segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Demônio Gadareno - Mc 4:35-41 e 5:1-20 (uma "nova" idéia)

Antes de "encararmos" o demônio gadareno, cabe uma olhada na tempestade que Jesus e seus discípulos enfrentaram. Em um primeiro momento vale ressaltar que qualquer história narrada nos evangelhos é, antes de tudo, história teológica e, portanto, história interpretada à luz da fé no ressuscitado. O que quero dizer com isso? Nenhuma história é informativa. Não se está fazendo uma documentação sobre o ministério de Jesus e, tão pouco, uma biografia não autorizada de sua pessoa. Portanto, informações pessoais (casou? teve filhos? tinha uma comida preferida? foi ao banheiro?) não fazem, nem um pouco, parte da coleção de preocupações do autor. Sua preocupação é transmitir uma mensagem e não narrar uma história sobre Jesus que os leitores não conheçam.

Não se pode, por exemplo, imaginar que os leitores de Marcos já não conheçam a história da ceia (pois praticam o agápe = festa da comunhão e celebração da ceia) e nem a história da cruz e ressurreição (pois testemunham que o ressuscitado é o crucificado). Contudo, essas histórias são re-contadas no evangelho. É, portanto, totalmente coerente, procurar entender a mensagem marcana ou tentar atualiza-la para os nossos dias. Como história interpretada ou teologizada a mesma possui diversas chaves de leitura. Vamos à chave que proponho:

Como disse antes, vale rever alguns passos de Cristo antes do encontro com o demônio "legião". Após ensinar às  multidões, Jesus deseja ir para o outro lado do mar (ou lago). Com seus discípulos ele enfrenta uma grande tormenta. O mar e o vento vêem contra o barco. Resumidamente, Cristo está dormindo, é despertado, acalma a tempestade e o vento, e depois repreende seus discípulos por serem "tímidos".

Eis algumas "imagens" que precisam ser descriptografadas:

Mar

Sempre está associado à caos. Desde o Gn 1 até o Ap (a Besta que emerge do mar). Do mar vem o Império Romano. O mar representa as muitas nações (gentios); a ameaça, o perigo. Portanto, simplesmente enfrentar o mar é, por si, enfrentar o caos. O mar em tempestade potencializa o mal que o próprio mar (ou muitas águas) trazem.

Os cristãos estavam em meio à grande ameaça do império romano. Néro Cesar havia decretado perseguição e morte aos cristãos por conta do incêndio em Roma. Tácito, historiador "da época" nos relata o seguinte:

"Para acabar logo com as vozes públicas, Nero inventou os culpados, e submeteu a refinadíssimas penas aqueles que o povo chamava de cristãos, e que eram mal vistos pelas suas infâmias. O nome deles provinha de Cristo, que sob o reinado de Tibério fora condenado ao suplício por ordem do procurador Pôncio Pilatos. Momentaneamente adormecida, essa superstição maléfica prorrompeu de novo, não só na Judéia, lugar de origem daquele flagelo, mas também em Roma onde tudo que seja vergonhoso e abominável acaba confluindo e encontrando a própria consagração.
Foram inicialmente aprisionados os que faziam confissão aberta da crença. Depois, denunciados por estes, foi aprisionada uma grande multidão, não tanto porque acusados de terem provocado o incêndio, mas porque eram tidos como acesos de ódio contra o gênero humano.
Os que se encaminhavam à morte estavam também expostos à burla: cobertos de pele de feras, morriam dilacerados pelos cães, ou eram crucificados, ou queimados vivos como tochas que serviam para iluminar as trevas quando o sol se punha. Nero tinha oferecido seus jardins para gozar desse espetáculo, enquanto oferecia os jogos do circo e, vestido como cocheiro misturava-se ao povo ou mantinha-se hirto sobre o coche.
Embora os suplícios fossem contra gente culpada, que merecia tais tormentos originais, nascia por eles, um senso de piedade, porque eram sacrificados não em vista de uma vantagem comum, mas pela crueldade do príncipe".

O incêndio data de 64 d.C. O evangelho de Marcos, provavelmente, entre 65 e 70 da mesma época. Junto com esse "problema" da perseguição está a "revolta judaica" que culmina com a destruição de Jerusalém em 70. Portanto, cristãos (quer gentios ou judeus) possuem grande tormenta vinda do "mar" (império romano) para enfrentar.

E, nesse início, Cristo é apresentado como aquele que tem o poder sobre  o "mar" e sobre o vento. Portanto, os cristãos devem continuar lutando e perseverando na luta contra o mal, pois, do outro lado, existe o ser humano a ser liberto.

E o endemoninhado?

Diante do demônio que subjugava uma pessoa e que estava protegido pela tempestade. Cristo pergunta seu nome e recebe a seguinte resposta: Legião.

Essa resposta possui uma forte conotação política:

Uma legião é um corpo de soldados, cujo número difere em momentos diferentes. No tempo de Augusto parece ter consistido de 6.826 homens (6.100 soldados de infantaria e 726 cavaleiros). O que será que passou na mente de Marcos usar uma terminologia romana para definir quem eram os demônios (a palavra Legião é latina e não grega, que é o idioma que está escrito todo o texto de Marcos)? Quem são o mais de 6 mil soldados no corpo daquele homem? Será que Marcos não tem em mente uma denúncia política? Será que ele não quer dizer que os soldados romanos estão a serviço do mal? Será que Marcos não pensa em dizer que a presença romana na terra de Judá (ou em qualquer outra) na realidade deve ser vista como uma opressão? Será que a chegada do reino de Deus (a presença de Cristo naquela cidade depois de vencida a tormenta) não representa o reconhecimento romano de quem é o verdadeiro Senhor, e da mesma forma, sua rendição? A chegada do Reino de Deus não quer dizer, ao mesmo tempo, liberdade política e casando assim com a o fim da opressão religiosa? A expulsão dos demônios para dentro dos porcos não representa a denúncia de que os romanos trouxeram para os outros povos, no caso os judeus, práticas contrárias à cultura dos povos (a carne de porco é considerada imunda)? A expulsão ou o fim do império opressor (chegada do Reino de Deus) não representa liberdade de todo o sistema que destrói a identidade dos povos?

Penso que sim! Em um mundo de redescobrimento do sagrado, somos tentados a interpretar literalmente as linhas desse texto. Contudo, o que cabe é uma reflexão mais próxima da realidade dos nossos irmãos na época marcana.

Por meio desses textos são desafiados por Marcos a resistirem e lutarem para que o Reino de Deus seja de fato implantado. O império romano, que martirizou Pedro e Paulo (mortos pouco antes da redação do evangelho) e tantos outros cristãos no Coliseu, nas cruzes e queimados vivos, esse império opressor não detinha a última palavra. Por mais que pareça que Cristo adormece, que não ouve o clamar dos cristãos, ele está no mesmo barco e, inclusive, ele mesmo, foi martirizado pelo império que naquela época perseguia os cristãos. Cristo se identifica diretamente com os cristãos e, antes mesmo deles serem perseguidos pelo império, o seu Senhor já havia padecido "sob o poder de Pôncio Pilatos".

E hoje?

Como podemos compreender esse texto que incentivou e marcou profundamente o compromisso com o reino de Deus independente da situação ao redor? Quais são os sistemas opressores de nossos dias? Como eles influenciam nossa sociedade? Antes de tudo, assim como Marcos identifica no endemoninhado uma representatividade da opressão romana, devemos entender que a pobreza, a miséria e tudo aquilo que torna a vida das pessoas algo sem valor e sem esperança, na verdade, mexem não apenas na estrutura da sociedade, mas marca profundamente a separação do projeto Divino. Não podemos separar vida social de vida religiosa. Não dá para encararmos a frase: "estou sem comer mas minha vida espiritual está muito bem" como algo coerente. Se não há os elementos necessários à vida, então as pessoas estão vivendo longe do projeto divino. E isso não é culpa dos que assim estão. A culpa é justamente de "Roma". Desse sistema opressor que fere o desejo Divino. E a chegada do Reino de Deus é um anúncio do fim desse sistema coisificador e explorador.

O Reino de Deus não é algo meramente transcendental! O Reino de Deus é para um mundo de Deus. E esse mundo, com toda a contradição presente, é o mundo de Deus e aqui, primeiramente aqui, esse Reino deve ser implantado ou vivido. O Reino não se preocupa com a alma, apenas. Sua primeira preocupação é com a vida. E com a vida que temos. É por isso que Marcos anuncia que o Reino vem e o mal sai!

Contudo, na continuação do texto, encontramos as pessoas assustadas e não desejosas por esse reino. Pedindo, inclusive, que o portador da mensagem (Jesus) se retire deles. Fato é que, mesmo nos dias de hoje, há aqueles que estão acostumados em "como as coisas estão". Temem a mudança, por mais que ela pareça boa (o homem ficou são). Há os que não querem mexer naquilo que traz boa renda, ainda que seja símbolo, ou de fato seja a opressão (criadores de porcos). Rejeitam mexer naquilo que é mais seguro.

Anunciar e viver o reino de Deus é desejar uma mudança radical na estrutura da sociedade, no pensamento religioso, político e social. Desejar isso não é simplesmente concordar com a verdade dessa palavra. É, acima de tudo, lutar por isso. Portanto, Cristo pode ser rejeitado (os homens pediram para que ele fosse embora e, em outro momento, foi crucificado) mas aqueles que provaram os efeitos desse Reino em sua vida (o homem ficou são e desejou seguir a Cristo) são comissionados para, mesmo diante de um mundo que rejeita seu criador, anunciar a maravilhosa mensagem de libertação presente nesse reino. Cristo nos convida a mudar nosso estilo de vida, mas não apenas o estilo de vida pessoal, mas, acima de tudo, desafia para uma alteração radical na nossa vida em comunidade e em sociedade. Nosso desafio? Aceitarmos esse convite, encontrar quem assim também esteja disposto e, juntos, lutarmos por uma sociedade mais justa, mais libertadora.

E assim todos os "demônios" da opressão simbolizados pelas drogas, corrupções, roubos, explorações, opressões, estupros, desamor e etc, de fato, serão expulsos.

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