quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Como não ser ecumênico (minha tentativa frustrada)

Estou participando de um fórum de discussão, em um portal NÃO-OFICIAL de minha comunidade de fé (Metodista). E vi a necessidade de reescrever sobre esse tema.
Essa vai ser minha tentativa de abrir mão do ecumenismo:

Acho muito complicado unir pensamentos tão diferentes e deuses tão diferentes. Tá certo que ecumenismo nada tem a ver com uma só religião, quem pensa assim, de fato, está equivocado. Ecumenismo é unir as mãos apesar e mantendo as diferenças. Só que são tantas diferenças. Aliás, se quiseremos pensar em uma coisa que realmente é comum, em quase todas as religiões, seria o amor. Inclusive, o amor, é confessado até por ateus. Então, será que vale a pena dar a mão a alguém de outra religião simplesmente por causa do amor? Algo que é tão banal e tão comum em discursos até de políticos demagogos ou em canções meramente comerciais. Não acho que o amor mereça tanta atenção. 

Mas ai é que mora o problema... Quando penso sobre ecumenismo não consigo fugir da palavra "Amor". Essa simples e pequenina expressão que, dentro dos evangelhos e da tradição neotestamentária, recebe uma atenção volumosa, mesmo que seja tão banal para nós, hoje em dia. Mesmo que seja tão demodê e tão clichê. No novo testamento, é o foco.

Acredito que nenhuma atenção se tornou mais forte do que o corpus joanino, onde, na primeira carta  de João 4:6-7 afirma-se:

"Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.
Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor."

É o amor, e somente ele, o vínculo com Deus. Quando nossos irmaos afirmam que Cristo é o único caminho que conduz a Deus, João, de quem é dada a autoria do evangelho que faz essa afirmação, ousa nos explicar que Jesus é esse amor. Pois, somente o amor é capaz de ligar alguém a Deus. Aliás, para João quem ama já está com Deus, pois Deus é amor.

Estar com Deus é, necessariamente, amar. Esse é o critério cristão-primitivo. Os próprios discípulos de Paulo afirmam: o amor é o vínculo da perfeição; E o próprio diz: permaneçam a fé, a esperança e o amor. Esse três. Mas, dentre eles, o amor é o maior. E no mesmo lugar onde Paulo afirma a superioridade do amor, ele também afirma o que é esse dom Divino (que é o próprio Deus).

Assim enxergo o amor como dom do Espírito (expressão paulina).

O Amor é o próprio Deus que se dá ao ser humano, penetra no coração humano, selando-o com o que mais Divino existe na vida terrena. O Amor é o próprio Deus presente e atuante. Não há como separar Deus do amor e nem o amor do Deus de Jesus Cristo. Portanto, é o amor, segundo Cristo, a única coisa que diz que somos seus discípulos. A prática desse amor assinala a ligação com Deus e com seu Filho.

É por amor que Cristo é enviado. Podemos dizer que o Cristo é o envio do amor de Deus para a criação, pela criação. Deus se doa por inteiro pois o amor não compreende "semi-entregas". Mas dedicação total e entrega total.

Considerando que esse dom, presente no ser humano, é o vínculo com Deus, Paulo ousa dizer: 

"Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor." Rm 13:9-10

"Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." Gl 5:14

A exigência de ritos, moralismo, monocultaralismo, etnocentrismo, cristianismocentrismo morrem, diante de tais afirmações.

Como não ser ecumênico diante dessas palavras? Como exigir que o outro seja como eu, quando, na realidade, amar é aceitar o outro com toda sua diferença? Como confirmar as atitudes que transformam as pessoas em objetos, diante dessas palavras?

Alguém, que, infelizmente, vive uma vida hipócrita e puramente demagoga, diria: se é somente amar, vou fazer isso e aquilo e dane-se, eu amo, entao tenho Deus e posso fazer!

Esse é o problema da liberdade! As pessoas, sem amor, fazem mau uso dessa coisa maravilhosa que temos! Desse lindo dom de ser livre, dado por Deus! É preciso segurar Deus! Limita-lo à minha compreensão, pois, assim, impeço esses abusos. E Deus, do amor, torna-se um ídolo sem sensibilidade, sem tato, sem compreensão, duro e de coração gelado. Incapaz de compreender as culturas, as religiões e suas expressões sinceras que procuram, de alguma forma, acertar a religação com ele.

E o cristianismo é, somente, mais uma dessas tentativas! O evangelho, contudo, superior ao cristianismo, afirma:
"A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo." Tg 1:27

Não existem outras religiões que assim o fazem? Não há outras confissões que confirmam o amor como a verdadeira perfeição? Não é o amor a única coisa que, na maioria das religiões, se confessa aquilo que nos une? Em ritos, em dias especiais, em cultos, em festas, mudamos completamente, de confissão em confissão. Mas, nessas confissões cuja prática religiosa nos separa, existe aquilo que é ensinado e que nos une: amai!

E, voltando para João, Deus é amor!
Incrível, mas a única coisa realmente comum, nas religiões é, precisamente, aquilo que o evangelho diz ser Deus: o amor!

Quem diz que alguém, de outra religião, precisa se converter, João dá a dica:

"e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus"

Converter-se, para o cristianismo, é nascer de novo. Nascer em Deus. Logo, para João, quem ama, nao precisa se converter, pois já nasceu de Deus e o conhece.

Se o amor está presente na maioria das religiões, e se Deus é amor, então, Deus é a única coisa presente em todas as religiões. Como não ser ecumênico?Não sei!

Vocês viram que eu tentei... mas não sei como não ser...

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