segunda-feira, 4 de julho de 2011

Não-tolerando a intolerância (Por um discurso ecumênico)

Estou convencido de que a Escritura Sagrada é o maior exemplo de ecumenismo que conhecemos. Nela estão unidas diversas formas de compreensão de quem é Javé. Muitas visões que chegam a ser inconciliáveis, conseguem, contudo, compor nosso livro de fé.

É justamente a partir desse ponto que deveríamos considerar (ou reconsiderar) nossa posição diante não apenas de nossos irmãos católicos, mas de N outras formas de religar Deus e a criação.

O que diz o Primeiro Testamento?

Na tradição bíblica podemos evocar a grande tensão que existe entre a Sabedoria Clânica Tribal e a Teologia da Retribuição (Jó). Teologia esta que deve ser encarada como a oficial do sacerdócio levítico (Esdras/Neemias e Crônicas). Da mesma forma podemos ver a visão mais solidária com os outros povos (Jonas, Rute e Amós) em oposição à exclusividade da eleição de Israel, presente em alguns textos do tetrateuco (Gn-Nm), Crônicas e Esdras/Neemias.

O que diremos pois de salmos do Saltério que exaltam o caráter violento, como o “Salmo dos Desterrados”, por exemplo (137)?

Se continuarmos a buscar, encontraremos divergências de diversas formas dentro dos próprios profetas. Contudo, lado a lado, estão convivendo na bíblia. Isso porque, embora de opiniões diferentes, consideram o mesmo objetivo: O projeto de Deus.

O que diz o Segundo Testamento?

No Ambiente do Segundo Testamento vigora a tensão entre os discípulos de Paulo, que revogam a Lei pela Fé e os discípulos de Tiago que a confirmam pela mesma Fé.

Saduceus – que não criam em anjos, nem demônios e nem visões – de um lado e fariseus – que admitiam todas essas coisas – de outro. Ainda que sendo fortemente rivais na idéia, o livro de Atos nos diz que a assembléia que julgava Paulo era composta por esses dois grupos. De certa forma, os grupos co-existiam e estavam juntos julgando um mesmo assunto.

O próprio Cristo ensina a seus discípulos a tolerarem diferenças (Lc 9:49-50):

"E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco.

E Jesus lhes disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós."


O que diremos da epístola de Judas que cita um texto não canônico (O livro de Enoque)? Devemos rejeitar a epístola que animou nossos irmãos no passado a se manterem firme na fé, simplesmente porque o autor considerou inspirado um texto que a igreja e o judaísmo não canonizaram?

E hoje?

Amo a Bíblia justamente por causa dessa pluralidade. Pluralidade que confessa a crença em um único Deus. Pluralidade que confessa a unidade. Opiniões diferentes que caminham lado a lado.

Em nível bem mais próximo,é possível falarmos em ecumenismo entre duas vertentes protestantes: calvinista (Presbiteriana) e armíniana (Metodista). Duas posições tão diferentes quanto ao entendimento da graça de Deus não impedem, contudo, de que as mesmas denominações se chamem de irmãs.

Valendo-me de uma canção de Paul Mccartney & Stevie Wonder:

"Ebony and ivory live together in perfect harmony
Side by side on my piano keyboard, oh lord why don't we?"

"Ébano e marfim vivem juntos em harmonia perfeita.
Lado a lado no teclado do meu piano,
oh Senhor, porquê nós não?"(tradução minha)

Entendo que a canção fala do preconceito entre pigmentações da pele. Porém amplio essa dúvida dolorosa para a bíblia e diria assim:

"(Rute, Jonas, Amós) e (Esdras/Neemias Crõnicas), Paulo e Tiago vivem em perfeita harmonia na minha bíblia. Lado a lado testemunhando a unidade e o amor. Oh, Senhor, porquê nós não?"

Levanto essas questões sem propor uma resposta. Como quem apenas procura trazer ao pensamento a necessidade de se pensar e repensar a fé de forma inclusiva. Seguindo o pensamento do fundador do metodismo sobre o quanto a divisão é nociva:

"Portanto, de ambos os lados (Católicos e Protestantes), somos menos prontos a ajudar-nos mutuamente e mais propensos a prejudicar um ao outro. Daí se destrói completamente o amor fraternal; e cada grupo, encarando o outro como monstro, dá lugar à ira, ao ódio, à maledicência, a todo o sentimento inamistoso, o que freqüentemente tem resultado em barbaridades desumanas, quase desconhecidas entre os pagãos".

É triste como que o passado se mostra mais "mente aberta", mais "moderno" do que nosso presente.

No amor ecumênico - redundância (des)necessária -,
Silvio

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