sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Encontro com o Ressuscitado

A ressurreição de Cristo é a base da fé cristã. Muitos textos do Segundo Testamento afirmam isso. Principalmente do "Corpus Paulino":

"Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis;
A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;
Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela;"(At 2.22-24)

"A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." (Rm 10.9)


"E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.
E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam.
Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens." 1 Cor 15.13-19

Os evangelhos também se preocupam bastante em narrar a ressurreição de Jesus. Inclusive salientado a ressurreição corpórea:

"E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações?
Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.
E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.
E, não o crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer?
Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel;
O que ele tomou, e comeu diante deles." (Lc 24.38-43)

"Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente." (João 20.37)

Enfim, a ressurreição é a força e esperança que movimentou a fé dos primeiros cristãos. Mas como podemos falar dessa ressurreição hoje? Em um mundo onde o mito e a realidade se misturavam, era possível falar que o corpo de cristo reanimou-se e que ele penetrou os céus em "corpo e alma" na sua ascensão - não relatada nem por Mateus e nem por João. Mas e hoje? Sabemos muito bem que se um homem voasse para o céu, estaria, provavelmente, voando até hoje e dificilmente chegaria em algum lugar. Sabemos, inclusive, que o céu não fica em cima, mas em torno da terra, de forma que, em qualquer lugar do mundo (queé um globo) olhar para o alto (que pode ser embaixo dependendo do ponto de vista), lá estará o céu.

Hoje é difícil compreender esses relatos. O que diremos das contradições? Jesus ressuscitou e se mostrou em Jerusalém (Lucas e Marcos) ou na Galiléia (Mateus)? Mostrou-se primeiro às mulheres? À Maria? Ou a Pedro? Logo que se mostrou foi ao céu? Ou permaneceu mais 40 dias? Quem sãos os outros 500 irmãos que Paulo fala terem visto Cristo ressuscitado? O que Paulo quis dizer com: Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?

Tratando o Problema?

Consideremos o quadro abaixo, que relata as narrativas da aparição de Cristo:

Livro
Primeira Pessoa que Vê
Locais da Aparição
Quantidade de Vezes que aparece
Ascensão
Mateus
Maria Madalena e a outra Maria
Em Jerusalém: às mulheres;
Na Galiléia: aos onze.
Duas vezes
Não Relata
Marcos
Maria Madalena
Jerusalém (presumível)
Três Vezes
Relata
Lucas

Evangelho
Dois discípulos a caminho de Emaús ou a Pedro?
Jerusalém
Três Vezes
Relata
Atos
Não relata
Jerusalém
Fica quarenta dias com os discípulos.
Relata
João
Maria Madalena (mas o discípulo amado, sem ver Cristo ressuscitado, é o primeiro a crer)
Jerusalém
Tiberíades
4 vezes
Não Relata
Primeira Carta aos Coríntios (texto mais antigo)
Lista de Aparições:
1.        Cefas (Pedro);
2.        Aos DOZE;
3.        Mais de 500 irmãos;
4.        Tiago;
5.        Todos os apóstolos.
6.        Paulo;
Não relata;
6 vezes
Não Relata

Como harmonizar tanta diferença??? Acredito que a melhor coisa a se fazer não é tentar harmonizar essa "bagunça". É fato que Mateus conhecia o relato de Marcos. Assim como Lucas teve contato com relato de Marcos e de Mateus. Da mesma forma não se pode ignorar o conhecimento de João sobre os outros textos. Mesmo cientes de que estavam escrevendo relatos divergentes, se mantiveram firmes nessa decisão. Por que?

Como a comunidade antiga interpretava, a seu modo, a ressurreição de Cristo? Há uma certa harmonia no relato de Paulo e de Mateus. Ambos, que não relatam as ascenção, afirmam que Cristo já reina em nosso mundo. Como compreender o sentido dessas palavras?

O próprio Paulo entende a ressurreição como corpórea, mas não o mesmo corpo, ele chama de σῶμα πνευματικόν (sōma pneumatikón) - Corpo Espiritual - em oposição ao σῶμα ψυχικόν (sōma psichikós) - Corpo Natural.

Os próprios relatos do aparecimento demonstram um misto de corpo natural (pode ser tocado, se alimenta, as marcas da ferida são visíveis) e um corpo diferente (desaparece, entra em lugares fechados, é elevado aos céus).

Não há como não fugir da conclusão de que tais relatos são necessariamente figurados. Um texto antigo, do evangelho apócrifo de Pedro, conta nesses termos a ressurreição:

"Quando os saoldados viram isso, foram acordar o centurião e os anciãos, pois também esses se encontravam aí para vigiar. E, enquanto ainda narravam tudo o que tinham visto, viram três homens que saíam do sepulcro, servindo dois de apoio a um terceiro, e uma cruz seguia atrás deles. A cabeça dos dois primeiros tocava até o céu, enquanto a do terceiro ultrapassava-o. Ouviram uma voz, vinda do céu, clamar: 'Pregaste aos que dormem?'. Da cruz ouvia-se uma resposta: 'Sim'."

O Jesus "cabeçudo" do apócrifo de Pedro não nos "escandaliza". Afinal, por preconceito, argumentamos: é apócrifo! Por que o "cabeçudo apócrifo" é desprezado, mas o que se "teletransporta (Lucas), o que aparece no meio dos discípulos em um quarto fechado (João), o corpo que não é reconhecido pelos discípulos (Lucas e João), que voa, como um super-homem, ao céu e com essa viagem chega a Deus (Marcos e Lucas), canônico" não nos gera a mesma desconfiança?

Uma crença que não busca conhecer-se, que aceita as histórias bíblicas como factuais ou plenamente reais corre sério risco de adulterar a mensagem da fé que a própria bíblia defende.

Em uma coisa devemos acreditar e aceitar, pois foi estipulada como regra pelos "criadores" da fé: o crucificado é o ressuscitado. A base da fé é a ressurreição de Cristo. Como isso deve ser compreendido é outra coisa. Mas a ressurreição é real! Segundo Paulo, em corpo espiritual. Que é de uma forma diferente e completamente misteriosa.

Não é a animação do corpo natural, como nas histórias da filha de Jairo, Lázaro, o filho da viúva de Naim ou Dorcas. Nesse caso, usando os termos paulinos, o corpo natural (corruptível) foi reanimado. No caso de Cristo, semeou-se corpo natural (morreu), ressuscitou-se corpo espiritual. Uma harmonia estranha e criada, possivelmente, por Paulo. Corpo é matéria. Faz parte do reino material. Logo, "corpo espiritual" é uma declaração harmonioza entre matéria e espírito; entre imanente e transcendental; entre o objetivo e subjetividade; entre o mundo material e o mundo das idéias.

Nesses termos Paulo está sendo, completamente, figurativo e rompendo com o conhecimento que nos é possível alcançar. Em outras palavras, Paulo está declarando que a ressurreição de Cristo é real, e, por si, também, misteriosa.

O mesmo Paulo declara ter visto o Senhor. E se coloca como um dos que viu Cristo ressuscitado. É como se - no caminho do "não-relato da ascensão" - Cristo estivesse presente no mundo (para Paulo cristo é Senhor do mundo) e apareceu a Paulo.

Vamos compreender o termo "ver", empregado por Paulo:

Paulo diz: "(...)Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?(...)"
                οὐχὶ Ἰησοῦν Χριστὸν τὸν κύριον ἡμῶν ἑώρακα

O termpo ver, trata-se do verbo: ὁράω = horaō
Cuja tradução pode ser:
1- a ver com a mente, perceber, saber;
2- para ver, ou seja, familiarizar-se com a experiência, a experiência

Na lista das aparições, o verbo que ele usa para a visão que todos tiveram, inclusive ele, é outro:
"E por derradeiro de todos foi visto também por mim, como a um abortivo."
ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί
O verbo é ὀπτάνομαι = optanomai       
Cuja tradução pode ser:
1- Permitir ser visto;

Na primeira trata-se de uma experiência pessoal e, por conta disso, não objetiva. Lembrando umas das narrações da conversão de Paulo: os que estavam com ele viam a luz, mas não ouviam a voz.

Na segunda o intuito é outro, é Cristo quem se revelou, quem se mostrou. Não é simplesmente "eu vi", e sim "ele se mostrou".

Essa experiência de encontrar com o Cristo vivo ainda é possível. A mesma experiência que os discípulos tiveram, é possível termos ainda hoje. Pois Cristo, ressuscitado, ainda se mantém presente no seu mundo. Para Lucas essa presença é o próprio Espírito Santo. O Espírito é o próprio Cristo (em Atos é chamado de Espírito de Jesus) presente, atuante e ressuscitado.

Óbvio que esse assunto dá "pano para a manga" e não cabe aqui em um post. Portanto, fica apenas a reflexão e a possível abertura para uma "nova" compreensão da ressurreição de Jesus.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A volta daquele que não foi

A "volta de Cristo", lembro-me bem, durante um tempo, há anos, era o foco em diversas igrejas. Diversos filmes evangélicos de boas e más produções exploravam esse tema: Megido, Apocalipse, A Grande Tribulação, Arrebatamento e etc. Sem contar a "traumatizante" fita k-7 entitulada "A Última Trombeta", que era uma radio-novela que contava uma revelação que um "servo de Deus" teve sobre a grande tribulação. E esses filmes chegaram a produzir muita literatura também. Desde revistas em quadrinhos seguindo a temática muito próxima a Cavaleiros do Zodíaco até livros "teológicos" e de ficção (neste caso como a grande coleção "Deixados para trás").

Com o tempo o assunto foi esfriando. Acredito que a chegada do ano 2000 deva ter frustrado muitos leitores e consumidores dessas mídias, pois, embora nenhuma delas anunciasse o fim do mundo no início do novo milênio, a proximidade do ano 2000 deixou muita gente preocupada.

A temática voltou recentemente devido ao aquecimento global. Filmes como "O dia depois de amanhã" e "2012" seguem como os que trilham esse caminho. Agora, contudo, com outro foco. Um pouco mais ético-ecológico, buscando a consciência de se preservar a natureza.

Mas o discurso não empolga mais aos cristãos. Pelo menos àqueles que se encontram no Brasil. A não ser coisas realmente reais, como o tsunami no Japão ou a tragédia da Região Serrana, que geram nas pessoas uma "paz" do "cumprimento da palavra de Deus". Como se diz, normalmente: é... Jesus está voltando mesmo.

Porém, como já dito, o tema da "volta de Cristo", não é mais tão empolgante. A bem da verdade é que as pessoas se habituaram a negligenciar o mundo e saber que, em algum momento, Cristo cumprirá sua palavra e voltará. E uma preocupação com a realidade social e com a vida do e no planeta tem sido engavetada. Tudo isso por, talvez, coisificarem a "segunda vinda de Cristo". Por "concretizarem-na" nas pregações e saberem que, cabe a Deus, retirar-nos desse mundo turbulento e atribulado.

Mas sabe o que vejo, e com dor? A depreciação da mensagem do evangelho. Vejamos o que Mateus pensa sobre esse tema. Veremos o texto de Mateus por ser o primeiro evangelho a narrar um encontro com o Jesus Ressuscitado. O texto de Marcos -  primeiro evangelho a ser escrito - que contam as "mesmas" histórias são complementos que o livro recebeu depois da confecção dos outros (Mt, Lc e Jo). Vejamos a interpretação de Mateus:

"De novo dando Jesus um alto brado, expirou.
O véu do santuário rasgou-se em duas partes de alto a baixo, tremeu a terra, fenderam-se as rochas,
abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, já falecidos, foram ressuscitados;
e saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos."
(Mateus 27:50-53 - O dia da Ressurreição já ocorreu!)

"Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20);
"...e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém" (Mateus 28:20).

Para mim é bastante significativa a idéia de Mateus: Cristo já está presente, ou AINDA está presente entre nós; A ascenção se quer é mencionada por Mateus; A presença do Espírito de Deus, que para Lucas se cumpriu em no dia de Pentecostes, é a presença do próprio Jesus; A declaração de Jesus "É-me dado todo o poder no céu e na terra",  já designa a presença e chegada do Reino de Deus (para ele Reino dos Céus).

Mateus entende que o principado de Cristo já é real. E, por isso mesmo, o anúncio do evangelho é simplesmente comunicar para o ser humano de que Deus já os reconciliou consigo. Que não precisa-se mais ser sujeitado, escravo e oprimido por nada e nem por ninguém. Que Deus já, em Cristo, libertou a todos e salvou a todos.

A contínua pregação da "segunda vinda de Cristo" pregada, principalmente, por Paulo é apenas o meio ou a força que move os cristãos a continuarem anunciando a boa notícia. Paulo entende que esse Grande dia ainda não é pleno porque o mundo ainda não conheceu a mensagem libertadora de Deus. Que ensina a como convivermos em um mundo reinado por Cristo. O Senhorio do Filho de Deus já é presente no mundo. Desprezamos tal reinado, mas isso não quer dizer que ele já não exista. Por isso, o próprio Paulo, em uma forma anti-típica da designação senhoria de César (Imperatus Agusto Cesar), dá a Cristo um título de um senhorio superior e já presente: Senhor Jesus Cristo (Senhor sobre Todos Jesus Ungido).

A acomodação que reina por parte da igreja, que espera o reino de Deus em um outro "plano" em outra vida, diminui a força da mensagem da ressurreição, da proclamação da justiça e justificação oferecidas por Deus para os homens e para este mundo.

Mateus entende que esperar a vinda de Cristo traria uma desesperança muito forte. Estamos por volta do ano 80 de nossa era. Os judeus perseguem a doutrina cristã; o judaísmo tenta se recompor diante da queda de Jerusalém ocorrida dez anos antes; para isso se fecha e persegue aos cristãos; a grande tribulação ocorrida em 70 não trouxe Jesus das Alturas, como alguns cristãos esperavam. Criam que aquela dor anunciava a vinda do Messias. Mateus explica que houve uma má interpretação da promessa do retorno de Cristo: Cristo não precisa voltar, ele já está presente entre nós.

A esperança de um reino justo e eterno não deve ser mais "esperada", deve ser proclamada! Cristo já reina! Cristo já é Senhor dos céus e da terra! Cristo já ressuscitou (já veio)! Cristo, da Galiléia, isto é, da Terra (não dos céus!) já nos enviou a proclamar seu reinado.

Olhar para  o céu esperando que de lá Cristo venha, é esquecer de olhar para o chão, onde Cristo pisou, onde libertou os cativos, onde curou os doentes, onde morreu e onde sua ressurreição ocorreu.

Não olhemos para o céu esperando a chegada de Cristo. Olhemos para o chão e percebamos sua presença real e nítida aqui, entre nós!

Deus como Carne e Carne como Deus

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.(...)
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."


O texto que narra a crença na encarnação do Verbo de Deus, se encontra no "hino da Encarnação", no primeiro capítulo do Evangelho Segundo João. Do hino todo, gostaria de comentar, de forma breve e um pouco superficial, o primeiro verso: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" e o último: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade".

As palavras que importam para uma reflexão melhor são: princípio, Verbo, "se fez carne", habitou, vimos, graça e verdade.

Essas palavras nos ajudam a aprofundar fortemente o caráter da mensagem cristã sobre a doutrina da encarnação. Revelam, inclusive, a compreensão cristã, do século I da nossa era, sobre Deus. Vamos às palavras:

Princípio (ἀρχή = arché): O sentido dessa palavra está diretamente ligada ao "início de todas as coisas", a "causa ativa de tudo", ou ainda o primeiro lugar. Para um pensamento mais científico, seria aquilo antes do "big-bang". Ou anterior ao anterior do big-bang. Nas palavras de são Tomaz de Aquino: a causa primeira de todas as coisas, que nunca foi causada. Está para além do tempo. Não é simplesmente o marco zero, pois o marco zero possui um começo. "Ἐν ἀρχῇ" (No princípio), aponta para a eternidade antes do tempo. E diz, que lá estava o Verbo. Ou melhor, ele era o próprio princípio. O verbo é o antes de tudo.

Verbo (λόγος = logos): Heráclito usou pela primeira vez o termo "Logos" por volta de 600 antes da nossa Era. Para ele tinha o sentindo da razão divina ou plano que coordena um universo em mudança. Philon, filósofo Judeu, de Alexandria, usava o termo para designar a própria Sabedoria de Deus. O Logos seria, em um discurso judaico, a Sabedoria louvada em Provérbios 8.12-26. Desde que Deus existe, já existia a sabedoria, a razão, a "palavra". Traduzir como verbo, ou palavra diminui bastante a força da expressão. Entendamos, então, "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" como: "Antes que houvesse tempo, antes que tudo viesse a existir, naquele lugar/momento/ser que tudo passou a existir, a razão, a sabedoria, a ordem do universo era, é e sempre será. Estava  com Deus e era Deus".

Confessa-se, primeiramente, a eternidade de Deus. O ser que nunca foi criado e criou tudo. O ser que nunca foi gerado e tudo gerou.

Se fez (γίνομαι ginomai): entrar em existência, passar a ser.

Carne (σάρξ = sarx): a natureza física do homem como sujeito ao sofrimento, geração natural. Denota mera natureza humana, a natureza terrena do homem, propensa ao pecado e oposta a Deus.

Portanto, "se fez carne" é entrou em existência em natureza física sujeito ao sofrimento a depreciação natural.

Aquele ser transcendental e atemporal, tornou-se limitado. Passou a existir. É como se ele primeiramente, estivesse antes da existência e, portanto, nao "existia", sempre esteve e sempre foi. Passou, agora, para o "plano da existência" e, com isso, propenso à inexistência (fim, morte).

Habitou (σκηνόω = skēnoō): tabernacular. Tem o sentido de morar, viver em. Criou seu tabernáculo (entre nós). O ser atemporal, existente antes da existência, sempi-terno, limitou-se tornando-se temporal e fez seu tabernáculo entre nós. Viveu entre nós. Esteve com a gente. Tornou-se alcançável e sensilvemente perceptivel.

Vimos (θεάομαι = theaomai): olhar antentamente, visitar alguém, encontrar uma pessoa, perceber, observar. O autor afirma que "encontramos com a sua glória", "visitamos seu tabernáculo e lá reparamos sua glória". Apesar de limitado e temporal, foi facilmente perceptível, ao "encontrar-se com ele", ver quem ele era. Observamos atentamente que tinha a glória de Deus nele.

Graça (χάρις = charis): favor, boa vontade, benevolência. Havia muita boa vontade nele (cheio de graça). Apesar de tão grande, limitou-se. Mesmo limitado reparamos quem ele era (vimos sua glória). E, ainda assim, mesmo limitado, sendo tão grande, ainda tinha muita boa vontade para conosco. Estava pronto a nos dar seu favor, sua graça, seu amor incondicional.

Verdade (ἀλήθεια = alētheia): o que os judeus buscavam na lei mosaica; excelência pessoal;livre de fingimento afetação, simulação, falsidade, engano. sinceridade da mente e integridade de caráter, ou um modo de vida em harmonia com a verdade divina.

Para que consigamos chegar perto do que esse dois versículos querem dizer, podemos traduzir o hino, de forma interpretativa, assim:

"Antes que houvesse tempo, antes que tudo viesse a existir, naquele lugar/momento/ser que tudo passou a existir, a razão, a sabedoria, a ordem do universo já existira. Estava  com Deus e era o próprio Deus.

E entrou no limite da existência humana. Sendo da mesma substância humana, se tornou limitado ao tempo e ao espaço. Definitivamente tornou-se humano. E fez seu tabernáculo entre nós. Viveu como um de nós, por tornar-se igual a nós. E quando o encontramos, e observamos atentamente, conseguimos perceber sua glória, sua majestade, sua excência esplendorosa. E era plenamente boa vontade e favor. Nele estava o objetivo de todo aquele que se aproxima da torah. Era o objetivo final do ser humano".


Muito mais do que confessar que Deus se fez humano, o texto procura comunicar Cristo como aquele que é capaz de unir a criação com seu criador. Nele mesmo as duas naturezas (Deus e humanidade) estão perfeitamente ligadas. Cristo é, para João, o modelo ideal de humanidade.

Nas palavras de Leonardo Boff: Humano assim como Jesus, só pode ser Deus mesmo. E o texto continua dizendo que todo aquele que o recebeu (λαμβάνω = lambanō: apropriar-se, tomar para si, não rejeitar, escolher para experimentar e etc ) deu lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, ou seja: deu-lhes o poder de serem feito como ele é.

Achegar-se a Cristo é tornar-se como ele. É, como ele, ser cheio da verdade e da graça Divinas. Será que podemos dizer, claramente, que de fato, NESSE CONTEXTO, recebemos o Cristo? Somos cheios da verdade e da graça divinas (respeitando a tradução de verdade e de graça já ditas)? Temos "visto" (encontrado com ele, visitado) e percebido sua glória em graça (boa vontade, amor sem condicionamento e sem reservas) e verdade (tem sido nosso objetivo amar e viver como ele)?

Vale a pena refletir se, realmente, somos como ele é ou se, pelo menos, para lá, temos caminhado.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Não-tolerando a intolerância (Por um discurso ecumênico)

Estou convencido de que a Escritura Sagrada é o maior exemplo de ecumenismo que conhecemos. Nela estão unidas diversas formas de compreensão de quem é Javé. Muitas visões que chegam a ser inconciliáveis, conseguem, contudo, compor nosso livro de fé.

É justamente a partir desse ponto que deveríamos considerar (ou reconsiderar) nossa posição diante não apenas de nossos irmãos católicos, mas de N outras formas de religar Deus e a criação.

O que diz o Primeiro Testamento?

Na tradição bíblica podemos evocar a grande tensão que existe entre a Sabedoria Clânica Tribal e a Teologia da Retribuição (Jó). Teologia esta que deve ser encarada como a oficial do sacerdócio levítico (Esdras/Neemias e Crônicas). Da mesma forma podemos ver a visão mais solidária com os outros povos (Jonas, Rute e Amós) em oposição à exclusividade da eleição de Israel, presente em alguns textos do tetrateuco (Gn-Nm), Crônicas e Esdras/Neemias.

O que diremos pois de salmos do Saltério que exaltam o caráter violento, como o “Salmo dos Desterrados”, por exemplo (137)?

Se continuarmos a buscar, encontraremos divergências de diversas formas dentro dos próprios profetas. Contudo, lado a lado, estão convivendo na bíblia. Isso porque, embora de opiniões diferentes, consideram o mesmo objetivo: O projeto de Deus.

O que diz o Segundo Testamento?

No Ambiente do Segundo Testamento vigora a tensão entre os discípulos de Paulo, que revogam a Lei pela Fé e os discípulos de Tiago que a confirmam pela mesma Fé.

Saduceus – que não criam em anjos, nem demônios e nem visões – de um lado e fariseus – que admitiam todas essas coisas – de outro. Ainda que sendo fortemente rivais na idéia, o livro de Atos nos diz que a assembléia que julgava Paulo era composta por esses dois grupos. De certa forma, os grupos co-existiam e estavam juntos julgando um mesmo assunto.

O próprio Cristo ensina a seus discípulos a tolerarem diferenças (Lc 9:49-50):

"E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco.

E Jesus lhes disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós."


O que diremos da epístola de Judas que cita um texto não canônico (O livro de Enoque)? Devemos rejeitar a epístola que animou nossos irmãos no passado a se manterem firme na fé, simplesmente porque o autor considerou inspirado um texto que a igreja e o judaísmo não canonizaram?

E hoje?

Amo a Bíblia justamente por causa dessa pluralidade. Pluralidade que confessa a crença em um único Deus. Pluralidade que confessa a unidade. Opiniões diferentes que caminham lado a lado.

Em nível bem mais próximo,é possível falarmos em ecumenismo entre duas vertentes protestantes: calvinista (Presbiteriana) e armíniana (Metodista). Duas posições tão diferentes quanto ao entendimento da graça de Deus não impedem, contudo, de que as mesmas denominações se chamem de irmãs.

Valendo-me de uma canção de Paul Mccartney & Stevie Wonder:

"Ebony and ivory live together in perfect harmony
Side by side on my piano keyboard, oh lord why don't we?"

"Ébano e marfim vivem juntos em harmonia perfeita.
Lado a lado no teclado do meu piano,
oh Senhor, porquê nós não?"(tradução minha)

Entendo que a canção fala do preconceito entre pigmentações da pele. Porém amplio essa dúvida dolorosa para a bíblia e diria assim:

"(Rute, Jonas, Amós) e (Esdras/Neemias Crõnicas), Paulo e Tiago vivem em perfeita harmonia na minha bíblia. Lado a lado testemunhando a unidade e o amor. Oh, Senhor, porquê nós não?"

Levanto essas questões sem propor uma resposta. Como quem apenas procura trazer ao pensamento a necessidade de se pensar e repensar a fé de forma inclusiva. Seguindo o pensamento do fundador do metodismo sobre o quanto a divisão é nociva:

"Portanto, de ambos os lados (Católicos e Protestantes), somos menos prontos a ajudar-nos mutuamente e mais propensos a prejudicar um ao outro. Daí se destrói completamente o amor fraternal; e cada grupo, encarando o outro como monstro, dá lugar à ira, ao ódio, à maledicência, a todo o sentimento inamistoso, o que freqüentemente tem resultado em barbaridades desumanas, quase desconhecidas entre os pagãos".

É triste como que o passado se mostra mais "mente aberta", mais "moderno" do que nosso presente.

No amor ecumênico - redundância (des)necessária -,
Silvio