terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A fé dos desterrados ( ainda sobre Região Serrana)

Dor, medo, angústia, corrupção, violência, incerteza, insegurança, infelicidade... por mais que achemos que, falando de vida local, estejamos longe disso, a bem da verdade é que, na maior parte do mundo, isso é comum. Muitos hoje aprenderam a não confiar, contudo, guardam dentro de si esses e outros sentimentos. Para mim, basta conversar com alguém no trem, no metrô, no chat, no trabalho e descubro que isso é cada vez mais comum, como tenho reparado.

Gostaria de pincelar um pouco sobre a situação dos contemporâneos dos escritores bíblicos. Diferente do que somos tentados a pensar, as histórias bíblicas dificilmente nascem da felicidade. São, antes, testemunhas da dor, do fracasso, da descrença e da injustiça. Procurando, de alguma forma, manter firme a confiança na Providência e, ao mesmo tempo, trazendo sobre cada um dos destinatários, a responsabilidade e a capacidade de viver em um mundo (ou país) melhor.

O primeiro grande problema, que temos mais informações, acredito ser o cativeiro Babilônico. É bem verdade que temos relatos de que muitos judeus conseguiram viver tranquilamente na terra estrangeira. Mas temos outros relatos históricos que confirmam a grande dor presente nos textos de Lamentações, que escrevo abaixo:

"Por estas coisas eu ando chorando; os meus olhos, os meus olhos se desfazem em águas; porque se afastou de mim o consolador que devia restaurar a minha alma; os meus filhos estão assolados, porque prevaleceu o inimigo.

Estende Sião as suas mãos, não há quem a console; mandou o SENHOR acerca de Jacó que lhe fossem inimigos os que estão em redor dele; Jerusalém é entre eles como uma mulher imunda."

"Estão sentados na terra, silenciosos, os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças, cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra. Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela terra por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem o menino e a criança de peito pelas ruas da cidade. Ao desfalecerem, como feridos, pelas ruas da cidade, ao exalarem as suas almas no regaço de suas mães, perguntam a elas: Onde está o trigo e o vinho?

Que testemunho te trarei? A quem te compararei, ó filha de Jerusalém? A quem te assemelharei, para te consolar, ó virgem filha de Sião? Porque grande como o mar é a tua quebradura; quem te sarará?"

"A língua do que mama fica pegada pela sede ao seu paladar; os meninos pedem pão, e ninguém lho reparte.Os que comiam comidas finas agora desfalecem nas ruas; os que se criaram em carmezim abraçam monturos."

"Os seus nobres eram mais puros do que a neve, mais brancos do que o leite, mais vermelhos de corpo do que os rubis, e mais polidos do que a safira. Mas agora escureceu-se o seu aspecto mais do que o negrume; não são conhecidos nas ruas; a sua pele se lhes pegou aos ossos, secou-se, tornou-se como um pau.

Os mortos à espada foram mais ditosos do que os mortos à fome; porque estes morreram lentamente, por falta dos frutos dos campos. As mãos das mulheres compassivas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo."

"A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha. Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados, e não temos descanso.Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos fartarem de pão."

"Forçaram as mulheres em Sião, as virgens nas cidades de Judá. Os príncipes foram enforcados pelas mãos deles; as faces dos velhos não foram reverenciadas. Aos jovens obrigaram a moer, e os meninos caíram debaixo das cargas de lenha. Os velhos já não estão mais às portas, os jovens já deixaram a sua música. Cessou o gozo de nosso coração; converteu-se em lamentação a nossa dança."

A tristeza e a depressão parecem fazer parte desse povo. Quando finalmente retornam do exílio e recebem a permissão de Ciro para a reconstrução de Jerusalém e do Templo, os judeus parecem sentir ai a expectativa de um novo tempo, o tempo Messiânico.

Contudo, outros impérios aparecem, e, de forma triste, a terra da Judéia vai passando de tutor a tutor. Ao caírem nas mãos do Império grego, mesmo estando sobre o domínio deles, conseguem, pelos seleucidas, certa tranquilidade para viver sua fé. Até que Antíoco IV Epifânes se revela uma verdadeira "Besta". Persegue o povo judeu, mata, vende como escravos, prende, coloca a estátua de Zeus dentro do templo, obriga a comer carne de porco, sacrifica um porco no santo dos santos, rouba os utensílios sagrados, ordena o trabalho sabático.

Enfim, os Romanos... esses são impiedosos... Após tantas humilhacoes, estupros, saques, impostos altos, o povo tenta se rebelar de diversas formas e sempre é derrotado. A derrocada final vem no ano 70 d.C.. Quando Tito invade Jerusalém, a destrói e derruba o fabuloso Templo. E, mais uma vez, a dor de Lamentações, citada nos textos acima, é re-sentida.

O interessante, contudo, é que, esse mesmo povo, quer em todos os braços deles (sacerdotal, farisaico, essênico, cristãos, proféticos, apocalípticos e etc) sempre gerou livros, nessas mesmas épocas, nesses momentos de dor, para falar de uma única coisa: esperança!

O que levava um povo, nessa situação, a falar de união, de socorro Divino, de amor, misericórdia, esperança e vida eterna?

Falando de uma forma que nos interessa entender, estamos acostumados a esperar, das pessoas que não vivenciaram o a tragédia da região serrana, uma palavra de apoio e incentivo. Agora, imaginemos alguém que tenha perdido tudo, promovendo, escrevendo e enviando mensagens de esperança, apoio e acreditando em dias melhores.

É exatamente essa a experiência dos autores bíblicos. Estavam entre os vitimados, faziam parte dos que não tinham nada, mas tinham esperança.

Uma loucura aos olhos de qualquer um acostumado com a experiência empírica para acreditar ou ter. Uma desventura para aqueles que se acostumaram a não precisar crer. Mas uma vitalidade e uma coragem que cabe apenas para aquele que viveu a experiência da fé. E quando digo fé não me reporto a uma religião - instituição -, antes, tenho em mente, a fé naquilo que não tem explicação e dispensa teorização. Fé como algo que, sem avisar, nasce em nosso íntimo, nos dá força e nos faz, simplesmente, acreditar naquilo que é impossível crer.

Não sou como àqueles que viveram tais dias. Faço parte do grupo dos que assistiram aos noticiários. Embora tenha ido a Friburgo, ajudado um pouco e visto algumas das necessidades daquela cidade, ainda assim, faço parte daqueles que ainda tem sua cama quentinha, sua comida vinda de seu próprio trabalho. Mesmo me permitindo chorar com os que CHORAM, ainda assim sou os que choram com os que CHORAM e não os que CHORAM. Contudo, pude observar de perto um pouco dessa esperança desmedida, aparentemente insana e consideravelmente imprescindível, nos olhos daqueles que trabalharam, lutaram, ajudaram, mesmo precisando de ajuda.

Nessas horas eu sinto-me como a tradição mosaica afirma que Moisés ficou: face a face com Deus.
Vejo Deus nessas pessoas... vejo Deus nos "chorões" que consolam os que choram. Vejo a Ruah de Deus presente de forma mais do que imanente, nos olhos lacrimosos dos que enxugam as lágrimas.

E, nessas horas,sacio minha curiosidade de entender o que fazia com que os homens do passado acreditassem e lutassem por dias melhores em momentos tão sombrios. Pois, da mesma forma, o mesmo Espírito, a mesma fé, a mesma coragem, a mesma força, o mesmo Deus, a mesma humanidade, vejo diante de mim. 

E, nessa hora, sinto-me como aquele que confirma, visivelmente, a existência, a atuação e a experiência com o Deus que é vivo e amoroso.

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