sexta-feira, 11 de junho de 2010

Religião Artista (O hupokritēs)

O texto de Mateus preserva uma tradição que demonstra a "luta" que comunidade inicial teve com os Fariseus (partido religioso que adotava uma postura literal das Escrituras) - Mt 23:
13 Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.
14 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.
15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.
16 Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor.

Temos, comumente, a idéia de que Jesus está chamando os fariseus de hipócritas, por causa da tradução. De fato, o sentido é esse, mas a postura de Jesus é tanto agressiva quanto sarcástica. Fatalmente, depois desses textos, é bem comum quando se deseja chamar alguém de hipócrita, chama-l0 de "fariseu".

O fariseu, contudo, nada tinha desse sentido. Eram os "separados", os "consagrados". Aqueles que gozavam de privilégio diante do povo e que, durante muito tempo, foi quem sustentou a fé judaica no pós 70 dC, com a destruição de Jerusalém e do templo pelo, então, general romano Tito.

Mas voltando a Jesus, a palavra traduzida como "hipócritas", na realidade é ὑποκριτής (hypokritēs). Cuja tradução melhor é: ator, artista, aquele que interpreta. Era o nome usado para identificar os que vestiam máscaras e atuavam no teatro.

Jesus lança mão dessa nomenclatura para denunciar a religião vivida pelos fariseus de seu tempo. Eles encenavam sua fé, fingiam viver uma devoção que não tinham. Essa era a denúncia de Jesus: vocês são artistas, que comovem a todos, mas que não estão comovidos e não estão vivendo de verdade aquilo com que comovem.

Quando estamos vendo um filme ou peça sentimos a tensão, o medo, o desespero, torcemos para que um morra, para que outro sobreviva, choramos com as tristezas, etc. E na verdade, ninguém morreu, ninguém venceu e ninguém sentiu medo. Tudo truque da boa interpretação e do fundo musical.

Essa genealidade humana, que ensina, entrete ou emociona é usada por Jesus para dizer que esses mesmos efeitos os fariseus geravam. Conseguiam o respeito, admiração e temor das pessoas, sem contudo sentir de fato aquilo que usavam para conseguir tais méritos diante da comunidade judaica.

E em nosso dias? Quantos hypokritēs temos em nosso meio? Pessoas que chegam à midia como pastores mais que são verdadeiros lobos, que sugam dinheiro, moral, esperança e a felicidade do povo em nome de uma fé que nao possuem. Colocam peso nas costas do povo. Pesso esse que nao carregam e se misturam no meio das comunidades de fé. Isso, digo, nao apenas na religião protestantes (da qual venho) mas em todas as religiões. E os homens de boa vontade, se calam enquanto esses, que nada são, se fazem e, artisticamente, se tornam.

Cabe a nós a mesma posição de Jesus: denunciar para que a peça acabe e para que a realidade venha à tona. Pois, depois do espetáculo, tudo volta ao normal.

Ponhamos fim nos espetáculos que separam as pessoas de Deus e do próximo. Ou, ponhamos fim ao nosso espetáculo que engana e explora.

Um comentário:

  1. Máscaras caem, figurinos esfarrapam e o personagem nunca dura muito tempo...
    O mlhor remédio é o tempo.

    Abraços razeC

    Flavio Trajano

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