segunda-feira, 25 de julho de 2011

A volta daquele que não foi

A "volta de Cristo", lembro-me bem, durante um tempo, há anos, era o foco em diversas igrejas. Diversos filmes evangélicos de boas e más produções exploravam esse tema: Megido, Apocalipse, A Grande Tribulação, Arrebatamento e etc. Sem contar a "traumatizante" fita k-7 entitulada "A Última Trombeta", que era uma radio-novela que contava uma revelação que um "servo de Deus" teve sobre a grande tribulação. E esses filmes chegaram a produzir muita literatura também. Desde revistas em quadrinhos seguindo a temática muito próxima a Cavaleiros do Zodíaco até livros "teológicos" e de ficção (neste caso como a grande coleção "Deixados para trás").

Com o tempo o assunto foi esfriando. Acredito que a chegada do ano 2000 deva ter frustrado muitos leitores e consumidores dessas mídias, pois, embora nenhuma delas anunciasse o fim do mundo no início do novo milênio, a proximidade do ano 2000 deixou muita gente preocupada.

A temática voltou recentemente devido ao aquecimento global. Filmes como "O dia depois de amanhã" e "2012" seguem como os que trilham esse caminho. Agora, contudo, com outro foco. Um pouco mais ético-ecológico, buscando a consciência de se preservar a natureza.

Mas o discurso não empolga mais aos cristãos. Pelo menos àqueles que se encontram no Brasil. A não ser coisas realmente reais, como o tsunami no Japão ou a tragédia da Região Serrana, que geram nas pessoas uma "paz" do "cumprimento da palavra de Deus". Como se diz, normalmente: é... Jesus está voltando mesmo.

Porém, como já dito, o tema da "volta de Cristo", não é mais tão empolgante. A bem da verdade é que as pessoas se habituaram a negligenciar o mundo e saber que, em algum momento, Cristo cumprirá sua palavra e voltará. E uma preocupação com a realidade social e com a vida do e no planeta tem sido engavetada. Tudo isso por, talvez, coisificarem a "segunda vinda de Cristo". Por "concretizarem-na" nas pregações e saberem que, cabe a Deus, retirar-nos desse mundo turbulento e atribulado.

Mas sabe o que vejo, e com dor? A depreciação da mensagem do evangelho. Vejamos o que Mateus pensa sobre esse tema. Veremos o texto de Mateus por ser o primeiro evangelho a narrar um encontro com o Jesus Ressuscitado. O texto de Marcos -  primeiro evangelho a ser escrito - que contam as "mesmas" histórias são complementos que o livro recebeu depois da confecção dos outros (Mt, Lc e Jo). Vejamos a interpretação de Mateus:

"De novo dando Jesus um alto brado, expirou.
O véu do santuário rasgou-se em duas partes de alto a baixo, tremeu a terra, fenderam-se as rochas,
abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, já falecidos, foram ressuscitados;
e saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos."
(Mateus 27:50-53 - O dia da Ressurreição já ocorreu!)

"Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20);
"...e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém" (Mateus 28:20).

Para mim é bastante significativa a idéia de Mateus: Cristo já está presente, ou AINDA está presente entre nós; A ascenção se quer é mencionada por Mateus; A presença do Espírito de Deus, que para Lucas se cumpriu em no dia de Pentecostes, é a presença do próprio Jesus; A declaração de Jesus "É-me dado todo o poder no céu e na terra",  já designa a presença e chegada do Reino de Deus (para ele Reino dos Céus).

Mateus entende que o principado de Cristo já é real. E, por isso mesmo, o anúncio do evangelho é simplesmente comunicar para o ser humano de que Deus já os reconciliou consigo. Que não precisa-se mais ser sujeitado, escravo e oprimido por nada e nem por ninguém. Que Deus já, em Cristo, libertou a todos e salvou a todos.

A contínua pregação da "segunda vinda de Cristo" pregada, principalmente, por Paulo é apenas o meio ou a força que move os cristãos a continuarem anunciando a boa notícia. Paulo entende que esse Grande dia ainda não é pleno porque o mundo ainda não conheceu a mensagem libertadora de Deus. Que ensina a como convivermos em um mundo reinado por Cristo. O Senhorio do Filho de Deus já é presente no mundo. Desprezamos tal reinado, mas isso não quer dizer que ele já não exista. Por isso, o próprio Paulo, em uma forma anti-típica da designação senhoria de César (Imperatus Agusto Cesar), dá a Cristo um título de um senhorio superior e já presente: Senhor Jesus Cristo (Senhor sobre Todos Jesus Ungido).

A acomodação que reina por parte da igreja, que espera o reino de Deus em um outro "plano" em outra vida, diminui a força da mensagem da ressurreição, da proclamação da justiça e justificação oferecidas por Deus para os homens e para este mundo.

Mateus entende que esperar a vinda de Cristo traria uma desesperança muito forte. Estamos por volta do ano 80 de nossa era. Os judeus perseguem a doutrina cristã; o judaísmo tenta se recompor diante da queda de Jerusalém ocorrida dez anos antes; para isso se fecha e persegue aos cristãos; a grande tribulação ocorrida em 70 não trouxe Jesus das Alturas, como alguns cristãos esperavam. Criam que aquela dor anunciava a vinda do Messias. Mateus explica que houve uma má interpretação da promessa do retorno de Cristo: Cristo não precisa voltar, ele já está presente entre nós.

A esperança de um reino justo e eterno não deve ser mais "esperada", deve ser proclamada! Cristo já reina! Cristo já é Senhor dos céus e da terra! Cristo já ressuscitou (já veio)! Cristo, da Galiléia, isto é, da Terra (não dos céus!) já nos enviou a proclamar seu reinado.

Olhar para  o céu esperando que de lá Cristo venha, é esquecer de olhar para o chão, onde Cristo pisou, onde libertou os cativos, onde curou os doentes, onde morreu e onde sua ressurreição ocorreu.

Não olhemos para o céu esperando a chegada de Cristo. Olhemos para o chão e percebamos sua presença real e nítida aqui, entre nós!

2 comentários:

  1. O Anderson trindade tem razão ao dizer que o Silvio é um "herese". Só explica o significado da palavra pros leitores.

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