quinta-feira, 19 de maio de 2011

SOBRE A OBSCURIDADE DA IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA

 Marcelo Carneiro 
Não sou de escrever sobre a Igreja. Não por covardia ou omissão, mas por achar que precisamos olhar mais para o mundo do que para dentro. Um sintoma de nossa doença está em ficarmos olhando exclusivamente para dentro, discutindo estruturas, pensando de forma mesquinha em como somos bonitos e estamos crescendo.
Prefiro estudar a Bíblia e falar e pensar sobre os problemas do mundo, os mesmos pelos quais o Evangelho foi pregado por um galileu – Jesus Filho de José - da pequena aldeia de Nazaré, situada a 6 km de uma antiga capital, Séforis, que fez missão de forma obstinada e que, muito mais pelo amor que demonstrou do que pelas curas e milagres que fez, foi reconhecido como o Messias, Filho de Davi, o Salvador, o Príncipe da Paz, o Filho de Deus. Mas pregar sobre ele dessa forma não dá ibope, é pregação fraca; evidenciar o amor é coisa de frouxo, num mundo de espertos. Mesmo assim prefiro falar e pensar sobre os problemas do mundo à luz do Evangelho de Jesus o Cristo.
O problema é que passei os últimos dias lendo e ouvindo palavras arrebatadoras de pastores de alma, e quando olho ao redor, o uivo que ouço dos lobos vestidos de cordeiros e as fanfarronices dos ladrões e salteadores me incomodam bastante. Por isso tenho que falar.
É assim que a Igreja Evangélica está crescendo no Brasil, como uma turba desenfreada, insana, um restolho do bom senso que não aceita o diferente, que alimenta o ódio e desrespeita a todos, menos aos líderes, esses sacrossantos seres que deixaram de ser pastores para se tornarem gerentes, com títulos que vão de Pastor a Paiapóstolo. São pessoas levadas pela ganância sórdida, sem nenhuma boa vontade (1 Pd 5.2). Como Jeremias profetizou – no sentido correto do termo, em que uma pessoa analisa criticamente, à luz da vontade divina, a realidade que a cerca, e não como adivinhação ou determinação de vontade própria – contra os pastores (Jr 23) que dispersam as ovelhas, não cuidando delas. Na verdade, ele diz que tais pastores se tornaram estúpidos (Jr 10.21). Também o profeta Ezequiel afirmou: “profetiza contra os pastores de Israel”.
Questionar essa liderança é rebeldia; pensar é deixar o diabo agir; discordar é estar endemoninhado. Mas vejam, quanta ironia: não são esses os antiecumênicos, que chamam a Igreja de Roma de Anticristo, Babilônia e tantas coisas mais? Como a chamam assim, se eles agem da mesma forma que acusam-na de agir? Agem como se o ministério pastoral fosse sacerdócio sacramental; ignoram a presença leiga na Igreja, por considerar massa de manobra e apenas para suprir as “necessidades” financeiras da Igreja; admitem e incentivam as crendices mais insanas, sob o pretexto de que a libertação precisa de um processo – não no sentido de uma elaboração, de uma reflexão, mas da repetição e da forçosa presença em sete semanas de unção, sem o quê o nome de Jesus – O NOME DE JESUS! – não terá efeito. Falam em salvação pela fé, mas impõem sobre os crentes cargas pesadas de ativismo religioso, condição básica para serem salvas.
Até quando, Senhor, subsistirão tais criaturas? Sei que tenho falhas, mas a mais hedionda de todas é se fazer de superior, trazer para si a glória que pertence somente a Deus, e deixar de lado o serviço, o amor ao próximo – não é amor ao crente, por favor!!! -, a humildade. Temo que estamos gerando o Anticristo, pelo fato de alimentarmos uma atmosfera tão doentia e insalubre – foi uma atmosfera parecida que permitiu a ascensão de Hitler, na Alemanha; as conseqüências ainda estão presentes hoje.
Essa Igreja Evangélica Brasileira é suis generis: usa a tecnologia da comunicação moderna, mas pensa e age como a Igreja medieval, que acusa de ter saído da direção divina. Não sei se esse texto muda alguma coisa, mas sem dúvida o desabafo me faz bem. Na verdade fiquei pensando se devia ou não lançar esse texto, mas depois escutei a voz do bom senso: se ninguém clamar, as pedras clamarão. E para quem acha que não falei do Metodismo Brasileiro, eu digo: ele não sai de minha cabeça. E infelizmente, acho que já foi contaminado por essa praga que infestou o Brasil.
Graça e Paz. A quem quiser receber.

 Marcelo Carneiro é Mestre em Novo Testamento e Professor de Exegese da Faculdade Metodista de Teologia 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Éden e o Vilarejo (re-criando a esperança)

Existem muitas chaves de leitura para o texto de Adão e Eva. Algumas possibilidades: entrada do mal no mundo; separação entre o homem e Deus; comparação entre o projeto de Deus e o projeto humano; responsabilidade do homem com a criação. Há, contudo, também, leiturar mais otimistas: o homem como co-criador; a perfeita comunhão do homem com a criação, como um projeto de Deus; Como o ser humano revelou-se um ser transcendental.

Eu, contudo, proponho outra chave de leitura. Como se vê, não é a única e tão-pouco a definitiva. Também não deve ser vista como uma invenção minha. Sigo uma tradição de grandes exegetas e teólogos.

Essas chaves de leituras são possíveis porque estamos diante de uma parábola. Logo, ela nao possui fim e si mesma. Ela sempre aponta para algo que está para além dela e, por ser linguagem figurada, para além do tempo de sua composição.

Para iniciar essa reflexão eu parto de uma música muito conhecida:

Há um vilarejo ali onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção

Tem um verdadeiro amor para quando você for

Já havia escrito um texto em que finalizava com essa canção. Contudo, sinto que ela representa algo tão importante que merece um destaque em uma reflexão.

Durante muito tempo a igreja cristã promoveu mais a violência do que a esperança; Mais a dor do que o amor. Isso nao se pode dizer apenas a partir de uma Igreja Católica da Idade Média. Mas sinto essas dores presentes, inclusive, nos discursos dos evangélicos em nosso país. Há quem culpe, por exemplo, os próprios países africanos pelos famintos, aidéticos e miseráveis que lá residem. Dizendo que Deus está dando a eles castigo pela idolatria. Há quem culpe o próprio nordeste pela seca que existe lá.

Ninguém consegue levar em conta a posição geográfica, a exploração e o descuido governamental em relação ao último. Muito menos olham para todo o passado escravocata, exploração sexual, divisão irregular das nações, roubos, estupros, coisificação do homem a que viveu o primeiro.

Há quem ainda ouse olhar para esses lugares e levantar a voz dizendo: assim diz o Senhor, se não se arrependerem de seus pecados, coisa pior virá!

Da mesma forma acredito que de um mal muito equivocado se encara o texto de Adão e Eva. Não creio que o autor seja um saudosista, que olha para trás e diz: veja como poderíamos ser. E joga pra cima de um casal, que cometeu um único erro, todo o mal que há no mundo.

Não consigo supor que o autor seja tão desanimado e tão sem forças ,para encarar o mundo de forma tão deprimida. Eu vejo alguém dizendo: há um vilarejo ali! Alguém apontando para uma esperança.

Primeiro precisamos localizar o lugar que está sendo anunciado. Não trata-se de um local localizável ao observamos um mapa do Oriente Médio. Um lugar de onde sai um rio que se divide em quatro braços sendo os rios Pisom, Giom,Tigre e Eufrates jamais será encontrado.

É necessário observar as dicas do autor e não sua viagem mitológica. Em termos mais atuais, este é o utópico (οὐ, "não" e τόπος, "lugar"). O lugar nenhum. Mas podemos identificar, pela descrição da qualidade da terra, sem chuva e árida, como a própria terra de Israel. O homem, originado da terra, nao pertence, contudo, ao Éden. Ele é colocado no Éden cuja tradução é "Delícias". Seria essa a terra de "mana leite e mel"? Da mesma forma Israel não era dessa terra que habitavam, passa a ser. Deus o colaca lá, nesse lugar de delícias.

Lá é instaurado o Tribalismo. Uma forma de organização social onde a igualdade e a produção para o bem da comunidade e da família é o mais importante. Trata-se de um ambiente onde não se tem o poder centralizado em um rei, muito menos a existência de um sacerdote para recolher dízimos. Tudo o que é produzido é consumido pela própria sociedade. Numa divisão de terra justa e igualitária. Onde está protegido o direito da viúva, do órfão e do estrangeiro. Sim, é um lugar de delícias. Um verdadeiro paraíso.

Tem-se liberdade para comer e plantar de tudo, inclusive da árvore de vida. Simbolizada pela aliança de Deus com o povo. Da mesma forma Deus não habita em um templo. Está lá, caminhando com essa gente na terra. Presente na sua criação e fazendo parte do realidade e do cotidiano do povo.

É o Deus dos patriarcas que caminha com seus filhos e está junto deles. Contudo, esse paraíso, essa situação ideal. Esse vilarejo, possui uma ameaça: a serpente. Essa que, mais tarde, os cristãos chamarão de Dragão, lá no livro do Apocalipse, e que, já no livro da Sabedoria, é associado ao Satanás.

Contudo, naquele momento, para o autor, ela é apenas um serpente. Não aponta para nenhum deus ou demônio. Pelo contrário, aponta para uma pessoa, ou melhor, para uma forma de governo (tal como o Dragão do Apocalipse): o governo de Salomão.

Salomão segue seu governo conforme a cultura e o jeito de governar do Egito. E é na cabeça de Faraó, na realidade da sua coroa, que encontramos uma imagem de uma serpente. É a cultura, o conhecimento e sabedoria egípcia que entra em contato com Israel. Salomão fez o povo "voltar ao Egito", sem sair de sua terra.

Diferente da imagem que fazemos, o governo de salomão possuiu rejeição total de todo o Israel. Somente as tribos de Judá e de Benjamim se mantiveram  fiéis a seu sucessor, após sua morte. Todas as outras procuram um novo rei, que os fizesse voltar ao Éden.

Salomão seduz e escraviza o povo: Javé está conosco! Não existe problema em se vestir ou em construir altares para os deuses do Egito e dos cananeus! Salomão escraviza o povo para que construa o templo a Javé, o templo dos deuses e o palácio real. Assim que morre o povo chega a pedir a seu filho que alivie o peso que seu pai havia colocado.

O autor denuncia que, por seguirem a Salomão, o povo caiu em desgraça: o castigo de comer do seu suor mostra a dor de camponés em ter que pagar os tributos, os dízimos, as oferendas e tudo o mais que produz, agora tem que dividir com o Rei e sua corte. Isso faz com que, para que se consiga alimento como antes, se trabalhe em dobro ou em triplo; Cabe às mulheres agora, serem objetos de seus maridos e devem gerar muitos filhos (multiplicar as dores de parto). o rei exige um exército numeroso e, por isso, incentiva, cultural e religiosamente que se tenha filhos e mais filhos. De fato Salomão possuiu um exército superior ao de Davi, sendo que nunca guerrou uma só vez em seu reinado.

Essas dores Israel sofre por seguir a serpente. Se considerarmos o Salmo 127 como autoria, realmente, do período salomônico, será que seu incentivo em construir o templo e em se ter muitos filhos não vêm desse incentivo religioso e cultural para escravizar o povo?

Mas o autor é esperançoso! Ele aponta para um descendente que pisará na cabeça da serpente! Alguém irá derrubar essa forma de governo faraônica. Que escraviza e humilha os pobres da terra. Enquanto isso não acontecer, o caminho à arvore da vida, antes aberto, está trancado.

O autor não é um saudosista! Provavelmente nem viveu nessa época de "Delícias". Mas ele conhece sua tradição. E uma voz lhe diz nos ouvidos: algo está errado! O projeto de Javé não é esse!

Baseado em sua crença ele aponta para um projeto real, possível e que está no desejo de todo ser humano: um paraíso. Ele entende que esse é o projeto de Deus. E luta contra o projeto salomônico e incentiva os outros a lutarem. Pois há uma esperançã! Há uma possibilidade e por ela devemos lutar. Não devemos esperá-la do alto, pois o alto já deixa claro que não gosta da situação atual. Cabe aos descendentes da mulher. Cabe ao próprio ser humano reconstruir o Éden e fazer com que o projeto de Javé reviva.

No início eu parti dos sofredores do Nordeste e da África. Fi-lo por ser o exato problema e opressão a que os pobres, da época do autor, e, quem sabe, ele mesmo, viviam.

A música da Marisa Monte aponta para um lugar. Assim como o conto de Adão e Eva, não é possível localizá-lo, se não dentro do próprio ser humano. Na sua capacidade criativa de fazer o bem e de sonhar com um mundo mais justo. A canção, tão otimista quanto a leitura do autor, aponta para uma possibilidade, onde todos podemos morar.

Não cabe aos céus a responsabilidade de consertar o que quebramos. Cabe a nós, como co-criadores, re-criar o paraíso. Ainda que não tenha existido em momento algum, sua existência utópica, por si só, aponta para a possibilidade da concretude de sua realidade.

Cabe a nós! Lembremo-nos, dentro de nós, dentro de cada um, há um vilarejo!