terça-feira, 21 de junho de 2011

Em favor da esperança (i)mortal... (Ezequiel 37)

"Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados."

Qualquer pessoa que tenha um mínimo de senso crítico reconhece que nao vivemos bons dias. Não estou falando nada individualmente, mas como povo, como nação, como humanidade. Realmente as coisas não andam nada bem. Durante um bom tempo eu pensei viver desesperançoso. Acreditei  não haver mais salvação para a humanidade e  que não existiria limites para sua crueldade. Vivi decepcionado com meus "irmãos" e, pior, me identificava com eles.

Mas vi uma coisa... vi que a esperança, de fato, ainda existia em mim. Do contrário essas coisas não me abalariam mais! Se ainda me abalava, era porque havia algo em mim que esperava dias melhores ou uma situação melhor. Como diz Junger Moltmann: só se decepciona quem tem esperança.

Na blusa de um amigo eu vi uma frase escrita "um dia tudo será como deveria ser". Isso mexeu comigo. Apontou para uma realidade: as coisas não estão bem; E para uma esperança: elas estarão um dia.

Com isso aprendi que o provérbio "a esperança é a última que morre"  retrata a realidade do quão difícil é arrancar a esperança de um povo ou de uma pessoa. Precisaria a experiência ser mais do que traumática para fazer com que alguém passasse a esperar apenas o pior da vida, ou, para que cada maldade que viesse a ver ou ouvir, não lhe afetasse. Mesmo o suícida encontra, na morte, a esperança de por fim ao sofrimento. Dificilmente se consegue arrancar a esperança do coração humano, ainda que não seja impossível.

O texto de Ezequiel ousa dizer que o povo de Israel/Judá estava nessa situação: "pereceu nossa esperança". Quão forte e temível é essa declaração... O Reino do Norte havia sido destruído pelo Império Assírio. E o Reino do Sul estava devastado e a terra ferida,  por conta do cativeiro Babilônico. Em terra estrangeira, sem sua pátria, sem rei, sem templo, sem unidade do povo, sem identidade e, pq não dizer, sem o amor de Javé. Era como se sentiam e era como estavam.

O profeta Ezequiel vê todo o Israel como um vale de ossos secos. A visão é desesperançosa. Pessoas que antes andavam, conversavam, corriam e se alegravam, agora são mortos, sem alegria e sem esperança. A dor desse momento é sentida pelo poeta que descreve, anos depois a seguinte situação: 

"Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela terra por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem o menino e a criança de peito pelas ruas da cidade."(Lm 2:11)
"Os seus nobres eram mais puros do que a neve, mais brancos do que o leite, mais vermelhos de corpo do que os rubis, e mais polidos do que a safira.
Mas agora escureceu-se o seu aspecto mais do que o negrume; não são conhecidos nas ruas; a sua pele se lhes pegou aos ossos, secou-se, tornou-se como um pau.
Os mortos à espada foram mais ditosos do que os mortos à fome; porque estes morreram lentamente, por falta dos frutos dos campos.
As mãos das mulheres compassivas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo." (Lm 4:7-11)

"Com perigo de nossas vidas trazemos o nosso pão, por causa da espada do deserto.
Nossa pele se queimou como um forno, por causa do ardor da fome.
Forçaram as mulheres em Sião, as virgens nas cidades de Judá.
Os príncipes foram enforcados pelas mãos deles; as faces dos velhos não foram reverenciadas.
Aos jovens obrigaram a moer, e os meninos caíram debaixo das cargas de lenha.
Os velhos já não estão mais às portas, os jovens já deixaram a sua música.
Cessou o gozo de nosso coração; converteu-se em lamentação a nossa dança" (Lm 5: 9-15)

A pergunta é clara: "porventura viverão estes ossos?". Como saber? Como ter certeza se é possível? Como podemos ter certeza se a situação acima pode ter jeito? Quem ousaria dizer sinceramente que não há esperança, quando o nosso coração clama por ela?

Acaso o mundo tem jeito? Há amor no mundo? As crianças poderão andar seguras? Há como alguém, no mundo, não morrer de fome? Existe a possibilidade de extinguir a injustiça? Esse é o sentido atual da pergunta!

Para o profeta a pergunta representava se era possível o povo "reviver", ser como o povo forte de antes. Para nós a pergunta é se haverá possibilidade de um mundo mais justo e fraterno. O profeta não crê ser possível, mas se preserva de dizer o que pensa. Nem mesmo ele ousa acreditar ser possível, mas o desejo pela esperança, o faz apenas declarar: "Senhor Deus, tu o sabes". Todas as coisas apontam para declararmos ser impossível uma sociedade mais justa. Como um vale de ossos secos, nao possuímos em nós, aparentemente nada que possa dizer: há uma chance.

Contudo, há algo que nos motiva. E que, na frase da blusa de meu amigo está implícito: O que estamos vivendo não é o projeto de Deus. E pela primeira vez, na história bíblica, surge a expectativa da contrariedade da morte! O Espírito (Ruah) de Deus, o princípio de vida de Deus, a própria vida é mais forte do que a morte!

Tanto Israel como nós vivemos em épocas onde o bem parece ser muito mais fraco que o mal. A morte mata a vida, a fome destrói as forças, a saúde é facilmente vencida pela doença, os relacionamentos são descartáveis, o preconceito é mais presente do que a tolerância, as armas de fogo e o dinheiro compram a verdade, enfim, um verdadeiro vale de ossos secos!

Mas, o texto diz: resta uma esperança! Javé está em desacordo com essa situação! Não é a sua vontade, nunca foi!! Ele sempre estará pronto a revigorar nossas forças a devolver a paz que nos foi tirada ; a trazer à vida; a nos curar... Nos curar do mesmo mal que Renato Russo tinha: é só você (Deus) que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.

Para devolver a nós a alegria e a confiança de que a morte não terá a última palavra! Os corruptos não serão os detentores de nossas vidas. Resta esperança, há uma chance de vivermos "como tudo deveria ser". E assim como o profeta, crendo-descrendo, teve que profetizar, e assim, Deus e homem trabalhando para a revitalização do vale. Assim devemos entender que cabe a nós proclamarmos essa esperança, vivermos essa esperança e fazermos com que ela se torne real. A própria esperança brotando de nossas bocas e de nosso interior anunciará a vida que será produzida nos corações.

Ainda há esperança... "um dia tudo será como deveria ser".

3 comentários:

  1. Nossa foi tão bom ler esse texto...
    Me transmitiu esperença.

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  2. Quando eu olho para as atrocidades desse mundo, acho impossivel ter esperanças e lendo esse texto, pude relembrar as promessas de um futuro melhor, de que um dia tudo será como deveria ser... Penso tambem que muitas vezes acostumamos com as desgraças e nem sentimos saudade do que ainda vivemos, mas ainda há esperança, que Deus revitalize as nossas vidas, para q isso se torne real em nos e não nos conformemos com esse mundo!

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  3. Li o texto é muito bom podemos ter fé esperança que vai mudar.

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