quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Messias Nasceu (Como?)!

Quando estamos no natal, primeira coisa que pensamos, religiosamente falando, é o "nascimento do menino Jesus". Eu, particularmente, gosto muito de presépios. Eles demonstram claramente nossa idéia religiosa do nascimento do filho de Deus. Contudo, nada mais confuso do que o próprio presépio. Para ilustrar o que pretendo dizer, vou colocar, abaixo, uma imagem de um:



Na imagem acima algumas coisas nos saltam aos olhos:

Um estábulo;
O menino Jesus na manjedoura;
Os pastores;
Os reis magos;
Maria e José.

É difícil, a primeira vista, mas nada mais conflitante do que essa cena! Nela repousa uma mistura dos dois relatos do nascimento do Messias: Mt e Lc. Comumente, costumamos misturar as duas narrativas, mas elas possuem grandes diferenças. Vejamos:

Onde Jesus Nasceu?

As duas histórias respondem da mesma forma, a essa pergunta: Em Belém! Contudo, existem algumas particularidades em como respondem.

Mateus: A família sagrada morava em Belém e, após o retorno do Egito, vão morar em Nazaré (Mt 1:18-25 e 2:1);

Lucas: José e Maria moram em Nazaré. José a leva, grávida, de Nazaré à Belém (que viagem longa!!), por causa de um senso que o César Augusto, havia realizado. (Lc2:1-7). Lá ela dá a luz ao menino Jesus.

Para Mateus, Jesus nasce em Belém, pois seus pais moram em Belém e, se quer cita algum senso. Para Lucas, Jesus nasce em Belém por causa de um senso. Seus pais, originalmente, são de Nazaré. O que sabemos é que Jesus é da Galiléia, da aldeia de Nazaré. Para Lucas ele é de lá pois seus pais, antes dele nascer, já moram lá. Para Mateus, ele se muda para lá, quando retorna do Egito.

Isso levanta uma pergunta a mais sobre o presépio:

Se, para Mateus, a família de Jesus mora em Belém, por que então ele nasce numa manjedoura, não seria mais fácil nascer em uma casa?

Eis aí, mais um conflito! Para Lucas, Jesus nasce e é colocado em uma manjedoura, conforme o presépio informa. Para Mateus, contudo, Jesus, como toda criança da época, nasce em casa. Ele diz que os magos entram em uma casa:

"E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."

Eis o primeiro problema com o presépio: Coloca os magos próximo à manjedoura. Sem contar que , além de dizer que são três (o texto diz: "eis que UNS magos vieram do oriente a Jerusalém"), dá nome aos mesmos e ainda transforma em reis-magos. Pega um elemento da narrativa de Mateus (magos) e coloca dentro da narração de Lucas (estábulo). Pois Lucas, se quer, cita a existência desses magos.

Os personagens que Lucas cita são os pastores:

"Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo:

Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura.

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.

E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pastores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber. E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado na manjedoura. Lc 2:8-16”.

Esses pastores, não existem na história de Mateus. Eis o que o presépio faz: une personagens próprios de cada narrativa. Em Mateus, lá estão os magos, entrando na casa, trazendo ouro, incenso e mirra. Em Lucas, lá vem os pastores, entram e encontram o menino numa manjedoura.

Lucas ainda faz uma outra menção que Mateus não cita: os anjos! Para Lucas o nascimento de Jesus é celebrado pelos anjos que cantam:

"Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens."

Esses anjos não existem para IiiMateus. Da mesma forma, Mateus conta uma matança de crianças, motivo que levou José, avisado EM SONHO, por um anjo, a fugir para o Egito. Lucas, contudo, não conta essa história e, se quer, narra uma ida ao Egito.

Vamos montar um quadro comparativo:

Evangelho
Onde Maria e José Moram
Local de Nascimento
Anjos Cantando
Pastores
Magos
Fuga para o Egito
Vive em Nazaré
Mateus
Belém
Belém
(em casa)
Não existem
Não existem
Existem
Existe
Sim, se muda pra lá
Lucas
Nazaré
Belém (numa estrebaria)
Existem
Existem
Não Existem
Não Existe
Sim, seus pais já moravam lá


Por esse quadro, vemos que os evangelistas discordam, mais do que concordam.  A concordância mais importante é onde Jesus nasceu e onde foi criado. Respectivamente Belém e Nazaré.

Poderíamos, contudo, continuar nossa análise e repararemos que existem outros pontos chaves:

Mateus
  • O nascimento virginal é cumprimento de uma profecia de Isaías (que no post "Quando a Jovem vira Virgem..." já analisamos ser uma interpretação "equivocada");
  • José pensa em repudiar Maria, pois, aparentemente, não acredita que esteja engravidada de Deus.

Lucas
  • O nascimento virginal acontece por vontade divina, como obra do Espírito Santo. Não faz alusão a cumprimento de profecia. É um ato milagroso que o anjo compara com o nascimento de João.
  • José se quer é citado como alguém que duvidou ou pensou em repudiar Maria. Aliás, ele é quase um figurante na história.
Qual a intenção de comparar os dois relatos do nascimento?

Primeiro nos divertir um pouco e rirmos de nós mesmos e do nosso presépio. Ele, fazendo um mistura doida, tomando emprestados elementos de duas narrativas diferentes, criou um outro relato da história no nascimento de Jesus;

O segundo é, lembrando que Lucas conhece o material de Mateus, entender que o autor lucano cria um outro relato. E, com isso, começarmos a reparar que, se existem relatos históricos em cada uma das narrativas, fica muito difícil descobrir qual. No que se assemelham - nascimento virginal, nascimento em Belém e moradia em Nazaré - , ainda assim, não foge o caráter figurativo.

É preciso entender qual a intenção de cada um dos evangelistas ao narrarem as histórias do nascimento. Não estão preocupados em dar uma aula de história, mas em entregar aos seus destinatários uma mensagem divina.

Cada um desses relatos tem um sentido e uma mensagem, essas serão tratadas em outra postagem. Onde começaremos, em ordem cronológica dos livros, pelo Evangelho segundo Mateus.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quando a Jovem vira Virgem...

Um texto muito conhecido pelo cristianismo é o chamado "anúncio do Emanuel". Um texto do proto-isaías que narra o nascimento de uma criança que deveria ter o nome de Imanu el, quer quer dizer "Deus conosco". Mateus, tomou esse texto e o aplicou a Jesus (e não a Maria):

"Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo.
Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente.
E, projetando ele isto, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo;
E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.
Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz;
Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco. (Mt 1:18-23)"


Contudo, ao analisarmos de forma mais atenta a profecia de Isaías, veremos que seria impossível que ele estivesse falando do nascimento do messias e, muito menos, de um nascimento virginal.

Olhemos, então, o texto de Isaías capítulo 7:

Logo o primeiro versículo diz:

"No tempo de Acaz, filho de Joatão, filho de Ozias, rei de Judá, Rasin, rei de Arão, foi com Pecá, filho de Romelia, rei de Israel, contra Jerusalém para lhe dar combate; mas não pôde apoderar-se dela. ."

Primeira coisa que está clara é o momento em que se situa o episódio. Rasin, rei da Síria e Pecá, rei de Israel (reino do norte) estão se ajuntando para ir contra Jerusalém. O resultado dessa aliança contra o reino de Judá (reino do Sul) Isaías afirma ser o medo. Medo por parte de Acaz e medo por parte do povo:

"Quando se soube, na casa de Davi, que {o exército da} Síria estava acampado em Efraim, o coração do rei e o de seu povo ficaram perturbados como as árvores das florestas agitadas pelos ventos."

Acaz e o povo temem esse levante. Não conseguem esperar salvação e vitória nessa batalha que se inicia. Isaías é enviado por Javé a Acaz para confortá-lo e reanimá-lo:

"E dize-lhe: Tem ânimo, não temas, não vacile o teu coração diante desses dois pedaços de tições fumegantes. {Diante do furor de Rasin, da Síria, e do filho de Romelia}.
Vamos contra Judá, nós o bateremos, e nos apoderaremos dele, e proclamaremos rei o filho de Tabeel.
Eis o que disse o Senhor Javé: Isso não acontecerá, essas coisas não se realizarão,
porque a capital da Síria é Damasco, e a cabeça de Damasco é Rasin. {Dentro de sessenta e cinco anos Efraim desaparecerá do rol dos povos.}
E a capital de Efraim é Samaria, e a cabeça de Samaria é o filho de Romelia. Se não o crerdes, não subsistireis. "


E agora aparece o nosso texto. Isaías diz para Acaz pedir um sinal de Deus de que a salvação viria:

"O Senhor disse ainda a Acaz:
Pede ao Senhor teu Deus um sinal, seja do fundo da habitação dos mortos, seja lá do alto.
Acaz respondeu: De maneira alguma! Não quero pôr o Senhor à prova.
Isaías respondeu: Ouvi, casa de Davi: Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus?
Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco.
Ele será nutrido com manteiga e mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem.
Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, cujos dois reis tu temes, será devastada.
O Senhor fará vir sobre ti, sobre teu povo e sobre a casa de teu pai, dias tais como não houve desde que Efraim se separou de Judá {o rei dos assírios}. "


O texto é claro! O sinal que Acaz deve ver é de que a "virgem" daria á luz e antes do filho dela conseguir discernir entre o bem e o mal (ou seja já terá nascido) as duas terras que se levantam contra Judá estará devastada.

A profecia de Isaías está focada com o tempo em que o profeta está vivo. Ele nao tenta consolar o rei com uma promessa séculos após o episódio da guerra siro-efraimita. É preciso levantar o ânimo de Acaz, é preciso renovar sua confiança de que a linhagem de Davi não perecerá (a virgem dará a luz a um descendente de Davi).

Nosso grande problema se encontra exatamente na expressão: virgem!

Vamos dar uma olhada no texto original:

לָכֵן יִתֵּן אֲדֹנָי הוּא לָכֶם אֹות הִנֵּה הָעַלְמָה הָרָה וְיֹלֶדֶת בֵּן וְקָרָאת שְׁמֹו עִמָּנוּ אֵֽל׃

 Isaías usa o termo עַלְמָה('alma) cuja tradução literal seria "jovem mulher" e não virgem, que é   בְּתוּלָה (bethulah). Temos então um grave problema de tradução. Como a "jovem mulher" (que poderia ser casada) transformou-se na "virgem"? De onde surgiu isso?

No período do império grego, a diáspora (judeus que moram fora de Canaã) acabou gerando judeus que não falavam mais o hebraico. Com isso, nas sinagogas dificultava bastante a leitura dos textos da bíblia hebraica. Portanto, buscando resolver esse problema, foi feita uma tradução da bíblia hebraica para o idioma grego. Essa versão foi inicialmente chamada de Septuaginta, hoje, simplesmente LXX (setenta). Isso em alusão a uma lenda que dizia que 70 anciãos fizeram essa tradução.

Na versão grega do texto bíblico de Isaías criou-se um problema. A palavra עַלְמָה('alma) foi traduzida por παρθένος (parthénos) que quer dizer "virgem".  A bíblia dos autores do Novo Testamento, já é de comum acordo, tratava-se da LXX e não da bíblia hebraica. A frase "o justo viverá da sua fé", é outra comprovação disso, já que, na bíblia hebraica, a expressão correta é "o justo viverá por sua fidelidade".

Esses erros de tradução fizeram com que Mateus  aplicar ao tema do nascimento virginal, o texto de Isaías, que, na realidade disse:

Eis que a jovem está grávida e dará a luz a um menino.

Esse menino, essa criança que, simbolicamente, recebe o nome de Emanuel, é o sinal de Deus de que a dinastia davídica não iria acabar com o ataque do rei de Aram e do rei de Israel.

O rebento é o rei Ezequeias, filho de Acaz. Portanto, a jovem é a esposa de Acaz e o menino em gestação é Ezequias. Isaías está dizendo o seguinte: a menina grávida é o sinal que Deus está te mostrando, Acaz, de que a casa de seu pai não morrerá. Se você crê, a história do reino de Judá continuará, e o menino reinará em seu lugar.

Um dos textos de Isaías reconhecido como messiânico, na realidade não o é. É uma mensagem de consolo ao rei Acaz. A jovem não era virgem e o Emanuel não é Jesus (originalmente falando). Óbvio que Mateus, fazendo uso da versão dos LXX, nos diz o contrário. E podemos sim, de fato, reconhecer que Cristo é o Deus Conosco. Cristo é o verdadeiro Emanuel. Mas o Emanuel original é Ezequias.

Se naquele tempo a tradução já gerava problema... imagine em nossos dias, já que estamos bem longe dos autores do texto... Ainda bem que, como diz Milton Schwantes, "Deus também fala em português". Mas, de fato, uma coisa é certa: Traduttore, Traditore (Tradutor, Traidor).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pois ainda há luto...

De certa forma a dor de ter perdido uma pessoa tão querida e de forma tão traumática, influenciou as duas últimas postagens. E ainda há, em mim, razão e dor suficientes para refletir mais uma vez e, agora, diretamente sobre o tema.

A bíblia relata diversos lutos: Lembra da dor que Israel sofreu com a morte de Moisés; A dor de Davi ao perder o amigo Jônatas e sua dor "contraditória" ao perder o primeiro filho que teve com Bate-Seba; Há também, em linguagem profética e figurativa, o luto de "Raquel" que chora a dor pela morte dos seus filhos e que rejeita qualquer consolo, dor e luto esses que são aproveitados por Mateus para falar do choro que ocorreu pela matança dos inocentes;  Ezequiel que, para simbolizar a o que aconteceria com Judá, é proibido de chorar à morte de sua esposa, e vive seu luto sofrido, mas calado; Como não citar a viúva de Naim, que já seguia no cortejo pela morte do filho e que foi consolada com a ressurreição do menino?; Podemos, claro, lembrar, também, de Lázaro, que demonstra a dor de Jesus, pela morte do amigo. Esses são, apenas, alguns exemplos.

Enfim, a bíblia não oculta, pelo contrário, confirma a dor que a morte causa. E, da mesma forma, aponta para o quanto a sua presença é perturbadora. Israel demorou muito para desenvolver uma crença na ressurreição no dia do juízo. Portanto, durante muito tempo, a religião do Antigo Israel teve que encarar o fato de que a bênção de Deus repousava sobre a longevidade, pois, como eles criam, não havia vida após a morte e nem mesmo ressurreição escatológica. É por isso que, frequentemente, nos textos do primeiro testamento, encontramos fórmulas de longevidade (e viu seus filhos e os filhos dos seus filhos até a  - número -  geração).

Contudo, as pessoas morrem cedo. Nem todos desfrutam do prazer de uma longa vida. E a salvação de Javé, no tempo antigo, repousava sobre uma vida longa e boa. A contradição da vida, a existência de muitas pessoas que, fiéis a Javé, sofreram dores sem fim e o fato de muitos morrerem ainda jovens, levaram os sábios e profetas a questionar essa bênção que se acreditava.

Nasce assim, em um momento tardio, o pensamento apocalíptico, que aponta para uma vida futura. Como um protesto à morte. Ou, em uma expressão melhor, em uma não-morte para aqueles que se mantém fiéis até ao fim, mesmo diante de grandes tribulações. O maior testemunho disso, no primeiro testamento, se encontra no livro de Daniel.

No ambiente do Segundo Testamento, já em um momento onde o pensamento apocalíptico está muito bem desenvolvido e, inclusive, influencia muitas formas de viver a religião judaica antiga, a crença na salvação de Javé repousa tanto na vida atual, quanto na próxima vida. A "vida eterna", não é algo que se espera para o além mundo. Mas algo que se vive hoje e se concretiza para além da história. Mas a mesma história confirma essa salvação. Seu gozo inicia hoje e é plenificado na consumação de todas as coisas.

É por isso que, em Jesus, já em um ambiente de crença cristã, a salvação é oferecida aos pobres, humildes, oprimidos, discriminados e clamadores pela paz. Estes não esperam um consolo para além da vida, mas uma mensagem que, já hoje, transforme seu mundo e acabe com as situações que lhes deixam em uma subvida. É por isso que, falando de uma vida terrena, Cristo é o que vem dar vida em abundância.

Existem, então, dois aspectos da salvação: aqui e lá; já e ainda não; imanente e transcendente.

É por isso que frases como "fulano morreu sem salvação" reduz bastante a mensagem salvífica de Cristo, que: cura o leproso; faz o cego enxergar; transforma o ladrão e corrupto em um seguidor fiel que partilha seus bens; ressuscita os mortos para eliminar o luto.

Tudo isso apenas quer simbolizar que a salvação não é algo futuro apenas. É escatológica? Sim! Claro! O cristianismo é essencialmente apocalíptico e escatológico. Mas uma escatologia que testemunha, desde já, que Cristo é a Ressurreição (o evento final) e a Vida (o que ansiamos ter) quem crê nele, ainda que morra, viverá. A crença ou melhor, a salvação da morte ultrapassa a espera dela. Quem crê em Cristo pode morrer, mas não é o que ele espera, mas, ainda que morra, viverá.

Essa morte não deve ser interpretada como simplesmente morte física. Mas morte espiritual, emocional, social, enfim, todo tipo de situações ou status que "matam a vida abundante". A vida plena.

E o que o luto tem a ver com isso?

Ocorre que, como no tempo antigo, ainda precisamos de uma mensagem que nos salve nessa vida. Que os deprimidos e sofredores da síndrome do pânico digam isso. Óbvio que o tratamento clínico é hoje quem promete salvar (e salva) essas pessoas. Eu jamais motivaria uma simples conversa ou mensagem bíblica para eliminar esses males. Contudo, julgo que as mensagens de salvação limitadas a uma pós-morte (que se diga é de herança pagã) podem dar mais motivos para a dor dessas pessoas. Não que um deprimido precise de motivo para sofrer. Mas me refiro a necessidade de que se tenha uma mensagem (falando de religião) que abarque toda a vida das pessoas.

Um deprimido, mesmo sendo (erradamente) instruído desde criança que quem se mata vai para o inferno (Deus nos livre dessas pessoas que amam condenar os outros ao inferno), não considera isso e comete suicídio. "De que adianta esperar uma salvação (morar no céu) se, em vida, Deus já me abandonou?”

O deprimido senti-se abandonado por Deus em vida. Ele é apenas mais um! De que nos serve um Deus dos mortos? De que adianta um Deus que se preocupa somente em como estarei quando morrer?

Não é assim o Deus de Jesus. Esse se envolve na vida que se vive. Ele está em constante luta por amor de sua criação, que inclui a nós, seus filhos. Esse Javé, Pai de toda família humana, onde, segundo Tiago, não há variação nem sombra de mudança, é aquele que para o seu povo, na história, promete: terra, justiça e paz.

Aí está a falha da igreja do nosso Brasil... Uma igreja que se preocupa com mortos e, acaba, com isso, gerando "morto-vivos". Pois melhor "morrer" e ser alcançado por esse Deus, do que viver feliz e ser por ele desprezado. Uma mensagem que nos salve já! Que nos cure já! Que perceba a nossa dor, nossa fragilidade, nossa necessidade de paz, alegria e consolo! É disso que os corações deprimidos esperam de sua religião. Orações? Podem ajudar, mas o que realmente se espera, como diz Tiago, não é orar e despedir o irmão necessitado sem sua necessidade saciada. O que o que realmente ajuda é uma comunidade amorosa, terapêutica e redentora. Em outras palavras, o que ajuda é o próprio Cristo, ressuscitado, vivendo dentro da sua Igreja (dentro das pessoas e não do templo) movendo e guiando na missão da implantação de um reino de vida e não-morte, em todos os aspectos. Por isso mesmo a palavra "morrer" é retirada da fé cristã e, em seu lugar, surge a linda expressão "dormir". Pois quem dorme, acorda e, por isso, não está morto, pois Deus é um Deus de vivos e sua mensagem é para vivos que, mesmo mortos, são por ele alcançados.


Uma mensagem, minha querida irmãzinha, que, enquanto acordada te alcançou, mas os males do nosso tempo insistiram em te fazer dormir, tentando nos fazer pensar que ela não foi suficiente. Graças a Deus, contudo, que, mesmo dormindo, essa mensagem ainda chega a você, como um lindo sonho que um dia há de te acordar...

 “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?
Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.
Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Novo Olhar sobre a Ovelha Perdida


A parábola da ovelha perdida revela o preconceito oculto no coração daqueles que dizem seguir a Deus (Lc 15:3-7).

Quem é a ovelha perdida?
Seriam os viciados? Os desviados da fé? Os sem fé? Os ateus? Homossexuais? É tão triste imaginar-se "ovelha perdida", que todos se preocupam em se localizar como uma das "99" que ficaram no "aprisco", protegidas contra qualquer desvio, que a "perdida", se impôs. E, óbvio, procura-se no outro a identificação daquela que se perde. Daquela fraca e pecadora que não conseguiu se manter fiel a Deus.

Porém, lendo melhor nosso texto, reparamos que as que ficaram, não ficaram em "aprisco" nenhum. Ficaram no deserto (v 4). O pastor deixou todas no deserto e foi atrás dessa uma que se perdeu. O pior é a tradução correta que diria: "não deixa ao cuidado de ninguém, no deserto"; "abandona no deserto"; "Larga para trás no deserto".

Logo procuramos um jeito de justificar essa decisão irresponsável do pastor. Afinal, ele, por causa de uma, poderá perder todas. Entra em nossa idéia a questão quantitativa que nossa lógica consumista compreende: melhor um pássaro na mão, do que dois voando. E, no caso, o pastor deixa os 99 fiéis a ele no deserto. E vai atrás da ovelha que se extraviou. Como Deus pode fazer isso conosco? Abandonar-nos para ir atrás dessas pessoas que não querem nada com ele? Não! Deus não faria isso conosco! Então vamos tentar justificar e descobrir o porquê dessa decisão tão injusta.

Essa sensação de abandono é oriunda desse preconceito que falei lá em cima. Nos achamos parte do grupo das 99. E a mensagem da parábola quer nos dizer exatamente o contrário. Quer nos mostrar que o problema é o grupo das 99 e não da ovelha perdida. Quem disse que você é parte das 99? O que faz você pensar que não é a ovelha extraviada? Todos nós somos essa única ovelha que Deus não conta o prejuízo para nos buscar. Nós somos essa ovelha que não consegue acompanhar os passos das outras, que se perde, e que precisa de amparo do pastor. Que precisa ser carregada no colo. As 99 são aquelas do grupo do fariseu que questionou Jesus comer com pecadores.

O problema é que não nos identificamos com esses "pecadores". Como aqueles que são dependentes de Deus. Achamos-nos já "salvos", "separados", "santos". E nos esquecemos do princípio básico da fé: todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Todos são iguais!

Somos todos carentes da misericórdia, do amparo e do imenso e desmedido amor de Deus. Imenso, desmedido, e me permita dizer, doce e irresponsável amor de Deus. Tão irresponsável que prefere morrer do que perder suas ovelhas. Que prefere a morte do que viver sem nossa presença.

Como a parábola do pastor que abandona as ovelhas no deserto se torna tão doce, meiga e especial, quando nos identificamos com a ovelha perdida. Perdidos somos, e precisamos tanto desse amparo, desse abraço e dessa paz que só os braços do Pastor verdadeiro pode nos dar. Não seja parte do grupo santo, seja parte do grupo que se entende como igual e necessitado do amor mútuo e do amor divino.

Mesmos longe, somos filhos

A parábola do pai amoroso, conhecida como parábola do filho pródigo, nos fala do amor do pai. Seu foco é a percepção do pai diante do erro dos dois filhos.

O caçula, por querer sair e não pensar em voltar, pede sua herança ao pai. Fácil deduzir isso pelo fato de pedir a herança, que só teria direito após a morte do pai. Indo para longe, para uma terra longe que a parábola faz questão de deixar claro não ser sua pátria, chamando seus habitantes de "homens daquela terra". Não tendo interesse em voltar, perderia o que é seu de direito. Então, nada mais justo, do que já receber aquilo que é seu por direito.

O mais velho por irritar-se do pai, que nunca lhe presenteou com um dos animais para festejar com os amigos,  mata o bezerro cevado para o filho que, segundo ele, gastou todo o seu dinheiro com meretrizes.

Eis a injustiça do pai: acolhe aquele que lhe virou as costas e nunca demonstrou reconhecimento ao filho que o servia sem nunca desobedecê-lo. Injusto? Sim, parece ser injusto. Ao que parece, o pai amava mais ao caçula do que seu primogênito - que por ser primogênito tinha direitos maiores. Mas vamos ver isso de mais perto?

O filho caçula

Sempre que se fala do filho caçula a reflexão se pauta naqueles que pecam ou se distanciam (terra distante) de Deus. Mas será que o filho "rebelde" não somos todos nós? Acho que o filho mais novo é a nossa sinceridade em ação. Ele demonstra a verdadeira vontade que todos nós temos: livres de Deus das obrigações que Deus nos dá, sem, contudo, perdermos nossa herança que nos liga a ele.

Muitas pessoas servem a Deus ou se ligam a alguma igreja ou religião esperando ganhar algo: cura, libertação, consolo e, óbvio, salvação, livramento do inferno. O filho gostava de tudo isso que o pai ofertava, ao que a parábola chama de "herança". Mas ele propõe o que nenhum de nós tem coragem: eu vou me afastar da comunhão, da vida da igreja, dos ritos, dos cultos e de toda a obrigação que tu (Deus) requeres de mim, e o senhor garantirás minha salvação.

O incrível, para muitas mentes que entendem Deus como um negociante ou barganhador, é que o pai aceita a condição do filho. O pai tinha todo o direito de dizer: quando eu morrer, receberás a herança, se estiver por perto e saber que morri. Mas não, o pai, com seu gesto, diz: és meu filho, o que é meu, é teu. Se o queres: leve.

Sim! E por que não? Estar na igreja não garante felicidade, fim da depressão, fim das dores, do medo da vida, do medo da morte e nada. Estar na igreja, estar em comunhão com algo não garante que estamos participando do reino de Deus. Então, podemos sair, podemos ir a qualquer lugar e manter nossa herança.

A herança está ligada à pessoa e não à casa.

Contudo, longe do pai, a herança não faz sentido. E nesse ponto, não estou falando de longe da igreja ou longe dos ritos. Digo longe do pai mesmo. O pai, Deus, nos ama. Seu consolo, seu conforto, sua aceitação, sua misericórdia e graça não estão limitados às quatro paredes de um templo ou mesquita. O filho pode ir para qualquer lugar que decidir, a herança, por ser filho, estará com ele.

O problema é o desejo de estar longe do pai. O filho não conhece ao pai. Entendia o pai como fonte de lucro. Como um testador, que, infelizmente, tinha que aguardar morrer. Não compreendia que não era a herança que o pai ofertava, era o amor. Estar na casa do pai (e volto a dizer que não me refiro aos templos) é estar sob a guarda do amor de Deus. Que, infelizmente, muitas vezes, não consegue nos privar das dores, mas, consegue nos ajudar a vencer ou lidar com nossas limitações.

Mas, enquanto Deus for um testador, alguém que tem um testamento e que devemos aguardar para receber a herança que nos é dada por direito, estaremos sempre com vontade de estar em outro lugar.

E o filho, que é mais corajoso, e mais sincero do que nós, vai para longe. Como falei, o problema não era estar longe, a herança estava com ele, mesmo distante. O problema foi gastar a herança. Abrir mão daquilo que o pai o deu gratuitamente. Pois herança é algo que se tem, sem que tenhamos trabalhado para ter. E o que Deus oferta a seus filhos é: perdão, amor, misericórdia, graça, aceitação, rendenção, comunhão. Segundo Tiago:

"Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1:17"

Tudo aquilo que de bom existe em nós, é herança de Deus. É a comprovação de que somos seus filhos. É o que nos liga a ele. Mas, por vezes, somos tentados a gastar isso tudo. Gastar não no sentido de compartilhar, que é o objetivo de todas essas dádivas. Porém, "gastar", no sentido de "eliminar", "destruir", "dizimar".

Mas, estando vazio, o filho reconhece: se o pai me aceitar como servo, me bastará. É como aquela mulher que chega para Jesus e diz:

"Ela, porém, respondeu, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos. Marcos 7:28"

Mas até ai, ele ainda não conhece ao pai. O pai é o testador e já lhe deu toda a herança. Agora, o melhor, é viver de migalha. E não ousar pedir nada mais do que isso. Algumas pessoas que são corajosas para fazer aquilo que sente que Deus reprova, sentem-se tão mal, que não conseguem orar. Quantos deprimidos temos em nossas comunidades. Esses, muitas vezes, devido sua situação e tudo aquilo que lhes fora ensinado, por conta de toda a educação religiosa que receberam, não compreendem um Deus que não seja mero testador. E, pensam, que devido a seus erros, sofrem. Sabem que Deus lhes acolherá, mas, por ser testador, e eles terem gastos toda a herança, Deus os castiga, para que possam, quem sabe, em algum momento, comer na mesa, como filhos.

O Filho mais velho

Esse também não conhece ao pai. O pai é exigente. Nada que ele faz é suficiente. Nunca lhe permitiu festejar. E quando existe festa, nem manda chamá-lo. Ele tem que ficar sabendo por um servo que há uma festa e o motivo dela. O filho mais velho não consegue entender como o pai pode festejar alguém que só trouxe prejuízo.

A lógica do consumo e do capitalismo dita, hoje em dia, nossa forma de conduta em nossa comunidade. Hoje pergunta-se: quantas almas já ganhou-se a cristo? Quanto escândalo tal pessoa não gerou? Quantos prejuízos ao nome de Deus não foi cometido por essa pessoa? Eu estou aqui! Eu venci a tentação de pedir minha herança. Venci a tentação de pedir, mesmo,um bezerro. E o pai nunca me ofertou nada.

Resisto ao desejo de expor meus sofrimentos, para que não tenham pena de mim. E Deus acolhe pessoas que vivem dando uma de coitadinhos. Refreio meu desejo desenfreado de beber, ir a festas e Deus acolhe uma pessoa que não honra seu nome.

O Pai

Todos sabiam que eram filhos. Um, ao ponto de achar que deveria ter sua herança já. Outro por saber que tudo aquilo um dia seria seu, então, desde já, deveria cuidar e trabalhar para sustentar aquela vida.

Mas nenhum conhecia o pai. O pai se quer ouviu o que o filho mais novo tinha a dizer. Ele preparou uma oração linda de arrependimento e confissão. E o pai nem o deixou falar. Devolveu o status de herdeiro e festejou o reencontro com o filho. Naquele momento, o filho entendeu que a herança verdadeira ele já podia viver. Que as dádivas do pai não são para um tempo futuro, quando ele morrer. Mas para agora. Naquele momento filho viu que o pai não era um testador, era um doador. Alguém que se entrega loucamente ao filho. Desprezando qualquer status de "eu te avisei", "agora vem me pedir ajuda", "o que fez com tudo que lhe dei?". O sofrimento do filho, era seu sofrimento. Ele sabia que o retorno do filho representava sua falência. E falência do filho era a falência do pai. E como um pai que não avalia esforços para entregar-se por inteiro, simplesmente, entendeu, que o filho se encontrou.

Estar com Deus em comunhão com aqueles que estão com Deus, é, desde já, desfrutar das possibilidades de uma vida que igreja, mesquita, templos ou qualquer outra religião institucional, não pode ofertar. O encontro com o amor do pai é um encontro libertador. Que nos coloca na posição de filhos e não de servos ou cachorrinhos. Que faz nos herdeiros em vida. Herdeiros não da riqueza inventada pela humanidade. Mas pela riqueza de tudo aquilo que o amor, que é o próprio Deus, pode ofertar.

E o filho mais velho, também teve seu encontro com o pai. Em um breve discurso, o pai fez entendê-lo que ele se diminuia. Mostrou a ele que, assim como seu irmão, ele tinha desejos de recompensa e reconhecimento, mas que, na realidade, ele que não se sentia reconhecido. Procurando aprovação do pai, quando, na realidade, simplesmente, por ser filho, já havia adquirido a aprovação gratuita do amor do pai.

E, acima de qualquer reconhecimento pessoal, era urgente que se festejasse o reencontro com o irmão. Que, por entender-se filho, estava, naquele momento, desfrutando do amor que nunca havia compreendido ser, de fato, herdeiro.

Nós somos os filhos afastados e nós somos os filhos-servidores. Mas Deus, apenas, nos chama, e deseja que sejamos, filhos.