sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Apocalipse (a loucura de ter esperança)

O movimento apocalíptico teve seu início por volta do século II antes da nossa era. Esse movimentro produziu muitos livros, dos quais, uma grande parte, ainda conhecemos. A bíblia registrou a presença de um grande livro dessa época. Falo de Daniel.

Para que possamos compreender esse movimento devemos imaginar, para algo bem mais próximo de nós, nossa época da ditadura. Onde, qualquer pensamento contrário ao governo instituído seria considerado crime e deveria ser suprimido com toda a força.

A linhas da nossa histórias são manchadas com muitas lágrimas, dores e sangues durante esse período. Isso porque, em algum momento, homens e mulheres ousaram acreditar no amanhã. Como bem diz Chico Buarque, sobre essa esperança: Apesar de você amanhã há de ser outro dia.

Da mesma forma esses escritores esperavam e criam no amanhã. Voltaram do exílio, mesmo nao estando livres, conseguiram crer na presença de Javé no retorno do exílio, mas foram passando de mãos de opressores para mão de opressores, chegando até a tutela dos Romanos. E, sem forças, o povo sede a descrença. Seus profetas  já não inspiram confiança, javé parece ter abandonado seu povo. No meio de tanta dor, de tanta lágrimas, alguém ousou dizer: amanhã há de ser outro dia.

Com suas linhas cheias de símbolos, sinais e mistérios, os autores, que se protegiam através de pseudonimos, enviam mensagens cifradas para o povo. Tinham o objetivo de dar a eles a crença no amanhã, no livramento, na paz, reencataram a vida daqueles que não viam mais motivo em crer em nada de bom.

Com o mesmo intuito, com a mesma perseverança, com a mesma fé teimosa, o autor do apocalipse escreve em seu livro sobre a esperança. Sobre a promessa de paz para um pequeno povo, chamado de cristãos, que temiam bastante o levante de um tal de Domiciano. Já tinham sofrido de forma imensurável nas mãos de um Nero César: Perseguidor implacável, falsa testemunha de acusação dos cristãos e um líder capaz de fazer atrocidades a um povo que era apenas diferente.

Com o medo do levante desse Domiciano, que mais parecia a reencarnação de Nero, a fé perde a força, a esperança e a luta por um mundo melhor é simplesmente abandonada. Então o autor detecta isso, e traz a mensagem da renovação da esperança e ensina os cristãos sem esperança, a, de forma teimosa, continuarem testemunhando e lutando por um mundo melhor.

O autor não é alheio ao sofrimento e nem está em um lugar seguro, ele mesmo se identifica como alguém que entende e sofreu na pele as consequências de ousar crer em algo melhor (pseudomimo): "Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo"(ap 1,9)

Suas palavras ganham tanta força que conseguem encontrar condições de consolar até os que foram mortos por se mantiverem fiéis ao compromisso do Reino de Deus: "E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram."(ap 6.11)

O autor é tão próximo do sofrimento do seu povo que diz, inclusive, que o próprio Cristo, Cordeiro de Deus, sofreu com essa perseguição: "E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto".

Cristo é o primeiro dos mártires da nova aliança. Logo, entende na pele a dor de cada um dos seus seguidores, e, justamente e somente assim, pode se identificar e ser solidário àqueles que, como ele, sofrem.

É por isso mesmo que o autor ousa dizer como será o fim da históra: "E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.
E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas."(ap 21,3-4)

A apocalíptica, antes de produzir livros que dão medo ou que trazem mensagens intocáveis, seu objetivo é consolar, animar e trazer a esperança à vida. Suas linhas trazem mensagens de luta e de fé. E não de abatimento ou de apatia, como que aguardando algo alheio ao desejo humano.

Da mesma forma utopias se levantaram em todo o mundo. Hoje, acredito eu, as pessoas deixaram de sonhar com essas coisas: não valorizam sua terra, nao valorizam seu povo, sua cultura, sua família, suas raízes, sua história, seu voto...

Mas eu vejo que há "autores apocalípticos" ainda hoje. Homens que lutam, que apontam e que desejam algo para além da realidade atual. Questiono bastante a mensagem que a igreja traz para o mundo: uma mensagem de ameaça, onde o Cristo que se identifica com o sofrimento do ser humano, presente no apocalipse, é substituído pelo Cristo que ameaça com o fogo do inferno àqueles que nã seguem a doutrina dessa ou daquela religião.

A mensagem de consolo, que renova a fé, é levianamente trocada por uma mensagem que vê dentro das catástrofes climáticas um cumprimento do desígnio sádico de um Deus "anti-Cristo", cultuado nas igrejas.

Eu prefiro o Deus apocalíptico, que não é o Deus da catástrofe, como está hj no imaginário popular devido o peso da palavra "apocalipse", que, originalmente, se trata de "revelação" e nao "destruição", como desejam muitas mentes ansiosas por vingança, por sangue e por um egradecimento de um Deus do seu próprio ventre. O que é bem contráditório com o humilde Cordeiro que foi ferido e morto.

Deixo uma mensagem, não apocalíptica, mas estacológica sim, presente em uma canção que mostra o desejo humano por isso que os autores apocalípticos lutaram e idealizaram:


Há um vilarejo ali onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa,
Vê o horizonte deitar no chão pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe,
Paraiso se mudou para lá

Por cima das casas, cal,
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando os caminhos,
Os vestidos, os destinos e essa canção

Tem um verdadeiro amor Para quando você for

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