quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Messias Nasceu (Como?)!

Quando estamos no natal, primeira coisa que pensamos, religiosamente falando, é o "nascimento do menino Jesus". Eu, particularmente, gosto muito de presépios. Eles demonstram claramente nossa idéia religiosa do nascimento do filho de Deus. Contudo, nada mais confuso do que o próprio presépio. Para ilustrar o que pretendo dizer, vou colocar, abaixo, uma imagem de um:



Na imagem acima algumas coisas nos saltam aos olhos:

Um estábulo;
O menino Jesus na manjedoura;
Os pastores;
Os reis magos;
Maria e José.

É difícil, a primeira vista, mas nada mais conflitante do que essa cena! Nela repousa uma mistura dos dois relatos do nascimento do Messias: Mt e Lc. Comumente, costumamos misturar as duas narrativas, mas elas possuem grandes diferenças. Vejamos:

Onde Jesus Nasceu?

As duas histórias respondem da mesma forma, a essa pergunta: Em Belém! Contudo, existem algumas particularidades em como respondem.

Mateus: A família sagrada morava em Belém e, após o retorno do Egito, vão morar em Nazaré (Mt 1:18-25 e 2:1);

Lucas: José e Maria moram em Nazaré. José a leva, grávida, de Nazaré à Belém (que viagem longa!!), por causa de um senso que o César Augusto, havia realizado. (Lc2:1-7). Lá ela dá a luz ao menino Jesus.

Para Mateus, Jesus nasce em Belém, pois seus pais moram em Belém e, se quer cita algum senso. Para Lucas, Jesus nasce em Belém por causa de um senso. Seus pais, originalmente, são de Nazaré. O que sabemos é que Jesus é da Galiléia, da aldeia de Nazaré. Para Lucas ele é de lá pois seus pais, antes dele nascer, já moram lá. Para Mateus, ele se muda para lá, quando retorna do Egito.

Isso levanta uma pergunta a mais sobre o presépio:

Se, para Mateus, a família de Jesus mora em Belém, por que então ele nasce numa manjedoura, não seria mais fácil nascer em uma casa?

Eis aí, mais um conflito! Para Lucas, Jesus nasce e é colocado em uma manjedoura, conforme o presépio informa. Para Mateus, contudo, Jesus, como toda criança da época, nasce em casa. Ele diz que os magos entram em uma casa:

"E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."

Eis o primeiro problema com o presépio: Coloca os magos próximo à manjedoura. Sem contar que , além de dizer que são três (o texto diz: "eis que UNS magos vieram do oriente a Jerusalém"), dá nome aos mesmos e ainda transforma em reis-magos. Pega um elemento da narrativa de Mateus (magos) e coloca dentro da narração de Lucas (estábulo). Pois Lucas, se quer, cita a existência desses magos.

Os personagens que Lucas cita são os pastores:

"Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo:

Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura.

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.

E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pastores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber. E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado na manjedoura. Lc 2:8-16”.

Esses pastores, não existem na história de Mateus. Eis o que o presépio faz: une personagens próprios de cada narrativa. Em Mateus, lá estão os magos, entrando na casa, trazendo ouro, incenso e mirra. Em Lucas, lá vem os pastores, entram e encontram o menino numa manjedoura.

Lucas ainda faz uma outra menção que Mateus não cita: os anjos! Para Lucas o nascimento de Jesus é celebrado pelos anjos que cantam:

"Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens."

Esses anjos não existem para IiiMateus. Da mesma forma, Mateus conta uma matança de crianças, motivo que levou José, avisado EM SONHO, por um anjo, a fugir para o Egito. Lucas, contudo, não conta essa história e, se quer, narra uma ida ao Egito.

Vamos montar um quadro comparativo:

Evangelho
Onde Maria e José Moram
Local de Nascimento
Anjos Cantando
Pastores
Magos
Fuga para o Egito
Vive em Nazaré
Mateus
Belém
Belém
(em casa)
Não existem
Não existem
Existem
Existe
Sim, se muda pra lá
Lucas
Nazaré
Belém (numa estrebaria)
Existem
Existem
Não Existem
Não Existe
Sim, seus pais já moravam lá


Por esse quadro, vemos que os evangelistas discordam, mais do que concordam.  A concordância mais importante é onde Jesus nasceu e onde foi criado. Respectivamente Belém e Nazaré.

Poderíamos, contudo, continuar nossa análise e repararemos que existem outros pontos chaves:

Mateus
  • O nascimento virginal é cumprimento de uma profecia de Isaías (que no post "Quando a Jovem vira Virgem..." já analisamos ser uma interpretação "equivocada");
  • José pensa em repudiar Maria, pois, aparentemente, não acredita que esteja engravidada de Deus.

Lucas
  • O nascimento virginal acontece por vontade divina, como obra do Espírito Santo. Não faz alusão a cumprimento de profecia. É um ato milagroso que o anjo compara com o nascimento de João.
  • José se quer é citado como alguém que duvidou ou pensou em repudiar Maria. Aliás, ele é quase um figurante na história.
Qual a intenção de comparar os dois relatos do nascimento?

Primeiro nos divertir um pouco e rirmos de nós mesmos e do nosso presépio. Ele, fazendo um mistura doida, tomando emprestados elementos de duas narrativas diferentes, criou um outro relato da história no nascimento de Jesus;

O segundo é, lembrando que Lucas conhece o material de Mateus, entender que o autor lucano cria um outro relato. E, com isso, começarmos a reparar que, se existem relatos históricos em cada uma das narrativas, fica muito difícil descobrir qual. No que se assemelham - nascimento virginal, nascimento em Belém e moradia em Nazaré - , ainda assim, não foge o caráter figurativo.

É preciso entender qual a intenção de cada um dos evangelistas ao narrarem as histórias do nascimento. Não estão preocupados em dar uma aula de história, mas em entregar aos seus destinatários uma mensagem divina.

Cada um desses relatos tem um sentido e uma mensagem, essas serão tratadas em outra postagem. Onde começaremos, em ordem cronológica dos livros, pelo Evangelho segundo Mateus.

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