sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pois ainda há luto...

De certa forma a dor de ter perdido uma pessoa tão querida e de forma tão traumática, influenciou as duas últimas postagens. E ainda há, em mim, razão e dor suficientes para refletir mais uma vez e, agora, diretamente sobre o tema.

A bíblia relata diversos lutos: Lembra da dor que Israel sofreu com a morte de Moisés; A dor de Davi ao perder o amigo Jônatas e sua dor "contraditória" ao perder o primeiro filho que teve com Bate-Seba; Há também, em linguagem profética e figurativa, o luto de "Raquel" que chora a dor pela morte dos seus filhos e que rejeita qualquer consolo, dor e luto esses que são aproveitados por Mateus para falar do choro que ocorreu pela matança dos inocentes;  Ezequiel que, para simbolizar a o que aconteceria com Judá, é proibido de chorar à morte de sua esposa, e vive seu luto sofrido, mas calado; Como não citar a viúva de Naim, que já seguia no cortejo pela morte do filho e que foi consolada com a ressurreição do menino?; Podemos, claro, lembrar, também, de Lázaro, que demonstra a dor de Jesus, pela morte do amigo. Esses são, apenas, alguns exemplos.

Enfim, a bíblia não oculta, pelo contrário, confirma a dor que a morte causa. E, da mesma forma, aponta para o quanto a sua presença é perturbadora. Israel demorou muito para desenvolver uma crença na ressurreição no dia do juízo. Portanto, durante muito tempo, a religião do Antigo Israel teve que encarar o fato de que a bênção de Deus repousava sobre a longevidade, pois, como eles criam, não havia vida após a morte e nem mesmo ressurreição escatológica. É por isso que, frequentemente, nos textos do primeiro testamento, encontramos fórmulas de longevidade (e viu seus filhos e os filhos dos seus filhos até a  - número -  geração).

Contudo, as pessoas morrem cedo. Nem todos desfrutam do prazer de uma longa vida. E a salvação de Javé, no tempo antigo, repousava sobre uma vida longa e boa. A contradição da vida, a existência de muitas pessoas que, fiéis a Javé, sofreram dores sem fim e o fato de muitos morrerem ainda jovens, levaram os sábios e profetas a questionar essa bênção que se acreditava.

Nasce assim, em um momento tardio, o pensamento apocalíptico, que aponta para uma vida futura. Como um protesto à morte. Ou, em uma expressão melhor, em uma não-morte para aqueles que se mantém fiéis até ao fim, mesmo diante de grandes tribulações. O maior testemunho disso, no primeiro testamento, se encontra no livro de Daniel.

No ambiente do Segundo Testamento, já em um momento onde o pensamento apocalíptico está muito bem desenvolvido e, inclusive, influencia muitas formas de viver a religião judaica antiga, a crença na salvação de Javé repousa tanto na vida atual, quanto na próxima vida. A "vida eterna", não é algo que se espera para o além mundo. Mas algo que se vive hoje e se concretiza para além da história. Mas a mesma história confirma essa salvação. Seu gozo inicia hoje e é plenificado na consumação de todas as coisas.

É por isso que, em Jesus, já em um ambiente de crença cristã, a salvação é oferecida aos pobres, humildes, oprimidos, discriminados e clamadores pela paz. Estes não esperam um consolo para além da vida, mas uma mensagem que, já hoje, transforme seu mundo e acabe com as situações que lhes deixam em uma subvida. É por isso que, falando de uma vida terrena, Cristo é o que vem dar vida em abundância.

Existem, então, dois aspectos da salvação: aqui e lá; já e ainda não; imanente e transcendente.

É por isso que frases como "fulano morreu sem salvação" reduz bastante a mensagem salvífica de Cristo, que: cura o leproso; faz o cego enxergar; transforma o ladrão e corrupto em um seguidor fiel que partilha seus bens; ressuscita os mortos para eliminar o luto.

Tudo isso apenas quer simbolizar que a salvação não é algo futuro apenas. É escatológica? Sim! Claro! O cristianismo é essencialmente apocalíptico e escatológico. Mas uma escatologia que testemunha, desde já, que Cristo é a Ressurreição (o evento final) e a Vida (o que ansiamos ter) quem crê nele, ainda que morra, viverá. A crença ou melhor, a salvação da morte ultrapassa a espera dela. Quem crê em Cristo pode morrer, mas não é o que ele espera, mas, ainda que morra, viverá.

Essa morte não deve ser interpretada como simplesmente morte física. Mas morte espiritual, emocional, social, enfim, todo tipo de situações ou status que "matam a vida abundante". A vida plena.

E o que o luto tem a ver com isso?

Ocorre que, como no tempo antigo, ainda precisamos de uma mensagem que nos salve nessa vida. Que os deprimidos e sofredores da síndrome do pânico digam isso. Óbvio que o tratamento clínico é hoje quem promete salvar (e salva) essas pessoas. Eu jamais motivaria uma simples conversa ou mensagem bíblica para eliminar esses males. Contudo, julgo que as mensagens de salvação limitadas a uma pós-morte (que se diga é de herança pagã) podem dar mais motivos para a dor dessas pessoas. Não que um deprimido precise de motivo para sofrer. Mas me refiro a necessidade de que se tenha uma mensagem (falando de religião) que abarque toda a vida das pessoas.

Um deprimido, mesmo sendo (erradamente) instruído desde criança que quem se mata vai para o inferno (Deus nos livre dessas pessoas que amam condenar os outros ao inferno), não considera isso e comete suicídio. "De que adianta esperar uma salvação (morar no céu) se, em vida, Deus já me abandonou?”

O deprimido senti-se abandonado por Deus em vida. Ele é apenas mais um! De que nos serve um Deus dos mortos? De que adianta um Deus que se preocupa somente em como estarei quando morrer?

Não é assim o Deus de Jesus. Esse se envolve na vida que se vive. Ele está em constante luta por amor de sua criação, que inclui a nós, seus filhos. Esse Javé, Pai de toda família humana, onde, segundo Tiago, não há variação nem sombra de mudança, é aquele que para o seu povo, na história, promete: terra, justiça e paz.

Aí está a falha da igreja do nosso Brasil... Uma igreja que se preocupa com mortos e, acaba, com isso, gerando "morto-vivos". Pois melhor "morrer" e ser alcançado por esse Deus, do que viver feliz e ser por ele desprezado. Uma mensagem que nos salve já! Que nos cure já! Que perceba a nossa dor, nossa fragilidade, nossa necessidade de paz, alegria e consolo! É disso que os corações deprimidos esperam de sua religião. Orações? Podem ajudar, mas o que realmente se espera, como diz Tiago, não é orar e despedir o irmão necessitado sem sua necessidade saciada. O que o que realmente ajuda é uma comunidade amorosa, terapêutica e redentora. Em outras palavras, o que ajuda é o próprio Cristo, ressuscitado, vivendo dentro da sua Igreja (dentro das pessoas e não do templo) movendo e guiando na missão da implantação de um reino de vida e não-morte, em todos os aspectos. Por isso mesmo a palavra "morrer" é retirada da fé cristã e, em seu lugar, surge a linda expressão "dormir". Pois quem dorme, acorda e, por isso, não está morto, pois Deus é um Deus de vivos e sua mensagem é para vivos que, mesmo mortos, são por ele alcançados.


Uma mensagem, minha querida irmãzinha, que, enquanto acordada te alcançou, mas os males do nosso tempo insistiram em te fazer dormir, tentando nos fazer pensar que ela não foi suficiente. Graças a Deus, contudo, que, mesmo dormindo, essa mensagem ainda chega a você, como um lindo sonho que um dia há de te acordar...

 “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?
Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.
Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.”

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