quarta-feira, 30 de março de 2011

O Corpo

O cristianismo é oriundo do judaísmo. Esse fato é inegável. Aliás, os primeiros cristãos, na realidade, eram judeus - religiosamente falando - discípulos do Rabi Yeshua ben Yossef (Jesus filho de José). É bem verdade que tanto os cristianismo quando o judaísmo, segundo Gerd Theissen, procuraram, durante um período, cada vez mais, distanciar-se um do outro. Contudo mantendo sempre sua veia judaica: exaltando a Torah e os profetas; mantendo sua crença monoteísta em javé; e, por fim, respeitando a antropologia judaica.

É dentro dessa antropologia judaica que ficará nossa reflexão. Assim que Constantino declara o império como cristão, o cristianismo, desde então, se aproxima cada vez mais da cultura greco-romana. Seus filósofos passam a ser verdadeiros teólogos do cristianismo. Misturando, por vezes, o dualismo grego com o não-dualismo judaico.

Falar em não-dualismo judaico é, contudo, um pouco perigoso, já que a escritura apocalíptica se vale de muitos símbolos dualistas, fonte, acredita-se, do diálogo com a cultura helênica na época do Império grego. Contudo, ainda assim, vale a revisão do pensamento, pois, mesmo, em pequeníssimo nível, dualista, a cultura judaica possuia uma antropologia muito diferente da grega.

Os gregos dividiam o ser humano em três partes: corpo (soma), alma (psiquê) e espírito (pneuma).

Os judeus entendiam o corpo humano de forma integral. Não existe divisão. O corpo é a afirmação da própria pessoa.

Um pensamento interessante, que mostra como isso era diferente, se encontra em um texto muito conhecido, que narra um diálogo entre Sócrates e um dos seus discípulos no relato da morte de Sócrates:

"E purificação não vem a ser, precisamente, o que dissemos antes: separar do corpo, quanto possível, a alma, e habituá-la a concentrar-se e a recolher-se a si mesma, a afastar-se de todas as partes do corpo e a viver, agora e no futuro, isolada quanto possível e por si mesma, e como que libertada dos grilhões do corpo?

É muito certo, respondeu.

E o que denominamos morte, não será a liberação da alma e seu apartamento do corpo?

Sem dúvida, tornou a falar.

E essa separação, como dissemos, os que mais se esforçam por alcançá-la e os únicos a consegui-la não são os que se dedicam verdadeiramente à Filosofia, e não consiste toda a atividade dos filósofos na libertação da alma e na sua separação do corpo?

Exato. Sendo assim, como disse no começo, não seria ridículo preparar-se alguém a vida inteira para viver o mais perto possível da morte, e revoltar-se no instante em que ela chega?

Ridículo, como não?

Logo, Símias, continuou, os que praticam verdadeiramente a Filosofia, de fato se preparam para morrer, sendo eles, de todos os homens, os que menos temor revelam à idéia da morte. Basta considerarmos o seguinte: se de todo o jeito eles desprezam o corpo e desejam, acima de tudo, ficar sós com a alma, não seria o cúmulo do absurdo mostrar medo e revoltar-se no instante em que isso acontecesse, em vez de partirem contentes para onde esperam alcançar o que a vida inteira tanto amara – sim, pois eram justamente isso: amantes da sabedoria – e ficar livres para sempre da companhia dos que os molestavam? Como! Amores humanos, ante a perda de amigos, esposas e filhos, têm levado tanta gente a baixar voluntariamente, ao Hades, movidos apenas da esperança de lá reverem o objeto de seus anelos e de com eles conviverem; no entanto, quem ama de verdade a sabedoria, e mais: está firmemente convencido de que em parte alguma poder encontrá-la a não ser no Hades, haverá de insurgir-se contra a morte, em vez de partir contente para lá? Sim, é o que teremos de admitir, meu caro, se se tratar de um verdadeiro amante da sabedoria. Pois este há de estar firmemente convencido de que a não ser lá, em parte alguma poderá encontrar a verdade em toda a sua pureza. Se as coisas se passam realmente como acabo de dizer, não seria dar prova de insensatez temer a morte semelhante indivíduo?"

Para o pensamento grego morte é a liberdade da alma. O corpo limita, prende e impede a alma de alcançar a verdade. Esse pensamento, essa forma antropológica da divisão do ser humano, penetrou fortemente o cristianismo. De forma que os textos do Novo testamento, e mesmo alguns do Antigo, foram intepretados a partir dessa lógica: o corpo é mau.

Por isso, com muita facilidade, se interpreta erroneamente: a carne é má; obras do espírito e obras da carne; O espírito está pronto mas a carne é fraca. E, assim, como Sócrates, os cristãos demoninam ou secularizam o corpo, que deveria, por assim dizer, ser dinivizado.

Com essa dificuldade, de enxergar o corpo como algo bom, tudo que veio dele passou a ser desconsiderado e - porque nao dizer? - pecado. Sexo, sexualidade, sensualidade, erotismo são palavras que dificilmente um cristão recebe de forma boa. Ainda que, dentro do canôn cristão existam textos como o Cântico dos Cânticos.

Mas, como será que, dentro de uma cultura dualista, os cristãos conseguiriam reafirmar a integralidade do ser humano? Como em um mundo que rejeita o corpo, o cristianismo conseguiria falar da divinidade da matéria?

É nesse sentido que podemos dizer, sem medo, que o cristianismo é a religião do corpo. Que, de forma metafórica, literal ou mitológica o cristianismo nascente afirmava:

E o verbo se fez carne;
A santa ceia, onde bebemos o CORPO e o SANGUE de cristo;
A ressurreição, segundo Paulo, será corpórea: Corpos Espirituais (o que mais a frente comentaremos);
A igreja é o Corpo de Cristo;
O corpo é a habitação do Pai, do outro Consolador e do Filho, segundo o evangelho de João;
Cristo ressurge em Corpo;
O Corpo de Cristo é recebido no céu nas Ascenção. A matéria é recebida, assim, em um lugar espiritual;
A morte é encarada como "sono". O descanso corpóreo. E não como um momento em que a alma se livra de sua limitação.

Sim, muitos são os exemplos que apontam para o cuidado do cristianismo primitivo de nao se cair em um dualismo grego e, assim, rejeitar aquilo que era considerado criação de Javé, que tudo faz "bom".

Paulo, acredito eu, seja o que mais lutou ao lado dessa reafirmação corporal. Embora seja o que mais é utilizado para afirmar a dualidade. Mas vejamos um texto considerado autêntico de Paulo I Cor 15.

Paulo fala algo bem interessante: "Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual."

É engraçado que Paulo fale corpo espiritual. Porque isso em si mesmo parece uma contradição. Corpo é matéria, logo não pode, em momento algum, ser espiritual. Paulo eleva o valor da "segunda matéria", em que os mortos ressuscitarão. Um corpo novo, "sem corrupção", e nao um espírito. "Sem corrupção", seria melhor traduzido, dentro do nosso entendimento, como "sem o perigo da decomposição". Um corpo eterno. Por ser "corpo", obviamente, material.  Por ser espiritual, quer se dizer, no entendimento grego, superior ao atual.

Não quero, com isso, levantar ao pé da letra a idéia de uma ressurreição corpórea. A intenção não é essa, mas, sim, a afirmação da pessoa como um humano feito de carne. E nao de um humano espiritual, preso a uma carne.

Devemos ter paz com o nosso corpo e nos relacionarmos de forma positiva com ele. Dessa forma poderemos, de verdade, valorizar a vida terrena. E, assim, valorizar a criação visível de Deus. Abraçarmos a nossa vida com toda a nossa corporeidade. Entendermos que, com o corpo, podemos fazer coisas más, mas também, sentimos afeto, damos afeto, sentimos prazer, sorrimos. Nosso corpo é tudo o que fazemos. Ou, melhor, nós somos o nosso corpo. É essa a mensagem da valorização da matéria, que, por muito tempo, o cristianismo, influenciado pelo pensamento grego, perdeu de vista.