quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O lindo lago de Deus (Teologia e MPB)

Lindo Lago do amor
(Gonzaguinha)
"E bem que viu o bem-te-vi
A sabiá sabia já
A lua só olhou pro sol
A chuva abençoou
O vento diz "ele é feliz"
A águia quis saber
Por quê, por que, por qual será
O sapo entregou
Ele tomou um banho d'água fresca no lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água no lindo lago do amor"

Sim... não há dúvida! Eis mais um "hino ao amor" que Gonzaguinha nos presenteia, como todo o seu talento. Mais uma obra-prima que, certamente, poderia ser chamada de Hino. Não apenas no sentido religioso do termo. Mas no sentido da vida! Em respeito à vida, em respeito ao amor.

Gonzaguinha começa a música sem nos explicar do que se trata. Aparentemente a natureza fica intrigada diante de um mistério. Inclusive, "fofocas rolam" tentando descobrir do que se trata.  A intenção é envolver-nos na música. Curiosos, ficaríamos atento a cada diálogo da crição, procurando, com isso, identificar do que a natureza está falando. Até que, por fim, uma dica : O vento diz "ele é feliz". Embora ainda não fique claro, sabemos, contudo, que uma pessoa é o assunto da conversa. E, finalmente, o sapo nos explica e "entrega": Ele tomou um banho d'água fresca no lindo lago do amor . Não tinha acontecido nada demais. Fora o o fato de que - enfim - o homem decidira se banhar no "lindo lago do amor".

Acredito eu que essa canção, de letra e ritmo envolventes, se consciente ou não, traz uma forte mensagem escatológica. O momento onde tudo, mesmo a natureza, ficará perplexo diante do ser humamo. O momento em que o amor passará a viver no coração do homem, produzindo paz, alegria e admiração por todo lugar.

Este evento, o Cristianismo chama de segundo advento, judeus de vinda do Messias, budismo de Nirvana. Gonzaguinha, simplesmente, define como  mergulho no "lindo lago do amor".

Há um tom de pureza e de mensagem real nisso quando, como cristãos, olhamos para o círculo do apóstolo Paulo (Rm 8):
"Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.

Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou,
Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.

E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo"
.

(Cl 3)
"E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição".

A todo momento somos convidados a mergulhar no amor. Sempre recebemos esse convite do próprio amor. Que, segundo a tradição cristã, é o Deus mesmo (I João 4). Gonzaguinha apenas nos mostra o quão maravilhoso será o momento em que decidirmos aceitar tal convite. As tradições judaica e cristãs também chamam esse dia de: Dia de Javé (dia do Senhor). Quando ELE virá julgar o mundo. E nesse dia até a criação celebrará (Sl 96):

"Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra; brame o mar e a sua plenitude.

Alegre-se o campo com tudo o que há nele; então se regozijarão todas as árvores do bosque,

Ante a face do SENHOR, porque vem, porque vem a julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos com a sua verdade
".

Para que tal aconteça, não depende de Deus, nem da própria natureza, mas de cada um de nós. Aceitemos o convite e mergulhemos nesse "Lindo lago do amor", que é o próprio Deus.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Deus que não cabe em si (Por um Deus melhor...)

Por ser exato, o amor não cabe em si
Por ser encantado, o amor revela-se
Por ser amor, invade e fim

Eu preciso me recompor diante de palavras tão profundas. Costumo, de forma constante, fazer a confissão joanina: Deus é amor. Então, vamos substituir:

Por ser exato, Deus não cabe em si
Por ser encantado, Deus revela-se
Por ser Deus, invade e fim.

Não vejo Deus como um ser narcisista, que se ama, se completa e faz tudo para a sua glória. Que exige e busca louvores dos homens. Não encontro e não admito a imagem de um Deus que sabe quem é, mas deseja que o reconheçamos. Não... rejeito isso...

Fico tentando entender o que de fato passou na cabeça de Djavan ao dizer que o amor não cabe em si. E para conseguir entender isso vejo Deus... um Deus que não cabe dentro de seu eu; não é suficientemente forte para se segurar; não consegue se conter. Deus precisa sair de si, precisa se esvaziar, precisa ir de encontro a outro. Imagino Deus como aquele que não tem condições de se bastar.

E nessa saída de si, cria todas as coisas. O Deus que não criou as coisas para a sua glória – como diz algumas tradições das Escrituras – mas um Deus que não se conteve, não conseguiu se segurar, não coube dentro de sua própria natureza e por conta disso, cria a coisas. Como uma explosão de amor e de necessidade de expandir naquilo q foi criado.

Eu vejo um outro Deus... Vejo o Deus que é grande sim, mas de tão grande não precisa se dividir, precisa ir de encontro a alguém. Precisa se colocar em tudo: na natureza e no ser humano. O Deus que não cabe dentro de si, é aquele que se lança no outro e precisa estar no outro, quer estar no outro pq não tem condições de viver pra si. O Deus que preenche todas as coisas, pq é maior do que si próprio.

Um Deus que é encantado – que tem encanto, que fascina – e que portanto, se revela. Como não achar fascinante o pôr-do-sol? Justamente por ser fascinante, se revela. Não se esconde. De forma bem simples: aquilo que é belo se mostra. As coisas bonitas tendem a serem mostradas. Como diz Jesus: aquele que é nascido da luz, se achega para a luz, para que sejam reveladas suas obras, pois são feitas em Deus. Aquilo que é bom, bonito e encantado não consegue se ocultar. E assim, Deus, se revela em Jesus, se revela na criação, se revela na vida que nasce, se revela na dor consolada. Por ser encantado, fascinante, belo e lindo: Deus se revela.

Revela vem do latim: revellare, que quer dizer, literalmente: tirar o véu. Deus, não se deixa oculto atrás do véu. Deus tira aquilo que oculta-o e se mostra. Por ser encantado, por ser mais belo que o véu, por ser amor: não se esconde. O amor não consegue se ocultar, ele, sempre, sempre se mostra. Assim é Deus: não consegue se guardar-se, embora não consigamos compreende-lo plenamente, ainda assim, plenamente e misteriosamente, ele se revela em Jesus, segundo a carta aos Hebreus.

E por ser amor, Deus invade e fim...

O amor não pede licença pra chegar. Quando menos esperamos, amamos as pessoas. E de forma bem sutil, esse mesmo amor invade e não conseguimos segura-lo, quando ele resolve fazer isso. Assim é Deus... Preenche todas as coisas. Todas as coisas estão em Deus e Deus está em todas as coisas. Não é panteísmo, é pananteismo (pan= todo; en=em; theos=Deus). Esse é o amor... Esse é Deus... E esse fim, na realidade não é fim, é apenas o começo. Pois quando o amor penetra o coração ocorre o fim de sua ausência e o início sem fim de sua presença. O começo do amor, a inauguração do governo do amor e o início da vida em amor.

Por ser exato, o Deus de Jesus, não cabe em si, se revela, preenche tudo e fim.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre a Criação (Uma pequena análise sobre Gn 1)

Alvo de muitos debates e contradições, o Livro do Gênesis – Bereshit, em hebraico – é visto como o livro das origens: origem da criação, origem do desvio da humanidade, origem do povo da bíblia e etc.

O primeiro capítulo da bíblia traz uma mensagem que, por vezes, é posta de lado pelos defensores do evolucionismo, do criacionismo e do criacionismo-evolutivo. Longe de ser um texto que narra “como as coisas foram criadas”, guarda, na realidade, mensagens tão profundas que colocam de lado esses debates sem fim. Para isso, como já vimos ser importante em qualquer texto bíblico, cabe descobrir as situações sociais dos destinatários e dos autores do texto.

Partiremos desse ponto, veremos as situações importantes para o texto e, por fim, freqüentaremos as “reuniões” em que o texto era lido, para, assim, “ouvirmos” a mensagem de esperança, desafio e fé guardada nessas primeiras linhas da bíblia.

O reino de Judá havia sido massacrado pelo exército babilônico. Uma boa parte de sua população fora levada cativa para as terras da Babilônia (2 Reis 25); Estão sem rei (o ungido da linhagem eterna de Davi); sem templo (o lugar que Deus escolheu para invocar seu nome); sem terra (o lugar prometido por Deus para o seu povo). Os três pilares da fé judaita foram destruídos.

Misturados entre o povo do império, sem forças, são animados pelo próprio Jeremias a, enquanto não voltarem para casa, lutarem pelo bem da cidade do cativeiro e a viverem bem lá (Jeremias 29).

A Babilônia, como era comum na época, possuía deuses que justificavam, dentre outras coisas, sua existência, seu poder e sua situação econômica, social, cultural e, claro, religiosa. O panteão babilônico, cercado de deuses, servia, dentre outras coisas, como motivo para aumentar a exploração e para diminuir a cultura e a religião dos povos cativos. Seu deus supremo, Marduk, era adorado na figura do Sol. A Lua era adorada na personificação de Sin.

Uma forma de escravizar, por exemplo, estava na exploração dos cativos que só poderiam descansar em ciclos lunares de 15 em 15 dias, por conta das festas aos deuses. Momento em que a festa ao deus babilônico seria celebrada. Uma das principais era a festa do ano novo. Onde o hino da criação era entoado a Marduk.

Segundo a crença babilônica tudo havia sido criado durante uma guerra entre os deuses Marduk e Tiamat. Marduk foi escolhido por alguns deuses como chefe e líder da guerra contra Tiamat, a mãe de todos os deuses. Marduk, ao vencer a guerra, criou os céus e a divisão da terra e das águas.

Os mestres judeus viram nisso uma certa ameaça a crença em Javé e um forma de exploração. Precisavam, então, oferecer resistência cultural e religiosa. É aí que re-criam o hino da criação à sua maneira. Que, antes de explicar como Javé criou todas as coisas, procura apresentar quem é o Deus dos judeus; desmistificar e desmascarar os deuses babilônicos; e oferecer uma resistência à exploração do trabalho judeu.

Podemos reparar que o texto bíblico estudado trata-se de um hino, ou poema, pela sua forma:


  • Existe um refrão (E viu Deus que era bom); 
  • Há frases solenes que se repetem: “Deus disse”, “e assim se fez”, “houve uma tarde e uma manhã”;


A forma de repetição nos ajuda a ver que esse poema – ou hino – era usado na liturgia. Podemos até imaginar o “líder da leitura” falando: “Deus disse:...” E o povo, no fim da estrofe, respondendo: “E viu Deus que era bom. Houve tarde e manhã...”.

Vamos, agora, iniciar nossa análise do texto bíblico e comparar com algumas similaridades ou antagonismos em relação ao hino babilônico.

Gn 1

1.      No princípio criou Deus os céus e a terra.
2.      E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Trecho do hino babilônico:

Quando o céu acima não havia sido nomeado,
Nem abaixo era o mundo chamado por nome,
O Apsu primevo, o progenitor,
E Tiamat - aquela que gerou a todos eles,
Estavam misturando suas águas,

No texto bíblico, no princípio de tudo, não estava Tiamat – as águas salgadas – e nem Apsu,  esposo de Tiamat – águas doces. Mas estava Elohim, o Deus judeu. E ele mesmo criou os céus e a terra. Assim como no hino da criação babilônico, Tiamat, que representa o Caos, é eliminada por Marduk. No hino judeu o caos (terra sem forma e vazia e as águas sendo levadas pelo vento) é organizado pela palavra criadora de Elohim. As águas até estão presentes, mas é o “sopro de Deus” (ruah) que paira sobre elas.

3.      E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
4.      E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
5.      E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

Marduk é o Sol, e, portanto aquele que traz a Luz. Sin é quem governa a noite. Contudo, segundo o poema judeu, Deus cria o dia e a noite independente dos astros. É uma forma de colocar em segundo plano aquilo que exalta a divindade: a luz não vem de Marduk (do sol), e nem a luz da noite vem de Sin (da lua). Elohim criou o dia e a noite independente desses deuses. Mesmo eles não existindo, os dias e as noites existiriam - não há lógica, portanto estamos dentro do discurso mitológico e não do científico (lógico).

6.      E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.
7.      E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.
8.      E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
9.      E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi.
10.  E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom.

Trecho do hino babilônico:

Ele (Marduk) a dividiu (Tiamat) em dois, como um peixe para secar,
Metade dela ele levantou e fez uma cobertura, o  céu.
Ele esticou o couro e nomeou os vigilantes,
E ordenou que eles não deixassem as águas dela escapar.

No hino babilônico isso ocorre após a vitória de Marduk sobre Tiamat, no hino bíblico, contudo, Deus, com sua palavra criadora e sem violência, cria os continentes e os oceanos. Estes não são divindades são, como qualquer outra coisa, criações de Javé.

11.  E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi.
12.  E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
13.  E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

Não é fruto de nenhum deus ou nenhum ritual idólatra o fato da terra produzir seus frutos. Mas Elohim fez isso! Então não são os ritos pagãos que fazem com que a agricultura seja preservada, é o cuidado de Deus. E a força criadora do Deus de Judá que faz com que a plantação seja bem sucedida.

14.  E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
15.  E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi.
16.  E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
17.  E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra,
18.  E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.
19.  E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

Esse é o clímax da “guerra”. Os grandes deuses babilônicos se transformam em luminares. Não tem vida em si mesmos. E nem podem se reconhecidos como seres vivos. São “lâmpadas” e nada mais. Os autores até ocultam o nome dos deuses babilônicos. Isso é uma das maiores ofensas que se pode fazer a uma cultura ou uma religião na época. E os escravos judeus o fazem: Elohim não criou Marduk. Elohim criou um luminar e o que eles adoram é apenas isso, um luminar. Uma criatura sem vida criada por Elohim.

20.  E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.
21.  E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
22.  E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra.
23.  E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
24.  E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.
25.  E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.

Segundo o mito babilônico, as bestas foram criadas pelo abismo e pelas águas. Aqui, é Elohim que cria, inclusive os animais, as bestas e tudo o mais que tem vida.

26.  E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
27.  E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
28.  E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
29.  E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
30.  E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
31. E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

Nesse texto, os autores judeus elevam todo ser humano. Toda a humanidade é divinizada. Não é o rei babilônico aquele que representa e é filho dos deuses. Mas todo ser humano. Qualquer uma pessoa é imagem e semelhança e, portanto, representantes da divindade de Elohim.


Gn 2

1.      Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados.
2.      E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.
3.      E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera.

E agora a coragem da resistência: Mesmo Elohim, aquele que nunca se fatiga, descansou após trabalhar seis dias. Então, ele santificou esse dia e, por isso, os judeus não trabalharão mais do que seis dias na semana para os babilônicos. Tirarão o sétimo dia para descansar, e, assim, aliviar o peso da escravidão e lutar contra a exploração de suas forças; Se reunirão em torno do culto a Javé, mesmo em terra estranha; Fortalecerão sua crença, unidade e esperança de retorno à terra de onde foram retirados à força; E O sábado será o dia separado para isso.

Como vimos, antes de ser um texto que tem a função de descrever como Deus criou todas as coisas, o texto analisado, objetiva ensinar sobre Javé, fortalecer a fé do povo, resistir a exploração e a tentação da cultura e religião babilônicas. Mas e nós? O que podemos aprender dessa luta e dessa vitória que o povo teve ao, na teimosia da sua fé, sendo escravos, demonstrarem a superioridade do seu Deus sobre o deus dos seus senhores?

Quais são as tentações de nossos dias que procuram divinizar a criação em vez do criador? Quais são os sistemas que procuram criar pessoas inferiores e eliminam a mensagem de que todo ser humano tem em si a imagem de Deus? O que procura tirar do homem essa certeza coisificando sua natureza? Qual nossa atitude diante das criações de Deus que o poema ousa dizer ser “muito bom”? Qual nossa atitude diante dos trabalhos escravos ainda presente em nossos dias? Como agimos quando vemos uma exploração de mão-de-obra barata? Qual nossa atitude quando não é dado, ao trabalhador assalariado o direito de “descanso”, entendo esse descanso como muito mais do que um dia em que não se trabalha?

São tantas as perguntas que esse texto faz a nós, em nossos dias, que somos convidados, por ele, a sermos, muito mais, desafiados a lutar pela justiça social, do que por “Deus fez as coisas desse jeito e não como a ciência diz”. Eis a mensagem do texto analisado: Deus fez tudo bom para o bem, e para o bem e para o bom devemos levar tudo o que foi criado.