quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Mesmos longe, somos filhos

A parábola do pai amoroso, conhecida como parábola do filho pródigo, nos fala do amor do pai. Seu foco é a percepção do pai diante do erro dos dois filhos.

O caçula, por querer sair e não pensar em voltar, pede sua herança ao pai. Fácil deduzir isso pelo fato de pedir a herança, que só teria direito após a morte do pai. Indo para longe, para uma terra longe que a parábola faz questão de deixar claro não ser sua pátria, chamando seus habitantes de "homens daquela terra". Não tendo interesse em voltar, perderia o que é seu de direito. Então, nada mais justo, do que já receber aquilo que é seu por direito.

O mais velho por irritar-se do pai, que nunca lhe presenteou com um dos animais para festejar com os amigos,  mata o bezerro cevado para o filho que, segundo ele, gastou todo o seu dinheiro com meretrizes.

Eis a injustiça do pai: acolhe aquele que lhe virou as costas e nunca demonstrou reconhecimento ao filho que o servia sem nunca desobedecê-lo. Injusto? Sim, parece ser injusto. Ao que parece, o pai amava mais ao caçula do que seu primogênito - que por ser primogênito tinha direitos maiores. Mas vamos ver isso de mais perto?

O filho caçula

Sempre que se fala do filho caçula a reflexão se pauta naqueles que pecam ou se distanciam (terra distante) de Deus. Mas será que o filho "rebelde" não somos todos nós? Acho que o filho mais novo é a nossa sinceridade em ação. Ele demonstra a verdadeira vontade que todos nós temos: livres de Deus das obrigações que Deus nos dá, sem, contudo, perdermos nossa herança que nos liga a ele.

Muitas pessoas servem a Deus ou se ligam a alguma igreja ou religião esperando ganhar algo: cura, libertação, consolo e, óbvio, salvação, livramento do inferno. O filho gostava de tudo isso que o pai ofertava, ao que a parábola chama de "herança". Mas ele propõe o que nenhum de nós tem coragem: eu vou me afastar da comunhão, da vida da igreja, dos ritos, dos cultos e de toda a obrigação que tu (Deus) requeres de mim, e o senhor garantirás minha salvação.

O incrível, para muitas mentes que entendem Deus como um negociante ou barganhador, é que o pai aceita a condição do filho. O pai tinha todo o direito de dizer: quando eu morrer, receberás a herança, se estiver por perto e saber que morri. Mas não, o pai, com seu gesto, diz: és meu filho, o que é meu, é teu. Se o queres: leve.

Sim! E por que não? Estar na igreja não garante felicidade, fim da depressão, fim das dores, do medo da vida, do medo da morte e nada. Estar na igreja, estar em comunhão com algo não garante que estamos participando do reino de Deus. Então, podemos sair, podemos ir a qualquer lugar e manter nossa herança.

A herança está ligada à pessoa e não à casa.

Contudo, longe do pai, a herança não faz sentido. E nesse ponto, não estou falando de longe da igreja ou longe dos ritos. Digo longe do pai mesmo. O pai, Deus, nos ama. Seu consolo, seu conforto, sua aceitação, sua misericórdia e graça não estão limitados às quatro paredes de um templo ou mesquita. O filho pode ir para qualquer lugar que decidir, a herança, por ser filho, estará com ele.

O problema é o desejo de estar longe do pai. O filho não conhece ao pai. Entendia o pai como fonte de lucro. Como um testador, que, infelizmente, tinha que aguardar morrer. Não compreendia que não era a herança que o pai ofertava, era o amor. Estar na casa do pai (e volto a dizer que não me refiro aos templos) é estar sob a guarda do amor de Deus. Que, infelizmente, muitas vezes, não consegue nos privar das dores, mas, consegue nos ajudar a vencer ou lidar com nossas limitações.

Mas, enquanto Deus for um testador, alguém que tem um testamento e que devemos aguardar para receber a herança que nos é dada por direito, estaremos sempre com vontade de estar em outro lugar.

E o filho, que é mais corajoso, e mais sincero do que nós, vai para longe. Como falei, o problema não era estar longe, a herança estava com ele, mesmo distante. O problema foi gastar a herança. Abrir mão daquilo que o pai o deu gratuitamente. Pois herança é algo que se tem, sem que tenhamos trabalhado para ter. E o que Deus oferta a seus filhos é: perdão, amor, misericórdia, graça, aceitação, rendenção, comunhão. Segundo Tiago:

"Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1:17"

Tudo aquilo que de bom existe em nós, é herança de Deus. É a comprovação de que somos seus filhos. É o que nos liga a ele. Mas, por vezes, somos tentados a gastar isso tudo. Gastar não no sentido de compartilhar, que é o objetivo de todas essas dádivas. Porém, "gastar", no sentido de "eliminar", "destruir", "dizimar".

Mas, estando vazio, o filho reconhece: se o pai me aceitar como servo, me bastará. É como aquela mulher que chega para Jesus e diz:

"Ela, porém, respondeu, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos. Marcos 7:28"

Mas até ai, ele ainda não conhece ao pai. O pai é o testador e já lhe deu toda a herança. Agora, o melhor, é viver de migalha. E não ousar pedir nada mais do que isso. Algumas pessoas que são corajosas para fazer aquilo que sente que Deus reprova, sentem-se tão mal, que não conseguem orar. Quantos deprimidos temos em nossas comunidades. Esses, muitas vezes, devido sua situação e tudo aquilo que lhes fora ensinado, por conta de toda a educação religiosa que receberam, não compreendem um Deus que não seja mero testador. E, pensam, que devido a seus erros, sofrem. Sabem que Deus lhes acolherá, mas, por ser testador, e eles terem gastos toda a herança, Deus os castiga, para que possam, quem sabe, em algum momento, comer na mesa, como filhos.

O Filho mais velho

Esse também não conhece ao pai. O pai é exigente. Nada que ele faz é suficiente. Nunca lhe permitiu festejar. E quando existe festa, nem manda chamá-lo. Ele tem que ficar sabendo por um servo que há uma festa e o motivo dela. O filho mais velho não consegue entender como o pai pode festejar alguém que só trouxe prejuízo.

A lógica do consumo e do capitalismo dita, hoje em dia, nossa forma de conduta em nossa comunidade. Hoje pergunta-se: quantas almas já ganhou-se a cristo? Quanto escândalo tal pessoa não gerou? Quantos prejuízos ao nome de Deus não foi cometido por essa pessoa? Eu estou aqui! Eu venci a tentação de pedir minha herança. Venci a tentação de pedir, mesmo,um bezerro. E o pai nunca me ofertou nada.

Resisto ao desejo de expor meus sofrimentos, para que não tenham pena de mim. E Deus acolhe pessoas que vivem dando uma de coitadinhos. Refreio meu desejo desenfreado de beber, ir a festas e Deus acolhe uma pessoa que não honra seu nome.

O Pai

Todos sabiam que eram filhos. Um, ao ponto de achar que deveria ter sua herança já. Outro por saber que tudo aquilo um dia seria seu, então, desde já, deveria cuidar e trabalhar para sustentar aquela vida.

Mas nenhum conhecia o pai. O pai se quer ouviu o que o filho mais novo tinha a dizer. Ele preparou uma oração linda de arrependimento e confissão. E o pai nem o deixou falar. Devolveu o status de herdeiro e festejou o reencontro com o filho. Naquele momento, o filho entendeu que a herança verdadeira ele já podia viver. Que as dádivas do pai não são para um tempo futuro, quando ele morrer. Mas para agora. Naquele momento filho viu que o pai não era um testador, era um doador. Alguém que se entrega loucamente ao filho. Desprezando qualquer status de "eu te avisei", "agora vem me pedir ajuda", "o que fez com tudo que lhe dei?". O sofrimento do filho, era seu sofrimento. Ele sabia que o retorno do filho representava sua falência. E falência do filho era a falência do pai. E como um pai que não avalia esforços para entregar-se por inteiro, simplesmente, entendeu, que o filho se encontrou.

Estar com Deus em comunhão com aqueles que estão com Deus, é, desde já, desfrutar das possibilidades de uma vida que igreja, mesquita, templos ou qualquer outra religião institucional, não pode ofertar. O encontro com o amor do pai é um encontro libertador. Que nos coloca na posição de filhos e não de servos ou cachorrinhos. Que faz nos herdeiros em vida. Herdeiros não da riqueza inventada pela humanidade. Mas pela riqueza de tudo aquilo que o amor, que é o próprio Deus, pode ofertar.

E o filho mais velho, também teve seu encontro com o pai. Em um breve discurso, o pai fez entendê-lo que ele se diminuia. Mostrou a ele que, assim como seu irmão, ele tinha desejos de recompensa e reconhecimento, mas que, na realidade, ele que não se sentia reconhecido. Procurando aprovação do pai, quando, na realidade, simplesmente, por ser filho, já havia adquirido a aprovação gratuita do amor do pai.

E, acima de qualquer reconhecimento pessoal, era urgente que se festejasse o reencontro com o irmão. Que, por entender-se filho, estava, naquele momento, desfrutando do amor que nunca havia compreendido ser, de fato, herdeiro.

Nós somos os filhos afastados e nós somos os filhos-servidores. Mas Deus, apenas, nos chama, e deseja que sejamos, filhos.

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