segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vivendo (s)em Deus

"Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus".

Essa frase pertence ao teólogo Dietrich Bonhoeffer. Acredito que possua um caráter "herético" aos ouvidos pouco treinados, no que diz respeito à teologia. Contudo, possui uma grande profundidade que merece uma reflexão atualizada, a partir da mesma expressão.

O grande problema é que, diante dessa afirmação de Bonhoeffer,podemos tomar, pelo menos, 3 atitudes:

1 - Desconsiderar e não conseguir ver a grandeza do pensamento teológico.

2 - Achar interessante esse pensamento, passar a racionalizar todas as experiências subjetivas da fé e, assim, perder a fé.

3 - Encontrar nesse pensamento um verdadeiro sentido para a fé cristã e a frase tornar-se um canal condutor a uma vida divinamente inspirada e liberta.

Para a nossa reflexão usaremos as três atitudes como base:


1 - Desconsiderar e não conseguir ver a grandeza do pensamento teológico.

O ser humano, como já dito outras vezes, sempre procurou controlar ou conhecer os mistérios que o cercam. Principalmente os que pertence a natureza. Longe de encontrar as explicações para esses fenômenos, apontou para uma divindade a responsabilidade de uma boa colheita, de bons pastos, de chuva, seca, terremoto, maremotos e etc.

Sempre os diversos fenômenos naturais foram vistos como obra de um ou mais seres divinos. Irritá-los geraria sempre a escassez ou o excesso destrutivo daquilo que o ser divino era responsável.

Contudo, o ser humano, como toda criança que um dia acredita em Papai Noel e, quando cresce, descobre que não passa de sua imaginação comum da idade, após séculos, viu que a natureza possui suas próprias leis que definem a intensidade desse ou daquele fenômeno.

Essa desmistificação já possui seus antepassados na tradição bíblica: o sol e a lua não são deuses, são luminares (Gn); o sonho já não é visto como revelação, antes, "o profeta que sonhar conte o sonho como sonho" (Jr); o cego de nascença não é cego devido o pecado dos pais (Jo); o sacrifício de animais não tem valor algum (Os).

Contudo, acredito eu, a grande desmistificadora é  a ciência. Por meio dela não precisamos mais orar para recebermos cura, temos o remédio; não cabe mais dizer que foi Deus quem mandou as enchentes que trouxeram tragédias, elas são fruto da natureza mal explorada; Deus, portanto, se tornou desnecessário.

Os "religiosos" oram para passar em concursos, enquanto, muitos, sem oração, são aprovados. Encarar essa situação é torna muito difícil para o "religioso". O homem antigo, que ainda pensa tudo ser fruto de uma ira ou de um agrado a Deus, ainda tenta direcionar Deus à sua vontade por meio de ofertas, orações, jejum e obediência à regras que julga sensatas.

Tirar isso do "religioso" é tirar sua fé. Encarar a vida de "peito aberto" e estar disposto para o que der e vier, não são características de uma pessoa religiosa (institucionalmente falando). A fé infantil ainda carece de que Deus preveja o futuro, anuncie e nos guie aos "números da loteria".

O "religioso" é incapaz de ver a vida como um presente que deve ser aproveitado da melhor forma possível. Como um pai que dá um carro a seu filho, mas nao fica preocupado em olhar se, a cada volta com o veículo, o filho recolocou gasolina; se tem se preocupado com a troca do óleo; arranhou a pintura; lavou o carro ou etc. O carro é do filho! Que ele cuide bem e só. Assim é a vida! Um presente de Deus para que a vivamos, sem os olhares acusativos de um Deus que se zanga a cada ultrapassagem perigosa ou se alegra a cada parada no sinal vermelho.

2 - Achar interessante esse pensamento, passar a racionalizar todas as experiências subjetivas da fé e, assim, perder a fé.

O religioso que leu a reflexão do primeiro tópico pode encontrar certa "verdade" no que achou. Mas, dependendo da infantilidade do encontro com tal "verdade", seus passos o guiarão a fazer o que antes nunca teve coragem de realizar ou sentia-se mal: agora já não há culpa em dormir sem orar; em comer sem agradecer; em ficar mais de um dia sem ler o livro sagrado. Enfim, se está livre.

Mas, como todo animal que nasceu e cresceu em cativeiro, há muitos riscos em ser lançado em seu habitat natural. E, sem conhecer tais riscos, o "novo livre" mergulha de cabeça na mata. Se envolve com a vida na floresta e, em sua animalidade, esquece do período do cativeiro e das mãos que alimentaram-no, quando ainda bebê.

Em tão grande liberdade, acha-se dono da floresta, mas não sabe que, a cada passo, pode estar aproximando-se de um predador.

Assim é como vejo a segunda possibilidade. Tenta-se viver sem Deus em um nível de desumanização. Viver (s)em Deus é, ainda assim, manter-se ético e não negar a espiritualidade presente em cada ser.

A fé de se viver livre não é a loucura de se viver inconsequentemente. A fé em uma vida livre, não é a fé no ateísmo anti-ético. O viver  (s)em Deus, nao é negar aquilo que nos faz irmãos e nos mantém responsavéis uns pelos outros. A vida  (s)em Deus, não é uma vida egoísta, a vida  (s)em Deus é uma vida solidária. É a experiência da fé em um Deus que é liberdade, mas que deseja que essa liberdade seja usada para a liberdade de si mesmo e dos outros. Embora eu seja livre para aprisionar, o desejo da vivência  (s)em Deus é a liberdade de todos.

Nesse ponto é a vida com(o) Deus a grande ameaça. Pois se prende a aspectos institucionais que se revelam como verdade única, na qual, desejamos aprisionar todas as pessoas com o discurso de uma pseudo-verdade. A descoberta de tais coisas nao devem nos conduzir a uma irresponsabilidade da destruição da fé alheia.

Viver (s)em Deus é ter, em Deus, a razão da liberdade, do amor e da vida religiosa direcionada na mensagem horizontal da cruz.

3 - Encontrar nesse pensamento um verdadeiro sentido para a fé cristã e a frase tornar-se um canal condutor a uma vida divinamente inspirada e liberta.

Talvez, a partir daí, o leitor que conseguiu se manter até segundo tópico, não precise ler mais nada. Apenas entender que não se pretende negar a existência de Deus. Pelo contrário, quer se, pela liberdade e pela vida, oferecidas por ele, confirmar sua existência e sua dinâmica ativa em cada ser, que nos permite ser o que somos, conquistar o que desejamos e, eticamente, viver segundo o Bem para o Bem.

(S)em Deus, podemos ter a experiência da cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Ou a confirmação do amor: "quando fizemos o bem a ti?", "quando fizeram a um desses meus pequeninos irmãos".

Um comentário:

  1. Mais uma vez palavras de esperança... Obrigada por compartilhar

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