sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Adeus ano velho...

Mais um ano se vai... É comum, no final de cada ano, olhar os meses que se passaram e refletir sobre atitudes, decisões e experiências que se viveu. No mesmo caminho do corriqueiro, também se faz projetos, sonhos e planos para o futuro que se abre à frente. As chamadas "Promessas de fim de ano" fazem parte da "virada". Surgem também as superstições de cor de cueca ou de calcinha, roupa que se vai usar na virada, cor que se vai usar. As vitrines, preocupadas com o imaginário popular, embranquecem suas roupas. E o misticismo invade nossas vidas por algumas horas.

Todos esses rituais místicos ou não são bem comuns nesse período. Isso tudo porque imaginamos o ano como um relógio que completou o seu percurso e já inicia outro. Talvez, de alguma forma, inspirados também na idéia de que o planeta completou sua volta em torno do Sol, nos proporcionando mais um ano. Dentro dessa ótica, é simplesmente comum que se passe a "virada" fazendo planos e relembrando o ano que se despede. Afinal, se o ano é como um relógio, religiosamente, precisamos manter o nosso papel no andar do ponteiro.

Mas existe também outra análise que, muitas vezes, não faz parte do nosso "mundinho comum da virada": a linha da vida. Sim, a linha a vida. Não a que está "desenhada" em nossas mãos. Mas refiro-me ao caminhar contínuo da vida. A história não é como o relógio. Ela segue o seu percurso linearmente. Como uma linha desenhada no papel que tem seu início e percorre para, em algum momento, alcançar o seu fim. A história possui um objetivo e segue caminhando para ele.

Diferente do relógio que, constantemente, passa pelo mesmo lugar incansavelmente, a história, contudo, não permite visita ao passado. Já dizia o poeta "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia". Encarar a vida ou a história dessa forma é considerar que temos um alvo. É dessa forma que podemos pensar, por exemplo, o caminho da evolução das espécies. Na história linear do planeta, houve um momento que o ser humano atingiu o que chamamos de consciência. E, a partir daí, o mundinho humano evoluiu, ainda que isso queira, ao mesmo tempo, dizer que o mundo em si mergulhou-se em uma involução. Contudo, a linha da história segue seu percurso nos proporcionando dias diferentes que marcamos com dia, mês e ano. Deixando claro que aquele dia é único na história. Haverá, certamente, outros dias 31/12, mas, jamais, um 31/12/2011. Os dias são únicos, as horas são únicas, o momento presente (se é que existe) é único.

E o "tempo não pára". Não pára e não liga se paramos. Não pára e não tem consideração com os que sofrem. Não dá uma folga, não permite que refaçamos nossas forças. A vida, a história segue o seu percurso linear.

Mas para onde iremos? Fácil fazer essa pergunta frente aos acontecimentos do mundo. Religiosos fundamentalistas mantêm o discurso de que estamos caminhando para o "apocalipse". Contudo, o correto é dizer que a linha da história traça o seu destino de acordo com nossas decisões. A história não tem consciência e não é viva. Ela existe porque, dentro dela, estão seres vivos. Há quem crê em destino ou predestinação. Eu, contudo, penso que essa é a melhor forma de fugir da responsabilidade de nossas decisões: "se já está tudo escrito, faça o que quiser, a culpa é do destino e não sua".

Eu vejo uma história aberta... Aberta e burra. Burra no sentido de que não compreende o calendário. Não se importa de fazer uma mãe enterrar seu filho no dia no seu aniversário, ou no dia das mães. Não se preocupa em impedir que alguém morra no natal ou no ano novo. Para a história a vida se segue linearmente. Não existe calendário e nem datas memoráveis.

Isso pode ser pesado, mas existe uma coisa de bom: ela deixa que guiemos para onde deve ir. A nossa história não está pronta, pelo contrário, ela segue o rumo de acordo com o que decidimos. Isso é bom! Podemos viver o andar do relógio, renovar nossas forças para mais um ano e repensar o ano que passou. Podemos fazer isso porque isso nos permite mudar e dirigir para onde a história deve ir. A história tem um destino... Tem um fim... Um objetivo. Mas somos nós, na nossa inércia ou na nossa participação que definimos qual.

Façamos os rituais que constantemente estamos acostumados a fazer. Mas, acima de tudo, determinemos o caminho que o mundo deve percorrer e, assim, mudemos a triste história que esse mundo tem pra contar.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal como um símbolo que nos basta!

Sou uma pessoa que dá bastante valor aos símbolos. Eles de fato me encantam e estão em todos os lugares: um aperto de mão; um sorriso demonstrando estar tudo bem; um aceno com as mãos ao se despedir; um beijo no rosto como sinal de afeto; um abraço; e mesmo essas letras que compuseram as palavras. Quem disse que esse desenho "a" representa, foneticamente o que chamos de "a"? Viu? O símbolo é tão perfeito que para falar do que ele aponta, não tem jeito, precisamos dele mesmo.

E é isso que me fascina nos símbolos: a capacidade de apontar para algo além dele mesmo. A cor vermelha, por exemplo, não significa nada, mas, em um semáforo possui uma ordem de "Pare"; Uma aliança em uma vitrine não diz absolutamente nada, é apenas um anel. Mas ganha total simbologia e significado, mesmo na vitrine, quando dois namorados olham-na e pensam como ficará em seus dedos. E, no momento do "sim", o símbolo se concretiza e chega ao seu auge. O anel que chamamos de "aliança" não é a aliança do casal. O casal firma um pacto de entrega total, irrestrita e exclusiva. E esse pacto, se simboliza no anel que chamamos "aliança".

Símbolos... eu de fato os amo. É  a forma perfeita de fazer poesia sem usar letras ou a criatividade da fala. O símbolo fala no silêncio, no meditar, no raciocínio para além do instrumento usado. Um pano branco é apenas isso e nada mais. Numa aste, forma uma bandeira que pede e anuncia a paz.

Essa mesma paz, ampliada e elevada ao máximo da potência recebe seu símbolo maior na palavra Natal. O dia 25 de dezembro nada mais é do que um dia como outro. Contudo, recebeu um símbolo que diz que essa data é especial. E todo o clamor do comércio não consegue apagar de muitos a mensagem que esse símbolo anuncia: paz, igualdade, unidade e fraternidade.

Contudo existem muitos que não conseguem se alimentar dos símbolos. O ardor do fundamentalismo atrapalha (e muito) a observar essas mensagens gravadas nas coisas sem sentido em si mesmas. A exemplo, muitas igrejas começaram certa campanha contra o Natal devido sua "verdadeira origem pagã". Enchem de argumentos dizendo que Cristo jamais teria nascido em dezembro e fazem mil cálculos para determinar o ano e possivelmente o mês do nascimento de Jesus.

Como se isso fosse importante... não importa se a festa em si, originalmente, vem da idolatria. Não faz diferença nenhuma se Jesus não nasceu no dia 25. As coisas ganham valor pq damos valores a elas. Da mesma forma perdem valor porque começamos a deprecia-las.

E o universo religioso é o universo dos símbolos. Não existe religião sem símbolos! E, portanto, não se deve "des-simbolizar" o cristianismo, pelo contrário, a simbologia cristã fomenta a fé, faz a "mágica" da religação e permite-nos tocar o Sagrado com elementos que, fora dos ritos e da simbologia, não possuem valor algum.

O que é um pão e um vinho? Nada além de alimentos como qualquer um outro. Unidos, numa ceia, contudo, são o corpo e o sangue de Cristo; O que é a água se não o elemento essencial à vida mas que, com comumente está presente em nossas torneiras, filtros, privadas, chuveiros, tanques, lavadoras, geladeiras e etc. Entretanto, derramado sobre a cabeça de alguém, ou preenchedo todo o corpo dessa mesma pessoa que é imergida em um rio ou piscina, a água se torna o elemento essencial do batismo, que simboliza a morte da vida antiga e o renascer ou o ressuscitar para uma vida nova e eterna.

E podemos ir mais adiante: o fechar os olhos em um momento de louvor ou oração; o erguer as mãos em sinal de intercessão; a cruz; o altar; o templo e etc... tudo, simplesmente tudo, símbolo, símbolo e símbolo...

Devemos aprender a respeitar nossos símbolos, valoriza-los e compreender a mensagem que eles carregam.

Então é Natal! Jesus não nasceu no dia 25, mas é o dia de relembrar seu nascimento e ser tocado pelo maior símbolo do amor de Deus: a encarnação do Verbo, sua vida em amor, sua morte por amar e sua ressurreição que nos faz vivos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Não tomar o nome de Deus em vão (por Ricardo Lengruber Lobosco)

Ricardo Lengruber Lobosco

Se eu ainda alimentava alguma dúvida sobre a relação entre fé e consumo, a tarde de 10 de dezembro de 2011 dirimiu por completo minhas questões sobre o assunto. Fé tornou-se objeto de consumo ou, pior, incentivo ao consumo!

A Rede Globo de Televisão (talvez movida pela concorrência com a Record do Bispo Macedo) e alguns artistas do “mercado gospel” se uniram no festival Promessas, evento de música religiosa evangélica para um grande público no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

A música gospel fatura bilhões e tem, cada dia mais, chamado à atenção mídias, gravadoras, políticos e investidores dispostos a mergulhar nesse mar cheio de oportunidades. Pesquisas recentes revelam que esse mercado é um dos mais rentáveis no país (movimenta R$ 1,5 bilhão por ano e é o único segmento fonográfico que cresce em venda de discos no País). Segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD), o estilo está presente entre os 20 CDs mais vendidos no Brasil.

A música saiu dos templos e invadiu os mercados. Com ela, surgiram artistas, empresários, contratos e tudo que demanda um empreendimento artístico e cultural dessa envergadura.

Está claro para mim que a fé tem um papel social importante e, acima de tudo, relevante (impactante). O discurso da fé não é um entre os demais. É um modo de ver a realidade que molda os demais discursos e, como tal, forma opinião e determina decisões e comportamentos.

Meu conflito está no fato de que a multidão de “fãs” da música gospel não se diferencia do restante da população e, por uma questão de coerência com os princípios que as próprias letras alardeiam, não “fazem diferença” na sociedade.

Continuamos um país com péssima distribuição de renda, de altos índices de analfabetismo, subemprego e corrupção. A representação evangélica nas esferas de governo e legislatura não são em nada melhor ou diferente da política pequena e corrupta que domina no país.

É fato que as igrejas cresceram muito e há hoje uma população consideravelmente grande daqueles que se identificam como “evangélicos”. Mas é fato também que isso não mudou em nada a face da nação, como requeria o Evangelho de Jesus ao nos exortar a sermos “sal da terra e luz no mundo”.

Por outro lado, fico sempre a me perguntar sobre questões teológicas. Primeiro, e mais óbvia, é a observação sobre o conteúdo das letras e a qualidade das músicas. Nada que se aproxime da boa música popular e da poesia brasileira. Há muito dinheiro envolvido e muita riqueza dispensada em tecnologia, marketing e contratos, mas muito pouca qualidade musical de fato. A fé cristã dispõe de um depósito generosamente grande de tradição e reflexão, mas as músicas das rádios e televisões são impressionantemente pálidas, iguais e de baixa qualidade.

Além disso, banalizam o nome de Deus. Como já afirmei em outras oportunidades, não há mandamento contra o qual as religiões mais tropeçam do que o segundo deles – “não usarás o nome do Senhor teu Deus em vão”; destaque especial deve ser feito para as rádios e artistas evangélicos. Usam e abusam do nome de Deus como se esse não fizesse a menor diferença. Virou entretenimento e música de recepção. Sairam dos templos, onde funcionavam como instrumento de louvor, e assumiram as hits parades, onde o que vale é a efemeridade da mudança e do ineditismo.

Com cachês milionários – e, diga-se, imorais – os artistas gospel sustentam e reforçam cada dia mais as máximas da teologia da properidade; visão de mundo baseada na ideia de que os abençoados são, necessariamente, bem sucedidos e prósperos. A fé, vista dessa forma, não passa de uma senha para acesso ao mundo do consumo e da felicidade.

Quem antes buscava na igreja um conforto especial para seus dramas e tristezas e, além disso, comprometia-se, pela fé, numa ação convertedora da maldade desse nosso mundo, agora vai ao shopping (com roupa de missa) e, lá, compra um CD do último artista gospel, namora um celular novo na vitrine e, por fim, participa de uma eucaristia à prosperidade no McDonald`s.

Triste que a Igreja tenha saído da marginalidade assim, se assimilando a esse mundo e dele fazendo parte. O Apóstolo Paulo fora esquecido porque suas palavras eram duras demais: “não vos conformeis com este mundo, antes transformai-o pela renovação da vossa mente” (Rm 12,1).

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

E Deus entrou no mundo pelas portas dos fundos

"É momento de esperar, a Palavra silencia, a humanidade espera, a terra anseia, os corações vigiam. É o Advento, o parto de uma nova era. A promessa feita a Abraão é confirmada por um povo fraco e humilde, que, na maturidade de sua fé, se abre e, no seio de uma mulher, se encarna o Deus da Vida."

Em um texto iniciei uma comparação sobre as duas narrativas do nascimento de Jesus (Mateus e Lucas) e tentei, de certa forma, mostrar como os dois tinham em mente uma forma diferente de falar do mesmo evento. Tendo, cada um, sua intenção e, portanto, traçando caminhos diferentes. Um exemplo que trago, novamente:

Mateus:

A família de Jesus mora em Belém; Jesus nasce em Belém em sua casa; A família foge para o Egito devido a matança dos inocentes; Depois da morte de Herodes vão morar em Nazaré;

Lucas:

A família de Jesus mora em Nazaré; Devido o recenseamento ordenado por Augusto, seus pais seguem para Belém, no caminho, Maria dá à luz e põe seu filho em uma manjedoura por não ter lugar na estalagem; Sua família volta para Nazaré.

Outras diferenças existem, mas fiz questão de chamar a atenção para essas duas. O que possuem em comum? Jesus nasce em Belém e cresce em Nazaré.

Interessante é que, na narrativa de Mateus, magos, vindos do oriente, seguem para Jerusalém, guiados pela estrela do rei dos judeus. Título esse que pertencia a Herodes legalmente (César havia dado a ele). Nada mais óbvio: onde procurar um rei? Na capital do país, no palácio.

Já na história de Lucas não existem magos, mas pastores. Pastores que recebem de um anjo a mensagem de que na cidade de Davi nascera o Salvador, que é o Messias (Cristo = Ungido = Messias), que é o Senhor. Os títulos Salvador e "o Senhor" pertencem ao mesmo Augusto que ordenou o censo.

Em Mateus Cristo já nasce sendo anunciado para Jerusalém como o rei dos judeus, o que já deixa claro o tom político: se um rei dos judeus legítimo - descendente de Davi segundo a genealogia de Mateus -  nasceu, logo a ameaça sobre Herodes, o Grande e  sobre o domínio romano está mais do que confirmada.

Em Lucas, Cristo já nasce como o Salvador de todo o povo, como o Messias prometido e como o Senhor. E esse evangelho (termo utilizado como anúncio do nascimento de um César) é proclamado primeiramente aos pobres pastores. O natal é a revelação de Deus aos pobres. Senhorio esse que ataca o próprio Senhor existente: César Augusto.

Mas não é no palácio, é em uma casa na aldeia de Belém, segundo Mateus; Não é em Roma e nem em Jerusalém, mas em uma manjedoura, na aldeia de Belém, segundo Lucas.

O rei dos reis (título messiânico atribuído a Jesus) nasce e vive na periferia. Se observarmos o dogma cristológico, chegamos a seguinte conclusão: Deus entra em seu mundo pelas portas dos fundos; Deus entra no prédio da humanidade pela porta dos fundos e usa o elevador de serviço.

Não faz diferença quando ou como Cristo nasceu. Isso não é importante para se alcançar a mensagem dos evangelhos. A importância está no "como eles escrevem". E escrevem demonstrando não apenas humildade de Deus, que é o que normalmente as pessoas exaltam: "olha como Deus é humilde". O importante não é simplesmente a valorização da palavra "humildade", mas sim a identificação. Cristo se identifica, toma a identidade, faz-se como, se torna, de fato é, um camponês, um "rejeitado" desde o nascimento. Rejeitado pela ordem da matança dos inocentes ou rejeitado por não ter um lugar onde nascer.

Cristo, desde o seu nascimento, identifica-se com os pequenos, os rejeitados, os discriminados, enfim, com todos os marginalizados.

Será que, no meio de tantas igrejas, Cristo, hoje, não nasceria em um terreiro de macumba? Será que no meio de tanto ódio ao homossexualismo, justificado erradamente pelas Escrituras, não faria Cristo nascer em um lar homossexual por serem os únicos que dariam lugar para Maria dar à luz? Será que com tantas igrejas que anunciam a prosperidade como uma benção advinda de uma espiritualidade verdadeira não faria Cristo nascer, justamente, e de novo, no meio da pobreza?

Uma coisa que o natal tenta, mas não consegue ensinar, é que Cristo nasce e vive  justamente onde nossos olhos não procuram um rei. Cristo está, desde o seu nascimento à sua maturidade, nos lugares mais desprezados pelos governantes e pelos "santos religiosos" E morre, justamente, na capital santa e onde está o centro do culto a Deus. E morre pelas mãos desses que estão no topo da religião e do governo.

Que o natal sempre nos lembre disso: Deus nasce onde os religiosos sequer olham. Talvez por isso Jesus tenha dito "Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus!"- Mateus 21:31; E que Deus é morto, justamente, no lugar onde dizem adorá-lo...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Pessoas e instituições (a propósito do fechamento da FFSD)

Dr. Ricardo Lengruber Lobosco
Ex-aluno e professor da FFSD

Como se sabe, a Congregação de Santa Dorotéia, mantenedora da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia (FFSD), em Nova Friburgo, decidiu pelo encerramento das atividades da Faculdade, tendo em vista a inexistência de quadros entre as religiosas para continuidade de sua gestão, bem como pelas inúmeras dificuldades financeiras por que passa a maioria das instituições privadas de ensino superior.

Como alternativa, tem-se buscado outras entidades mantenedoras afinadas ideologicamente com a Congregação para que assuma e deem continuidade ao trabalho. Até aqui, a busca tem resultado nula. Espero em Deus que esteja errado!

A FFSD existe há 54 anos e, ao longo desse período, tem sido a principal responsável pela formação de professores na região. Mais recentemente, sido responsável, também, pela formação dos profissionais de informática e secretariado executivo bilíngue.

As avaliações do MEC revelam que a FFSD está entre as melhores escolas de ensino superior do Estado. No site da Faculdade, há um link para um vídeo de divulgação desses resultados; nele, depois de apresentados os excelentes resultados e um comparativo para com as demais instituições de renome no Estado (o que nos orgulha a todos, professores e alunos), há a curiosa chamada final:
E é por tudo isso que você não precisa buscar uma grande Universidade no Rio para estudar! (transcrição de http://www.youtube.com/user/FFSDNF)

 Como instituição confessional, na base do trabalho da FFSD está a consciência de que o Evangelho é mais que religião; está a certeza de que os caminhos libertadores de Deus no mundo passam pela Educação.

Como se encontra na página da Faculdade na internet,
a FFSD é uma Instituição Particular de Ensino Superior que trabalha conscientemente para construir a sociedade como um espaço vital que possibilite a vivência fraterna, o exercício da cidadania, do diálogo, da busca da verdade, da partilha de bens, da participação nas decisões político-econômico-sociais, da luta contínua de resgate dos verdadeiros valores e Princípios Evangélicos. A FFSD quer uma sociedade justa, democrática, comprometida com o bem comum, onde a pessoa humana é valorizada na sua diversidade, na sua condição de sujeito, agente da própria história e da história da humanidade. Uma sociedade que priorize a educação como força transformadora do processo histórico, no qual o homem está inserido; uma educação conforme os ideais de Santa Paula Frassinetti, regida pela via do coração e do amor, que inspire atitudes de suavidade e firmeza, espírito de fam ília, solidariedade, cooperação e acolhimento ao outro. (www.ffsd.br)

 Sempre nutri profunda admiração pela Faculdade. Pela seriedade do trabalho, pela abertura para o pensamento livre, por ser um espaço privilegiado de reflexão e debate e, acima de tudo, por sua postura acolhedora e respeitosa. Além disso tudo, por ser a FFSD quase que o único espaço sério de reflexão sobre os temas mais urgentes do nosso tempo.

Respeito e compreendo a decisão da Congregação. Sei que há momentos em que o recuo é a decisão mais acertada. O senso de responsabilidade exige, por vezes, retroceder.

Mas não posso deixar de expressar alguns comentários e inquietações, especialmente no que diz respeito à questão ideológica.

Uma instituição confessional é portadora de uma Missão que não lhe pertence. A Missão das entidades religiosas cristãs é ser porta-voz da verdade do Evangelho de Jesus. O ideal de educação da FFSD identifica-se com a educação evangélico-libertadora e retoma, hoje, com novo vigor, nas palavras do XVIII Conselho Geral da Congregação de Santa Dorotéia,

a opção pela justiça, com criatividade e audácia evangélicas para ser presença nas novas pobrezas e vazios vitais, com particular incidência no mundo dos jovens e da mulher.

 Intuo, todavia, que as instituições são espaços vazios, na verdade. Vasos ocos sobre cujas superfícies estão colados rótulos variados. Todo o discurso evangélico é, me parece, apenas um elemento identificatório. Não são as instituições que levam adiante a Missão que os discursos anunciam. São pessoas que o fazem. São homens e mulheres, individualmente identificados, que tomam para si a missão de fazer a Missão avançar. Para além das entidades (pessoa jurídica) é gente concreta (pessoa física) que torna real o ideal dos discursos.

No caso da FFSD, isso está se mostrando bastante claro. Foram pessoas que sempre levaram à frente a Missão. A começar pelas freiras fundadoras passando por cada irmã que deu continuidade ao trabalho, por cada professor(a) em sala de aula e por cada colaborador(a) em seu setor de trabalho.

As instituições são grandes e necessárias, mas nos fazem crer que são maiores do que verdadeiramente são e mais necessárias do que realmente precisam ser. Arvoram para si serem firmes como rocha e, de fato, precisamos todos construir nossas moradas sobre terrenos firmes que nos deem segurança realmente. Triste é quando erguemos a casa sobre a rocha e a rocha aparentemente tão densa se dissipa sob nossos pés.

Lembro-me da estória de Ló e sua mulher, fugindo de Gomorra, quando está dito que Deus os advertiu a não olharem para trás. A mulher de Ló desobedeceu e olhou para trás. Transformou-se numa estátua, numa pedra de sal. O vento e a chuva levaram o sal e a estátua desapareceu. Essa é a tragédia das pedras: pensam ser eternas. Não sabem que são sal e que o tempo sempre faz o seu trabalho. A areia da praia um dia foi pedra...

Quando as pessoas faltam, as instituições caducam e morrem.

O que falta, hoje, à FFSD é a presença de gente séria (a exemplo das irmãs que a conduziram bravamente até aqui) que consiga enxergar a importância dessa instituição e não a deixem fenecer.

Num tempo em que Friburgo e região se preocupam tanto com reconstrução depois de uma catástrofe que nos assolou a todos e quando há tantas pessoas sérias preocupadas com o bem estar coletivo, já passou da hora de essas mesmas vozes se ocuparem com a Faculdade. Deixá-la encerrar suas atividades é o mesmo que aplaudir uma barreira que soterra e mata inocentes, porque toda vez que um professor é calado, a cidadania está sob risco e a sociedade seguramente entrará em colapso.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Livre-Arbítrio, entendo o termo

Ouço tanto falarem de "livre-arbítrio" que veio o desejo de escrever sobre o assunto. Isto, na realidade, pelo simples fato de que sempre o vejo citado de forma errada.

Comumente chamam "livre-arbítrio" a liberdade que o ser humano tem. Dizem, por exemplo: Adão e Eva pecaram por causa do livre-arbítrio. Há, inclusive, quem justifique a existência do livre-arbítrio na Bíblia. Expressão essa JAMAIS encontrada nas linhas das Escrituras.

Por não estar lá, seria "anti-bíblica"? Eu diria é uma expressão "não-bíblica", pois não está na Bíblia. Mas pode ser um ensino "bíblico", se interpretarmos a "nova criatura", de Paulo, dessa forma.

O que tem a "nova criatura" com o  "livre-arbítrio"? Antes de mais nada vale reassaltar que o "livre-arbítrio", para mim, está naquela ponte da dúvida entre filosofia e teologia (eu considero essencialmente filosofia). Vamos direto ao ponto!

Livre-arbítrio não é liberdade!! Então que tal pararmos de usar essa expressão com esse significado? Alguém devolveria: "como assim não é? Quem disse isso?" Minha resposta: não é porque não é, porque se fosse, seria. Quem disse? A pessoa que INVENTOU esse termo: Santo Agostinho!

Eu fico tão feliz quando vejo algumas igrejas evangélicas - que se dizem "não-ecumênicas" - usarem termos que nasceram na igreja católica, como se fossem seus. Mas deixando esse meu lado "zombador" , vamos à explicação.

Agostinho quando CRIOU esse termo, ele não falava de liberdade. Pelo contrário, para ele, quando alguém peca, ou quando alguém comete um erro, tem sua vontade cativa. Essa vontade presa procura alimentar-se do mal. Somente a decisão por se aproximar de Deus faz com que o homem goze do "livre-arbítrio", que quer dizer liberdade da vontade. O "libre-arbítrio" é a decisão do homem de fazer o bem. A decisão por se afastar de Deus, não vem do "livre-arbítrio", mas de uma vontade escravizada e cativa. Em outras palavras "livre-arbítrio" quer dizer "vontade livre que decide direcionar-se para o bem". Se entre fazer o bem e o mal, o mal não te parece atraente, então, sua vontade está livre e você está fazendo uso do "livre-arbítrio". Do contrário, sua vontade está presa ao mal, e, por isso, você não possui, ou melhor, se afastou do "livre-arbítrio".

Qualquer um pode encher de comentários discordando disso e daquilo, mas, infelizmente, são palavras do criador do termo. É uma invenção de Santo Agostinho, se está certa ou errada, para mim, pouco importa. O que importa é que não se deve usar a expressão em outro sentido, senão, liberdade da vontade.

Então, nada de se perguntar: livre-arbítrio ou predestinação? Uma coisa nada tem a ver com a outra. O correto seria: liberdade ou predestinação?

Um texto, simples, nada demais, apenas uma breve explicação.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sobre o Fundamentalismo

Em meados do século XIX nasce um movimento protestante nos EUA que, mais tarde, culminou em uma pequena coleção de livros chamados "Fundamentals: a testimony of the Truth". Esse movimento, a partir de então, sacralizou uma forma de interpretação chamada de "Fundamentalismo".

No fundamentalismo não é a bíblia que é canonizada, apenas, mas, principalmente, uma forma de interpretação "Se Deus consignou sua revelação no Livro Sagrado, então tudo, cada palavra e cada sentença, devem ser verdadeiras e imutáveis". Assim levantou-se contra um outro movimento, já vigente, a chamada Teologia Liberal, que fazia uso dos métodos histórico-críticos para interpretar os textos bíblicos. Este entendia que o "chão" histórico e social do texto devem ser respeitados para, assim, alcançar uma interpretação mais próxima da fidelidade dos autores.

Não quero aqui diferenciar um movimento do outro, pois, acredito, valorando demais um no lugar do outro, sempre se prevalece o fundamentalismo: ou fundamentalismo religioso, ou o fundamentalismo científico. E, ambos - religião e ciência - são mutáveis. Portanto, objetivo explicar, a partir dos "cinco pontos do fundamentalismo", por que não opto por essa interpretação:

Inerrância verbal da Escritura

Esse modo de “encarar" as Escrituras acaba por divinizar textos humanos (inspirados). A Bíblia não é Deus e, a meu ver, somente Deus não erra. Como entender a inerrância bíblica diante de textos que apontam para o heliocentrismo, como no caso da oração de Josué (orou e o sol ficou parado)? Como aceitar a inerrância se em Gênesis há dois relatos da criação e não apenas um? Sabido é que o mundo foi formado apenas de uma forma e não de duas. Como manter tal discurso se há divergências no nascimento, morte e ressurreição de Cristo narrados pelos quatro evangelhos e por Paulo?

Entendo a Bíblia como "a palavra de Deus em palavras humanas" e isso, por si só, já aponta para o limite de seus textos. A beleza da Bíblia não se encontra em sua inerrância. Pelo contrário, está justamente no fato de que homens limitados conseguiram perceber Deus dentro desses limites. A bíblia, para mim, não é Deus e, portanto, não cabe idolatra-la como tal, mas adoro ao Deus que ela, mesmo diante dos limites de suas palavras humanas, aponta.

A divindade de Cristo

Creio nessa confissão, que demorou muito para ser aceita por toda a igreja e, acredito, ainda assim não foi plenamente. Contudo a compreendo de outra forma. Segundo o fundamentalismo Jesus "veio pronto", sabia tudo, conhecia tudo. Contudo Jesus é, segundo Paulo, aquele que se "esvazia". É o Deus, segundo João, que se fez carne. Em outras palavras, limitou-se ao tempo e ao espaço. Podendo morrer, inclusive.

Confesso o 100% Divino e 100% Humano. A grande questão é que, confessar 100% humano existe a verdadeira necessidade de confessá-lo como um aprendiz, como alguém que não sabe tudo. Se for um ser humano comum, então, certamente, cabe a ele apaixonar-se por alguém, machucar-se, errar (diferente de pecar), acertar, enfim, aprender.

Mesmo a carta aos Hebreus entende isso quando afirma "APRENDEU a obediência pelas coisas que sofreu". Reconheço a divindade de Cristo nas palavras de Leonardo Boff: humano como Jesus só pode ser Deus mesmo.

É na humanidade de Jesus que percebo sua divindade.

O nascimento virginal

Esse caminho é perigoso. Nossas igrejas confessam o nascimento virginal como dogma histórico (factual). Nada contra essa interpretação. O grande problema é que o nascimento virginal não quer dizer absolutamente nada nele mesmo. O nascimento virginal - citado apenas pelos evangelistas Mateus e Lucas, cada um a seu modo - possui uma mensagem necessariamente opositora ao governo romano e ao senhorio do César. Sem a mensagem do nascimento virginal, ele mesmo torna-se sem sentido.

Não quero aqui entrar no assunto de confessá-lo ou negá-lo, para tal precisaria de um estudo focado no assunto. Minha intenção é outra, apenas dizer que não existe motivo para aceitar um nascimento milagroso como importante para a fé. Jesus continuaria sendo quem é se fosse filho legítimo de José. Esse dogma fundamental não preserva em nada a fé no Cristo. A fé nele não depende de um nascimento oriundo de uma relação sexual amorosa, estupro ou de um milagre. A fé Cristã é pautada na ressurreição de Cristo e não na forma do seu nascimento.

Doutrina da expiação vicária

Segundo essa doutrina Cristo morreu pelos nossos pecados. De fato existem confissões, principalmente em Paulo, que afirmam exatamente isso. A grande questão é que, conforme a interpretação da doutrina, Jesus morreu em nosso lugar. Deus estava irado conosco e castigou seu Filho, em misericórdia a nós; E seu Filho aceitou, sem reservas, por amor, tal castigo. Pagando o preço que era nosso.

Para mim nada mais danoso do que a fé em um Deus que castiga o inocente por amor ao culpado. Nada mais mentiroso do que servir a um Deus que se diz amor, mas pune quem nada teve a ver com isso. Não compreendo nada mais horrível do que crer em um Deus que, em momento de ira, manda seu Filho à morte.

Será que Deus não conseguiria, simplesmente, ser misericordioso? Em que se sente feliz em matar seu Filho? Como a morte de um santo e inocente pode acalmar a um Deus amoroso? Creio eu que a injustiça do assassinato de um inocente deveria deixá-lo irado, e não o contrário. Ainda assim, essa "ira" deveria ser interpretada, pois, segundo Jonas, Deus é "tardio em irar-se". E o Livro das Lamentações afirma que as misericórdias do Senhor se fazem novas a cada manhã.

Não posso aceitar, de forma alguma, que Cristo morreu para que eu não fosse ao inferno. Para mim, Cristo morre, justamente, porque estamos no "inferno". Negamos seu amor, negamos sua mensagem de paz. Por isso ele morre. Trocamos a bênção do Reino de Deus, o reino do amor, pelo prato de lentilhas de um mundo afundado no egoísmo e no desejo pelo poder. É por isso que Cristo morre! O emissário de um reino de paz é rejeitado por nós. Ele morreu porque nós, humanos, desejamos isso! E não Deus! Do contrário, porque ele diria: Pai, perdoe-os, não sabem o que fazem? E por que Paulo diria que, se os príncipes desse mundo conhecessem o mistério de Cristo, não teriam crucificado o rei da Glória?

Negamos o reino de Deus, e por isso matamos seu rei. Ele morreu por nossos pecados, pois nossos pecados mataram-no.


Ressurreição corporal na segunda vinda de Cristo

Já dei dicas do que penso sobre essa história de "segunda vinda". Entendo-a como um cumprimento de um desejo nosso da vinda de um reino de Deus. Compreendo-a como o cumprimento da realização de um mundo desejoso por reconciliar-se consigo e com o próximo.


Não considero que Cristo não esteja entre nós e, portanto, precise "voltar". Eu acredito em "eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século". Logo, para mim, o Cristo ressurreto está aqui e não em outra dimensão aguardando o momento de aparecer a todos.

Da mesma forma, a ressurreição corporal, ensinada por Paulo e confessada pela igreja, compreendo como "preservação da identidade". Em um mundo antigo (embora hoje também seja assim) onde se confessa que a alma é o verdadeiro "eu" e encontra-se limitada pela carne (corpo) que a impede de ser o que é, os cristãos confessam a ressurreição em um corpo espiritual. Ou seja, um corpo diferente, pois é a união entre matéria (corpo) e espírito (pneuma). Vejo isso como um símbolo de preservação da identidade do ser e valorização do corpo.

Como se dará e se dará a ressurreição no fim, não cabe na mente limitada humana. Portanto, a bíblia, inspirada por Deus, mas escrita em palavras humanas, confessa esse ensino de forma simbólica, pois, somente o símbolo consegue ultrapassar o sentido literal das palavras.

Por tudo isso, não posso ser literalista (fundamentalista) e me prender ao sentido da letra do texto bíblico. O texto bíblico é simbólico e teológico, ou seja, fala muito mais do que o significado das palavras diz.

E nisso digo: Aleluia! (louve a Javé).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma aula com Jonas...

Jonas é um personagem factual. Pelo menos assim diz um dos livros dos profetas anteriores 2 Reis 14:25, na época de Jeroboão II (783 a 743 aC):

"Jonas, filho do profeta Amitai, o qual era de Gate-Hefer"

O livro de Jonas, contudo, foi escrito bem depois da vida desse personagem e trata de um assunto bem relevante: a dureza do coração de Israel e seu orgulho oriundo da crença na eleição.

Jonas é considerado um profeta de Deus e, como profeta, conhece bem ao seu Deus e o define como:

"(...) és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal" 4.2b

Compreendendo a grandeza do amor de Deus, não obedece a ordem divina de ir à Nínive e pregar contra ela. Anunciando que os seus pecados "subiram" até Deus. Desobedece porque não quer que Nínive tenha a oportunidade de se arrepender. Deseja, sim, que pague por todos os seus pecados.

Nínive era a capital do Império Assírio. Império esse que eliminou "do mapa" o reino de Israel (reino do Norte) e deportou sua população (722 a.C.), de onde Jonas era. A Assíria, assim como a Babilônia, entrou para a história como símbolo da opressão e símbolo do mal. Vale, contudo, lembrar que, no período de Jeroboão II (momento em que Jonas exerce seu ministério), a Assíria, AINDA, não possui essa imagem. Do contrário, Oséias, que é do mesmo período, não teria exortado ao rei a não fazer aliança com a mesma. Se o rei procura fazer aliança com ela, é porque, de alguma forma, pode lhe ser favorável (Oséias 5:13). Sem contar que, segundo Herbert Donner, em "História de Israel e dos povos vizinhos":

"Jeroboão II era rei de um Estado em paz com as outras nações; interiormente reinavam bem-estar e um grau considerável de prosperidade econômica."

Na época de Jonas, Oséias e Amós – os profetas contemporâneos de Jeroboão II – a exortação é contra Israel, que faz aliança com povos idólatras, comete idolatria e oprime o órfão, a viúva e o estrangeiro.

Sendo assim, a imagem de Nínive como grande pecadora e símbolo de opressão, certamente, é posterior a 722a.C.. Precisamente quando ela eliminou o reino do Norte. Conlui-se, entao, que o livro foi, necessarimente, escrito após essa data.

Os profetas, contudo, afirmavam que Israel e Judá sofreram nas mãos da Assíria e Babilônia, respectivamente, devido a desobediência. Jeremias diz:

"E eu vos enviei todos os meus servos, os profetas, madrugando e enviando a dizer: Ora, não façais esta coisa abominável que odeio. Mas eles não escutaram, nem inclinaram os seus ouvidos, para se converterem da sua maldade (...) 44.4-5".

Profetas com boa vontade e amor ao seu povo não conseguiram fazer com que o chamado "povo de Deus" se convertesse; Um profeta com má vontade, pois esperando e torcendo para que Nínive seja arruinada, consegue fazer com que o povo idólatra se arrependa e seja perdoado por Deus.

Dessa forma, os judeus da época em que o livro foi escrito são obrigados a entender que, não importando que povo - ainda que seja o mais alto opressor -, Deus ama e espera que esse aprenda a viver para o bem. Sendo assim, não devem os judeus achar-se escolhidos como que um privilégio em relação aos outros povos. Como se Deus, por amor a eles, fizesse mal aos outros. São obrigados, por meio do livro de Jonas, entender que Deus não vê etnia boa ou má, mas sim:

"homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda (Jonas 4.11)"

Se existe uma escolha por parte de Deus em relação a Israel, o que está claro devido Jonas ser um profeta israelita, isso deve ser encarado para o povo como responsabilidade e não privilégio. Como Jonas que  é comissionado a anunciar à Nínive. Deus deve ser anunciado pelo seu povo e não restrito a ele.

Em Jonas Deus é o Deus de TODOS OS POVOS.

O que Jonas ensina hoje ao cristianismo protestante ou católico é de que Deus não está interessado em que tipo de religião. O credo religioso não importa para Deus, o que importa para Deus é simples:

"não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive em que estão mais de cento e vinte mil homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais?"

Deus não se importa com "Justos que se acham santos", mas com pessoas que precisam dele. E nisso não importa cor, credo, orientação sexual, nacionalidade ou qualquer outro rótulo que o ser humano crie. Deus apenas vê sua criação, a qual ele diz: é muito bom!

Que aprendamos a valorizar as pessoas e não seus (nossos) rótulos!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um êxodo para nossos dias...

Falar em processo de libertação, de saída de uma situação de opressão para a verdadeira liberdade, biblicamente falando, é relembrar o êxodo. O êxodo é o verdadeiro símbolo da luta e conquista pela liberdade. As narrativas bíblicas das 10 pragas, a fuga pelo deserto, a nuvem que guia o povo, a coluna de fogo e a passagem pelo mar vermelho refletem o caráter milagroso que o êxodo recebeu. Aos olhos do povo não eram eles os fujões, simplesmente, mas Javé era quem os guiava.

A terra de Israel, quando povoada, recebeu vários povos que tinham seu próprio êxodo. A tradição do êxodo do Egito não é a tradição de todas as tribos, mas, especificamente, das tribos do Norte e, principalmente, daquelas associadas a José: Manassés e Efraim.

Outras tribos nascem de outro processo libertador. Antes da idade do ferro (antes de 1200 a.C.) ,na terra de Canaã, havia várias cidades-estados. Eram pequenas cidades lideradas por reis, os "reis de Canaã". Esses pequenos reinados, que eram vassalos do Egito, exerciam seu domínio sobre camponeses, usando a lógica da religião para dominá-los. El-Elyon, por exemplo, é uma divindade associada à Jerusalém, já no Gênesis, na pessoa de Melquiseque.

Como funcionava o domínio da cidade sobre o campo? As cidades não produzem o que consomem. Os produtos utilizados pelos citadinos (cereais, frutas e etc.) são produzidos pelo campo. É o campo que tem a responsabilidade de sustentar às cidades. Isso pelos tributos. Parte do que produz deve ser enviada para o rei e seus nobres. Uma verdadeira sociedade tributária. Com os altos impostos, pouco do que trabalhador rural produz, sobra para seu consumo. Esses mesmos impostos também devem ser enviados ao Egito, que é o grande império da época. Para que o Egito tenha seu tributo e o rei cananeu vassalo tenha o seu, a máquina do governo passa a oprimir mais e mais os contribuintes, trazendo a pobreza para o camponês.

Quando o Egito sofre uma baixa e as cidades passam a se tornar verdadeiras fortalezas, deixando de fora (sem proteção) os camponeses. Surge um momento de paz. Um momento propício para se pensar em fugir e fundar uma nova sociedade, baseada na igualdade, sem rei, sem tributo, sem a religião que justifica a opressão por meio dos dízimos e ofertas dedicados no templo.

Esse grupo de cananeus do campo sobe. Literalmente sobem! Vão para as montanhas. Montanhas até então inabitáveis, justamente porque desacampar os lugares sem o domínio do ferro demandaria a impossibilidade. Já na época do ferro, quando essa quietude e sonho são permitidos, os camponeses vão para as montanhas. São os desbravadores da terra. Conseguem criar cisternas que permitem sobreviver na época de pouca chuva. Lá em cima, onde mais tarde são fundadas as 12 tribos, nasce o sonho da liberdade, da produção igualitária, da divisão correta da terra. E o povo se liga e se identifica como uma grande família. É o êxodo novamente! O êxodo silencioso, mas que produz a utopia: uma sociedade livre! Distante dos vales e dos reis de Canaã, mas próximos um dos outros. Essa proximidade logo é identificada com a proximidade parental. São todos parte de uma grande família.

Curiosos com o que está acontecendo na montanha, pastores do Sinai e outros grupos de pastores se achegam. Integram-se.

E os foragidos do Egito, liderados por Moisés? Esses são também conduzidos às montanhas. E lá contam sua história e são admitidos. E a sua história passa a ser a história de todas as tribos. O êxodo do Egito passa a ser o êxodo de todo o povo! Afinal, nesse êxodo, o derrotado foi o deus Faraó! E Javé, passa a ser identificado como o Deus que dá a liberdade a esse povo.

Povos diferentes, de culturas e deuses diferentes passam a se unir e formar uma liga fraterna! São irmãos agora! Todos são filhos de Abraão, Isaque e Jacó. Todos servos de Javé! O Deus que é a presença libertadora no meio do povo. E nas montanhas a utopia se concretiza! Liberdade, igualdade e fraternidade vividas plenamente!

Contudo, a história mostra que esse povo passou a oprimir seus "irmãos". Salomão, Manassés, Jeroboão II são alguns dos muitos exemplos de reis que feriram o projeto inicial. Aliás, a existência de um rei  nas montanhas (mesmo Davi!) já é a ruptura do projeto de igualdade.

Onde quero chegar?

Quando falo em "Reino Utópico", "Reino de Deus", é precisamente desses êxodos que falo. Precisamos, em nossos dias, viver um processo de libertação que culmine em igualdade e justiça. Essas palavras que possuem um forte poder, se vividas. Contudo, tanto o reino de Deus, pregado e vivido por Jesus Cristo, quanto o projeto tribal do Israel antigo, vivenciado em suas origens, não são impérios que se impõe. Deus não colonizará nossas vidas ou esse mundo.

Parte de cada um de nós, de um desejo igual e de uma luta igual para que esse projeto exista. Inclusive sua permanência e manutenção. Quando ouço falar em avivamentos, transformações e coisas similares, eu lamento muito. Pois muitos julgam que a mágica fará com que nos tornemos pessoas que amam e cuidam um do outro automaticamente. Nada disso! É a luta por liberdade! É a luta contra a hipocrisia! É a luta contra a corrupção, o tráfico, a desigualdade e todos esses males que faz nascer a justiça. A justiça não nasce no coração automaticamente. Ela é fruto de um desejo sincero e de uma decisão por mudança. Ela nasce quando olhamos em volta e percebemos: "alguma coisa está fora do lugar!", "Essa não é a situação desejada por Deus", "Essa não é a situação desejada por mim".

Esperar o advento do Reino de Deus não é algo passivo. O esperar deve ser interpretado como esperança. Esperança que se constrói e não que se aguarda. O Reino de Justiça não é como o império romano que vem destruindo tudo o que julga contrário a si. Muito menos como os Estados Unidos que invadem um país quando "dá na telha". O Reino de Deus aceita convite apenas. A justiça e paz só nos visitam, quando fazemos com que valha a pena sua existência.

Como os escravos do Egito, que fugiram do deus faraó e seus deuses; Como os camponeses da Canaã que se viram solitários e observaram nisso uma oportunidade e não um perigo; Como os pastores do deserto que se sentiram atraídos por essa novidade que propícia a paz. A utopia vivida durante duzentos anos não poderia ser real se aguardassem a vinda de algo sobrenatural. É aqui, em nosso chão, que a liberdade se vive. É aqui, em nosso chão, que a liberdade é construída.

Precisamos fugir! Quem tem coragem?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

κυρίου Ἰησοῦ Χριστοῦ X Caesar Augustus Imperatus

É normal as pessoas interpretarem os discursos atribuídos a Jesus, bem como os ensinamentos de Paulo, como que tratando-se de religião no sentido moderno do termo. Alguns, inclusive, falam da separação de Estado e Religião, o que, nos nossos dias, julgo essencial. Mas esse pensamento moderno não pode direcionar nossa leitura das Escrituras. O mundo antigo vivia outra realidade: Estado e Religião não andavam separadas e nem juntas, estavam intimamente ligadas.

Para o Estado se voltavam os ritos. Não é à toa que Roma era muito mais do que uma cidade, Roma era uma deusa, tendo, inclusive, estátuas erguidas em adoração a ela. O imperador Otaviano nao era apenas o líder do império, mesmo em vida, recebera o título de Theos Sebastos (o Deus Augusto).

Portanto, não se deve ler os escritos bíblicos como se fossem religião à margem do cotidiano. Naquela época o conceito de vida secular e vida religiosa não existia. Existia apenas uma vida. E, nela, se dialogavam o "mundano" e "sacro".

Partindo desse princípio básico, vamos reler alguns versículos:

"Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize! João 14:27"


O mundo deve ser entendido como o domínio Romano. Roma possuía, desde Augusto (29 a.C) o que eles chamavam de pax romana. Que foi um período longo de "paz" conseguido por meio da guerra e da subordinação dos outros povos às armas de Roma. Ser fiel à Roma e ao Divino Augusto, Deus de Deus, Filho de Deus (Filho do deificado Júlio César), permitia ao povo conquistado viver na "pax romana" (paz romana). Uma paz por meio da vitória, por meio da guerra, do domínio.

Cristo, apresentado como o Filho de Deus, aliás como único Filho de Deus (repare bem na expressão "único " presente em João, que deixa claro não haver outro Divi filius nem mesmo Otaviano) deixa sua paz. Não uma paz como Roma dá, uma paz diferente. Uma paz em que o coração não precisa ficar perturbado. Uma paz baseada na liberdade e no amor. Veja como esse texto é altamente subersivo, pois desafia a divindade do César como promotor da paz. Apresentando Cristo como doador da paz, de uma paz que tranquiliza e dá segurança, sem guerra.

"Enviaram-lhe alguns fariseus e herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra.
Aproximaram-se dele e disseram-lhe: Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade. É permitido que se pague o imposto a César ou não? Devemos ou não pagá-lo?
Conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu-lhes Jesus: Por que me quereis armar um laço? Mostrai-me um denário.
Apresentaram-lho. E ele perguntou-lhes: De quem é esta imagem e a inscrição? De César, responderam-lhe.
Jesus então lhes replicou. Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele. Mc 12:13-17"


Muitas pessoas compreendem esse texto como Jesus dizendo: a moeda é de César então dê a César e a Deus dê o coração; Outros ainda, não sei como, interpretam que está dizendo: dê o imposto a César e o dízimo a Deus.

Contudo, Jesus, de forma muito sábia diz o seguinte: dê a César o que é de César (até aí pode-se pensar no tributo, pois tem a imagem dele) e a Deus o que é de Deus. Eis o grande problema! Diante de Deus César é dono de nada! Jesus está se opondo ao pagamento do tributo a César quando diz que a Deus deve ser dado o que é de Deus, ou seja, tudo.

Tudo pertence a Deus. Nada pertence a César. Aquela terra onde os romanos estavam - Judéia - pertencia a Deus e ele deu a Abraão e sua descendência. César não é digno dela. Assim como não pertence a ele o imposto dos judeus, a religião dos judeus e nem os próprios judeus.

Veja como Religião e subversão estão lado a lado. Uma subversão sem violência? Sim, óbvio! Pois se alguém te bater na face (o romano é o agressor) oferece-lhe a outra. Revolução! Mais sem violência. Uma revolução baseada no amor, mas bastante consciente.

"Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. 1 Coríntios 8:5-6"

Um só Deus!
Um Só Senhor!

Devemos nos lembrar que "Cristo" é um título, e não sobrenome. Seu significado é ungido, e traduz para o grego o título Messias, vindo do Hebraico (Hebraico מְשִׁיחֶ = mashiach; Grego Χριστός = Christos). Já "César" é um sobrenome pertencente a Júlio, o Júlio César. Seu filho adotivo, Otaviano, o adotou como que se dizendo filho de Júlio. Mais tarde tornando-se o César Augusto (Augusto = digno de adoração) e seus sucessores começaram a repetir o ato de adotar o nome, para se dizer filiado ou continuação de Otaviano. Assim, o sobrenome passou a ser título, ou sobrenome-título.

Jesus era chamado de "Jesus, o Cristo". Ou seja, "Jesus, o Ungido". Os cristãos, contudo, transformam seu título em sobrenome . Jesus Cristo, em oposição a Júlio César, César Augusto, Tibério César, ou qualquer outro que se sinta no direito de se intitular "César". Então, existe um "Nero Cesar", os cristãos confessam um Jesus Cristo. 

Existe um Kyrios (Senhor) que é outro título do César. Augusto é reconhecido como Deus e Senhor (Theós kai Kyrios). Contudo, Paulo afirma: Só existe um Deus (Theos) - negando a divindade do imperador e os deuses de Roma; Um só Senhor (Kyrios) - negando o senhorio do imperador.

Para Paulo e para os primeiros cristãos está claro o seguinte: a mensagem do evangelho não é uma nova religião. É uma nova sociedade, um novo mundo, uma nova ordem, uma nova civilização. Pautados no amor, na graça e na mensagem de paz do evangelho.

Inclusive, a própria expressão "Evangelho de Jesus Cristo" (Boas novidades) se opõe ao "Evangelho de César".

Enfim, o interessante seria abrir a mente para encontrar nas linhas do evangelho muito mais do que uma mensagem preocupada com a "salvação das almas". A mensagem do evangelho, acima de tudo, preocupa-se com a implantação do Reino de Deus. E demonstra-o como um reino que fez ferrenha oposição aos impérios opressores. O reino de Deus é, aqui, desde já, oposição à política  que coisifica o ser humano e cria ídolos que para nada servem.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Demônio nosso de cada dia nos dai hoje

Heresia? Como eu costumo falar para os meus alunos "primeiro a frase herética, depois a explicação que lhe dá sentido". Conversando com um amigo e uma amiga sobre o demônio, tive um "insight" que agora sou levado a repetir: as pessoas hoje "precisam" tanto do diabo quanto de Deus.

Entendo... A última frase pareceu pior do que o título. Mas permita-me explicar melhor. A história de Israel e Judá é marcada com o grande conflito entre monoteísmo e politeísmo. A bem da verdade é que, na história da fé do Antigo Israel, Javé não se apresentava como o único Deus existente, mas como o único Deus a ser adorado. E mesmo as guerras de Javé se apresentavam como guerras entre Javé e os outros deuses. A célebre frase "Quem é como Javé entre os deuses", denota que Israel adora, sim, a um único Deus. Mas, lado a lado, confessa a existência de outros deuses. É o que chamaríamos de monolatria, e não monoteísmo.

Javé era possível ser entendido como "o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores" (superlativo hebraico). Deus, então, é confessado como um Deus maior, mas não como único Deus. Com o passar do tempo, contudo, os deuses dos outros povos passam a ser denominados de ídolos:

"Porque todos os deuses dos povos são ídolos ('eliyl = אֱלִיל ), mas o SENHOR fez os céus. Salmos 96:5"

'eliyl  = de nada, sem valor.

Embora, para o tempo antigo, o ídolo em si não significa o deus, mas apontava para ele. Israel, com sua fé em um único Deus existente já bem desenvolvida, zomba dos ídolos dizendo que eles são sim os deuses dos outros povos. Ou seja, a fé deles é vã pois está depositada em 'eliyl.

Ao lado desse desenvolvimento da fé na unicidade de Deus, pareceu bastante perigoso, para Israel, a crença em anjos ou semi-deuses. Pois, para eles, em algum momento, esses "seres espirituais" poderiam, de alguma forma, concorrer com Javé. De forma que o povo poderia passar a adorá-los.

Contudo, depois da época persa (possivelmente de onde vem o salmo citado), os "Filhos de Deus" parecem já existir. Como filhos, são subordinados a Deus e jamais podem tornar-se superiores ou adversário dele. Por isso mesmo, o texto de Jó, um pouco antes dessa época, trata o assunto falando de um "Obstáculo" (Satanás) que vive na corte de Deus entre os seus filhos. Esse "Adversário" é, contudo, apenas, adversário do homem (particularmente de Jó). Jamais se tornando um oponente de Deus.

No período helênico, falando ai da apocalíptica bem desenvolvida, os anjos e demônios começam a aparecer. Na mensagem do Livro de Enoque é possível vê-los gerando filhos e ensinando esses mesmos filhos a guerra e as armas. Pervertendo o ser humano. Convertendo-se assim em inimigos de Deus. Porém, são inimigos de Deus, no livro, porque fazem guerra aos homens. Deus, nesse momento, sai em defesa da humanidade subjugada. Mesmo no livro de Daniel, vindo do mesmo período, é possível encontrar Miguel e Gabriel como anjos. Um que interpreta e dá mensagens ao profeta e o outro como guerreiro que batalha em favor dos santos.

No ambiente do Novo Testamento, Satanás atua no mundo entre os seus anjos. Contudo, essa mensagem, está recheada de simbologia, posto que os demônios são, claramente, identificados com a cultura, religião e domínio do império romano. Como exemplo claro está Satanás, no deserto, falando com Jesus, que todos os povos da terra foram entregues a ele (a Deusa Roma é quem domina sobre todos os povos, e  o deus sebastos - César Augusto -  é o senhor do mundo); O demônio gadareno é chamado de Legião (alusão às legiões do exército romano); E a besta do Apocalipse que subjuga o mundo (César) recebe seu poder do Dragão (Satanás a antiga serpente).

Vale, entretanto, a mensagem de que esse "inimigo" sempre está subjugado por Deus. Sempre está abaixo de Deus e abaixo dos "santos". Nunca consegue, de verdade, se tornar alguém realmente que oferece um perigo definitivo. Os poderes do mal são sempre vencidos pelos poderes do bem. A vida é superior à morte. O amor superior ao ódio. Essa é uma das mensagens do Novo Testamento.

Entretanto, o que vemos hoje é uma demonização da fé cristã. Onde os demônios e o próprio Satan tornam-se, de fato, um inimigo que "bate de frente" com Deus e com os santos. Ele, de anjo, ou servo de Javé, tornou-se um deus do mal. Até o "Inferno", lugar destinado ao "diabo e seus anjos", tornou-se morada dele. Não mais o lugar de sua tormenta, mas o seu país, o local onde governa e onde atormenta as almas dos condenados (ridículo!). Existem "legalidades", onde Deus se torna impotente frente ao diabo pois esse "vence nos argumentos da lei". Trazem o pensamento jurídico para dentro da Torah de Deus (orientação e não lei seria a tradução correta).

Orações que expulsam demônios que governam cidades e países são realizadas ao som de "amém e alelulais" mas que não trazem efeito ou resultado nenhum, na prática. As cidades continuam violentas, a injustiça continua a crescer, o mal ainda domina.

Contudo, tentemos retirar os demônios. Tentemos transformá-los em mitos, lendas. Sabe o que acontecerá? O mal passa a ser responsabilidade nossa. A injustiça passa a ter que ser combatida na prática, no corpo, no sangue! Nossos inimigos se transformam em nós mesmos. O diabo é, portanto, hoje, alguém em quem lançamos nossas culpas e nossos erros. É a forma que encontramos de desculpar nossa incapacidade e falta de compromisso com as realidades opressoras do sistema que, "demonicamente", sustentamos.

Se os demônios existem ou se não existem? Não é essa a questão. A questão é que, enquanto a religião continuar nos dando o "demônio nosso de cada dia", teremos desculpas para continuarmos sendo falsos cristãos, falsos religiosos, falsos humanos. Enfim, falsos, que colocam a culpa de sua falta de fidelidade à humanidade, à criação e a Deus, em um "pobre demônio".

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Messias Nasceu (Como?)!

Quando estamos no natal, primeira coisa que pensamos, religiosamente falando, é o "nascimento do menino Jesus". Eu, particularmente, gosto muito de presépios. Eles demonstram claramente nossa idéia religiosa do nascimento do filho de Deus. Contudo, nada mais confuso do que o próprio presépio. Para ilustrar o que pretendo dizer, vou colocar, abaixo, uma imagem de um:



Na imagem acima algumas coisas nos saltam aos olhos:

Um estábulo;
O menino Jesus na manjedoura;
Os pastores;
Os reis magos;
Maria e José.

É difícil, a primeira vista, mas nada mais conflitante do que essa cena! Nela repousa uma mistura dos dois relatos do nascimento do Messias: Mt e Lc. Comumente, costumamos misturar as duas narrativas, mas elas possuem grandes diferenças. Vejamos:

Onde Jesus Nasceu?

As duas histórias respondem da mesma forma, a essa pergunta: Em Belém! Contudo, existem algumas particularidades em como respondem.

Mateus: A família sagrada morava em Belém e, após o retorno do Egito, vão morar em Nazaré (Mt 1:18-25 e 2:1);

Lucas: José e Maria moram em Nazaré. José a leva, grávida, de Nazaré à Belém (que viagem longa!!), por causa de um senso que o César Augusto, havia realizado. (Lc2:1-7). Lá ela dá a luz ao menino Jesus.

Para Mateus, Jesus nasce em Belém, pois seus pais moram em Belém e, se quer cita algum senso. Para Lucas, Jesus nasce em Belém por causa de um senso. Seus pais, originalmente, são de Nazaré. O que sabemos é que Jesus é da Galiléia, da aldeia de Nazaré. Para Lucas ele é de lá pois seus pais, antes dele nascer, já moram lá. Para Mateus, ele se muda para lá, quando retorna do Egito.

Isso levanta uma pergunta a mais sobre o presépio:

Se, para Mateus, a família de Jesus mora em Belém, por que então ele nasce numa manjedoura, não seria mais fácil nascer em uma casa?

Eis aí, mais um conflito! Para Lucas, Jesus nasce e é colocado em uma manjedoura, conforme o presépio informa. Para Mateus, contudo, Jesus, como toda criança da época, nasce em casa. Ele diz que os magos entram em uma casa:

"E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."

Eis o primeiro problema com o presépio: Coloca os magos próximo à manjedoura. Sem contar que , além de dizer que são três (o texto diz: "eis que UNS magos vieram do oriente a Jerusalém"), dá nome aos mesmos e ainda transforma em reis-magos. Pega um elemento da narrativa de Mateus (magos) e coloca dentro da narração de Lucas (estábulo). Pois Lucas, se quer, cita a existência desses magos.

Os personagens que Lucas cita são os pastores:

"Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo:

Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura.

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.

E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pastores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber. E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado na manjedoura. Lc 2:8-16”.

Esses pastores, não existem na história de Mateus. Eis o que o presépio faz: une personagens próprios de cada narrativa. Em Mateus, lá estão os magos, entrando na casa, trazendo ouro, incenso e mirra. Em Lucas, lá vem os pastores, entram e encontram o menino numa manjedoura.

Lucas ainda faz uma outra menção que Mateus não cita: os anjos! Para Lucas o nascimento de Jesus é celebrado pelos anjos que cantam:

"Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens."

Esses anjos não existem para IiiMateus. Da mesma forma, Mateus conta uma matança de crianças, motivo que levou José, avisado EM SONHO, por um anjo, a fugir para o Egito. Lucas, contudo, não conta essa história e, se quer, narra uma ida ao Egito.

Vamos montar um quadro comparativo:

Evangelho
Onde Maria e José Moram
Local de Nascimento
Anjos Cantando
Pastores
Magos
Fuga para o Egito
Vive em Nazaré
Mateus
Belém
Belém
(em casa)
Não existem
Não existem
Existem
Existe
Sim, se muda pra lá
Lucas
Nazaré
Belém (numa estrebaria)
Existem
Existem
Não Existem
Não Existe
Sim, seus pais já moravam lá


Por esse quadro, vemos que os evangelistas discordam, mais do que concordam.  A concordância mais importante é onde Jesus nasceu e onde foi criado. Respectivamente Belém e Nazaré.

Poderíamos, contudo, continuar nossa análise e repararemos que existem outros pontos chaves:

Mateus
  • O nascimento virginal é cumprimento de uma profecia de Isaías (que no post "Quando a Jovem vira Virgem..." já analisamos ser uma interpretação "equivocada");
  • José pensa em repudiar Maria, pois, aparentemente, não acredita que esteja engravidada de Deus.

Lucas
  • O nascimento virginal acontece por vontade divina, como obra do Espírito Santo. Não faz alusão a cumprimento de profecia. É um ato milagroso que o anjo compara com o nascimento de João.
  • José se quer é citado como alguém que duvidou ou pensou em repudiar Maria. Aliás, ele é quase um figurante na história.
Qual a intenção de comparar os dois relatos do nascimento?

Primeiro nos divertir um pouco e rirmos de nós mesmos e do nosso presépio. Ele, fazendo um mistura doida, tomando emprestados elementos de duas narrativas diferentes, criou um outro relato da história no nascimento de Jesus;

O segundo é, lembrando que Lucas conhece o material de Mateus, entender que o autor lucano cria um outro relato. E, com isso, começarmos a reparar que, se existem relatos históricos em cada uma das narrativas, fica muito difícil descobrir qual. No que se assemelham - nascimento virginal, nascimento em Belém e moradia em Nazaré - , ainda assim, não foge o caráter figurativo.

É preciso entender qual a intenção de cada um dos evangelistas ao narrarem as histórias do nascimento. Não estão preocupados em dar uma aula de história, mas em entregar aos seus destinatários uma mensagem divina.

Cada um desses relatos tem um sentido e uma mensagem, essas serão tratadas em outra postagem. Onde começaremos, em ordem cronológica dos livros, pelo Evangelho segundo Mateus.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quando a Jovem vira Virgem...

Um texto muito conhecido pelo cristianismo é o chamado "anúncio do Emanuel". Um texto do proto-isaías que narra o nascimento de uma criança que deveria ter o nome de Imanu el, quer quer dizer "Deus conosco". Mateus, tomou esse texto e o aplicou a Jesus (e não a Maria):

"Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo.
Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente.
E, projetando ele isto, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo;
E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.
Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz;
Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco. (Mt 1:18-23)"


Contudo, ao analisarmos de forma mais atenta a profecia de Isaías, veremos que seria impossível que ele estivesse falando do nascimento do messias e, muito menos, de um nascimento virginal.

Olhemos, então, o texto de Isaías capítulo 7:

Logo o primeiro versículo diz:

"No tempo de Acaz, filho de Joatão, filho de Ozias, rei de Judá, Rasin, rei de Arão, foi com Pecá, filho de Romelia, rei de Israel, contra Jerusalém para lhe dar combate; mas não pôde apoderar-se dela. ."

Primeira coisa que está clara é o momento em que se situa o episódio. Rasin, rei da Síria e Pecá, rei de Israel (reino do norte) estão se ajuntando para ir contra Jerusalém. O resultado dessa aliança contra o reino de Judá (reino do Sul) Isaías afirma ser o medo. Medo por parte de Acaz e medo por parte do povo:

"Quando se soube, na casa de Davi, que {o exército da} Síria estava acampado em Efraim, o coração do rei e o de seu povo ficaram perturbados como as árvores das florestas agitadas pelos ventos."

Acaz e o povo temem esse levante. Não conseguem esperar salvação e vitória nessa batalha que se inicia. Isaías é enviado por Javé a Acaz para confortá-lo e reanimá-lo:

"E dize-lhe: Tem ânimo, não temas, não vacile o teu coração diante desses dois pedaços de tições fumegantes. {Diante do furor de Rasin, da Síria, e do filho de Romelia}.
Vamos contra Judá, nós o bateremos, e nos apoderaremos dele, e proclamaremos rei o filho de Tabeel.
Eis o que disse o Senhor Javé: Isso não acontecerá, essas coisas não se realizarão,
porque a capital da Síria é Damasco, e a cabeça de Damasco é Rasin. {Dentro de sessenta e cinco anos Efraim desaparecerá do rol dos povos.}
E a capital de Efraim é Samaria, e a cabeça de Samaria é o filho de Romelia. Se não o crerdes, não subsistireis. "


E agora aparece o nosso texto. Isaías diz para Acaz pedir um sinal de Deus de que a salvação viria:

"O Senhor disse ainda a Acaz:
Pede ao Senhor teu Deus um sinal, seja do fundo da habitação dos mortos, seja lá do alto.
Acaz respondeu: De maneira alguma! Não quero pôr o Senhor à prova.
Isaías respondeu: Ouvi, casa de Davi: Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus?
Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco.
Ele será nutrido com manteiga e mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem.
Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, cujos dois reis tu temes, será devastada.
O Senhor fará vir sobre ti, sobre teu povo e sobre a casa de teu pai, dias tais como não houve desde que Efraim se separou de Judá {o rei dos assírios}. "


O texto é claro! O sinal que Acaz deve ver é de que a "virgem" daria á luz e antes do filho dela conseguir discernir entre o bem e o mal (ou seja já terá nascido) as duas terras que se levantam contra Judá estará devastada.

A profecia de Isaías está focada com o tempo em que o profeta está vivo. Ele nao tenta consolar o rei com uma promessa séculos após o episódio da guerra siro-efraimita. É preciso levantar o ânimo de Acaz, é preciso renovar sua confiança de que a linhagem de Davi não perecerá (a virgem dará a luz a um descendente de Davi).

Nosso grande problema se encontra exatamente na expressão: virgem!

Vamos dar uma olhada no texto original:

לָכֵן יִתֵּן אֲדֹנָי הוּא לָכֶם אֹות הִנֵּה הָעַלְמָה הָרָה וְיֹלֶדֶת בֵּן וְקָרָאת שְׁמֹו עִמָּנוּ אֵֽל׃

 Isaías usa o termo עַלְמָה('alma) cuja tradução literal seria "jovem mulher" e não virgem, que é   בְּתוּלָה (bethulah). Temos então um grave problema de tradução. Como a "jovem mulher" (que poderia ser casada) transformou-se na "virgem"? De onde surgiu isso?

No período do império grego, a diáspora (judeus que moram fora de Canaã) acabou gerando judeus que não falavam mais o hebraico. Com isso, nas sinagogas dificultava bastante a leitura dos textos da bíblia hebraica. Portanto, buscando resolver esse problema, foi feita uma tradução da bíblia hebraica para o idioma grego. Essa versão foi inicialmente chamada de Septuaginta, hoje, simplesmente LXX (setenta). Isso em alusão a uma lenda que dizia que 70 anciãos fizeram essa tradução.

Na versão grega do texto bíblico de Isaías criou-se um problema. A palavra עַלְמָה('alma) foi traduzida por παρθένος (parthénos) que quer dizer "virgem".  A bíblia dos autores do Novo Testamento, já é de comum acordo, tratava-se da LXX e não da bíblia hebraica. A frase "o justo viverá da sua fé", é outra comprovação disso, já que, na bíblia hebraica, a expressão correta é "o justo viverá por sua fidelidade".

Esses erros de tradução fizeram com que Mateus  aplicar ao tema do nascimento virginal, o texto de Isaías, que, na realidade disse:

Eis que a jovem está grávida e dará a luz a um menino.

Esse menino, essa criança que, simbolicamente, recebe o nome de Emanuel, é o sinal de Deus de que a dinastia davídica não iria acabar com o ataque do rei de Aram e do rei de Israel.

O rebento é o rei Ezequeias, filho de Acaz. Portanto, a jovem é a esposa de Acaz e o menino em gestação é Ezequias. Isaías está dizendo o seguinte: a menina grávida é o sinal que Deus está te mostrando, Acaz, de que a casa de seu pai não morrerá. Se você crê, a história do reino de Judá continuará, e o menino reinará em seu lugar.

Um dos textos de Isaías reconhecido como messiânico, na realidade não o é. É uma mensagem de consolo ao rei Acaz. A jovem não era virgem e o Emanuel não é Jesus (originalmente falando). Óbvio que Mateus, fazendo uso da versão dos LXX, nos diz o contrário. E podemos sim, de fato, reconhecer que Cristo é o Deus Conosco. Cristo é o verdadeiro Emanuel. Mas o Emanuel original é Ezequias.

Se naquele tempo a tradução já gerava problema... imagine em nossos dias, já que estamos bem longe dos autores do texto... Ainda bem que, como diz Milton Schwantes, "Deus também fala em português". Mas, de fato, uma coisa é certa: Traduttore, Traditore (Tradutor, Traidor).