terça-feira, 22 de junho de 2010

A indulgência da vida eterna

A morte sempre foi algo que me intrigou. Nunca gostei de pensar nela e nunca a desejei. Aliás, tenho uma frase que diz: morrer é lucro apenas para o apóstolo Paulo, eu quero continuar vivo.

Deixando a heresia de lado, na verdade, o que pretendo dizer é que não sei como é “do outro lado”. E sei que as promessas que existem, todas, ficam no obscuro da fé. Quer sejam essas as promessas da ciência ou da religião. Por mais que afirmem alguns que “retornaram à vida” depois de estarem "do outro lado", ainda assim permanecerá a fé no que é dito e não no que é comprovado. De fato: “a fé, não precisa de comprovação, do contrário, ela mesma já não se faz necessária”. Diria um sincero que crê.

Eu sou daqueles cuja fé não responde tudo. Morte, para mim, é a injustiça da vida. Como posso eu provar a vida, me apaixonar por ela, sentir o cheiro das flores, o gosto das frutas, o refrigério da água em um dia quente, o toque e abraço de um amor e de um amigo, me cercar de sonhos, sentir a alegria de concretizar uns e a frustração de ter que abandonar outros e quando menos espero, ser atacado por algo que me separa definitivamente dela, sem dó, sem pedir licença e sem ao menos me perguntar se desejo isso? Onde está a justiça no "sono eterno"?

Não, sinceramente a morte não me atrai. E fico contente em saber que não atraia nem mesmo ao filho de Deus: "Se possível passe de mim esse cálice". Relatam os evangelistas ser essa a oração na construção literária da certeza da morte. E o que mais me deixa surpreso é a própria bíblia dar a seguinte promessa, reafirmada pelo texto deutero-paulino: hora teu pai e tua mãe para que te vá bem e SE PROLONGUEM OS SEUS DIAS.

Longevidade, eis a benção dada por Deus. Alguém diria que em um período onde a vida após a morte não fazia parte do credo hebreu. Tudo bem, então, no momento em que os judeus não criam na ressurreição e nem no além, eles afirmam que benção é viver bem e muitos anos. O tempo passa e a vida já não se mostra tão favorável ao que respira. Então, os apocalípticos "inventam" a ressurreição dos mortos. Afirmando que, no fim, alguns despertarão para a vida eterna.

Vejamos... mais uma vez a morte é rejeitada. E agora como promessa de uma "nunca morte". A morte não é desejada pelos escritores e nem pelo mundo judaico. A bem da verdade é que a promessa acima, dada aos "filhos honrosos", não se cumpria. Por mais que homens e mulheres fossem fiéis a Javé, ainda assim, a vida podia ser triste, sofredora e má: opressores de todos os lados, liberdade cativa e miséria. Como dizia o profeta: “A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha. Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados, e não temos descanso. Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos fartarmos de pão”.

Sim, a vida perde seu sentido, então algo deve motivar a continuar, e os escritores apocalípticos resolvem esse problema com sua "invenção". Reencantam o mundo, dão esperança. E desde então se tem motivo para manter-se firme e fiel a Javé: o Dia do Senhor virá, trazendo vida eterna aos mortos. Trará a ressurreição.

O movimento de Jesus é filho dessa fé, que golpeia a falta de esperança com essa promessa. O apóstolo Paulo dedica boas linhas renovando a fé e a confiança na ressurreição dos mortos, em uma das cartas aos coríntios:
A ressurreição é para aqueles que reconhecem em Cristo o penhor da ressurreição e o primeiro de muitos. Assim como ele ressurgiu, outros ressurgirão - os que confiam nessa certeza apostólica.

Sim, mas quem afirma que ele ressurgiu? Mais uma vez somos desafiados a confiar na fé alheia e nela depositar nossa fé. Muito sábio foi um dos teólogos autores do evangelho de João que cria (ou relata) o encontro de Tomé e de Jesus: Bem-aventurado quem não viu e creu. Assim, se torna feliz aquele que, 100 anos depois do advento (mais ou menos a data da criação do evangelho de João), crê que o filho de Deus ressurgiu dos mortos em corpo.

Mas será que sempre terá que ser assim? Nossa fé depositada naquilo que nossos olhos não testemunharam. Alguns teólogos e biblistas famosos afirmam com toda a certeza que a ressurreição de Cristo foi ideológica. Que Cristo ressurgiu no coração dos apóstolos. Outra verdade que, dentre tantas, devemos acreditar, pq eles afirmam? Essa é a experiência deles e nós devemos crer no que dizem ou nos que vêem lá uma ressurreição histórica. Mas nossa opinião, nosso sentimento são colocados de lado? Somos herdeiros de mensagens. Apenas isso: herdeiros. Nada criamos, nada fazemos. E dizemos sim a tudo aquilo que é dito.

Falta de fé da minha parte? Não! Quem conseguir ler estas linhas até o fim, verá que encho de coragem e fé para reafirmar aquilo que os profetas afirmavam: Justiça!!!

Enquanto alimentamos a fé das pessoas de que existe um além túmulo, tiramos delas a responsabilidade de viver já! Enquanto consolamos com promessas que não podemos ter provas que se cumprirão, essas pessoas sofrem e morrem, com uma esperança vindoura. Mas não possuem forças suficientes para fazer dessa vida atual, presente divino, a verdadeira vida.

De que adianta enchermos o mundo de promessas do além, quando, na verdade, ninguém sabe como será? Onde fica a vida humana, terrena? Quem justifica aquelas pessoas que nem se quer, na vida vindoura crêem e a vida atual é apenas sofrimento? Que esperança para ontem temos a dar àquelas que só gostariam de um prato de comida? Vamos continuar a dizer como os vendedores de indulgências do passado, que falavam para a mãe de uma menina paralítica: “querida mãe, no céu, sua filhinha aleijada poderá correr para os braços do Senhor, compre a indulgência e garanta essa felicidade à sua filha”.

Não garantimos nada a ninguém enquanto não aprendermos a lutarmos pela vida humana. Enquanto essa mesma vida é ceifada e relativizada nas ruas pelas drogas, pelas armas de fogo, pelos estupros, pelas torturas, ameaças, fome e miséria, nós aqui dizemos: apesar de tudo isso, amanhã, no céu, tudo será bom!

Isso não é cristianismo! Isso não tem nada a ver com o seguimento de Jesus. Que, cria sim na vida eterna, mas, lutava pela concretização desta vida já e não no além. Pois seu discurso mesmo não falava nada de além, falava de "venha o teu reino" e não de "vamos ao teu reino". É o reino aqui e já que precisamos e para isso, também, precisamos nos engajar. Levantar as mangas das nossas roupas e trabalhar de forma verdadeira. Nao com programações de cumprimento de agendas. Mas de vida de luta e fazer com que essa vida, dádiva de Deus, não seja apenas uma passagem dolorosa para a vida além, mas o início da vida sem fim.

Nossa experiência não deve ser pautada na esperança dos outros, mas na nossa. E a esperança nossa, deve ser para uma utopia realizável enquanto o oxigênio terreno encher os pulmões dessas pessoas. E não para quando esse mesmo lhes faltar, pois assim, não voltarão para reclamar uma promessa não cumprida. Esperar e lutar por hoje nos coloca numa posição de compromisso que, muitas vezes, não temos condições de arcar.

Mas esse é o desafio do reino de Deus: viver já parte daquilo que nos foi prometido e promover, agora, a vida que, pela fé, aguardamos.

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