sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O sacrifício de Isaque (encarando o problema)

Algumas pessoas temem encarar o texto que narra o sacrifício e Isaque (Gn 22. 1-9), outras, contudo, procuram elevá-lo ao grau de "Deus é Deus e nao pode ser questionado". Impedindo, assim, de enfrentar a dor que esse texto deveria casuar a quaquer bom cristão do tempo atual.

Como Deus pôde ser capaz de pedir que Abraão sacrificasse a Isaque? Como pôde fazer essa tortura psicológica no seu "amigo"? Como pôde dizer um dia a Abraão que "em Isaque será tida a tua descendência" e, logo depois, faz Abraão imaginar que ele seria morto? O que dizer da resignação de Abraão e, aparentemente de sua tristeza? Como um torturador de mentes pode ser chamado de "Deus amoroso" ou, de "verdadeiro amor"?

Acho engraçado que o profeta Jeremias, que tinha ascendência sacerdotal, pareça não conhecer essa história. Por três vezes, seu livro diz:

"E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração" (Jeremias 7:31).

"Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento" (Jeremias 19:5).

"E edificaram os altos de Baal, que estão no Vale do Filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque; o que nunca lhes ordenei, nem veio ao meu coração, que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá" (Jeremias 32:35)

Isso nos dá a dica de estarmos em um texto mais recente do que os de Jeremias e que, talvez, de alguma forma, seja, por ele, influenciado. Embora seja provável que essa história já existisse há muito tempo, onde, pelos judeus, foram trocados os personagens. Fazendo  com que Abraão e Isaque sejam os principais do mito que procura explicar quando e como o sacrifício humano fora substituído pelo sacrifício de animal.

Em Juízes temos a tradição de que Jefté realizou o mesmo sacrifício, mas a Javé. E, em momento algum, nem para sua filha e nem para que os cercaram, pareceu estranha sua atitude. Seria isso uma forma de mostrar que o sacrifício humano, em algum momento, foi visto como algo "ortodoxo"? Jeremias, então, de alguma forma, assume uma postura de correção demonstrando a negação de Javé ao sacrifício humano.

O Vale de Hinom, ou Vale do Filho de Hinom que, no ambiente do Novo Testamento é chamado de Geenna, tornou-se símbolo da vergonha, do horror em lembrança a esses dias de Jeremias. Para lá passou-se a levar carcaças de animais mortos, corpos de indigentes, ladrões e também o próprio lixo de Jerusalém, fazendo deste lugar maldito para a memória hierosolimitana.

Voltando ao texto de Gênesis, como visto, estamos diante de uma tradição mais recente do que a de Jeremias e a de Jefté. Pois, diferente da prática de sacrifício do tempo do profeta e da aceitação do sacrifício da filha do Juiz, Javé rejeita a morte, em seu Nome, do filho de Abraão.

Contudo, para a mentalidade antiga, sacrificar o filho ao seu deus é prova de real devoção ao deus que faz o pedido. Será que Abraão é devoto mesmo de Javé? Estaria ele disposto a entregar seu filho a Deus? O objetivo na narração é dizer que sim, contudo, que Deus não aceita tal sacrifício! Em seu lugar, recebe a oferta em holocausto do cordeiro que, desde então, assume o lugar de vítima no altar.

Dessa forma, o autor da história, ou autores, mantém a fidelidade de Abraão e também, a bondade de Javé em rejeitar tal sacrifício.

Parece-nos maldade ou loucura, ainda assim, a tortura psicológica que Deus faz a seu "amigo". Isso se mantivermos a leitura ao "pé da letra". Não entendo que trata-se de um mito antigo, onde sacrifício de filhos ou o pedido do sacrifício feito por uma divindade é normal. Em diversas culturas, mesmo nos povos antigos da América Latina, o sacrifício humano faz parte da vida religiosa.

Os judeus, talvez influenciados pelo pensamento de Jeremiais, editam essa história do sacrifício de Isaque como uma forma de condenar tal prática. Diferenciando-se, assim, de grande parte das religiões da época, sem, contudo, fugir à influência da normalidade de um pedido "sacro-homicida".

Tal texto, então, deve ser encontrado como uma forma de condenar às práticas de sacrifício humano. A partir de então, na época do retorno do exílio, data provável para esse conto, não serão aceitos tais rituais. Louvável é que alguém seja devoto a esse ponto - pensemos isso respeitando o tempo da escrita - mas esta devoção é dispensável para Javé.

E como se aplica isso ao nosso tempo?

Como vimos, nos tempos antigos, Jefté é exemplo de uma época onde o sacrifício de humanos, mesmo a Javé, é encarado com normalidade. De fato, mesmo os cristãos, em época bem posterior, colocam um sacrifício humano como o libertador para toda a humanidade: o sacrifício de Cristo na cruz. Mas isso é uma outra história que, em outro momento, poderemos falar sobre.

Voltando ao nosso ponto, a normalidade dessa sacrifício que, de certa forma, em algum momento, fazia parte da cultura e da prática religiosa do povo, quer a Javé quer aos "Baalins", torna-se questionada pelo profeta de Jerusalém. E uma reforma na mente religiosa do povo é executada.

Da mesma forma, de épocas em épocas, faz-se necessário observar a visão que se tem de Deus. Se a mesma não é uma visão "medieval" para a época que se vive. Discursos, práticas e doutrinas que pertencem a um tempo e a um momento histórico devem ser revistas.

Como exemplo bobo, mas que pode muito vem fazer parte do nosso discurso, está presente no teatro, que em épocas antigas era visto como lugar que não devia ser frequentado por protestantes; instrumentos musicais tais como a bateria e a guitarra não podiam fazer parte do culto cristão e que, hoje, são considerados quase que indispensáveis em nossos templos.

Tais exemplos não fazem parte da profundidade que o texto procura narrar. A citação foi apenas para exemplificar, entretanto, podemos pensar de forma mais profunda e levantar questões, tais como: ecumenismo e macro-ecumenismo (ou diálogo inter-religioso) que, ainda hoje, se mostram como o grande desafio contra-cultura, como o de Jeremias.

Exemplos são muitos. E todos mostrariam a necessidade de um pensamento sempre evolutivo. Que se mantém fiel à tradição bíblica, mas que propõe uma reforma na forma com que se encara a tradição. Impedindo,então, o "gesso ortodoxo" e, por fim, a inutilidade do cristianismo.

A religião que não se adapta, que não evolui, que não repensa sua revelação e seu relacionamento com a divindade de acordo com o tempo e com a cultura, mantendo-se fiel à seus valores, não pode, de forma alguma, afirmar que serve ao Deus de todos os tempos.

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