essa é uma das mensagens do Novo Testamento.

Entretanto, o que vemos hoje é uma demonização da fé cristã. Onde os demônios e o próprio Satan tornam-se, de fato, um inimigo que "bate de frente" com Deus e com os santos. Ele, de anjo, ou servo de Javé, tornou-se um deus do mal. Até o "Inferno", lugar destinado ao "diabo e seus anjos", tornou-se morada dele. Não mais o lugar de sua tormenta, mas o seu país, o local onde governa e onde atormenta as almas dos condenados (ridículo!). Existem "legalidades", onde Deus se torna impotente frente ao diabo pois esse "vence nos argumentos da lei". Trazem o pensamento jurídico para dentro da Torah de Deus (orientação e não lei seria a tradução correta).

Orações que expulsam demônios que governam cidades e países são realizadas ao som de "amém e alelulais" mas que não trazem efeito ou resultado nenhum, na prática. As cidades continuam violentas, a injustiça continua a crescer, o mal ainda domina.

Contudo, tentemos retirar os demônios. Tentemos transformá-los em mitos, lendas. Sabe o que acontecerá? O mal passa a ser responsabilidade nossa. A injustiça passa a ter que ser combatida na prática, no corpo, no sangue! Nossos inimigos se transformam em nós mesmos. O diabo é, portanto, hoje, alguém em quem lançamos nossas culpas e nossos erros. É a forma que encontramos de desculpar nossa incapacidade e falta de compromisso com as realidades opressoras do sistema que, "demonicamente", sustentamos.

Se os demônios existem ou se não existem? Não é essa a questão. A questão é que, enquanto a religião continuar nos dando o "demônio nosso de cada dia", teremos desculpas para continuarmos sendo falsos cristãos, falsos religiosos, falsos humanos. Enfim, falsos, que colocam a culpa de sua falta de fidelidade à humanidade, à criação e a Deus, em um "pobre demônio".