segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vivendo (s)em Deus

"Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus".

Essa frase pertence ao teólogo Dietrich Bonhoeffer. Acredito que possua um caráter "herético" aos ouvidos pouco treinados, no que diz respeito à teologia. Contudo, possui uma grande profundidade que merece uma reflexão atualizada, a partir da mesma expressão.

O grande problema é que, diante dessa afirmação de Bonhoeffer,podemos tomar, pelo menos, 3 atitudes:

1 - Desconsiderar e não conseguir ver a grandeza do pensamento teológico.

2 - Achar interessante esse pensamento, passar a racionalizar todas as experiências subjetivas da fé e, assim, perder a fé.

3 - Encontrar nesse pensamento um verdadeiro sentido para a fé cristã e a frase tornar-se um canal condutor a uma vida divinamente inspirada e liberta.

Para a nossa reflexão usaremos as três atitudes como base:


1 - Desconsiderar e não conseguir ver a grandeza do pensamento teológico.

O ser humano, como já dito outras vezes, sempre procurou controlar ou conhecer os mistérios que o cercam. Principalmente os que pertence a natureza. Longe de encontrar as explicações para esses fenômenos, apontou para uma divindade a responsabilidade de uma boa colheita, de bons pastos, de chuva, seca, terremoto, maremotos e etc.

Sempre os diversos fenômenos naturais foram vistos como obra de um ou mais seres divinos. Irritá-los geraria sempre a escassez ou o excesso destrutivo daquilo que o ser divino era responsável.

Contudo, o ser humano, como toda criança que um dia acredita em Papai Noel e, quando cresce, descobre que não passa de sua imaginação comum da idade, após séculos, viu que a natureza possui suas próprias leis que definem a intensidade desse ou daquele fenômeno.

Essa desmistificação já possui seus antepassados na tradição bíblica: o sol e a lua não são deuses, são luminares (Gn); o sonho já não é visto como revelação, antes, "o profeta que sonhar conte o sonho como sonho" (Jr); o cego de nascença não é cego devido o pecado dos pais (Jo); o sacrifício de animais não tem valor algum (Os).

Contudo, acredito eu, a grande desmistificadora é  a ciência. Por meio dela não precisamos mais orar para recebermos cura, temos o remédio; não cabe mais dizer que foi Deus quem mandou as enchentes que trouxeram tragédias, elas são fruto da natureza mal explorada; Deus, portanto, se tornou desnecessário.

Os "religiosos" oram para passar em concursos, enquanto, muitos, sem oração, são aprovados. Encarar essa situação é torna muito difícil para o "religioso". O homem antigo, que ainda pensa tudo ser fruto de uma ira ou de um agrado a Deus, ainda tenta direcionar Deus à sua vontade por meio de ofertas, orações, jejum e obediência à regras que julga sensatas.

Tirar isso do "religioso" é tirar sua fé. Encarar a vida de "peito aberto" e estar disposto para o que der e vier, não são características de uma pessoa religiosa (institucionalmente falando). A fé infantil ainda carece de que Deus preveja o futuro, anuncie e nos guie aos "números da loteria".

O "religioso" é incapaz de ver a vida como um presente que deve ser aproveitado da melhor forma possível. Como um pai que dá um carro a seu filho, mas nao fica preocupado em olhar se, a cada volta com o veículo, o filho recolocou gasolina; se tem se preocupado com a troca do óleo; arranhou a pintura; lavou o carro ou etc. O carro é do filho! Que ele cuide bem e só. Assim é a vida! Um presente de Deus para que a vivamos, sem os olhares acusativos de um Deus que se zanga a cada ultrapassagem perigosa ou se alegra a cada parada no sinal vermelho.

2 - Achar interessante esse pensamento, passar a racionalizar todas as experiências subjetivas da fé e, assim, perder a fé.

O religioso que leu a reflexão do primeiro tópico pode encontrar certa "verdade" no que achou. Mas, dependendo da infantilidade do encontro com tal "verdade", seus passos o guiarão a fazer o que antes nunca teve coragem de realizar ou sentia-se mal: agora já não há culpa em dormir sem orar; em comer sem agradecer; em ficar mais de um dia sem ler o livro sagrado. Enfim, se está livre.

Mas, como todo animal que nasceu e cresceu em cativeiro, há muitos riscos em ser lançado em seu habitat natural. E, sem conhecer tais riscos, o "novo livre" mergulha de cabeça na mata. Se envolve com a vida na floresta e, em sua animalidade, esquece do período do cativeiro e das mãos que alimentaram-no, quando ainda bebê.

Em tão grande liberdade, acha-se dono da floresta, mas não sabe que, a cada passo, pode estar aproximando-se de um predador.

Assim é como vejo a segunda possibilidade. Tenta-se viver sem Deus em um nível de desumanização. Viver (s)em Deus é, ainda assim, manter-se ético e não negar a espiritualidade presente em cada ser.

A fé de se viver livre não é a loucura de se viver inconsequentemente. A fé em uma vida livre, não é a fé no ateísmo anti-ético. O viver  (s)em Deus, nao é negar aquilo que nos faz irmãos e nos mantém responsavéis uns pelos outros. A vida  (s)em Deus, não é uma vida egoísta, a vida  (s)em Deus é uma vida solidária. É a experiência da fé em um Deus que é liberdade, mas que deseja que essa liberdade seja usada para a liberdade de si mesmo e dos outros. Embora eu seja livre para aprisionar, o desejo da vivência  (s)em Deus é a liberdade de todos.

Nesse ponto é a vida com(o) Deus a grande ameaça. Pois se prende a aspectos institucionais que se revelam como verdade única, na qual, desejamos aprisionar todas as pessoas com o discurso de uma pseudo-verdade. A descoberta de tais coisas nao devem nos conduzir a uma irresponsabilidade da destruição da fé alheia.

Viver (s)em Deus é ter, em Deus, a razão da liberdade, do amor e da vida religiosa direcionada na mensagem horizontal da cruz.

3 - Encontrar nesse pensamento um verdadeiro sentido para a fé cristã e a frase tornar-se um canal condutor a uma vida divinamente inspirada e liberta.

Talvez, a partir daí, o leitor que conseguiu se manter até segundo tópico, não precise ler mais nada. Apenas entender que não se pretende negar a existência de Deus. Pelo contrário, quer se, pela liberdade e pela vida, oferecidas por ele, confirmar sua existência e sua dinâmica ativa em cada ser, que nos permite ser o que somos, conquistar o que desejamos e, eticamente, viver segundo o Bem para o Bem.

(S)em Deus, podemos ter a experiência da cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Ou a confirmação do amor: "quando fizemos o bem a ti?", "quando fizeram a um desses meus pequeninos irmãos".

Quando tudo pe(r)de um sentido

Ricardo Lengruber Lobosco

O ser humano, desde seu primeiro lampejo de inteligência na história de sua evolução, é radicalmente religioso. Deus nasceu como uma espécie de marca identificatória da espécie. Não apenas Deus e tudo o mais que o circunda (ritos, mitos, dogmas, tabus etc), mas fundamentalmente a experiência do temor. Diante da absurda irracionalidade aparente do Universo, os primeiros ancestrais que desceram das árvores e tiveram que viver inteligentemente em busca de alimentos e proteção aprenderam a cultivar o temor como sentimento de autopreservação. A noção de sagrado, de tremendo e de soberano sempre estiveram ligadas às incomensuráveis forças da natureza. Por essa razão, Deus sempre habitou o céu! Donde sempre governou sol, lua, astros, tempestades, ventos etc. A força intrínseca das religiões de todos os cantos foi a de tentar controlar Deus e, por conseguinte, manipular a natureza e sua incrível força. Os ritos são a suprema insistência humana no sentido de tornar o mundo viável e dotado de sentido. No fundo, a religião é a mais profunda busca de significado para as coisas. Um mundo sem sentido não pode ser habitado. Tudo precisa ter seu propósito claro. A relação entre religião e natureza nada mais é que o fruto dessa busca de sentido. O poder extraordinário das forças da natureza só pode, originalmente, ser explicado via discurso religioso que, como tal, além de explicar, pareceu aprender a dominar a própria ordem natural da vida.
Quando um religioso realiza um rito, o que está em jogo não é a sequência de gestos em si, mas a conexão que tal prática tem com aquele mundo que não se consegue alcançar ordinariamente. Por conta disso, a palavra ganhou especial poder no mundo da religião. As palavras aprenderam a se comportar como matrizes de significado; algo que, dependendo da situação experimentada, adquirem esse ou aquele sentido, aquilo que melhor significa aquela experiência. É como se pudesse dizer que não há palavras especialmente mágicas: toda palavra é essencialmente mágica!
Na História das civilizações houve uma experiência que, de certa forma, intuiu transformar pelas raízes tal lógica mágico-religiosa. Por volta do século VI a.C., o pequeno e frágil reino de Yehud, localizado no sul da Palestina, viu sua liberdade ameaçada pelo imenso poder dos Babilônicos. Toda uma cultura estava ameaçada pela ofensiva estrangeira. Terra, palácio, templo, rei, sacerdotes, militares e demais profissionais foram levados cativos para uma terra distante e, para eles, sem qualquer significado que os identificasse. Nessa experiência de Exílio foi que nasceu o que conhecemos por Judaísmo. Embora a história contada na Bíblia remonte a épocas ancestrais, foi a experiência do desterro e do drama da dor causado pela perda das referências que fez com que Judá (Israel) reelaborassem o modo de olhar para a realidade. O registro mágico-religioso já não dava mais conta de significar o mundo. A realidade não mais podia ser compr eendida por meio das explicações míticas que são próprias das religiões. Deus que, do alto, governa tudo e que pode, dependendo da situação, ser convencido ritualisticamente a mudar o rumo das coisas. O culto já não opera concretamente mais sobre a vida. A tragédia (o destino) teve que ceder espaço ao drama (a história). Os judeus nasceram por conta de um profundo senso de pertencimento a um mundo cujo rumo não estava entregue aos caprichos de deuses e heróis, mas fundamentalmente ligado às decisões éticas de homens e mulheres que construíam sua própria História.
Essa talvez tenha sido a mais profunda de todas as reformas pelas quais as religiões já passaram. O registro mágico cedeu espaço ao discurso histórico. O rito perdeu lugar perante a ética!
A experiência vivida na região serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, rotulada como a “maior tragédia climática brasileira” revelou bem que a reforma dos judeus de três milênios atrás ainda carece de atualização na experiência religiosa que impera na sociedade contemporânea. O conflito entre tragédia e drama ainda imperam; a confusão entre rito e ética também.
Diante do absurdo vivido com a perda de coisas e pessoas, o discurso religioso veio à tona com uma força surpreendente. Por todo canto, o que mais se ouvia era “graças a Deus”. Gratidão por não ter perdido algo; gratidão por não ter perdido alguém, gratidão por ter perdido algo mas não ter perdido alguém, gratidão por ter perdido algo e alguém, mas estar vivo; e assim, sucessivamente, numa escala de perda e preservação. O curioso é que a razão da gratidão de um se suplantava na experiência do outro que, mesmo tendo perdido muito mais, ainda conseguia expressar tal “graças a Deus”.
Pergunto-me se a palavra de gratidão não se enquadra na ancestral busca pelo sentido, razão pela qual as religiões aprenderam tão bem a manipular as palavras e seus sentidos. O sofrimento absurdo causado por algo tão forte e incontrolável como a força da natureza precisa ser “significado” e, nesse esforço, a religião (independente do seu nome doutrinário específico) mostrou-se o único registro capaz de esboçar tal esforço.
Mas é preciso pensar. Se é verdade, por um lado, que há uma dose de tragédia em toda essa experiência, há, por outro lado, um inexorável tom dramático, histórico e ético. Se é verdade que o temporal de 12 horas consecutivas e com um índice pluviométrico de mais de trezentos milímetros é absurdamente incontrolável e diante do qual somos absolutamente impotentes, é verdade também que temos nossa parcela de responsabilidade em tudo isso.
Construções (ir)regulares em áreas que deveriam ser preservadas, má ocupação dos espaços, falta de planejamento estratégico para exploração do solo, escassez de recursos para situação de emergência, falta de seriedade pública e, acima de tudo, a irresponsável forma de progresso que construímos planetariamente ao longo dos últimos séculos potencializaram a força natural. O que nasceu com a promessa de uma “tragédia” natural (dada sua incontrolável ação) tornou-se um verdadeiro “drama” humano, pago com a vida e a felicidade de tantos irmãos.
E é exatamente por conta de tudo isso que volto de novo meu olhar sobre a religião e sobre as instituições religiosas. O discurso religioso (independente da instituição) renasceu com toda força no intuito de “significar” o drama; de outro ângulo, as instituições religiosas se esforçaram por “controlar” a tragédia. As igrejas mais se ocuparam com o assistencialismo da primeira hora (leia-se distribuição de donativos) do que com a solidariedade que as vítimas realmente careciam.
Tal solidariedade só pode ser realmente vista brotando daqueles homens e mulheres que, independente de seu colorido religioso, arregaçaram as mangas e saíram em busca dos vivos e dos mortos soterrados pela lama ou afligidos pelos mil outros problemas.
Mas o fato é que, indiferente ao pertencimento religioso, uma pergunta não cala desde então: onde estava Deus?
Para uns, Deus controlava tudo e com tudo um propósito tinha. Para outros, Deus punia uns e escolhia uma geração de eleitos para recomeçar. Enfim, o discurso religioso só aprendeu a “significar” as experiências, custe o que custar. Perante o absurdo, mais vale uma “absurda” explicação do que a possibilidade de aceitar o próprio “absurdo”.
O drama de 12 de janeiro ensinou, por trás de tudo, que a verdadeira religião nasce quando se consegue experimentar gratuitamente a solidariedade que nos faz ligados aos outros (re-ligare) e quando nos vemos enxergando e interpretando a realidade que nos cerca com outros olhos (re-ligiere). Mesmo que se tenha que reconhecer o absurdo e o irracional, o que prevalece é a re-arrumação que o mundo de fora provoca no mundo de dentro. O que conta, ao final, é como somos capazes de emergir da lama e da água, qual novo nascimento!
Se isso tudo nos ensinar a ver o que realmente tem valor e nos ajudar a mirar os reais valores da vida, talvez tenhamos sido capazes de fazer com a tragédia o que aprendemos evolutivamente a fazer com a própria natureza, transformá-la em benefício da espécie e torná-la mais palatável.
O desafio é olhar para além das montanhas, para onde o céu repousa sobre a terra, para o horizonte!

  (Ricardo Lengruber Lobosco é professor de Antigo Testamento do Centro Universitário Bennett, Reverendo Metodista e morador de Nova Friburgo)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O sacrifício de Isaque (encarando o problema)

Algumas pessoas temem encarar o texto que narra o sacrifício e Isaque (Gn 22. 1-9), outras, contudo, procuram elevá-lo ao grau de "Deus é Deus e nao pode ser questionado". Impedindo, assim, de enfrentar a dor que esse texto deveria casuar a quaquer bom cristão do tempo atual.

Como Deus pôde ser capaz de pedir que Abraão sacrificasse a Isaque? Como pôde fazer essa tortura psicológica no seu "amigo"? Como pôde dizer um dia a Abraão que "em Isaque será tida a tua descendência" e, logo depois, faz Abraão imaginar que ele seria morto? O que dizer da resignação de Abraão e, aparentemente de sua tristeza? Como um torturador de mentes pode ser chamado de "Deus amoroso" ou, de "verdadeiro amor"?

Acho engraçado que o profeta Jeremias, que tinha ascendência sacerdotal, pareça não conhecer essa história. Por três vezes, seu livro diz:

"E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração" (Jeremias 7:31).

"Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento" (Jeremias 19:5).

"E edificaram os altos de Baal, que estão no Vale do Filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque; o que nunca lhes ordenei, nem veio ao meu coração, que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá" (Jeremias 32:35)

Isso nos dá a dica de estarmos em um texto mais recente do que os de Jeremias e que, talvez, de alguma forma, seja, por ele, influenciado. Embora seja provável que essa história já existisse há muito tempo, onde, pelos judeus, foram trocados os personagens. Fazendo  com que Abraão e Isaque sejam os principais do mito que procura explicar quando e como o sacrifício humano fora substituído pelo sacrifício de animal.

Em Juízes temos a tradição de que Jefté realizou o mesmo sacrifício, mas a Javé. E, em momento algum, nem para sua filha e nem para que os cercaram, pareceu estranha sua atitude. Seria isso uma forma de mostrar que o sacrifício humano, em algum momento, foi visto como algo "ortodoxo"? Jeremias, então, de alguma forma, assume uma postura de correção demonstrando a negação de Javé ao sacrifício humano.

O Vale de Hinom, ou Vale do Filho de Hinom que, no ambiente do Novo Testamento é chamado de Geenna, tornou-se símbolo da vergonha, do horror em lembrança a esses dias de Jeremias. Para lá passou-se a levar carcaças de animais mortos, corpos de indigentes, ladrões e também o próprio lixo de Jerusalém, fazendo deste lugar maldito para a memória hierosolimitana.

Voltando ao texto de Gênesis, como visto, estamos diante de uma tradição mais recente do que a de Jeremias e a de Jefté. Pois, diferente da prática de sacrifício do tempo do profeta e da aceitação do sacrifício da filha do Juiz, Javé rejeita a morte, em seu Nome, do filho de Abraão.

Contudo, para a mentalidade antiga, sacrificar o filho ao seu deus é prova de real devoção ao deus que faz o pedido. Será que Abraão é devoto mesmo de Javé? Estaria ele disposto a entregar seu filho a Deus? O objetivo na narração é dizer que sim, contudo, que Deus não aceita tal sacrifício! Em seu lugar, recebe a oferta em holocausto do cordeiro que, desde então, assume o lugar de vítima no altar.

Dessa forma, o autor da história, ou autores, mantém a fidelidade de Abraão e também, a bondade de Javé em rejeitar tal sacrifício.

Parece-nos maldade ou loucura, ainda assim, a tortura psicológica que Deus faz a seu "amigo". Isso se mantivermos a leitura ao "pé da letra". Não entendo que trata-se de um mito antigo, onde sacrifício de filhos ou o pedido do sacrifício feito por uma divindade é normal. Em diversas culturas, mesmo nos povos antigos da América Latina, o sacrifício humano faz parte da vida religiosa.

Os judeus, talvez influenciados pelo pensamento de Jeremiais, editam essa história do sacrifício de Isaque como uma forma de condenar tal prática. Diferenciando-se, assim, de grande parte das religiões da época, sem, contudo, fugir à influência da normalidade de um pedido "sacro-homicida".

Tal texto, então, deve ser encontrado como uma forma de condenar às práticas de sacrifício humano. A partir de então, na época do retorno do exílio, data provável para esse conto, não serão aceitos tais rituais. Louvável é que alguém seja devoto a esse ponto - pensemos isso respeitando o tempo da escrita - mas esta devoção é dispensável para Javé.

E como se aplica isso ao nosso tempo?

Como vimos, nos tempos antigos, Jefté é exemplo de uma época onde o sacrifício de humanos, mesmo a Javé, é encarado com normalidade. De fato, mesmo os cristãos, em época bem posterior, colocam um sacrifício humano como o libertador para toda a humanidade: o sacrifício de Cristo na cruz. Mas isso é uma outra história que, em outro momento, poderemos falar sobre.

Voltando ao nosso ponto, a normalidade dessa sacrifício que, de certa forma, em algum momento, fazia parte da cultura e da prática religiosa do povo, quer a Javé quer aos "Baalins", torna-se questionada pelo profeta de Jerusalém. E uma reforma na mente religiosa do povo é executada.

Da mesma forma, de épocas em épocas, faz-se necessário observar a visão que se tem de Deus. Se a mesma não é uma visão "medieval" para a época que se vive. Discursos, práticas e doutrinas que pertencem a um tempo e a um momento histórico devem ser revistas.

Como exemplo bobo, mas que pode muito vem fazer parte do nosso discurso, está presente no teatro, que em épocas antigas era visto como lugar que não devia ser frequentado por protestantes; instrumentos musicais tais como a bateria e a guitarra não podiam fazer parte do culto cristão e que, hoje, são considerados quase que indispensáveis em nossos templos.

Tais exemplos não fazem parte da profundidade que o texto procura narrar. A citação foi apenas para exemplificar, entretanto, podemos pensar de forma mais profunda e levantar questões, tais como: ecumenismo e macro-ecumenismo (ou diálogo inter-religioso) que, ainda hoje, se mostram como o grande desafio contra-cultura, como o de Jeremias.

Exemplos são muitos. E todos mostrariam a necessidade de um pensamento sempre evolutivo. Que se mantém fiel à tradição bíblica, mas que propõe uma reforma na forma com que se encara a tradição. Impedindo,então, o "gesso ortodoxo" e, por fim, a inutilidade do cristianismo.

A religião que não se adapta, que não evolui, que não repensa sua revelação e seu relacionamento com a divindade de acordo com o tempo e com a cultura, mantendo-se fiel à seus valores, não pode, de forma alguma, afirmar que serve ao Deus de todos os tempos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A fé dos desterrados ( ainda sobre Região Serrana)

Dor, medo, angústia, corrupção, violência, incerteza, insegurança, infelicidade... por mais que achemos que, falando de vida local, estejamos longe disso, a bem da verdade é que, na maior parte do mundo, isso é comum. Muitos hoje aprenderam a não confiar, contudo, guardam dentro de si esses e outros sentimentos. Para mim, basta conversar com alguém no trem, no metrô, no chat, no trabalho e descubro que isso é cada vez mais comum, como tenho reparado.

Gostaria de pincelar um pouco sobre a situação dos contemporâneos dos escritores bíblicos. Diferente do que somos tentados a pensar, as histórias bíblicas dificilmente nascem da felicidade. São, antes, testemunhas da dor, do fracasso, da descrença e da injustiça. Procurando, de alguma forma, manter firme a confiança na Providência e, ao mesmo tempo, trazendo sobre cada um dos destinatários, a responsabilidade e a capacidade de viver em um mundo (ou país) melhor.

O primeiro grande problema, que temos mais informações, acredito ser o cativeiro Babilônico. É bem verdade que temos relatos de que muitos judeus conseguiram viver tranquilamente na terra estrangeira. Mas temos outros relatos históricos que confirmam a grande dor presente nos textos de Lamentações, que escrevo abaixo:

"Por estas coisas eu ando chorando; os meus olhos, os meus olhos se desfazem em águas; porque se afastou de mim o consolador que devia restaurar a minha alma; os meus filhos estão assolados, porque prevaleceu o inimigo.

Estende Sião as suas mãos, não há quem a console; mandou o SENHOR acerca de Jacó que lhe fossem inimigos os que estão em redor dele; Jerusalém é entre eles como uma mulher imunda."

"Estão sentados na terra, silenciosos, os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças, cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra. Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela terra por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem o menino e a criança de peito pelas ruas da cidade. Ao desfalecerem, como feridos, pelas ruas da cidade, ao exalarem as suas almas no regaço de suas mães, perguntam a elas: Onde está o trigo e o vinho?

Que testemunho te trarei? A quem te compararei, ó filha de Jerusalém? A quem te assemelharei, para te consolar, ó virgem filha de Sião? Porque grande como o mar é a tua quebradura; quem te sarará?"

"A língua do que mama fica pegada pela sede ao seu paladar; os meninos pedem pão, e ninguém lho reparte.Os que comiam comidas finas agora desfalecem nas ruas; os que se criaram em carmezim abraçam monturos."

"Os seus nobres eram mais puros do que a neve, mais brancos do que o leite, mais vermelhos de corpo do que os rubis, e mais polidos do que a safira. Mas agora escureceu-se o seu aspecto mais do que o negrume; não são conhecidos nas ruas; a sua pele se lhes pegou aos ossos, secou-se, tornou-se como um pau.

Os mortos à espada foram mais ditosos do que os mortos à fome; porque estes morreram lentamente, por falta dos frutos dos campos. As mãos das mulheres compassivas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo."

"A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha. Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados, e não temos descanso.Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos fartarem de pão."

"Forçaram as mulheres em Sião, as virgens nas cidades de Judá. Os príncipes foram enforcados pelas mãos deles; as faces dos velhos não foram reverenciadas. Aos jovens obrigaram a moer, e os meninos caíram debaixo das cargas de lenha. Os velhos já não estão mais às portas, os jovens já deixaram a sua música. Cessou o gozo de nosso coração; converteu-se em lamentação a nossa dança."

A tristeza e a depressão parecem fazer parte desse povo. Quando finalmente retornam do exílio e recebem a permissão de Ciro para a reconstrução de Jerusalém e do Templo, os judeus parecem sentir ai a expectativa de um novo tempo, o tempo Messiânico.

Contudo, outros impérios aparecem, e, de forma triste, a terra da Judéia vai passando de tutor a tutor. Ao caírem nas mãos do Império grego, mesmo estando sobre o domínio deles, conseguem, pelos seleucidas, certa tranquilidade para viver sua fé. Até que Antíoco IV Epifânes se revela uma verdadeira "Besta". Persegue o povo judeu, mata, vende como escravos, prende, coloca a estátua de Zeus dentro do templo, obriga a comer carne de porco, sacrifica um porco no santo dos santos, rouba os utensílios sagrados, ordena o trabalho sabático.

Enfim, os Romanos... esses são impiedosos... Após tantas humilhacoes, estupros, saques, impostos altos, o povo tenta se rebelar de diversas formas e sempre é derrotado. A derrocada final vem no ano 70 d.C.. Quando Tito invade Jerusalém, a destrói e derruba o fabuloso Templo. E, mais uma vez, a dor de Lamentações, citada nos textos acima, é re-sentida.

O interessante, contudo, é que, esse mesmo povo, quer em todos os braços deles (sacerdotal, farisaico, essênico, cristãos, proféticos, apocalípticos e etc) sempre gerou livros, nessas mesmas épocas, nesses momentos de dor, para falar de uma única coisa: esperança!

O que levava um povo, nessa situação, a falar de união, de socorro Divino, de amor, misericórdia, esperança e vida eterna?

Falando de uma forma que nos interessa entender, estamos acostumados a esperar, das pessoas que não vivenciaram o a tragédia da região serrana, uma palavra de apoio e incentivo. Agora, imaginemos alguém que tenha perdido tudo, promovendo, escrevendo e enviando mensagens de esperança, apoio e acreditando em dias melhores.

É exatamente essa a experiência dos autores bíblicos. Estavam entre os vitimados, faziam parte dos que não tinham nada, mas tinham esperança.

Uma loucura aos olhos de qualquer um acostumado com a experiência empírica para acreditar ou ter. Uma desventura para aqueles que se acostumaram a não precisar crer. Mas uma vitalidade e uma coragem que cabe apenas para aquele que viveu a experiência da fé. E quando digo fé não me reporto a uma religião - instituição -, antes, tenho em mente, a fé naquilo que não tem explicação e dispensa teorização. Fé como algo que, sem avisar, nasce em nosso íntimo, nos dá força e nos faz, simplesmente, acreditar naquilo que é impossível crer.

Não sou como àqueles que viveram tais dias. Faço parte do grupo dos que assistiram aos noticiários. Embora tenha ido a Friburgo, ajudado um pouco e visto algumas das necessidades daquela cidade, ainda assim, faço parte daqueles que ainda tem sua cama quentinha, sua comida vinda de seu próprio trabalho. Mesmo me permitindo chorar com os que CHORAM, ainda assim sou os que choram com os que CHORAM e não os que CHORAM. Contudo, pude observar de perto um pouco dessa esperança desmedida, aparentemente insana e consideravelmente imprescindível, nos olhos daqueles que trabalharam, lutaram, ajudaram, mesmo precisando de ajuda.

Nessas horas eu sinto-me como a tradição mosaica afirma que Moisés ficou: face a face com Deus.
Vejo Deus nessas pessoas... vejo Deus nos "chorões" que consolam os que choram. Vejo a Ruah de Deus presente de forma mais do que imanente, nos olhos lacrimosos dos que enxugam as lágrimas.

E, nessas horas,sacio minha curiosidade de entender o que fazia com que os homens do passado acreditassem e lutassem por dias melhores em momentos tão sombrios. Pois, da mesma forma, o mesmo Espírito, a mesma fé, a mesma coragem, a mesma força, o mesmo Deus, a mesma humanidade, vejo diante de mim. 

E, nessa hora, sinto-me como aquele que confirma, visivelmente, a existência, a atuação e a experiência com o Deus que é vivo e amoroso.