quarta-feira, 27 de abril de 2011

A entrada em Jerusalém (um anti-império)

Mc 11: 7-10
E levaram o jumentinho a Jesus, e lançaram sobre ele as suas vestes, e assentou-se sobre ele.
E muitos estendiam as suas vestes pelo caminho, e outros cortavam ramos das árvores, e os espalhavam pelo caminho.
E aqueles que iam adiante, e os que seguiam, clamavam, dizendo: Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor;
Bendito o reino do nosso pai Davi, que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas.

Esse trecho julgo ser muito interessante para uma breve reflexão. Mateus, tomando esse texto emprestado de Marcos, dá a ele uma outra interpretação, acrescentando que em Jesus se cumpria a promessa de Zacarias:

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta. Zacarias 9:9

Contudo, vale lembrar, que Marcos não dá nenhum sentindo de cumprimento de Escrituras nesse relato. É justamente com a ótica de Marcos que vamos trabalhar.

Marcos conta essa história como se fosse mais uma coisa que Jesus fez, independente de cumprimento de Escrituras ou não. Mas o que Jesus quis dizer com esse gesto? Qual é a sua mensagem? O que quer dizer com essa atitude?

Devemos, antes de tudo, para fazermos justiça ao texto, nos integrarmos sobre o momento em que Marcos narra que Jesus faz tal "entrada triunfal": estamos em Jerusalém, é a festa da páscoa se anunciando; Milhares de peregrinos da góla e de toda a Judéia se fazem presente; também está o Império Romano, representado por meio dos soldados e do Castelo de Herodes, naquele momento habitado por Pôncio Pilatos.

Era comum Pilatos desfilar,na festa, com toda pompa romana ,pelas ruas de Jerusalém. Exibindo o luxo e a superioridade romana sobre os povos, no caso os judeus, que subjugavam.

É de forma irônica que Jesus exibe um desfile diferente daquele. Um desfile humilde, sem luxo, que, contudo, diferente do de Pilatos, recebe toda a aclamação. O império representa a força, o poder e o fascínio. o Reino de Deus, nessa passagem, toma o caminho contrário: é humilde, de acesso a todos e é por todos louvado.

O texto, mais do que anunciar Cristo com "aquele que vem do Senhor", é uma crítica rasgada ao império. É um texto annti-imperalista, comum na tradição profética e que, nesse momento, recebe o colorido cristão.

Esse reino, contudo, no desenrolar da história de Marcos, desmascara os poderes opressores da religião e do estado, com a simplicidade da fala. Sem armas, sem violência, sem a "pax romana", esse Reino, que vem sob um jumentinho é o reino que desafia o império romano.

Contudo, esse Reino pacífico, que não exibe armas no seu desfile oficial, mas sim palmas; que não precisa da segurança do exército, mas está em contato direto com o povo oprimido, se identificando com ele; que não exibe luxo, mas identificação com o empobrecido, onde, para a própria locomoção do seu Rei, precisa-se pegar um animal emprestado; esse Reino pacífico, antitipo do império, é por esse mesmo império silenciado.

A não violência desse Reino, celebrada com "Hosanas" é justamente a razão de sua destruição, na cruz.

Mas, como esse Reino não tem fim, e não pode ser extinguido, recebe a renovação do discurso e da implantação através da fé na ressurreição. É essa fé que anima, fortalece e dá a Marcos força suficiente para anunciar, nesse texto, que, por mais que o império, na época marcana, tenha se tornado fortemente opressor contra judeus e contra cristãos, não existe razão para voltar atrás. Mesmo o rei sendo pelo império, morto, ele ressurge e o eco das canções continua a pertubar os ouvidos da insttiuição: hosana ao que vem em nome do Senhor.

Como se espera o advento do reino? Será que os discursos eclesiásticos atuais não tem feito com que os cristãos esperem um reino mais parecido com Roma do que com o Rei no Jumento?

Como Cristo entraria hoje em nossas cidades? Qual seria seu veículo? Como seria sua identificação com o povo empobrecido? Que críticas faria ao nosso desejo por poder? Assim podemos atualizar essa mensagem, respondendo essas perguntas de forma a satisfazer a fidelidade da visão que Marcos tem de Jesus: o reino de Deus! Simples demais para ser aceito pelo ser humano. Muito pouco atraente para quem gosta do luxo dos palácios e sempre rejeitado por aqueles que amam o poder.


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