segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Quando tudo pe(r)de um sentido

Ricardo Lengruber Lobosco

O ser humano, desde seu primeiro lampejo de inteligência na história de sua evolução, é radicalmente religioso. Deus nasceu como uma espécie de marca identificatória da espécie. Não apenas Deus e tudo o mais que o circunda (ritos, mitos, dogmas, tabus etc), mas fundamentalmente a experiência do temor. Diante da absurda irracionalidade aparente do Universo, os primeiros ancestrais que desceram das árvores e tiveram que viver inteligentemente em busca de alimentos e proteção aprenderam a cultivar o temor como sentimento de autopreservação. A noção de sagrado, de tremendo e de soberano sempre estiveram ligadas às incomensuráveis forças da natureza. Por essa razão, Deus sempre habitou o céu! Donde sempre governou sol, lua, astros, tempestades, ventos etc. A força intrínseca das religiões de todos os cantos foi a de tentar controlar Deus e, por conseguinte, manipular a natureza e sua incrível força. Os ritos são a suprema insistência humana no sentido de tornar o mundo viável e dotado de sentido. No fundo, a religião é a mais profunda busca de significado para as coisas. Um mundo sem sentido não pode ser habitado. Tudo precisa ter seu propósito claro. A relação entre religião e natureza nada mais é que o fruto dessa busca de sentido. O poder extraordinário das forças da natureza só pode, originalmente, ser explicado via discurso religioso que, como tal, além de explicar, pareceu aprender a dominar a própria ordem natural da vida.
Quando um religioso realiza um rito, o que está em jogo não é a sequência de gestos em si, mas a conexão que tal prática tem com aquele mundo que não se consegue alcançar ordinariamente. Por conta disso, a palavra ganhou especial poder no mundo da religião. As palavras aprenderam a se comportar como matrizes de significado; algo que, dependendo da situação experimentada, adquirem esse ou aquele sentido, aquilo que melhor significa aquela experiência. É como se pudesse dizer que não há palavras especialmente mágicas: toda palavra é essencialmente mágica!
Na História das civilizações houve uma experiência que, de certa forma, intuiu transformar pelas raízes tal lógica mágico-religiosa. Por volta do século VI a.C., o pequeno e frágil reino de Yehud, localizado no sul da Palestina, viu sua liberdade ameaçada pelo imenso poder dos Babilônicos. Toda uma cultura estava ameaçada pela ofensiva estrangeira. Terra, palácio, templo, rei, sacerdotes, militares e demais profissionais foram levados cativos para uma terra distante e, para eles, sem qualquer significado que os identificasse. Nessa experiência de Exílio foi que nasceu o que conhecemos por Judaísmo. Embora a história contada na Bíblia remonte a épocas ancestrais, foi a experiência do desterro e do drama da dor causado pela perda das referências que fez com que Judá (Israel) reelaborassem o modo de olhar para a realidade. O registro mágico-religioso já não dava mais conta de significar o mundo. A realidade não mais podia ser compr eendida por meio das explicações míticas que são próprias das religiões. Deus que, do alto, governa tudo e que pode, dependendo da situação, ser convencido ritualisticamente a mudar o rumo das coisas. O culto já não opera concretamente mais sobre a vida. A tragédia (o destino) teve que ceder espaço ao drama (a história). Os judeus nasceram por conta de um profundo senso de pertencimento a um mundo cujo rumo não estava entregue aos caprichos de deuses e heróis, mas fundamentalmente ligado às decisões éticas de homens e mulheres que construíam sua própria História.
Essa talvez tenha sido a mais profunda de todas as reformas pelas quais as religiões já passaram. O registro mágico cedeu espaço ao discurso histórico. O rito perdeu lugar perante a ética!
A experiência vivida na região serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, rotulada como a “maior tragédia climática brasileira” revelou bem que a reforma dos judeus de três milênios atrás ainda carece de atualização na experiência religiosa que impera na sociedade contemporânea. O conflito entre tragédia e drama ainda imperam; a confusão entre rito e ética também.
Diante do absurdo vivido com a perda de coisas e pessoas, o discurso religioso veio à tona com uma força surpreendente. Por todo canto, o que mais se ouvia era “graças a Deus”. Gratidão por não ter perdido algo; gratidão por não ter perdido alguém, gratidão por ter perdido algo mas não ter perdido alguém, gratidão por ter perdido algo e alguém, mas estar vivo; e assim, sucessivamente, numa escala de perda e preservação. O curioso é que a razão da gratidão de um se suplantava na experiência do outro que, mesmo tendo perdido muito mais, ainda conseguia expressar tal “graças a Deus”.
Pergunto-me se a palavra de gratidão não se enquadra na ancestral busca pelo sentido, razão pela qual as religiões aprenderam tão bem a manipular as palavras e seus sentidos. O sofrimento absurdo causado por algo tão forte e incontrolável como a força da natureza precisa ser “significado” e, nesse esforço, a religião (independente do seu nome doutrinário específico) mostrou-se o único registro capaz de esboçar tal esforço.
Mas é preciso pensar. Se é verdade, por um lado, que há uma dose de tragédia em toda essa experiência, há, por outro lado, um inexorável tom dramático, histórico e ético. Se é verdade que o temporal de 12 horas consecutivas e com um índice pluviométrico de mais de trezentos milímetros é absurdamente incontrolável e diante do qual somos absolutamente impotentes, é verdade também que temos nossa parcela de responsabilidade em tudo isso.
Construções (ir)regulares em áreas que deveriam ser preservadas, má ocupação dos espaços, falta de planejamento estratégico para exploração do solo, escassez de recursos para situação de emergência, falta de seriedade pública e, acima de tudo, a irresponsável forma de progresso que construímos planetariamente ao longo dos últimos séculos potencializaram a força natural. O que nasceu com a promessa de uma “tragédia” natural (dada sua incontrolável ação) tornou-se um verdadeiro “drama” humano, pago com a vida e a felicidade de tantos irmãos.
E é exatamente por conta de tudo isso que volto de novo meu olhar sobre a religião e sobre as instituições religiosas. O discurso religioso (independente da instituição) renasceu com toda força no intuito de “significar” o drama; de outro ângulo, as instituições religiosas se esforçaram por “controlar” a tragédia. As igrejas mais se ocuparam com o assistencialismo da primeira hora (leia-se distribuição de donativos) do que com a solidariedade que as vítimas realmente careciam.
Tal solidariedade só pode ser realmente vista brotando daqueles homens e mulheres que, independente de seu colorido religioso, arregaçaram as mangas e saíram em busca dos vivos e dos mortos soterrados pela lama ou afligidos pelos mil outros problemas.
Mas o fato é que, indiferente ao pertencimento religioso, uma pergunta não cala desde então: onde estava Deus?
Para uns, Deus controlava tudo e com tudo um propósito tinha. Para outros, Deus punia uns e escolhia uma geração de eleitos para recomeçar. Enfim, o discurso religioso só aprendeu a “significar” as experiências, custe o que custar. Perante o absurdo, mais vale uma “absurda” explicação do que a possibilidade de aceitar o próprio “absurdo”.
O drama de 12 de janeiro ensinou, por trás de tudo, que a verdadeira religião nasce quando se consegue experimentar gratuitamente a solidariedade que nos faz ligados aos outros (re-ligare) e quando nos vemos enxergando e interpretando a realidade que nos cerca com outros olhos (re-ligiere). Mesmo que se tenha que reconhecer o absurdo e o irracional, o que prevalece é a re-arrumação que o mundo de fora provoca no mundo de dentro. O que conta, ao final, é como somos capazes de emergir da lama e da água, qual novo nascimento!
Se isso tudo nos ensinar a ver o que realmente tem valor e nos ajudar a mirar os reais valores da vida, talvez tenhamos sido capazes de fazer com a tragédia o que aprendemos evolutivamente a fazer com a própria natureza, transformá-la em benefício da espécie e torná-la mais palatável.
O desafio é olhar para além das montanhas, para onde o céu repousa sobre a terra, para o horizonte!

  (Ricardo Lengruber Lobosco é professor de Antigo Testamento do Centro Universitário Bennett, Reverendo Metodista e morador de Nova Friburgo)

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