segunda-feira, 25 de julho de 2011

Deus como Carne e Carne como Deus

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.(...)
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."


O texto que narra a crença na encarnação do Verbo de Deus, se encontra no "hino da Encarnação", no primeiro capítulo do Evangelho Segundo João. Do hino todo, gostaria de comentar, de forma breve e um pouco superficial, o primeiro verso: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" e o último: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade".

As palavras que importam para uma reflexão melhor são: princípio, Verbo, "se fez carne", habitou, vimos, graça e verdade.

Essas palavras nos ajudam a aprofundar fortemente o caráter da mensagem cristã sobre a doutrina da encarnação. Revelam, inclusive, a compreensão cristã, do século I da nossa era, sobre Deus. Vamos às palavras:

Princípio (ἀρχή = arché): O sentido dessa palavra está diretamente ligada ao "início de todas as coisas", a "causa ativa de tudo", ou ainda o primeiro lugar. Para um pensamento mais científico, seria aquilo antes do "big-bang". Ou anterior ao anterior do big-bang. Nas palavras de são Tomaz de Aquino: a causa primeira de todas as coisas, que nunca foi causada. Está para além do tempo. Não é simplesmente o marco zero, pois o marco zero possui um começo. "Ἐν ἀρχῇ" (No princípio), aponta para a eternidade antes do tempo. E diz, que lá estava o Verbo. Ou melhor, ele era o próprio princípio. O verbo é o antes de tudo.

Verbo (λόγος = logos): Heráclito usou pela primeira vez o termo "Logos" por volta de 600 antes da nossa Era. Para ele tinha o sentindo da razão divina ou plano que coordena um universo em mudança. Philon, filósofo Judeu, de Alexandria, usava o termo para designar a própria Sabedoria de Deus. O Logos seria, em um discurso judaico, a Sabedoria louvada em Provérbios 8.12-26. Desde que Deus existe, já existia a sabedoria, a razão, a "palavra". Traduzir como verbo, ou palavra diminui bastante a força da expressão. Entendamos, então, "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" como: "Antes que houvesse tempo, antes que tudo viesse a existir, naquele lugar/momento/ser que tudo passou a existir, a razão, a sabedoria, a ordem do universo era, é e sempre será. Estava  com Deus e era Deus".

Confessa-se, primeiramente, a eternidade de Deus. O ser que nunca foi criado e criou tudo. O ser que nunca foi gerado e tudo gerou.

Se fez (γίνομαι ginomai): entrar em existência, passar a ser.

Carne (σάρξ = sarx): a natureza física do homem como sujeito ao sofrimento, geração natural. Denota mera natureza humana, a natureza terrena do homem, propensa ao pecado e oposta a Deus.

Portanto, "se fez carne" é entrou em existência em natureza física sujeito ao sofrimento a depreciação natural.

Aquele ser transcendental e atemporal, tornou-se limitado. Passou a existir. É como se ele primeiramente, estivesse antes da existência e, portanto, nao "existia", sempre esteve e sempre foi. Passou, agora, para o "plano da existência" e, com isso, propenso à inexistência (fim, morte).

Habitou (σκηνόω = skēnoō): tabernacular. Tem o sentido de morar, viver em. Criou seu tabernáculo (entre nós). O ser atemporal, existente antes da existência, sempi-terno, limitou-se tornando-se temporal e fez seu tabernáculo entre nós. Viveu entre nós. Esteve com a gente. Tornou-se alcançável e sensilvemente perceptivel.

Vimos (θεάομαι = theaomai): olhar antentamente, visitar alguém, encontrar uma pessoa, perceber, observar. O autor afirma que "encontramos com a sua glória", "visitamos seu tabernáculo e lá reparamos sua glória". Apesar de limitado e temporal, foi facilmente perceptível, ao "encontrar-se com ele", ver quem ele era. Observamos atentamente que tinha a glória de Deus nele.

Graça (χάρις = charis): favor, boa vontade, benevolência. Havia muita boa vontade nele (cheio de graça). Apesar de tão grande, limitou-se. Mesmo limitado reparamos quem ele era (vimos sua glória). E, ainda assim, mesmo limitado, sendo tão grande, ainda tinha muita boa vontade para conosco. Estava pronto a nos dar seu favor, sua graça, seu amor incondicional.

Verdade (ἀλήθεια = alētheia): o que os judeus buscavam na lei mosaica; excelência pessoal;livre de fingimento afetação, simulação, falsidade, engano. sinceridade da mente e integridade de caráter, ou um modo de vida em harmonia com a verdade divina.

Para que consigamos chegar perto do que esse dois versículos querem dizer, podemos traduzir o hino, de forma interpretativa, assim:

"Antes que houvesse tempo, antes que tudo viesse a existir, naquele lugar/momento/ser que tudo passou a existir, a razão, a sabedoria, a ordem do universo já existira. Estava  com Deus e era o próprio Deus.

E entrou no limite da existência humana. Sendo da mesma substância humana, se tornou limitado ao tempo e ao espaço. Definitivamente tornou-se humano. E fez seu tabernáculo entre nós. Viveu como um de nós, por tornar-se igual a nós. E quando o encontramos, e observamos atentamente, conseguimos perceber sua glória, sua majestade, sua excência esplendorosa. E era plenamente boa vontade e favor. Nele estava o objetivo de todo aquele que se aproxima da torah. Era o objetivo final do ser humano".


Muito mais do que confessar que Deus se fez humano, o texto procura comunicar Cristo como aquele que é capaz de unir a criação com seu criador. Nele mesmo as duas naturezas (Deus e humanidade) estão perfeitamente ligadas. Cristo é, para João, o modelo ideal de humanidade.

Nas palavras de Leonardo Boff: Humano assim como Jesus, só pode ser Deus mesmo. E o texto continua dizendo que todo aquele que o recebeu (λαμβάνω = lambanō: apropriar-se, tomar para si, não rejeitar, escolher para experimentar e etc ) deu lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, ou seja: deu-lhes o poder de serem feito como ele é.

Achegar-se a Cristo é tornar-se como ele. É, como ele, ser cheio da verdade e da graça Divinas. Será que podemos dizer, claramente, que de fato, NESSE CONTEXTO, recebemos o Cristo? Somos cheios da verdade e da graça divinas (respeitando a tradução de verdade e de graça já ditas)? Temos "visto" (encontrado com ele, visitado) e percebido sua glória em graça (boa vontade, amor sem condicionamento e sem reservas) e verdade (tem sido nosso objetivo amar e viver como ele)?

Vale a pena refletir se, realmente, somos como ele é ou se, pelo menos, para lá, temos caminhado.

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