segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Abandono...

 E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Marcos 15 : 34

Costumamos afirmar categoricamente que Deus não abandona a ninguém. Chegamos inclusive a dizer que, se nos sentimos abandonados é porque nos falta fé ou porque as dores do momento não nos permitem enxergar que, de fato, Deus está ao nosso lado. Há quem diga, utilizando o texto de Isaías, que os nossos pecados nos separam de Deus.

Como essas duas afirmações, nesse momento, nesse texto, parecem cair por terra:
  • O Cristo, exemplo de fé e confiança, em sua entrega total ao Pai, diz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?";
  • O cristo, exemplo de santidade, sem pecado, sem mácula, sofre o abandono, a separação de Deus.

Junger Moltmann, teólogo mundialmente conhecido, afirma que o grito de Jesus na cruz é a ferida aberta de toda teologia. E ao mesmo tempo, a ferida aberta no coração do Pai.

A partir daí, é possível aprender muitas coisas, contudo, dentre elas, eu gostaria de ressaltar, incluindo as duas afirmações já feitas, mais uma. E, assim, pensarmos sobre elas: Deus é todo-poderoso, logo, nada o atinge; Sentimo-nos abandonados por conta da nossa fraqueza de fé; Os nossos pecados nos afastam de Deus;

Deus é todo-poderoso, nada o atinge

Costumamos confirmar, sem prestar atenção no que falamos, confissões pagãs sobre Deus. É a visão de um Deus apático, cuja dor está longe do seu entendimento, que nos dificulta o seguimento de Deus. Conversando com um amigo, não faz muito tempo, ele dizia que Cristo era uma exceção, no que diz respeito a integridade, fidelidade e entrega a Deus e aos seres humanos.

Essa palavra me incomodou de verdade "exceção". Se Cristo é exceção, como posso segui-lo? Como conversei com uns jovens em aula de Escola Dominical, recentemente: afirmamos que a santidade e a perfeição devem ser buscadas, e ao mesmo tempo declaramos que são impossíveis de serem alcançadas. E mesmo sabendo que não podemos alcançar, continuamos dizendo para as pessoas: busquem! Como um cachorro que fica tentando morder seu rabo, ou alguém que tenta, em vão, morder seu cotovelo.

Não, Cristo não pode ser exceção. Deus não pode ser apático e tão pouco acima de toda dor, do contrário, não pode se identificar e nem entender minhas limitações. A cruz, ferida aberta no coração de Deus, nos mostra que Deus sente dores. Não é novidade que afirmamos, sem pensar e corretamente, que Cristo é Deus. Então, sem medo, podemos dizer: Deus morreu na cruz. Deus sentiu dor, solidão, desprezo, medo, dúvida, morte...

Sem medo afirmamos e corretamente, que Cristo é Filho de Deus, logo, o Pai, sente a dor de abandonar o Filho à morte. Sente à morte do Filho e sente profunda dor nisso. O Pai, onipotente, naquele momento, sente-se impotente: tem que deixar seu Filho morrer. Somente assim, poderia identificar-se com os pais que choram por seus filhos; compreender os filhos que, em vão, clamam por seus pais; só assim, o luto faria parte do próprio Deus; Somente dessa forma, nós, que muitas vezes nos sentimos abandonados por pais, amigos, ou mesmo Deus, poderíamos ser alcançados por Deus.

Cristo mergulha no abandono do Pai, para encontrar conosco, os abandonados.

Sentimo-nos abandonados por nossa fraqueza de fé

Mas há quem diga, que esse sentimento de abandono, presente em nós, é falta de fé, ou carência. Contudo, nao precisamos nos sentir mal e nem curvar nossas cabeças diante de afirmações como essas. O Filho de Deus! A fé verdadeira e encarnada! A Palavra de Deus feita homem, sentiu a dor do abandono: abandonado por amigos, rejeitado pelos que amava, traído pelo parceiro; Só tinha uma coisa em que se apoiava: Pai, se possível, passe de mim esse cálice, sem que eu beba, contudo, não seja como eu quero, mas sim, como tu queres.

O Filho obediente esperava que o amor do Pai fosse suficiente para poupá-lo. Era fácil entender isso: ele o Pai são um! O que ele sente de desejar livrar-se, certamente era, também, o desejo de Deus! E, de fato, o era, tanto que o ressuscitou. Mas, surpreendentemente, o Pai, o deixa só. O Pai o abandona. Esse é seu sentimento... Essa é a verdade que dói afirmar...

O Filho teve que mergulhar no sentimento de abandono, para, assim, compreender, viver, identificar-se e compadecer-se do nosso sentimento de abandono. Quando afirmamos que Deus não nos ouve, o Filho olha pra gente e nos entende. O Pai olha para o Filho e nos entende. O Pai não nos acusa de falta de fé, simplesmente nos ampara e nos deixa declarar que ele é um abandonador. Isso o fere, isso o faz recordar a cruz, isso o faz olhar os inocentes que morrem a todo momento. Isso toca em sua impotência! Isso toca em seu amor, mesmo nunca nos abandonando... o Pai nos entende e nos ampara.

Os nosso pecados nos fazem separação entre nós e o nosso Deus

Mas há quem diga, que o Pai silencia por conta de nossos pecados. E, como Jó, ficamos à procura do que fizemos para merecer tal abandono. Os sinceros, como Jó, se defendem e afirmam sua inocência. Os que não compreendem, se submetem e se acham pecadores merecedores do abandono. Outros se desviam, pois Deus não teve motivo para abandona-los.

O Filho de Deus, morreu... abandonado, ferido, humilhado. Assim morre um inocente. Indigno do castigo que sofreu. O castigo imputado para homens ruins, fora jogado nas costas de um inocente. O Cristo entende o que é ser caluniado, o que é o preconceito e entende o que é ser caçoado: 

Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e crê-lo-emos. Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus. (Mt 27:42.43)

Ele ouve isso dos sábios do seu povo, que entendem que Deus socorre àqueles que ama. Mas Deus não socorreu Jesus. Deus se viu impotente... A humanidade sempre rejeitou Deus. Quando matamos, quando enganamos, roubamos, insultamos, não fazemos o bem, nos calamos diante do mal... Deus é rejeitado. E, segundo a história bíblica, Deus, mesmo rejeitado pelo mundo e, particularmente, pelo seu povo, sempre, incansavelmente, estendeu a mão.

E, naquele momento, o mundo optou por matar a Deus. Deus não teve outra coisa se não permitir ser morto. Aceitar o fato de que pretendemos viver em um mundo sem sua presença. Ele entrou pelas portas do fundo, encarnando-se em um bebê, humilde. E nós o enxotamos como um cão. Deus não teve o que fazer, se não respeitar que preferimos matar seu Filho. Deus não tem marionetes. Tem filhos! E, se um filho optar mata-lo, ele não tem o q fazer, se não morrer e aceitar que seu filho faça isso. Deus ama tanto, mas tanto, que seu amor chega a aplicar-lhe uma armadilha: ainda que isso custe abandona-lo, Deus não interferirá em nossa liberdade. Deus não fará nada que possa, de alguma forma, interferir em nossa liberdade. E ainda que o matemos, ele ressurgirá, insistindo em querer estar conosco.

Seus pecados afastam de Deus, na medida de que eles crucificam seu Filho. Mas, "onde o pecado abundou, superabundou a graça.

É necessário que aprendamos a crer contra a descrença. A ter esperança, contra a desesperança. Porque Deus sabe o que é sofrer. Sabe o que é morrer. Sabe o que é ser rejeitado. Sabe o que é ser caluniado. Sabe o que é ser inocente e, ainda assim, ser condenado. Entende muito bem a injustiça da lei dos homens e o que é ter sua liberdade limitada pela ganância humana.

Deus sabe o que é ser humano e, essa experiência em nosso chão, aqui mesmo, na nossa liberdade e na nossa força de poder reconstruir um mundo melhor, Deus está conosco!

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