segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Experiência de (des)Crer (para o futuro teólogo)

A experiência teológica traz algumas crises. Óbvio que essas crises não podem ser vividas se não por meio de uma entrega total ao mistério. Pois acredito que tudo isso passe exatamente deste princípio: Deus é mistério.

O estudante de teologia, em primeiro, quando se encontra com conclusões que tornam aquilo que julgava tão importante como “sem importância”, ou pior, “inexistente”, um vazio lhe preenche a alma, o chão some... tudo, tudo aquilo que antes depositava sua fé se torna tão frágil como um castelo de areia.

As certezas sobre o que e quem é Deus são substituídas por perguntas existenciais e mesmo perguntas teologais. Como diz o professor Dr. Edson Fernando: vocês entraram nesse curso sabendo um pouco de Deus, e vão sair sem saber nada dele. Essa é a verdade da teologia: Deus, que é certo, torna-se mistério. O ser compreendido e plenamente revelado se torna o inalcançável que se revela e ainda assim sem condições plenas de realizar tal tarefa, posto que, segundo Agostinho: tudo o que dissermos sobre Deus não passará de uma visão opaca do que ele realmente é.

Assim é a experiência teológica: nos deixa sem chão. Mas não que com isso procure destruir tudo o que somos, ou mesmo, que seja nociva. A verdade é que a Teologia mostra que existem coisas mais importantes e um missão maior. Não aquela missão que a instituição impõe de evangelizar, evangelizar e evangelizar (no sentido técnico de tornar alguém evangélico). Porém, a missão que cabe a todo ser humano: levar esse mundo para aquilo que ele realmente pode ser e que a teologia ousa dizer ser vontade de Deus: fraternidade e justica, enfim, amor.

Mas antes de conseguir reerguer essa fé naquilo que é mais importante. o iniciante tem seus sentimentos e sua fé muito bem definida em uma canção que completará essa reflexão:

Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia...
Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha...

O trecho “Quando fui ferido” diz exatamente o que é sentido. O cristão nasce e cresce, ou converte-se em um ambiente em que verdades absolutas são ditas e revividas em testemunhos de fé. Entretanto, agora, milagres cridos mostram-se testemunhos mitológicos da fé; personagens factuais se revelam fictícios a realidade dos fatos dá lugar para a mensagem profunda de contos; guerras santas, antes proclamadas, mostram-se disputas tão somente políticas denunciadas em textos repletos de mística e figurações. Então, o que sobra é ferimento. Tudo muda. As verdades que eram muitas vão se acabando e não dá mais para se manter em paz e nem seguro como antes.

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...
Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais...

Esse refrão é perfeito! É aqui, neste momento, que o iniciante tem que tomar uma decisão. Diante de tantas novas verdades e de castelos destruídos, o que fazer? Normalmente os futuro teólogos são pessoas que, em sua comunidade de fé, já pregaram, ensinaram e são, em muitas vezes, considerados exemplos e mesmo possuem alguma autoridade de mestres da bíblia. Agora, contudo, descobrem que ensinaram, falaram e brigaram por coisas sem importância ou por verdades que são agora convidados pela razão da fé a abandonar. Em outras palavras: Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado.

A realidade é que a ignorância passa a ser desejada. Era tão bom quando não se sabia, quando não se conhecia e podia se ter o reconhecimento da igreja local. Nessa hora TODOS dizem: daria tudo por um modo de esquecer. Ou gostariam de reviver esse momento de segurança. No “escuro do meu quarto”, ou seja, na ignorância onde se era mais seguro e com mais certezas.

Alguns, nesse momento, mesmo sendo impossível esquecer, optam por voltar para a escuridão. Abandonam as luzes porque não vêem segurança nelas. Outros, contudo, continuam a caminhada, pois sabem que essa mudança poderá trazer vida no fim.

Não estou bem certo
Que ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...
Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia...

Essa estrofe só tem sentido para quem continuou a caminhada. E, a cada livro, a cada reflexão, a cada aula, desaprende e aprende. Sem saber se, lá na frente, conseguirá organizar tudo isso em sua mente. Certo que muitos perdem a fé, outros, contudo, aprendem a ser mais livres, mais capazes e encontram um novo dia. Esse novo dia representa a esperança da fé teologal, depositada no discurso dos profetas e na redescoberta do Jesus Cristo vivo, que se entregou a essa verdade nova: a do amor. Negando a verdade mentirosa do dogma engessado, que, muitas vezes, o estudante, antes, tomava como revelação divina.

Não, não tem como prometer nada ao estudante de teologia. Palavras não são capazes de consolá-lo. Não existe “macete” e nem segredo para se conseguir sorrir sem amargura. Essa descoberta depende dele mesmo, por meio do relacionamento com o sagrado e, principalmente, com a vida: dos outros, da criação e de si mesmo. A religião da teologia é essa: social, ecológica, racional e mística.

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