terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Deus que faz uma imagem de si

"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem (צלם = Tselem), conforme a nossa semelhança (תמונה = tĕmuwnah); e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra." GN 1:27

"Não farás para ti imagem (פסל = pecel) de escultura, nem semelhança (תמונה = tĕmuwnah) alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra;" (Deuteronômio 5:8)

"Lançareis fora todos os moradores da terra de diante de vós, e destruireis todas as suas pinturas; também destruireis todas as suas imagens (צלם = tselem ) de fundição, e desfareis todos os seus altos;"(Números 33:52)

Pode-se notar algo bem interessante nos três textos propostos para essa breve reflexão: todos falam de imagens e dois de semelhança.

O texto da criação do homem usa o termo Tselem para "imagem" e Temuwnah para "semelhança". Já o texto que condena a idolatria usa a expressão pecel para "imagem" (o correto seria ídolo), Temuwnah para semelhança. E o último, que fala sobre eliminar todos os ídolos de uma nação, volta a usar o termo "Tselem".

Em outras palavras, o Deus que condena imagens (Tselem) de idólos (Pecel), ele mesmo, cria sua própria imagem (Tselem) em nós.

Em tempos do novo testamento, quando cristãos reclamavam de não terem templos para cultuar, semelhante às outras religiões, Paulo afirma: 

"Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (I Cor 3.16)"

Assim sacia-se a necessidade de colocar Deus em uma casa. Fazendo, de nós mesmos, sua habitação.

Dessa mesma forma podemos encarar o passado. Muitos justificam a criação de imagens porque o ser humano precisa ver algo. É necessário observar "Deus" para que a nossa fé encontre alguma coisa "palpável". Dessa forma a Bíblia, os Santos (que não são feitos para idolatria, nisso defendo nossos irmãos católicos), os pastores, padres, papa, acabam assumindo um parte do sagrado. Porque "precisamos" tocar o Santo.

Talvez essa "necessidade" seja confirmada pelas Escrituras. Pois a tentação de se erguer ídolos é constante em Israel. O grande problema que quando se "toca" o sagrado, pode-se manipulá-lo. Dessa forma: o santo Antônio pode ser castigado enquanto eu não casar; a santidade do dízimo me permite acreditar que "terei tudo de volta em dobro"; a oração dessa ou daquela pessoa "santa" tem a fé necessária que eu não possuo; o que é dito por esse ou por aquele outro irmão tem mais peso pois este é "sábio".

Enfim, construir "imagens" de Deus é a forte tentação nossa. E ainda que tenhamos uma visão bem crítica com essas formas de idolatria, ainda assim, criamos nossa própria imagem de Deus. Ao conversarmos sobre esse ou aquele assunto encontraremos N divergências de opiniões sobre quem ou que é Deus.

Mas Deus tem sua própria imagem dele. Você e eu. Somos a imagem construída pelo próprio Deus que aponta para ele. Talvez na mesma intuição didática de Paulo, os antigos saciam a necessidade de se "ver" Deus apontando para todo o ser humano como a imagem e semelhança do que "está no céu".

E dessa forma ainda assim, impede-se o desejo de manipular a Deus ou o sagrado. Pois, como diz a célebre frase: cada pessoa é um universo. E assim, o universo misterioso, que é Deus, é perservado e, ao mesmo tempo, sua imagem se torna perceptível.

Nessa crença, nesse pensamento, anunciamos a necessidade de "cultuarmos uns aos outros" e de "adorarmos uns aos outros". Pois a imagem que carregamos é a imagem do Deus único. Nisto se denúncia que o desrespeito, o homicídio, o preconceito e a superioridade de uns em relação a outros é um pecado contra Deus.

Assim como no passado, onde a imagem apenas aponta para a divindade e não é ela própria, não somos a divindade, mas apontamos para ela. Portanto, qualquer "pecado" contra nós mesmos, ou contra o outro, Deus pode tomar como ofensa a ele mesmo. Do mesmo modo, qualquer benevolência feita a uma pessoa, Deus assume como sendo, por nós, abençoado. Assim confessa o texto de Mateus 24 a partir do versículo 34:

"(...)Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: (...)Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim."

Deus não está simplesmente naquele que o recebe. Mas em todo ser humano está a imagem Divina. Cabe a nós apontarmos para essa imagem.

Termino dizendo a frase que iniciei com um breve acréscimo:

O Deus que condena imagens (Tselem) de idólos (Pecel), ele mesmo, cria sua própria imagem (Tselem) em nós. Condena, portanto, porque a necessidade de vê-lo é saciada ao olharmos um para o outro. É em mim que você deve ver Deus e é em você que devo encontra-lo. Em nossa comunhão e respeito mútuos está o verdadeiro relacionamento com Deus.

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