segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O luto de um Deus que sabe o que é morrer (ainda sobre a tragédia da Região Serrana-RJ)

Como já se pode reparar, nesse mês meu blog está dedicado às vítimas da maior tragédia por deslizamento do país. Nessas horas vejo que é comum a pergunta sobre "onde está Deus ?"e/ou "por que ele nao evitou tal sofrimento?". Um discurso comum que se ouve, dentro das igrejas, é sobre um tal cumprimento da Escrituras, que apontam para tragédias maiores que virão. Contudo, o frequentador desse blog sabe que não sou dado a discursos comuns, e, portanto, acredito sim que, infelizmente, tragédias maiores o mundo perceberá. Porém, não como um cumprimento de nada além, a não ser do descaso com a natureza e com a habitação de lugares de risco, coisa que no Brasil, tristemente, é comum o segundo caso.

Então, se não creio em cumprimento de nada, como responder a questão: onde estava Deus? Essa pergunta me faz lembrar uma experiência que E. Wiesel conta em seu livro "Noite", quando estava no campo de concentração nazista: 
"A SS enforcou a dois homens judeus e a um jovem diante de todos os internos no campo. Os homens morreram rapidamente, a agonia do jovem durou meia hora. ‘Onde está Deus? Onde está?’, perguntou um atrás de mim. Quando depois de longo tempo o jovem continuava sofrendo, enforcado
no laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus agora?’. E em mim mesmo escutei a resposta:
Onde está? Aqui... Está ali enforcado no madeiro”.
 

Deus é, precisamente, não a causa do sofrimento dos quem morreram ou perderam tudo. Mas vítima de todo esse acontecimento. Ele morre com os que morrem, chora com os que choram, fica de luto com os enlutados. Vive cada experiência como sua. E isso, não de forma oral  ou teórica, mas de fato. Da mesma forma o profeta ensinava que a glória de Javé foi levada ao cativeiro, junto com os cativos; assim é a mensagem da cruz que Cristo "morreu a nossa morte"; Também diz o salmista que se no sheol está o meu leito (ou seja estou morto), sei que ali também estás.
Mas o senso comum traz à baila não o Deus que sofre, que é afetado pelo mal que foi causado e sim como um Deus que abandona. Ainda assim, Deus também possui a experiência do abandono, do sentimento de solidão e desamparo que cada uma das vítimas possui. Pois, assim nos diz o evangelista, na cruz, Jesus disse: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

Sei bem que saber que Deus passou e passa por cada uma dessas experiência pode não trazer alívio, pois esperamos sempre  Deus milagroso que faz mágica e tudo acontece. Contudo, nesse momento, apresento o Deus que sofre, que chora, que é impotente e que apenas chora e tenta consolar, animar e renovar a esperança. Afinal, certo é que se Deus passou e passa por tudo isso, ele nao deseja tal experiência a ninguém. E os que por ela passam, são, por ele, amparadas, fortalecidas e reanimadas. Entrtanto, não como aquela velha mágica milagrosa dos contos de fada que estamos acostumados a desejar, mas sim, em forma de amigos, parentes, pessoas que se solidarizam, pois assim se revela Deus: no outro, na vida, no amor, nas ações que produzem a esperança de que as pessoas ainda podem esperar um mundo melhor. Um mundo sem tragédias.

Então, nesse texto, não quero apresentar o Deus que poderia ter evitado tudo. Pois dessa forma vamos pensar em quantas guerras, quantos terremotos, quantas dores Deus não poderia ter evitado. Prefiro apresentar o Deus enlutado e, como vítima da cruz, da guerra, do terremoto, do latrocínio, do estupro, do deslizamento, enfim, como vítima de todo o mal, que, em seu luto, "se envolve, resolve e revive".

Não creio no Deus que desampara, mas creio na experiência (sentimento) de desamparo, que sentimos nessa hora, que o Filho de Deus sentiu e, como desamparado, nos ampara. Como pai de todos os desamparados, o proprio Filho nos ampara e, nesse momento de grande dor, ampara os desamparados e , estando desabrigado, se faz abrigo dos desabrigados. Assim como o profeta, eu vejo Deus sem casa nas quadras e nos locais onde estão os sem casa, em meio a multidão e entre tantas covas abertas, uma eu vejo gravada o nome de Deus.


Bem-aventurado os que choram, porque serão consolados...

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