terça-feira, 30 de agosto de 2011

Para a Nossa Inesquecível Bruna

Seria muito bom poder falar isso a você, nossa mascote (como tantas vezes te chamei rs). Espero que um dia eu possa fazer isso...

07/07/1989 - 26/08/2011
Somente Deus pôde entender sua dor
Não há outro capaz de sentir
Um amor que vai além da vida,
Um amor que compreende e cura 

Qualquer ferida

Somente Deus pode nos confortar
Privados de sua alegria e fala

Está dolorido, menina
Mas onde estiver, livre das dores,
Saberá que sempre foi amada

Sei que o amor é mais forte
Do que todo sofrimento, dores
E do que a própria morte
O amor perdoa nossas falhas
É o suporte de tudo que há
Quem por ele é tocado,

Ainda que morra, viverá
E Ele, novamente, 

Um dia, a você, nos unirá

Saudade... muita saudade...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Como não ser ecumênico (minha tentativa frustrada)

Estou participando de um fórum de discussão, em um portal NÃO-OFICIAL de minha comunidade de fé (Metodista). E vi a necessidade de reescrever sobre esse tema.
Essa vai ser minha tentativa de abrir mão do ecumenismo:

Acho muito complicado unir pensamentos tão diferentes e deuses tão diferentes. Tá certo que ecumenismo nada tem a ver com uma só religião, quem pensa assim, de fato, está equivocado. Ecumenismo é unir as mãos apesar e mantendo as diferenças. Só que são tantas diferenças. Aliás, se quiseremos pensar em uma coisa que realmente é comum, em quase todas as religiões, seria o amor. Inclusive, o amor, é confessado até por ateus. Então, será que vale a pena dar a mão a alguém de outra religião simplesmente por causa do amor? Algo que é tão banal e tão comum em discursos até de políticos demagogos ou em canções meramente comerciais. Não acho que o amor mereça tanta atenção. 

Mas ai é que mora o problema... Quando penso sobre ecumenismo não consigo fugir da palavra "Amor". Essa simples e pequenina expressão que, dentro dos evangelhos e da tradição neotestamentária, recebe uma atenção volumosa, mesmo que seja tão banal para nós, hoje em dia. Mesmo que seja tão demodê e tão clichê. No novo testamento, é o foco.

Acredito que nenhuma atenção se tornou mais forte do que o corpus joanino, onde, na primeira carta  de João 4:6-7 afirma-se:

"Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.
Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor."

É o amor, e somente ele, o vínculo com Deus. Quando nossos irmaos afirmam que Cristo é o único caminho que conduz a Deus, João, de quem é dada a autoria do evangelho que faz essa afirmação, ousa nos explicar que Jesus é esse amor. Pois, somente o amor é capaz de ligar alguém a Deus. Aliás, para João quem ama já está com Deus, pois Deus é amor.

Estar com Deus é, necessariamente, amar. Esse é o critério cristão-primitivo. Os próprios discípulos de Paulo afirmam: o amor é o vínculo da perfeição; E o próprio diz: permaneçam a fé, a esperança e o amor. Esse três. Mas, dentre eles, o amor é o maior. E no mesmo lugar onde Paulo afirma a superioridade do amor, ele também afirma o que é esse dom Divino (que é o próprio Deus).

Assim enxergo o amor como dom do Espírito (expressão paulina).

O Amor é o próprio Deus que se dá ao ser humano, penetra no coração humano, selando-o com o que mais Divino existe na vida terrena. O Amor é o próprio Deus presente e atuante. Não há como separar Deus do amor e nem o amor do Deus de Jesus Cristo. Portanto, é o amor, segundo Cristo, a única coisa que diz que somos seus discípulos. A prática desse amor assinala a ligação com Deus e com seu Filho.

É por amor que Cristo é enviado. Podemos dizer que o Cristo é o envio do amor de Deus para a criação, pela criação. Deus se doa por inteiro pois o amor não compreende "semi-entregas". Mas dedicação total e entrega total.

Considerando que esse dom, presente no ser humano, é o vínculo com Deus, Paulo ousa dizer: 

"Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor." Rm 13:9-10

"Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." Gl 5:14

A exigência de ritos, moralismo, monocultaralismo, etnocentrismo, cristianismocentrismo morrem, diante de tais afirmações.

Como não ser ecumênico diante dessas palavras? Como exigir que o outro seja como eu, quando, na realidade, amar é aceitar o outro com toda sua diferença? Como confirmar as atitudes que transformam as pessoas em objetos, diante dessas palavras?

Alguém, que, infelizmente, vive uma vida hipócrita e puramente demagoga, diria: se é somente amar, vou fazer isso e aquilo e dane-se, eu amo, entao tenho Deus e posso fazer!

Esse é o problema da liberdade! As pessoas, sem amor, fazem mau uso dessa coisa maravilhosa que temos! Desse lindo dom de ser livre, dado por Deus! É preciso segurar Deus! Limita-lo à minha compreensão, pois, assim, impeço esses abusos. E Deus, do amor, torna-se um ídolo sem sensibilidade, sem tato, sem compreensão, duro e de coração gelado. Incapaz de compreender as culturas, as religiões e suas expressões sinceras que procuram, de alguma forma, acertar a religação com ele.

E o cristianismo é, somente, mais uma dessas tentativas! O evangelho, contudo, superior ao cristianismo, afirma:
"A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo." Tg 1:27

Não existem outras religiões que assim o fazem? Não há outras confissões que confirmam o amor como a verdadeira perfeição? Não é o amor a única coisa que, na maioria das religiões, se confessa aquilo que nos une? Em ritos, em dias especiais, em cultos, em festas, mudamos completamente, de confissão em confissão. Mas, nessas confissões cuja prática religiosa nos separa, existe aquilo que é ensinado e que nos une: amai!

E, voltando para João, Deus é amor!
Incrível, mas a única coisa realmente comum, nas religiões é, precisamente, aquilo que o evangelho diz ser Deus: o amor!

Quem diz que alguém, de outra religião, precisa se converter, João dá a dica:

"e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus"

Converter-se, para o cristianismo, é nascer de novo. Nascer em Deus. Logo, para João, quem ama, nao precisa se converter, pois já nasceu de Deus e o conhece.

Se o amor está presente na maioria das religiões, e se Deus é amor, então, Deus é a única coisa presente em todas as religiões. Como não ser ecumênico?Não sei!

Vocês viram que eu tentei... mas não sei como não ser...

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quando falam o que gostaria de dizer...

"Muitos estranham o fato de que, sendo teólogo e  filósofo de formação, me meta em assuntos, alheios a estas disciplinas como a  ecologia, a política, o aquecimento global e   outros.

Eu sempre  respondo: faço, sim, teologia pura,  mas me ocupo também de outros temas exatamente porque sou teólogo. A tarefa do  teólogo, já ensinava o maior deles, Tomás de Aquino, na primeira questão da  Suma Teológica é: estudar Deus e sua revelação e, em seguida, todas as demais  coisas “à luz de Deus”(sub ratione Dei), pois Ele é o princípio e o fim  de tudo.

Portanto, cabe à teologia ocupar-se também de outras  coisas que não Deus, desde que se faça “à luz de Deus”. Falar de Deus e ainda  das coisas é uma tarefa quase irrealizável. A primeira: como falar de Deus se  Ele não cabe em nenhum dicionário? A segunda, como refletir sobre todas as  demais coisas, se os saberes sobre elas são tantos que ninguém individualmente  pode dominá-los? Logicamente, não se trata de falar de economia com um  economista ou de política como um político. Mas falar de tais matérias na  perspectiva de Deus, o que pressupõe conhecer previamente estas realidades de  forma critica e não ingênua, respeitando sua autonomia e acolhendo seus  resultados mais seguros. Somente depois deste árduo labor, pode o teólogo se  perguntar como elas ficam quando confrontadas com Deus? Como se encaixam numa  visão mais transcendente da vida  e da história?

Fazer teologia não é uma tarefa como qualquer outra  como ver um filme ou ir ao teatro. É coisa seríssima pois se trabalha com a  categoria”Deus” que não é um objeto tangível como todos os demais. Por isso, é  destituída de qualquer sentido, a busca da partícula “Deus” nos confins da  matéria e no interior do “Campo Higgs”. Isso suporia que Deus seria parte do  mundo. Desse Deus eu sou ateu. Ele seria um pedaço do mundo e não Deus. Faço  minhas as palavras de um sutil teólogo franciscano,  Duns Scotus (+1308)  que escreveu:”Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não  existe”. Quer dizer, Deus não é da ordem das coisas  que podem ser  encontradas e descritas. É a Precondição e o Suporte para que estas coisas  existam. Sem Ele as coisas teriam ficado no nada ou voltariam ao nada. Esta é   a natureza de Deus: não ser coisa mas a Origem das  coisas.

Aplico a Deus como Origem aquilo que os orientais  aplicam à força que permite pensar:”a força pela qual o pensamento pensa, não  pode ser pensada”. A Origem das coisas não pode ser  coisa.

Como se depreende, é muito complicado fazer teologia.  Henri Lacordaire (+1861), o grande orador francês, disse com razão:”O doutor  católico é um homem quase impossível: pois  tem de conhecer  todo o  depósito da fé e os atos do Papado e ainda o que São Paulo chama de os  ‘elementos do mundo’, isto é tudo e tudo”. Lembremos o que asseverou René  Descartes (+1650) no Discurso do Método, base do saber moderno:” se eu  quisesse fazer teologia, era preciso ser mais que um homem”. E Erasmo de  Roterdam (+1536), o grande sábio dos tempos da Reforma, observava:”existe algo  de sobrehumano na profissão do teólogo”. Não nos admira que Martin Heidegger  tenha dito que uma filosofia que não se confrontou com as questões da  teologia, não chegou plenamente ainda  a si mesma. Refiro isso não como  automagnificacão da teologia mas como confissão de que sua tarefa é quase  impraticável, coisa que sinto dia a dia.

Logicamente, há uma teologia que não merece este nome  porque é preguiçosa e renuncia a pensar Deus. Apenas pensa o que os outros  pensaram ou o que o que disseram os Papas.

Meu sentimento do mundo me diz que  hoje a  teologia enquanto teologia tem que proclamar aos gritos: temos que preservar a  natureza e harmonizarmo-nos com o universo, porque eles são o grande livro que  Deus nos entregou. Lá se encontra o que Ele nos quer dizer. Porque  desaprendemos a ler este livro, nos deu outro, as Escrituras, cristãs e de  outros povos, para que reaprendêssemos a ler  o livro da natureza. Hoje  ela está sendo devastada. E com isso destruímos nosso acesso à revelação de  Deus. Temos pois que falar da natureza e do mundo à luz de Deus e da razão.  Sem a natureza e o  mundo preservados, os livros sagrados perderiam seu  significado que é reensinarmos a ler a natureza e o mundo. O discurso  teológico tem, pois,  o seu lugar junto com os demais  discursos."


Leonardo e Clodovis Boff escreveram Como fazer  teologia da libertação Vozes 2010.

Quem Justifica?

É caminho comum a certeza de que os textos apocalípticos apontam para uma mensagem cifrada. Dentro disso, é bastante triste que alguém pense em Deus como um ser capaz de destruir toda a terra para fazer com que sua vontade prevaleça.

O que declara isso é outro caminho comum, que afirma que Deus se importa com sua criação. O salmista declara (sl 96):

"Alegrem-se os céus e exulte a terra, retumbe o oceano e o que ele contém,
regozijem-se os campos e tudo o que existe neles. Jubilem todas as árvores das florestas
com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade"
.

O autor de Jonas afirma:

"E então, não hei de ter compaixão da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e uma inumerável multidão de ANIMAIS?"

A Torah também demonstra respeito pela terra (Lv 25):

"Durante seis anos semearás a tua terra, durante seis anos podarás a tua vinha e recolherás os seus frutos.
Mas o sétimo ano será um sábado, um repouso para a terra, um sábado em honra do Senhor: não semearás o teu campo, nem podarás a tua vinha;
não colherás o que nascer dos grãos caídos de tua ceifa, nem as uvas de tua vinha não podada, porque é um ano de repouso para a terra."


Contudo, o que vejo, atualmente, é que o "apocalipse literal", tem se cumprido. Não como uma profecia vinda de algum livro ou de algum profeta, mas como cumprimento do desrespeito e da irresponsabilidade humanas.

Enquanto religiosos e superticiosos ficam à procura de cumprimento de Escrituras, eu, aqui, em meu lugar, fico perguntando: quem justificará? Sim, o protestantismo é filho dessa palavra "justificação". A justificação pela fé (sola fide) foi ponto chave para o grande reformador Martinho Lutero. Contudo, pergunto-me, atualmente, se não falta em nossos discursos outra exigência:

"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. "(Mt.520)

E, infelizmente, o que percebo é injustiça! Injustiça com a terra, com os animais, com a água e com tudo aquilo que nos foi dado gratuitamente pela Mãe Natureza. Já consumimos mais de 30% daquilo que Gaia consegue repor, e isso traz um sentimento desesperador, para mim. Vejo um "apocalipse tristemente literal" vindo no horizonte.

E cá estou a me perguntar: que justifica? Quem justificará aos animais que, indefesos, foram instintos? Quem justificará os golfinhos mortos de forma vergonhosa? Quem justifica nossos mares cobertos com o  "óleo da incompetência" e de lixos da irracionalidade? Quem justificará os cães tratados como inferiores? Quem mostrará o quanto os humanos tornaram-se opressores daqueles que, somente, gostariam de viver?

Quem? Não sou dado a canções gospel, pelo contrário, sinto-me bastante envergonhado com o que se canta por aí. Mas uma, não muito antiga, faz eco a dor desses animais, árvores e minerais que não podem ser ouvidos por nós:

"Quem vai ouvir a minha voz?
Quem vai enxugar as minhas lágrimas?
Quem? Quem?"

Há uma mensagem de consolo para a natureza, que inclusive já foi citada, e termino com ela, esperando que conscientize-nos a, pelo menos, respeitarmos Gaia e o Deus que lhe fez...

"Alegrem-se os céus e exulte a terra, retumbe o oceano e o que ele contém,
regozijem-se os campos e tudo o que existe neles. Jubilem todas as árvores das florestas
com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade"




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Demônio Gadareno - Mc 4:35-41 e 5:1-20 (uma "nova" idéia)

Antes de "encararmos" o demônio gadareno, cabe uma olhada na tempestade que Jesus e seus discípulos enfrentaram. Em um primeiro momento vale ressaltar que qualquer história narrada nos evangelhos é, antes de tudo, história teológica e, portanto, história interpretada à luz da fé no ressuscitado. O que quero dizer com isso? Nenhuma história é informativa. Não se está fazendo uma documentação sobre o ministério de Jesus e, tão pouco, uma biografia não autorizada de sua pessoa. Portanto, informações pessoais (casou? teve filhos? tinha uma comida preferida? foi ao banheiro?) não fazem, nem um pouco, parte da coleção de preocupações do autor. Sua preocupação é transmitir uma mensagem e não narrar uma história sobre Jesus que os leitores não conheçam.

Não se pode, por exemplo, imaginar que os leitores de Marcos já não conheçam a história da ceia (pois praticam o agápe = festa da comunhão e celebração da ceia) e nem a história da cruz e ressurreição (pois testemunham que o ressuscitado é o crucificado). Contudo, essas histórias são re-contadas no evangelho. É, portanto, totalmente coerente, procurar entender a mensagem marcana ou tentar atualiza-la para os nossos dias. Como história interpretada ou teologizada a mesma possui diversas chaves de leitura. Vamos à chave que proponho:

Como disse antes, vale rever alguns passos de Cristo antes do encontro com o demônio "legião". Após ensinar às  multidões, Jesus deseja ir para o outro lado do mar (ou lago). Com seus discípulos ele enfrenta uma grande tormenta. O mar e o vento vêem contra o barco. Resumidamente, Cristo está dormindo, é despertado, acalma a tempestade e o vento, e depois repreende seus discípulos por serem "tímidos".

Eis algumas "imagens" que precisam ser descriptografadas:

Mar

Sempre está associado à caos. Desde o Gn 1 até o Ap (a Besta que emerge do mar). Do mar vem o Império Romano. O mar representa as muitas nações (gentios); a ameaça, o perigo. Portanto, simplesmente enfrentar o mar é, por si, enfrentar o caos. O mar em tempestade potencializa o mal que o próprio mar (ou muitas águas) trazem.

Os cristãos estavam em meio à grande ameaça do império romano. Néro Cesar havia decretado perseguição e morte aos cristãos por conta do incêndio em Roma. Tácito, historiador "da época" nos relata o seguinte:

"Para acabar logo com as vozes públicas, Nero inventou os culpados, e submeteu a refinadíssimas penas aqueles que o povo chamava de cristãos, e que eram mal vistos pelas suas infâmias. O nome deles provinha de Cristo, que sob o reinado de Tibério fora condenado ao suplício por ordem do procurador Pôncio Pilatos. Momentaneamente adormecida, essa superstição maléfica prorrompeu de novo, não só na Judéia, lugar de origem daquele flagelo, mas também em Roma onde tudo que seja vergonhoso e abominável acaba confluindo e encontrando a própria consagração.
Foram inicialmente aprisionados os que faziam confissão aberta da crença. Depois, denunciados por estes, foi aprisionada uma grande multidão, não tanto porque acusados de terem provocado o incêndio, mas porque eram tidos como acesos de ódio contra o gênero humano.
Os que se encaminhavam à morte estavam também expostos à burla: cobertos de pele de feras, morriam dilacerados pelos cães, ou eram crucificados, ou queimados vivos como tochas que serviam para iluminar as trevas quando o sol se punha. Nero tinha oferecido seus jardins para gozar desse espetáculo, enquanto oferecia os jogos do circo e, vestido como cocheiro misturava-se ao povo ou mantinha-se hirto sobre o coche.
Embora os suplícios fossem contra gente culpada, que merecia tais tormentos originais, nascia por eles, um senso de piedade, porque eram sacrificados não em vista de uma vantagem comum, mas pela crueldade do príncipe".

O incêndio data de 64 d.C. O evangelho de Marcos, provavelmente, entre 65 e 70 da mesma época. Junto com esse "problema" da perseguição está a "revolta judaica" que culmina com a destruição de Jerusalém em 70. Portanto, cristãos (quer gentios ou judeus) possuem grande tormenta vinda do "mar" (império romano) para enfrentar.

E, nesse início, Cristo é apresentado como aquele que tem o poder sobre  o "mar" e sobre o vento. Portanto, os cristãos devem continuar lutando e perseverando na luta contra o mal, pois, do outro lado, existe o ser humano a ser liberto.

E o endemoninhado?

Diante do demônio que subjugava uma pessoa e que estava protegido pela tempestade. Cristo pergunta seu nome e recebe a seguinte resposta: Legião.

Essa resposta possui uma forte conotação política:

Uma legião é um corpo de soldados, cujo número difere em momentos diferentes. No tempo de Augusto parece ter consistido de 6.826 homens (6.100 soldados de infantaria e 726 cavaleiros). O que será que passou na mente de Marcos usar uma terminologia romana para definir quem eram os demônios (a palavra Legião é latina e não grega, que é o idioma que está escrito todo o texto de Marcos)? Quem são o mais de 6 mil soldados no corpo daquele homem? Será que Marcos não tem em mente uma denúncia política? Será que ele não quer dizer que os soldados romanos estão a serviço do mal? Será que Marcos não pensa em dizer que a presença romana na terra de Judá (ou em qualquer outra) na realidade deve ser vista como uma opressão? Será que a chegada do reino de Deus (a presença de Cristo naquela cidade depois de vencida a tormenta) não representa o reconhecimento romano de quem é o verdadeiro Senhor, e da mesma forma, sua rendição? A chegada do Reino de Deus não quer dizer, ao mesmo tempo, liberdade política e casando assim com a o fim da opressão religiosa? A expulsão dos demônios para dentro dos porcos não representa a denúncia de que os romanos trouxeram para os outros povos, no caso os judeus, práticas contrárias à cultura dos povos (a carne de porco é considerada imunda)? A expulsão ou o fim do império opressor (chegada do Reino de Deus) não representa liberdade de todo o sistema que destrói a identidade dos povos?

Penso que sim! Em um mundo de redescobrimento do sagrado, somos tentados a interpretar literalmente as linhas desse texto. Contudo, o que cabe é uma reflexão mais próxima da realidade dos nossos irmãos na época marcana.

Por meio desses textos são desafiados por Marcos a resistirem e lutarem para que o Reino de Deus seja de fato implantado. O império romano, que martirizou Pedro e Paulo (mortos pouco antes da redação do evangelho) e tantos outros cristãos no Coliseu, nas cruzes e queimados vivos, esse império opressor não detinha a última palavra. Por mais que pareça que Cristo adormece, que não ouve o clamar dos cristãos, ele está no mesmo barco e, inclusive, ele mesmo, foi martirizado pelo império que naquela época perseguia os cristãos. Cristo se identifica diretamente com os cristãos e, antes mesmo deles serem perseguidos pelo império, o seu Senhor já havia padecido "sob o poder de Pôncio Pilatos".

E hoje?

Como podemos compreender esse texto que incentivou e marcou profundamente o compromisso com o reino de Deus independente da situação ao redor? Quais são os sistemas opressores de nossos dias? Como eles influenciam nossa sociedade? Antes de tudo, assim como Marcos identifica no endemoninhado uma representatividade da opressão romana, devemos entender que a pobreza, a miséria e tudo aquilo que torna a vida das pessoas algo sem valor e sem esperança, na verdade, mexem não apenas na estrutura da sociedade, mas marca profundamente a separação do projeto Divino. Não podemos separar vida social de vida religiosa. Não dá para encararmos a frase: "estou sem comer mas minha vida espiritual está muito bem" como algo coerente. Se não há os elementos necessários à vida, então as pessoas estão vivendo longe do projeto divino. E isso não é culpa dos que assim estão. A culpa é justamente de "Roma". Desse sistema opressor que fere o desejo Divino. E a chegada do Reino de Deus é um anúncio do fim desse sistema coisificador e explorador.

O Reino de Deus não é algo meramente transcendental! O Reino de Deus é para um mundo de Deus. E esse mundo, com toda a contradição presente, é o mundo de Deus e aqui, primeiramente aqui, esse Reino deve ser implantado ou vivido. O Reino não se preocupa com a alma, apenas. Sua primeira preocupação é com a vida. E com a vida que temos. É por isso que Marcos anuncia que o Reino vem e o mal sai!

Contudo, na continuação do texto, encontramos as pessoas assustadas e não desejosas por esse reino. Pedindo, inclusive, que o portador da mensagem (Jesus) se retire deles. Fato é que, mesmo nos dias de hoje, há aqueles que estão acostumados em "como as coisas estão". Temem a mudança, por mais que ela pareça boa (o homem ficou são). Há os que não querem mexer naquilo que traz boa renda, ainda que seja símbolo, ou de fato seja a opressão (criadores de porcos). Rejeitam mexer naquilo que é mais seguro.

Anunciar e viver o reino de Deus é desejar uma mudança radical na estrutura da sociedade, no pensamento religioso, político e social. Desejar isso não é simplesmente concordar com a verdade dessa palavra. É, acima de tudo, lutar por isso. Portanto, Cristo pode ser rejeitado (os homens pediram para que ele fosse embora e, em outro momento, foi crucificado) mas aqueles que provaram os efeitos desse Reino em sua vida (o homem ficou são e desejou seguir a Cristo) são comissionados para, mesmo diante de um mundo que rejeita seu criador, anunciar a maravilhosa mensagem de libertação presente nesse reino. Cristo nos convida a mudar nosso estilo de vida, mas não apenas o estilo de vida pessoal, mas, acima de tudo, desafia para uma alteração radical na nossa vida em comunidade e em sociedade. Nosso desafio? Aceitarmos esse convite, encontrar quem assim também esteja disposto e, juntos, lutarmos por uma sociedade mais justa, mais libertadora.

E assim todos os "demônios" da opressão simbolizados pelas drogas, corrupções, roubos, explorações, opressões, estupros, desamor e etc, de fato, serão expulsos.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Deus que faz uma imagem de si

"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem (צלם = Tselem), conforme a nossa semelhança (תמונה = tĕmuwnah); e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra." GN 1:27

"Não farás para ti imagem (פסל = pecel) de escultura, nem semelhança (תמונה = tĕmuwnah) alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra;" (Deuteronômio 5:8)

"Lançareis fora todos os moradores da terra de diante de vós, e destruireis todas as suas pinturas; também destruireis todas as suas imagens (צלם = tselem ) de fundição, e desfareis todos os seus altos;"(Números 33:52)

Pode-se notar algo bem interessante nos três textos propostos para essa breve reflexão: todos falam de imagens e dois de semelhança.

O texto da criação do homem usa o termo Tselem para "imagem" e Temuwnah para "semelhança". Já o texto que condena a idolatria usa a expressão pecel para "imagem" (o correto seria ídolo), Temuwnah para semelhança. E o último, que fala sobre eliminar todos os ídolos de uma nação, volta a usar o termo "Tselem".

Em outras palavras, o Deus que condena imagens (Tselem) de idólos (Pecel), ele mesmo, cria sua própria imagem (Tselem) em nós.

Em tempos do novo testamento, quando cristãos reclamavam de não terem templos para cultuar, semelhante às outras religiões, Paulo afirma: 

"Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (I Cor 3.16)"

Assim sacia-se a necessidade de colocar Deus em uma casa. Fazendo, de nós mesmos, sua habitação.

Dessa mesma forma podemos encarar o passado. Muitos justificam a criação de imagens porque o ser humano precisa ver algo. É necessário observar "Deus" para que a nossa fé encontre alguma coisa "palpável". Dessa forma a Bíblia, os Santos (que não são feitos para idolatria, nisso defendo nossos irmãos católicos), os pastores, padres, papa, acabam assumindo um parte do sagrado. Porque "precisamos" tocar o Santo.

Talvez essa "necessidade" seja confirmada pelas Escrituras. Pois a tentação de se erguer ídolos é constante em Israel. O grande problema que quando se "toca" o sagrado, pode-se manipulá-lo. Dessa forma: o santo Antônio pode ser castigado enquanto eu não casar; a santidade do dízimo me permite acreditar que "terei tudo de volta em dobro"; a oração dessa ou daquela pessoa "santa" tem a fé necessária que eu não possuo; o que é dito por esse ou por aquele outro irmão tem mais peso pois este é "sábio".

Enfim, construir "imagens" de Deus é a forte tentação nossa. E ainda que tenhamos uma visão bem crítica com essas formas de idolatria, ainda assim, criamos nossa própria imagem de Deus. Ao conversarmos sobre esse ou aquele assunto encontraremos N divergências de opiniões sobre quem ou que é Deus.

Mas Deus tem sua própria imagem dele. Você e eu. Somos a imagem construída pelo próprio Deus que aponta para ele. Talvez na mesma intuição didática de Paulo, os antigos saciam a necessidade de se "ver" Deus apontando para todo o ser humano como a imagem e semelhança do que "está no céu".

E dessa forma ainda assim, impede-se o desejo de manipular a Deus ou o sagrado. Pois, como diz a célebre frase: cada pessoa é um universo. E assim, o universo misterioso, que é Deus, é perservado e, ao mesmo tempo, sua imagem se torna perceptível.

Nessa crença, nesse pensamento, anunciamos a necessidade de "cultuarmos uns aos outros" e de "adorarmos uns aos outros". Pois a imagem que carregamos é a imagem do Deus único. Nisto se denúncia que o desrespeito, o homicídio, o preconceito e a superioridade de uns em relação a outros é um pecado contra Deus.

Assim como no passado, onde a imagem apenas aponta para a divindade e não é ela própria, não somos a divindade, mas apontamos para ela. Portanto, qualquer "pecado" contra nós mesmos, ou contra o outro, Deus pode tomar como ofensa a ele mesmo. Do mesmo modo, qualquer benevolência feita a uma pessoa, Deus assume como sendo, por nós, abençoado. Assim confessa o texto de Mateus 24 a partir do versículo 34:

"(...)Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: (...)Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim."

Deus não está simplesmente naquele que o recebe. Mas em todo ser humano está a imagem Divina. Cabe a nós apontarmos para essa imagem.

Termino dizendo a frase que iniciei com um breve acréscimo:

O Deus que condena imagens (Tselem) de idólos (Pecel), ele mesmo, cria sua própria imagem (Tselem) em nós. Condena, portanto, porque a necessidade de vê-lo é saciada ao olharmos um para o outro. É em mim que você deve ver Deus e é em você que devo encontra-lo. Em nossa comunhão e respeito mútuos está o verdadeiro relacionamento com Deus.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Abandono...

 E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Marcos 15 : 34

Costumamos afirmar categoricamente que Deus não abandona a ninguém. Chegamos inclusive a dizer que, se nos sentimos abandonados é porque nos falta fé ou porque as dores do momento não nos permitem enxergar que, de fato, Deus está ao nosso lado. Há quem diga, utilizando o texto de Isaías, que os nossos pecados nos separam de Deus.

Como essas duas afirmações, nesse momento, nesse texto, parecem cair por terra:
  • O Cristo, exemplo de fé e confiança, em sua entrega total ao Pai, diz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?";
  • O cristo, exemplo de santidade, sem pecado, sem mácula, sofre o abandono, a separação de Deus.

Junger Moltmann, teólogo mundialmente conhecido, afirma que o grito de Jesus na cruz é a ferida aberta de toda teologia. E ao mesmo tempo, a ferida aberta no coração do Pai.

A partir daí, é possível aprender muitas coisas, contudo, dentre elas, eu gostaria de ressaltar, incluindo as duas afirmações já feitas, mais uma. E, assim, pensarmos sobre elas: Deus é todo-poderoso, logo, nada o atinge; Sentimo-nos abandonados por conta da nossa fraqueza de fé; Os nossos pecados nos afastam de Deus;

Deus é todo-poderoso, nada o atinge

Costumamos confirmar, sem prestar atenção no que falamos, confissões pagãs sobre Deus. É a visão de um Deus apático, cuja dor está longe do seu entendimento, que nos dificulta o seguimento de Deus. Conversando com um amigo, não faz muito tempo, ele dizia que Cristo era uma exceção, no que diz respeito a integridade, fidelidade e entrega a Deus e aos seres humanos.

Essa palavra me incomodou de verdade "exceção". Se Cristo é exceção, como posso segui-lo? Como conversei com uns jovens em aula de Escola Dominical, recentemente: afirmamos que a santidade e a perfeição devem ser buscadas, e ao mesmo tempo declaramos que são impossíveis de serem alcançadas. E mesmo sabendo que não podemos alcançar, continuamos dizendo para as pessoas: busquem! Como um cachorro que fica tentando morder seu rabo, ou alguém que tenta, em vão, morder seu cotovelo.

Não, Cristo não pode ser exceção. Deus não pode ser apático e tão pouco acima de toda dor, do contrário, não pode se identificar e nem entender minhas limitações. A cruz, ferida aberta no coração de Deus, nos mostra que Deus sente dores. Não é novidade que afirmamos, sem pensar e corretamente, que Cristo é Deus. Então, sem medo, podemos dizer: Deus morreu na cruz. Deus sentiu dor, solidão, desprezo, medo, dúvida, morte...

Sem medo afirmamos e corretamente, que Cristo é Filho de Deus, logo, o Pai, sente a dor de abandonar o Filho à morte. Sente à morte do Filho e sente profunda dor nisso. O Pai, onipotente, naquele momento, sente-se impotente: tem que deixar seu Filho morrer. Somente assim, poderia identificar-se com os pais que choram por seus filhos; compreender os filhos que, em vão, clamam por seus pais; só assim, o luto faria parte do próprio Deus; Somente dessa forma, nós, que muitas vezes nos sentimos abandonados por pais, amigos, ou mesmo Deus, poderíamos ser alcançados por Deus.

Cristo mergulha no abandono do Pai, para encontrar conosco, os abandonados.

Sentimo-nos abandonados por nossa fraqueza de fé

Mas há quem diga, que esse sentimento de abandono, presente em nós, é falta de fé, ou carência. Contudo, nao precisamos nos sentir mal e nem curvar nossas cabeças diante de afirmações como essas. O Filho de Deus! A fé verdadeira e encarnada! A Palavra de Deus feita homem, sentiu a dor do abandono: abandonado por amigos, rejeitado pelos que amava, traído pelo parceiro; Só tinha uma coisa em que se apoiava: Pai, se possível, passe de mim esse cálice, sem que eu beba, contudo, não seja como eu quero, mas sim, como tu queres.

O Filho obediente esperava que o amor do Pai fosse suficiente para poupá-lo. Era fácil entender isso: ele o Pai são um! O que ele sente de desejar livrar-se, certamente era, também, o desejo de Deus! E, de fato, o era, tanto que o ressuscitou. Mas, surpreendentemente, o Pai, o deixa só. O Pai o abandona. Esse é seu sentimento... Essa é a verdade que dói afirmar...

O Filho teve que mergulhar no sentimento de abandono, para, assim, compreender, viver, identificar-se e compadecer-se do nosso sentimento de abandono. Quando afirmamos que Deus não nos ouve, o Filho olha pra gente e nos entende. O Pai olha para o Filho e nos entende. O Pai não nos acusa de falta de fé, simplesmente nos ampara e nos deixa declarar que ele é um abandonador. Isso o fere, isso o faz recordar a cruz, isso o faz olhar os inocentes que morrem a todo momento. Isso toca em sua impotência! Isso toca em seu amor, mesmo nunca nos abandonando... o Pai nos entende e nos ampara.

Os nosso pecados nos fazem separação entre nós e o nosso Deus

Mas há quem diga, que o Pai silencia por conta de nossos pecados. E, como Jó, ficamos à procura do que fizemos para merecer tal abandono. Os sinceros, como Jó, se defendem e afirmam sua inocência. Os que não compreendem, se submetem e se acham pecadores merecedores do abandono. Outros se desviam, pois Deus não teve motivo para abandona-los.

O Filho de Deus, morreu... abandonado, ferido, humilhado. Assim morre um inocente. Indigno do castigo que sofreu. O castigo imputado para homens ruins, fora jogado nas costas de um inocente. O Cristo entende o que é ser caluniado, o que é o preconceito e entende o que é ser caçoado: 

Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e crê-lo-emos. Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus. (Mt 27:42.43)

Ele ouve isso dos sábios do seu povo, que entendem que Deus socorre àqueles que ama. Mas Deus não socorreu Jesus. Deus se viu impotente... A humanidade sempre rejeitou Deus. Quando matamos, quando enganamos, roubamos, insultamos, não fazemos o bem, nos calamos diante do mal... Deus é rejeitado. E, segundo a história bíblica, Deus, mesmo rejeitado pelo mundo e, particularmente, pelo seu povo, sempre, incansavelmente, estendeu a mão.

E, naquele momento, o mundo optou por matar a Deus. Deus não teve outra coisa se não permitir ser morto. Aceitar o fato de que pretendemos viver em um mundo sem sua presença. Ele entrou pelas portas do fundo, encarnando-se em um bebê, humilde. E nós o enxotamos como um cão. Deus não teve o que fazer, se não respeitar que preferimos matar seu Filho. Deus não tem marionetes. Tem filhos! E, se um filho optar mata-lo, ele não tem o q fazer, se não morrer e aceitar que seu filho faça isso. Deus ama tanto, mas tanto, que seu amor chega a aplicar-lhe uma armadilha: ainda que isso custe abandona-lo, Deus não interferirá em nossa liberdade. Deus não fará nada que possa, de alguma forma, interferir em nossa liberdade. E ainda que o matemos, ele ressurgirá, insistindo em querer estar conosco.

Seus pecados afastam de Deus, na medida de que eles crucificam seu Filho. Mas, "onde o pecado abundou, superabundou a graça.

É necessário que aprendamos a crer contra a descrença. A ter esperança, contra a desesperança. Porque Deus sabe o que é sofrer. Sabe o que é morrer. Sabe o que é ser rejeitado. Sabe o que é ser caluniado. Sabe o que é ser inocente e, ainda assim, ser condenado. Entende muito bem a injustiça da lei dos homens e o que é ter sua liberdade limitada pela ganância humana.

Deus sabe o que é ser humano e, essa experiência em nosso chão, aqui mesmo, na nossa liberdade e na nossa força de poder reconstruir um mundo melhor, Deus está conosco!