sábado, 15 de janeiro de 2011

Friburgo: Dias Tristes (a voz de quem vive)

Na madrugada de terça para quarta, fui acordado por gritos que pediam socorro
era uma familia desesperada por que uma barreira havia caido sobre sua pequena casa
uma criança ficara presa entre moveis e destroços
a criança ainda falava e eu lhe perguntava: qual é seu nome, pequena
e ela dizia: é sabrina, tio, me tira daqui ... meu pe esta preso
eu e meu irmao tentamos remover os obstaculos para acessar a criança
a chuva intensificou-se e agua subia pelo comodo que restou de pe
usamos martelos para tentar abrir buracos para esgotar a agua cheia de lama
bombeiros nao respondiam - ja havia dezenas de pedidos de socorro e a cidade ja estava submersa
estavamos sós - abandonados a propria sorte
a partir desse momento, a pequena ja nao mais respondia
depois de muito tempo, o corpinho ja inerte foi retirado - sem vida
ainda assim, tentamos muito uma massagem de ressuscitação
em vão ...
o sentimento de culpa e impotencia é muito ruim

nessa mesma hora, um estrondo opaco e grave surdou-nos a todos
uma encosta - na verdade uma montanha coberta de mata nativa - deslizou sobre o predio da escola que levamos mais de 10 anos para erguer
salas e predios no chao em segundos - nada que nao se reconstrua, mas nada que nao fique para sempre na memoria

quarta e quinta foram dias de pavor
noticias desencontradas - noticias de amigos mortos, desaparecidos ...
uma caminhada pelas ruas enlameadas revelava um cenario de guerra
gente andando de um lado ao outro - sem rumo
comerciantes limpando lojas
gente de casa tentando recuperar restos de tudo
igrejas mobilizando pequenos exercitos para limpar templos (quanta gente fora deles precisando de socorro!)

algum relance de alivio
uma criança salva de entre escombros de um predio derrubado
salva por um pai que a agasalhou com o corpo e assim permaneceu por mais de 20 horas sob as lajes e ferros retorcidos
um pai que da a vida por um filho

quando a sexta raiou, havia muita agua ainda caindo
hoje foi um dia triste
sepultamos uma família inteira - 8 pessoas (3 adultos, 5 adolescentes) - avó, filha, genro, 5 netos
o cemitério disponível fica muito longe e no momento do funeral chovia muito e ja estava perto de anoitecer
orações e hinos tiveram de ser "corridos"
nao havia muito o que dizer - so havia lagrimas
correr entre tres sepulturas distantes para "distribuir" corpos foi uma experiencia absurdamente triste, constrangedora e degradante

policia, bombeiros, defesa civil, marinha, exercito, bope
um esquadrao de guerra na rua
uma operaçao de guerra contra sabe-se la o que
vai chover mais?
o que mais vai cair?
o que mai vai encher?

um alarme falso causou panico na cidade inteira
a noticia de uma represa rompida fez gente correr morros acima
gente avancar com automoveis sobre tudo e sobre todos
batidas e atropelamentos
panico geral

os corpos, mais de 250 ate agora, estao epalhados entre ginasios e escolas de samba
o cheiro ja é mau
os olhares estao ou perdidos em busca de algo que nao se sabe o que é
ou fixados na busca de alguem certo mas que nao se sabe onde esta

hoje recebi a ligacao telefonica de um eximio cirurgiao
me retornava, porque na noite da terca feira liguei desesperado para ele em busca de uma orientacao para trazer de novo a vida aquela menina afogada na lama
sua consciencia o fez retornar a ligacao
queria apenas pedir desculpas por nao ter podido ajudar
nao sabia quem eu era - mas sabia que nao dormiria em paz se nao soubesse do desfecho daquele telefonema inoportuno na madrugada

ter que dormir fora de casa é ruim - uma mesma muda de roupa no corpo
mas nao consigo imaginar a indignidade de quem nada mais tem e dorme sobre colchonetes num amontoado de gente largada pela vida

nao ha esperanças de mais sobreviventes sob escombros
triste saber que minha teologia agora serve a dezenas de familias para enterrar seus mortos

tenho me permitido, ao menos, chorar com os que choram
nao consigo ficar sem chorar
doi muito ...

ajudas podem ser remetidas em dinheiro para o Banco do Brasil, ag 0335-2, c/c 120.000-3 ( conta da prefeitura destinada a esse fim )

ricardo lengruber 

Nenhum comentário:

Postar um comentário