sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Encontro com o Ressuscitado

A ressurreição de Cristo é a base da fé cristã. Muitos textos do Segundo Testamento afirmam isso. Principalmente do "Corpus Paulino":

"Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis;
A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;
Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela;"(At 2.22-24)

"A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." (Rm 10.9)


"E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.
E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam.
Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens." 1 Cor 15.13-19

Os evangelhos também se preocupam bastante em narrar a ressurreição de Jesus. Inclusive salientado a ressurreição corpórea:

"E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações?
Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.
E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.
E, não o crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer?
Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel;
O que ele tomou, e comeu diante deles." (Lc 24.38-43)

"Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente." (João 20.37)

Enfim, a ressurreição é a força e esperança que movimentou a fé dos primeiros cristãos. Mas como podemos falar dessa ressurreição hoje? Em um mundo onde o mito e a realidade se misturavam, era possível falar que o corpo de cristo reanimou-se e que ele penetrou os céus em "corpo e alma" na sua ascensão - não relatada nem por Mateus e nem por João. Mas e hoje? Sabemos muito bem que se um homem voasse para o céu, estaria, provavelmente, voando até hoje e dificilmente chegaria em algum lugar. Sabemos, inclusive, que o céu não fica em cima, mas em torno da terra, de forma que, em qualquer lugar do mundo (queé um globo) olhar para o alto (que pode ser embaixo dependendo do ponto de vista), lá estará o céu.

Hoje é difícil compreender esses relatos. O que diremos das contradições? Jesus ressuscitou e se mostrou em Jerusalém (Lucas e Marcos) ou na Galiléia (Mateus)? Mostrou-se primeiro às mulheres? À Maria? Ou a Pedro? Logo que se mostrou foi ao céu? Ou permaneceu mais 40 dias? Quem sãos os outros 500 irmãos que Paulo fala terem visto Cristo ressuscitado? O que Paulo quis dizer com: Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?

Tratando o Problema?

Consideremos o quadro abaixo, que relata as narrativas da aparição de Cristo:

Livro
Primeira Pessoa que Vê
Locais da Aparição
Quantidade de Vezes que aparece
Ascensão
Mateus
Maria Madalena e a outra Maria
Em Jerusalém: às mulheres;
Na Galiléia: aos onze.
Duas vezes
Não Relata
Marcos
Maria Madalena
Jerusalém (presumível)
Três Vezes
Relata
Lucas

Evangelho
Dois discípulos a caminho de Emaús ou a Pedro?
Jerusalém
Três Vezes
Relata
Atos
Não relata
Jerusalém
Fica quarenta dias com os discípulos.
Relata
João
Maria Madalena (mas o discípulo amado, sem ver Cristo ressuscitado, é o primeiro a crer)
Jerusalém
Tiberíades
4 vezes
Não Relata
Primeira Carta aos Coríntios (texto mais antigo)
Lista de Aparições:
1.        Cefas (Pedro);
2.        Aos DOZE;
3.        Mais de 500 irmãos;
4.        Tiago;
5.        Todos os apóstolos.
6.        Paulo;
Não relata;
6 vezes
Não Relata

Como harmonizar tanta diferença??? Acredito que a melhor coisa a se fazer não é tentar harmonizar essa "bagunça". É fato que Mateus conhecia o relato de Marcos. Assim como Lucas teve contato com relato de Marcos e de Mateus. Da mesma forma não se pode ignorar o conhecimento de João sobre os outros textos. Mesmo cientes de que estavam escrevendo relatos divergentes, se mantiveram firmes nessa decisão. Por que?

Como a comunidade antiga interpretava, a seu modo, a ressurreição de Cristo? Há uma certa harmonia no relato de Paulo e de Mateus. Ambos, que não relatam as ascenção, afirmam que Cristo já reina em nosso mundo. Como compreender o sentido dessas palavras?

O próprio Paulo entende a ressurreição como corpórea, mas não o mesmo corpo, ele chama de σῶμα πνευματικόν (sōma pneumatikón) - Corpo Espiritual - em oposição ao σῶμα ψυχικόν (sōma psichikós) - Corpo Natural.

Os próprios relatos do aparecimento demonstram um misto de corpo natural (pode ser tocado, se alimenta, as marcas da ferida são visíveis) e um corpo diferente (desaparece, entra em lugares fechados, é elevado aos céus).

Não há como não fugir da conclusão de que tais relatos são necessariamente figurados. Um texto antigo, do evangelho apócrifo de Pedro, conta nesses termos a ressurreição:

"Quando os saoldados viram isso, foram acordar o centurião e os anciãos, pois também esses se encontravam aí para vigiar. E, enquanto ainda narravam tudo o que tinham visto, viram três homens que saíam do sepulcro, servindo dois de apoio a um terceiro, e uma cruz seguia atrás deles. A cabeça dos dois primeiros tocava até o céu, enquanto a do terceiro ultrapassava-o. Ouviram uma voz, vinda do céu, clamar: 'Pregaste aos que dormem?'. Da cruz ouvia-se uma resposta: 'Sim'."

O Jesus "cabeçudo" do apócrifo de Pedro não nos "escandaliza". Afinal, por preconceito, argumentamos: é apócrifo! Por que o "cabeçudo apócrifo" é desprezado, mas o que se "teletransporta (Lucas), o que aparece no meio dos discípulos em um quarto fechado (João), o corpo que não é reconhecido pelos discípulos (Lucas e João), que voa, como um super-homem, ao céu e com essa viagem chega a Deus (Marcos e Lucas), canônico" não nos gera a mesma desconfiança?

Uma crença que não busca conhecer-se, que aceita as histórias bíblicas como factuais ou plenamente reais corre sério risco de adulterar a mensagem da fé que a própria bíblia defende.

Em uma coisa devemos acreditar e aceitar, pois foi estipulada como regra pelos "criadores" da fé: o crucificado é o ressuscitado. A base da fé é a ressurreição de Cristo. Como isso deve ser compreendido é outra coisa. Mas a ressurreição é real! Segundo Paulo, em corpo espiritual. Que é de uma forma diferente e completamente misteriosa.

Não é a animação do corpo natural, como nas histórias da filha de Jairo, Lázaro, o filho da viúva de Naim ou Dorcas. Nesse caso, usando os termos paulinos, o corpo natural (corruptível) foi reanimado. No caso de Cristo, semeou-se corpo natural (morreu), ressuscitou-se corpo espiritual. Uma harmonia estranha e criada, possivelmente, por Paulo. Corpo é matéria. Faz parte do reino material. Logo, "corpo espiritual" é uma declaração harmonioza entre matéria e espírito; entre imanente e transcendental; entre o objetivo e subjetividade; entre o mundo material e o mundo das idéias.

Nesses termos Paulo está sendo, completamente, figurativo e rompendo com o conhecimento que nos é possível alcançar. Em outras palavras, Paulo está declarando que a ressurreição de Cristo é real, e, por si, também, misteriosa.

O mesmo Paulo declara ter visto o Senhor. E se coloca como um dos que viu Cristo ressuscitado. É como se - no caminho do "não-relato da ascensão" - Cristo estivesse presente no mundo (para Paulo cristo é Senhor do mundo) e apareceu a Paulo.

Vamos compreender o termo "ver", empregado por Paulo:

Paulo diz: "(...)Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?(...)"
                οὐχὶ Ἰησοῦν Χριστὸν τὸν κύριον ἡμῶν ἑώρακα

O termpo ver, trata-se do verbo: ὁράω = horaō
Cuja tradução pode ser:
1- a ver com a mente, perceber, saber;
2- para ver, ou seja, familiarizar-se com a experiência, a experiência

Na lista das aparições, o verbo que ele usa para a visão que todos tiveram, inclusive ele, é outro:
"E por derradeiro de todos foi visto também por mim, como a um abortivo."
ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί
O verbo é ὀπτάνομαι = optanomai       
Cuja tradução pode ser:
1- Permitir ser visto;

Na primeira trata-se de uma experiência pessoal e, por conta disso, não objetiva. Lembrando umas das narrações da conversão de Paulo: os que estavam com ele viam a luz, mas não ouviam a voz.

Na segunda o intuito é outro, é Cristo quem se revelou, quem se mostrou. Não é simplesmente "eu vi", e sim "ele se mostrou".

Essa experiência de encontrar com o Cristo vivo ainda é possível. A mesma experiência que os discípulos tiveram, é possível termos ainda hoje. Pois Cristo, ressuscitado, ainda se mantém presente no seu mundo. Para Lucas essa presença é o próprio Espírito Santo. O Espírito é o próprio Cristo (em Atos é chamado de Espírito de Jesus) presente, atuante e ressuscitado.

Óbvio que esse assunto dá "pano para a manga" e não cabe aqui em um post. Portanto, fica apenas a reflexão e a possível abertura para uma "nova" compreensão da ressurreição de Jesus.

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