quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Ainda sobre tragédias...

Desde que o mundo é mundo, o ser humano convive com tragédias. Terremotos, maremotos e etc. Na bíblia temos exemplos: o próprio relato mitológico do Dilúvio aponta para a experiência de enchentes que matam e destroem tudo; o conto destruição de Sodoma e Gomorra, que demonstra, talvez, uma experiência de um vulcão em erupção; a seca que Canaã passou nos temos patriarcas que coincide com os sete anos de "vacas magras" preditos por José. A diferença é que o homem antigo sempre atribuia isso a um deus. Não apenas as tragédias mas também a chuva, a boa colheita e etc. Tudo estava linkado a um deus.

Com o advento do iluminismo o mundo se secularizou. E começou a reparar que a ciência respondia o porquê de terremotos, ondas gigantes, tornados e etc. Mas, com isso, ergueram-se alguns problemas com a religião, pois tirou de Deus a responsabilidade por esses atos, enquanto que os religiosos ainda matinham a severidade de um deus que castiga a tudo e a todos com a sua natureza.

Isso é triste porque os religiosos teriam, na ciência, uma forma excelente de tirar das costas de Deus o peso de ser alguém tão sanguinário. Por que nao o fazem? Talvez porque com isso se demonstraria um Deus meio impotente, que não consegue governar a fúria de sua natureza e, então, sustentam uma contradição que, de alguma forma, tentam dizer que não existe: o fato de adorar a um Deus que é amor, mas é fogo consumidor. Que consome quem acha que deve consumir.

Eu dei uma olhada na pesquisa que fizeram no google que levou dezenas de pessoas a cairem no meu blog. O que vi foram pessoas e mais pessoas que, no lugar de procurarem explicacoes em seus sacerdotes ou líderes religiosos, procuram no google a resposta para suas dúvidas. Que perigo para a fé é isso! Querem saciar suas dúvidas que apontam para uma única pergunta: onde estava Deus enquanto centenas e centenas de pessoas morriam de forma tão triste ou perdiam tudo que construíram, além de suas próprias famílias?

Por que procurar Deus nas tragédias? Será um retorno ao homem antigo, que é incapaz de saber que existem porquês científicos para a seca ou para a abundância? Por que procurar Deus nas tragédias quando, na realidade, deveríamos procurá-los nas pessoas que se doam voluntariamente para devolver algum tipo de dignidade aos sobreviventes? Por que não procurar Deus nas pessoas que fazem doações? Por que não procurar Deus na força e na fibra de reconstruir suas vidas? Qual o prazer de ver Deus onde só se enxerga dor?

Como disse na postagem anterior: Deus não é a causa, mas sim uma das vítimas dessa dor. Deus, nesse momento, é como um pai que é culpado por seu filho ter morrido. Pensemos nos pais e nos homens e mulheres que tentaram salvar entes queridos e não conseguiram, como se sentem culpados e como são, por alguns, culpados, quando, na realidade seus desejos eram de vida e não de morte. Assim é Deus... culpado por nós por ser incapaz de salvar seus filhos. Pior ainda, culpamos a um Deus que pensamos ter condições de evitar a tragédia, e, assim, o acusamos, ainda que sem reparar, de assassino. Aquele que dá sua vida, é acusado de tirar a vida que não é sua.

Quero concluir apenas relembrando isso: Deus é amor.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O luto de um Deus que sabe o que é morrer (ainda sobre a tragédia da Região Serrana-RJ)

Como já se pode reparar, nesse mês meu blog está dedicado às vítimas da maior tragédia por deslizamento do país. Nessas horas vejo que é comum a pergunta sobre "onde está Deus ?"e/ou "por que ele nao evitou tal sofrimento?". Um discurso comum que se ouve, dentro das igrejas, é sobre um tal cumprimento da Escrituras, que apontam para tragédias maiores que virão. Contudo, o frequentador desse blog sabe que não sou dado a discursos comuns, e, portanto, acredito sim que, infelizmente, tragédias maiores o mundo perceberá. Porém, não como um cumprimento de nada além, a não ser do descaso com a natureza e com a habitação de lugares de risco, coisa que no Brasil, tristemente, é comum o segundo caso.

Então, se não creio em cumprimento de nada, como responder a questão: onde estava Deus? Essa pergunta me faz lembrar uma experiência que E. Wiesel conta em seu livro "Noite", quando estava no campo de concentração nazista: 
"A SS enforcou a dois homens judeus e a um jovem diante de todos os internos no campo. Os homens morreram rapidamente, a agonia do jovem durou meia hora. ‘Onde está Deus? Onde está?’, perguntou um atrás de mim. Quando depois de longo tempo o jovem continuava sofrendo, enforcado
no laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus agora?’. E em mim mesmo escutei a resposta:
Onde está? Aqui... Está ali enforcado no madeiro”.
 

Deus é, precisamente, não a causa do sofrimento dos quem morreram ou perderam tudo. Mas vítima de todo esse acontecimento. Ele morre com os que morrem, chora com os que choram, fica de luto com os enlutados. Vive cada experiência como sua. E isso, não de forma oral  ou teórica, mas de fato. Da mesma forma o profeta ensinava que a glória de Javé foi levada ao cativeiro, junto com os cativos; assim é a mensagem da cruz que Cristo "morreu a nossa morte"; Também diz o salmista que se no sheol está o meu leito (ou seja estou morto), sei que ali também estás.
Mas o senso comum traz à baila não o Deus que sofre, que é afetado pelo mal que foi causado e sim como um Deus que abandona. Ainda assim, Deus também possui a experiência do abandono, do sentimento de solidão e desamparo que cada uma das vítimas possui. Pois, assim nos diz o evangelista, na cruz, Jesus disse: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

Sei bem que saber que Deus passou e passa por cada uma dessas experiência pode não trazer alívio, pois esperamos sempre  Deus milagroso que faz mágica e tudo acontece. Contudo, nesse momento, apresento o Deus que sofre, que chora, que é impotente e que apenas chora e tenta consolar, animar e renovar a esperança. Afinal, certo é que se Deus passou e passa por tudo isso, ele nao deseja tal experiência a ninguém. E os que por ela passam, são, por ele, amparadas, fortalecidas e reanimadas. Entrtanto, não como aquela velha mágica milagrosa dos contos de fada que estamos acostumados a desejar, mas sim, em forma de amigos, parentes, pessoas que se solidarizam, pois assim se revela Deus: no outro, na vida, no amor, nas ações que produzem a esperança de que as pessoas ainda podem esperar um mundo melhor. Um mundo sem tragédias.

Então, nesse texto, não quero apresentar o Deus que poderia ter evitado tudo. Pois dessa forma vamos pensar em quantas guerras, quantos terremotos, quantas dores Deus não poderia ter evitado. Prefiro apresentar o Deus enlutado e, como vítima da cruz, da guerra, do terremoto, do latrocínio, do estupro, do deslizamento, enfim, como vítima de todo o mal, que, em seu luto, "se envolve, resolve e revive".

Não creio no Deus que desampara, mas creio na experiência (sentimento) de desamparo, que sentimos nessa hora, que o Filho de Deus sentiu e, como desamparado, nos ampara. Como pai de todos os desamparados, o proprio Filho nos ampara e, nesse momento de grande dor, ampara os desamparados e , estando desabrigado, se faz abrigo dos desabrigados. Assim como o profeta, eu vejo Deus sem casa nas quadras e nos locais onde estão os sem casa, em meio a multidão e entre tantas covas abertas, uma eu vejo gravada o nome de Deus.


Bem-aventurado os que choram, porque serão consolados...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Friburgo: Dias Tristes (a voz de quem vive)

Na madrugada de terça para quarta, fui acordado por gritos que pediam socorro
era uma familia desesperada por que uma barreira havia caido sobre sua pequena casa
uma criança ficara presa entre moveis e destroços
a criança ainda falava e eu lhe perguntava: qual é seu nome, pequena
e ela dizia: é sabrina, tio, me tira daqui ... meu pe esta preso
eu e meu irmao tentamos remover os obstaculos para acessar a criança
a chuva intensificou-se e agua subia pelo comodo que restou de pe
usamos martelos para tentar abrir buracos para esgotar a agua cheia de lama
bombeiros nao respondiam - ja havia dezenas de pedidos de socorro e a cidade ja estava submersa
estavamos sós - abandonados a propria sorte
a partir desse momento, a pequena ja nao mais respondia
depois de muito tempo, o corpinho ja inerte foi retirado - sem vida
ainda assim, tentamos muito uma massagem de ressuscitação
em vão ...
o sentimento de culpa e impotencia é muito ruim

nessa mesma hora, um estrondo opaco e grave surdou-nos a todos
uma encosta - na verdade uma montanha coberta de mata nativa - deslizou sobre o predio da escola que levamos mais de 10 anos para erguer
salas e predios no chao em segundos - nada que nao se reconstrua, mas nada que nao fique para sempre na memoria

quarta e quinta foram dias de pavor
noticias desencontradas - noticias de amigos mortos, desaparecidos ...
uma caminhada pelas ruas enlameadas revelava um cenario de guerra
gente andando de um lado ao outro - sem rumo
comerciantes limpando lojas
gente de casa tentando recuperar restos de tudo
igrejas mobilizando pequenos exercitos para limpar templos (quanta gente fora deles precisando de socorro!)

algum relance de alivio
uma criança salva de entre escombros de um predio derrubado
salva por um pai que a agasalhou com o corpo e assim permaneceu por mais de 20 horas sob as lajes e ferros retorcidos
um pai que da a vida por um filho

quando a sexta raiou, havia muita agua ainda caindo
hoje foi um dia triste
sepultamos uma família inteira - 8 pessoas (3 adultos, 5 adolescentes) - avó, filha, genro, 5 netos
o cemitério disponível fica muito longe e no momento do funeral chovia muito e ja estava perto de anoitecer
orações e hinos tiveram de ser "corridos"
nao havia muito o que dizer - so havia lagrimas
correr entre tres sepulturas distantes para "distribuir" corpos foi uma experiencia absurdamente triste, constrangedora e degradante

policia, bombeiros, defesa civil, marinha, exercito, bope
um esquadrao de guerra na rua
uma operaçao de guerra contra sabe-se la o que
vai chover mais?
o que mais vai cair?
o que mai vai encher?

um alarme falso causou panico na cidade inteira
a noticia de uma represa rompida fez gente correr morros acima
gente avancar com automoveis sobre tudo e sobre todos
batidas e atropelamentos
panico geral

os corpos, mais de 250 ate agora, estao epalhados entre ginasios e escolas de samba
o cheiro ja é mau
os olhares estao ou perdidos em busca de algo que nao se sabe o que é
ou fixados na busca de alguem certo mas que nao se sabe onde esta

hoje recebi a ligacao telefonica de um eximio cirurgiao
me retornava, porque na noite da terca feira liguei desesperado para ele em busca de uma orientacao para trazer de novo a vida aquela menina afogada na lama
sua consciencia o fez retornar a ligacao
queria apenas pedir desculpas por nao ter podido ajudar
nao sabia quem eu era - mas sabia que nao dormiria em paz se nao soubesse do desfecho daquele telefonema inoportuno na madrugada

ter que dormir fora de casa é ruim - uma mesma muda de roupa no corpo
mas nao consigo imaginar a indignidade de quem nada mais tem e dorme sobre colchonetes num amontoado de gente largada pela vida

nao ha esperanças de mais sobreviventes sob escombros
triste saber que minha teologia agora serve a dezenas de familias para enterrar seus mortos

tenho me permitido, ao menos, chorar com os que choram
nao consigo ficar sem chorar
doi muito ...

ajudas podem ser remetidas em dinheiro para o Banco do Brasil, ag 0335-2, c/c 120.000-3 ( conta da prefeitura destinada a esse fim )

ricardo lengruber 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sobre dores... (a propósito da tragédia na Região Serrana-RJ)

Esses últimos dias eu estou vivendo uma dor e raiva que sempre sinto nessas horas. Estamos diante da pior tragédia de deslizamento que o Brasil já teve. Segundo a ONU, estamos entre os 10 piores que o mundo já teve, dos últimos 111 anos. E tenho que abrir mão do tema do blog para falar sobre o que sinto, preciso desabafar e deixar registrado meu desabafo.

Minha dor..

Acho que todos nós que esperamos a vinda de um Reino Utópico, deviamos sentir muitas dores ao testemunhar situações que contradizem e colocam em cheque toda a nossa esperança. Não, não digo que descri ou qualquer coisa do tipo. Mas me pergunto: quem justifica cada crianca que morreu nos deslizamentos? Quem justifica cada pai e mãe de família que deixam filhos sem pais? Quem justifica cada família que, simplesmente, não existe mais? Onde está o justificador dos animais e plantas que também já são mortos? 

Culpar é fácil... culpemos as pessoas que habitam em lugares irregulares; culpemos o governo que permitiu a ocupação; culparemos o aquecimento global e, como isso, a nós mesmos. Arrumar culpados é algo que todo o ser humano sabe fazer muito bem. O mito bíblico de Adão e Eva já ensinava isso: "a mulher que me deste me deu e eu comi", "a serpente me enganou e eu comi". Sempre procuramos culpados... Não posso dizer que na prática não fazemos nada, porque, de fato - gracas a bondade que ainda existe no ser humano, essa parcela divina que nada pode apagar -  muitos estão se mobilizando para fazer alguma coisa pelos sobreviventes.

Então, qual é a minha dor? 

Acredito que seja a impotência diante do nada... nao digo que nao posso e nao vou mandar alimentos e o que puder mais. Mas nessa hora me recordo de uma experiência que um amigo e professor teve (ele mora em Nova Friburgo), colocarei o link de sua história no final dessa postagem. Ele diz que depois da tentativa frustrante de salvar uma menina que nao resistiu, ao tentar procurar um bombeiro para resgatar o corpo, o bombeiro dizia: estamos dando prioridade aos vivos.

Essa... essa é precisamente minha dor... o raciocínio do bombeiro é lógico, simples e correto: não tinha mais o que fazer por aquela menina, mas existem outros, nos escombros, ainda vivos, que precisam sim de ajuda, e que ainda se pode fazer alguma coisa.

Minha questão nao é pensar que ele estava errado... o tempo que ele resgata o corpo morto da menina, é o tempo que ele precisava para salvar alguem que estivesse quase morrendo, mas ainda vivo. Minha inquetacao nao passa pelo "abandono" do corpo. Mas pela presença dele.


"Não há mais o que fazer por ela"... não há mais o que fazer para mais de 520 pessoas (até o momento é minha ultima informacao). Não há mais o que fazer para recuperar vidas, casas, histórias, alegrias... não há mais. Sinto-me como o poeta lamentador (me dando o direito de alterar o contexto): Os caminhos de Sião pranteiam, porque não há quem venha à festa solene; todas as suas portas estão desoladas; os seus sacerdotes suspiram; as suas virgens estão tristes, e ela mesma tem amargura.(Lm 1:4).


Minha Raiva...

A facilidade com que as pessoas q se dizem cristãs escrevem em blogs e comentam notícias: Jesus está voltando! A parusia, para o mundo inteiro, representa consolo, conforto, vida, alegria e paz. Quando que as pessoas vao aprender a se calarem quando nao tiverem anda a dizer?

Querem inaugurar um momento de paz com um momento de dor maior... cansa, cansa de verdade esse povo bobo de mente vazia q se diz cristão...