segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Rute X Neemias (uma abordagem contra o preconceito)

Neemias 13:23-30
Vi também naqueles dias judeus que tinham casado com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas.
E seus filhos falavam meio asdodita, e não podiam falar judaico, senão segundo a língua de cada povo.
E contendi com eles, e os amaldiçoei e espanquei alguns deles, e lhes arranquei os cabelos, e os fiz jurar por Deus, dizendo: Não dareis mais vossas filhas a seus filhos, e não tomareis mais suas filhas, nem para vossos filhos nem para vós mesmos.
Porventura não pecou nisto Salomão, rei de Israel, não havendo entre muitas nações rei semelhante a ele, e sendo ele amado de seu Deus, e pondo-o Deus rei sobre todo o Israel? E contudo as mulheres estrangeiras o fizeram pecar.
E dar-vos-íamos nós ouvidos, para fazermos todo este grande mal, prevaricando contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras?
Também um dos filhos de Joiada, filho de Eliasibe, o sumo sacerdote, era genro de Sambalate, o horonita, por isso o afugentei de mim.
Lembra-te deles, Deus meu, pois contaminaram o sacerdócio, como também a aliança do sacerdócio e dos levitas.
Assim os limpei de todo o estrangeiro, e designei os cargos dos sacerdotes e dos levitas, cada um na sua obra.

Como ler essas linhas de Neemias e não encontrarmos um claro exemplo de preconceito, monoculturalismo e etnocentrismo? Se formos sinceros, sim, encontraremos. Há quem diga que se olharmos com os olhos daquele tempo acharíamos que Neemias tinha plena razão. Será?

Antes de pensarmos sobre isso, vale aqui deixar claro que Neemias tem grande mérito: Graças a sua reforma o judaísmo conseguiu consolidar-se; Uma identidade se firmou na religião e na cultura judaica - ainda que outras identidades e culturas tenham nascido a partir de então; Neemias conseguiu trazer o sentimento de amor a Javé, à religião, à cultura hebraica e ao próprio idioma hebraico. Mas, como todo homem reformador, tem seus problemas, seus extremismos e seus opositores. Os maus opositores e os bons opositores que, com seus pensamentos diferentes, conseguem fazer o povo crescer  e exterminam a unanimidade. Como diz o Nelson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra".

Mas voltando ao texto, vemos nele a clara política separatista de Neemias. Com ela, procurava ele "limpar" os judeus de toda "influência" de estrangeiros, tanto de idioma -  o hebraico deve ser valorizado -  quanto de religião. Como será que isso foi recebido entre o povo? Será que de fato existe apoio tanto divino quanto do povo? O livro de Rute responde-nos essas e outras perguntas.

O que encontramos em Rute?

Rute é um livro que fala sobre um Elimeleque que sai das terras de Israel em direção às terras de Moabe a fim de conseguir pão. Esse fato se da na época dos Juízes. Lá, seus filhos (Malon e Quiliom) se casam. Morrem tantos os filhos quanto o pai. A mãe (Noemi) fica com as duas noras (Orfa e Rute). Orfa se vai, Rute, contudo, fica com Noemi e passa a cuidar dela. Mas tarde, segundo a lei, Rute se casa com um dos parentes de sua sogra e tem um filho, chamado Obede, que é pai de Jessé, pai do rei Davi.

Muitas coisas se pode tirar desse livro, mas vamos a algumas coisas que podem nos ajudar:
Elimeleque - Meu Deus é rei;
Noemi – Alegria, meu prazer, que muda seu nome para Mara - Amargura;
Malon - Doente;
Quiliom - Definhamento;
Orfa - Pescoço, Nuca;
Rute - Amiga;

Consideremos que Elimeleque – cujo nome é "Meu Deus é rei" – figura como o grupo dos que são fiéis ao projeto de Javé - "Javé é o nosso rei e não um homem", conforme o próprio Gideão (Jz 8,23) - opositores ao modelo de poder centralizado em uma pessoa. O nome dos outros homens mostra certa fragilidade na saúde, curiosamente eles morrem.
Orfa é pescoço, nuca (vemos a nuca das pessoas quando elas estão de costas), no sentido de "aquela que vai pra trás", é, também, curioso o fato de ser a nora que deixa Noemi. Rute, cuja tradução é amiga, é aquela que se mantém fiel a Noemi, não a abandona. Como já era de se esperar, pelos ocorridos ao outros personagens, seguindo a idéia do nome, Rute, se mantém fiel e se torna leal amiga de Noemi.

Essa característica na narrativa  - de que os nomes carregam a personalidade do personagem  - é característico de todo conto antigo. O quanto desse conto é histórico ou construído não é a grande questão. A grande questão é que esse livro foi escrito em resposta a política separatista de Neemias. O autor mostra que há moabitas que se posicionam como Rute: teu povo será meu povo e teu Deus será o meu Deus. Portanto, Neemias está bastante equivocado em obrigar os homens a se separarem de suas esposas e filhos. Causando dores desnecessárias. E o autor não pára por ai, ele ainda diz que essa moabita é bisavó do rei Davi. Aquele que figura o Messias que fará a obra completa, superior a obra de Neemias.

O Messias, portanto, será, em tese, mestiço. Nem o Messias de Deus é "sangue puro". Mesmo Deus coloca uma moabita como participante do seu projeto.

Em nossos dias existem políticas separatistas nas igrejas: mulheres não podem ser pastoras; não podemos casar com pessoas de outras religiões; em algumas igrejas nem como membros de outras denominações; Sem contar aquilo que de real se considera inferior: nao se dialoga com outras religiões, pressupõe que se é necessário "limpar" a igreja de toda influência "mundana". Existem "N" políticas separatistas nas igrejas. E isso impede que muitos cristãos saibam, de fato, viver em um mundo pluralizado cultura e religiosamente. É impossível de se ver Deus no outro, ou de ver o outro como membro dessa grande família.

O irônico é que, dentro da própria bíblia, temos a política de Neemias e a abertura do livro de Rute. Óleo e Água convivendo harmoniosamente. São projetos distintos, um que representa a voz sacerdotal, que é a religião oficial. A outra, contudo, é a religião do povo, aquela mais próxima da tradição profética. Que enxerga o mundo e as pessoas de uma forma mais sensível, sem os óculos da instituição. Sim, de fato são dois projetos distintos. Vencer o preconceito é muito mais do que olhar para o Livro de Rute. É, sim, perceber a presença desses dois distintos projetos na mesma coleção de livros da fé.

A mensagem de Rute luta contra o preconceito étnico e cultural. Mostra o Deus que se faz presente naquele que é desprezado. É de fato uma aula sobre humanidade, amizade, e sinceridade. Contudo, maior vitória sobre o preconceito é ver, de forma tão singela, a presença de duas opiniões que são antagônicas fazendo parte do mesmo projeto da fé: a bíblia.

Como diz Paul McCartiney e Stevie Wonder:

" Ebony and ivory
Live Together In Perfect Harmony
Side By Side On My Piano Keyboard,
Oh Lord, Why Don't We?"

"Ébano e Marfim
Vivem juntos em perfeita harmonia,
Lado a lado no teclado do meu piano.
Oh, Senhor, por quê nós não?"

Sim, viver em harmonia. Todas as raças, todas as culturas e todas as diferenças. Uma completando a outra. Uma fazendo parte do projeto da outras e ambas, na ajuda mútua, fazendo parte do projeto de Deus. Como nas veias do rei Davi corria sangue moabita e como nas veias do filho de Deus, segundo Mateus, corriam os sangues da Rute moabita e da jericóence, prostitura Raabe e, assim, Jericó e Moabe, junto com Israel contribuíram para o projeto de Deus, da mesma forma, façamos nós. Procurando não apenas respeitar, mas acima de tudo, aprender com o outro.

Comunhão sem fronteiras, eis uma das mensagens do livro de Rute.