quarta-feira, 30 de junho de 2010

Para que (ñ) digam que (ñ) falei do Inferno

Acho que podemos brincar, neste tópico, com essas palavras. Acredito que elas nos ajudam muito a entender um pouco sobre como ler a bíblia.

Primeiro vamos nos localizar:

Hebraico: Sheol (lugar dos mortos) e Ge Hinom (do qual se translitera para o gregoa Geena), que sigfnifica vale de Hinom - também conhecido como Ge Ben Hinom (vale do filhoe de Hinom).

Grego: Hades (reino dos mortos) e Tártaro.

No Primeiro Testamento vemos claramente vários textos que usam muito a palavra Sheol. Sua tradução real seria "lugar dos mortos", ou, simplesmente, sepultura. Erradamente traduzem pelo vocábulo "inferno", da nossa língua, com o sentido de lugar de sofrimento eterno.

Os antigos não criam na eternidade da alma. A idéia de uma vida após a morte é dada somente no livro de Daniel e com o sentido de ressurreição dos mortos e não "além túmulo". Os textos nos revelam qual o pensamento comum sobre o Sheol:

"Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá." SL 49:15
"Na prosperidade gastam os seus dias, e num momento descem à sepultura. " Jo 21:13
"Porque na morte não há lembrança de ti; no sepulcro quem te louvará? " SL 6:5

Todos esses textos usam o vocábulo Sheol e a tradução, em algumas bíblias, está inferno. Em outros, corretamente, traduzida como sepultura.

O Segundo Testamento se baseou na LXX1 como textos bíblicos. E, nela, por estar em grego, a palavra Sheol foi traduzida como Hades.

Em todos os lugares no Segundo Testamento que citam o Primeiro, onde se encontra a palavra Hades, na realidade, está sendo traduzida, para o grego, a palavra Sheol. Temos que, obrigatoriamente, a nível de fidelidade ao texto original, manter seu sentido inicial. Vejamos um exemplo:

Atos 2 : 25 ao 27

Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha direita, para que eu não seja comovido;

Por isso se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; E ainda a minha carne há de repousar em esperança;

Pois não deixarás a minha alma no inferno , Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção;

Veja que no texto acima a palavra "inferno" aparece. Ela está traduzindo, para o português a palavra "hades". Pedro, nesse discurso está fazendo menção ao Salmo 16. Onde se poderá, no hebraico, encontrar, no lugar de hades, do texto grego usado em Atos, o vocábulo Sheol.

Agora, vamos continuar o texto de Atos, que é o discurso de Pedro:

"Homens irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura.

Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono,

Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada na sepultura, nem a sua carne viu a corrupção."

Veja que Pedro, na realidade, está usando a palavra inferno no sentido de sepultura: "Davi foi sepultado", "a alma de Criso nao foi deixada na sepultura".

Hades é, portanto, sepultura, para os primeiros cristãos. Contudo, os gregos dividiam o Hades em duas partes: Elysium e Tártaro. A primeira habitação dos vitoriosos e a segunda habitação dos ímpios. Essa idéia fortalece, sem dúvida nenhuma, a idéia de lugar de sofrimento. Contudo, vale dizer que essa palavra (Hades) é uma tradução usada pelos judeus para o Sheol, que, originalmente, não possui nenhuma divisão. É apenas sepultura. Não se pode misturar uma idéia pagã com uma idéia judaica. Devemos ler Hades apenas no sentido de Sheol do Primeiro Testamento. Mas, ainda assim, existe, uma única vez, a palavra Tártaro no Segundo Testamento.

Está em II Pedro 2:4
4 “Porque se Deus não poupou a anjos quando pecaram, mas lançou-os no inferno, e os entregou aos abismos da escuridão, reservando-os para o juízo;”

Repare bem. Aqui a palavra inferno é o "tártaro". Veja que, contudo, o autor nao está usando no sentido correto. Os "espíritos" estão presos, aguardando o julgamento. Aqui tem o sentido de julgamento, estes estão no "tártaro". Ou seja, são imundos, injustos. Uma forma de deixar claro a que espíritos se tratam. E não de narrar como estão ou se estão sofrendo. Aqui nada fala de sofrimento.

Creio que a palavra que causou toda a confusão seja essa: Geena. Essa palavra, como já falado antes, está se referindo a um lugar realmente rela: o Vale de Hinom (Ge Hinom). Esse lugar era o local onde os israelitas sacrificam seus filhos:

Jeremias 19: 2-5

"E sai ao Vale do Filho de Hinom, que está à entrada da porta do sol, e apregoa ali as palavras que eu te disser;

E dirás: Ouvi a palavra do SENHOR, ó reis de Judá, e moradores de Jerusalém. Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que trarei um mal sobre este lugar, e quem quer que dele ouvir retinir-lhe-ão os ouvidos.

Porquanto me deixaram e alienaram este lugar, e nele queimaram incenso a outros deuses, que nunca conheceram, nem eles nem seus pais, nem os reis de Judá; e encheram este lugar de sangue de inocentes.

Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento."

Após o término dos sacrifícios humanos, talvez por ser considerado um lugar maldito, ali se tornou o "lixão" da cidade de Jerusalém. Para lá eram levadas as carcaças de animais mortos e também corpos de indigentes ou mendigos. Lá também era o lugar de desova para os ladrões que eram pegos cometendo crimes. Era de fato um lugar de péssimo aspecto: "onde o fogo e o verme não morrem".

Ter seu corpo morto lançado no Geena era dizer que você teve uma morte indigna, que não tinha família ou que era um pecador. Isso tornou-se, então, para Jesus, figura do que seria morrer sem Deus:

Marcos 9:43

"E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga,"

Vemos, então, que, quando Jesus ou quando se trata do Geena ele é uma figuração da morte horrenda não tem peso nenhum de condenação ou sofrimentos eternos.

Bom, acho que serviu, pelo menos, para se pensar um pouco.

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1. Quando na diáspora - os judeus fora de território judaico - durante muito tempo a língua comum no mundo era o grego. E alguns desses judeus já não falavam mais hebraico. Então, para que continuassem mantendo sua religião, mesmo fora dos limites da Israel, foiram traduzidos para o grego os textos do Primeiro Testamento. Essa versão ficou conhecido como "dos setentas", alusão feita a um trabalho de tradução feito por 70 (ou pouco mais) de rabinos. Essa tradução foi a utilizada pelos apóstolos no Segunto Testamento. Tendo algumas imperfeições que chegaram, inclusive, a prejudicar o entendimento dos textos do Primeiro Testamento, originalmente em hebraico.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A indulgência da vida eterna

A morte sempre foi algo que me intrigou. Nunca gostei de pensar nela e nunca a desejei. Aliás, tenho uma frase que diz: morrer é lucro apenas para o apóstolo Paulo, eu quero continuar vivo.

Deixando a heresia de lado, na verdade, o que pretendo dizer é que não sei como é “do outro lado”. E sei que as promessas que existem, todas, ficam no obscuro da fé. Quer sejam essas as promessas da ciência ou da religião. Por mais que afirmem alguns que “retornaram à vida” depois de estarem "do outro lado", ainda assim permanecerá a fé no que é dito e não no que é comprovado. De fato: “a fé, não precisa de comprovação, do contrário, ela mesma já não se faz necessária”. Diria um sincero que crê.

Eu sou daqueles cuja fé não responde tudo. Morte, para mim, é a injustiça da vida. Como posso eu provar a vida, me apaixonar por ela, sentir o cheiro das flores, o gosto das frutas, o refrigério da água em um dia quente, o toque e abraço de um amor e de um amigo, me cercar de sonhos, sentir a alegria de concretizar uns e a frustração de ter que abandonar outros e quando menos espero, ser atacado por algo que me separa definitivamente dela, sem dó, sem pedir licença e sem ao menos me perguntar se desejo isso? Onde está a justiça no "sono eterno"?

Não, sinceramente a morte não me atrai. E fico contente em saber que não atraia nem mesmo ao filho de Deus: "Se possível passe de mim esse cálice". Relatam os evangelistas ser essa a oração na construção literária da certeza da morte. E o que mais me deixa surpreso é a própria bíblia dar a seguinte promessa, reafirmada pelo texto deutero-paulino: hora teu pai e tua mãe para que te vá bem e SE PROLONGUEM OS SEUS DIAS.

Longevidade, eis a benção dada por Deus. Alguém diria que em um período onde a vida após a morte não fazia parte do credo hebreu. Tudo bem, então, no momento em que os judeus não criam na ressurreição e nem no além, eles afirmam que benção é viver bem e muitos anos. O tempo passa e a vida já não se mostra tão favorável ao que respira. Então, os apocalípticos "inventam" a ressurreição dos mortos. Afirmando que, no fim, alguns despertarão para a vida eterna.

Vejamos... mais uma vez a morte é rejeitada. E agora como promessa de uma "nunca morte". A morte não é desejada pelos escritores e nem pelo mundo judaico. A bem da verdade é que a promessa acima, dada aos "filhos honrosos", não se cumpria. Por mais que homens e mulheres fossem fiéis a Javé, ainda assim, a vida podia ser triste, sofredora e má: opressores de todos os lados, liberdade cativa e miséria. Como dizia o profeta: “A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha. Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados, e não temos descanso. Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos fartarmos de pão”.

Sim, a vida perde seu sentido, então algo deve motivar a continuar, e os escritores apocalípticos resolvem esse problema com sua "invenção". Reencantam o mundo, dão esperança. E desde então se tem motivo para manter-se firme e fiel a Javé: o Dia do Senhor virá, trazendo vida eterna aos mortos. Trará a ressurreição.

O movimento de Jesus é filho dessa fé, que golpeia a falta de esperança com essa promessa. O apóstolo Paulo dedica boas linhas renovando a fé e a confiança na ressurreição dos mortos, em uma das cartas aos coríntios:
A ressurreição é para aqueles que reconhecem em Cristo o penhor da ressurreição e o primeiro de muitos. Assim como ele ressurgiu, outros ressurgirão - os que confiam nessa certeza apostólica.

Sim, mas quem afirma que ele ressurgiu? Mais uma vez somos desafiados a confiar na fé alheia e nela depositar nossa fé. Muito sábio foi um dos teólogos autores do evangelho de João que cria (ou relata) o encontro de Tomé e de Jesus: Bem-aventurado quem não viu e creu. Assim, se torna feliz aquele que, 100 anos depois do advento (mais ou menos a data da criação do evangelho de João), crê que o filho de Deus ressurgiu dos mortos em corpo.

Mas será que sempre terá que ser assim? Nossa fé depositada naquilo que nossos olhos não testemunharam. Alguns teólogos e biblistas famosos afirmam com toda a certeza que a ressurreição de Cristo foi ideológica. Que Cristo ressurgiu no coração dos apóstolos. Outra verdade que, dentre tantas, devemos acreditar, pq eles afirmam? Essa é a experiência deles e nós devemos crer no que dizem ou nos que vêem lá uma ressurreição histórica. Mas nossa opinião, nosso sentimento são colocados de lado? Somos herdeiros de mensagens. Apenas isso: herdeiros. Nada criamos, nada fazemos. E dizemos sim a tudo aquilo que é dito.

Falta de fé da minha parte? Não! Quem conseguir ler estas linhas até o fim, verá que encho de coragem e fé para reafirmar aquilo que os profetas afirmavam: Justiça!!!

Enquanto alimentamos a fé das pessoas de que existe um além túmulo, tiramos delas a responsabilidade de viver já! Enquanto consolamos com promessas que não podemos ter provas que se cumprirão, essas pessoas sofrem e morrem, com uma esperança vindoura. Mas não possuem forças suficientes para fazer dessa vida atual, presente divino, a verdadeira vida.

De que adianta enchermos o mundo de promessas do além, quando, na verdade, ninguém sabe como será? Onde fica a vida humana, terrena? Quem justifica aquelas pessoas que nem se quer, na vida vindoura crêem e a vida atual é apenas sofrimento? Que esperança para ontem temos a dar àquelas que só gostariam de um prato de comida? Vamos continuar a dizer como os vendedores de indulgências do passado, que falavam para a mãe de uma menina paralítica: “querida mãe, no céu, sua filhinha aleijada poderá correr para os braços do Senhor, compre a indulgência e garanta essa felicidade à sua filha”.

Não garantimos nada a ninguém enquanto não aprendermos a lutarmos pela vida humana. Enquanto essa mesma vida é ceifada e relativizada nas ruas pelas drogas, pelas armas de fogo, pelos estupros, pelas torturas, ameaças, fome e miséria, nós aqui dizemos: apesar de tudo isso, amanhã, no céu, tudo será bom!

Isso não é cristianismo! Isso não tem nada a ver com o seguimento de Jesus. Que, cria sim na vida eterna, mas, lutava pela concretização desta vida já e não no além. Pois seu discurso mesmo não falava nada de além, falava de "venha o teu reino" e não de "vamos ao teu reino". É o reino aqui e já que precisamos e para isso, também, precisamos nos engajar. Levantar as mangas das nossas roupas e trabalhar de forma verdadeira. Nao com programações de cumprimento de agendas. Mas de vida de luta e fazer com que essa vida, dádiva de Deus, não seja apenas uma passagem dolorosa para a vida além, mas o início da vida sem fim.

Nossa experiência não deve ser pautada na esperança dos outros, mas na nossa. E a esperança nossa, deve ser para uma utopia realizável enquanto o oxigênio terreno encher os pulmões dessas pessoas. E não para quando esse mesmo lhes faltar, pois assim, não voltarão para reclamar uma promessa não cumprida. Esperar e lutar por hoje nos coloca numa posição de compromisso que, muitas vezes, não temos condições de arcar.

Mas esse é o desafio do reino de Deus: viver já parte daquilo que nos foi prometido e promover, agora, a vida que, pela fé, aguardamos.

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago por Leonardo Boff

Saramago se considerava ateu, mas de um ateísmo muito particular. Entendia o "fator Deus" como veiculado pelas religiões e pelas Igrejas como forma de alienação das pessoas. Seu ateísmo era ético, negava aquele "Deus" que não produzia vida e não anunciava a libertação dos oprimidos.

Essa compreensão pude discuti-la pessoalmente num encontro em 2001, na Suécia. Ele viera a Estocolmo para um encontro de todos os portadores do Nobel. Eu lá estava, pois fora indicado para o prêmio The Right Livelihood Award. Convidou a mim e à minha companheira Márcia para um jantar. Foi um festim de espiritualidade mais do que de literatura. Levei-lhe um livro de contos indígenas, O Casamento do Céu com a Terra, e para a sua esposa Pilar um outro, Espiritualidade: Caminho de Realização. Ele logo foi dizendo: "quero o livro de espiritualidade, pois pretendo me aprofundar neste tema".

Falamos longamente sobre religião, Deus e espiritualidade. Negava a religião, mas não a espiritualidade como sentimento do mistério do mundo, da profundidade humana e do amor aos oprimidos. Mostrou sua admiração pela Teologia da Libertação por fazer do "fator Deus" uma força de superação da miséria humana. Fomos madrugada adentro, já em seu quarto de hotel, como se fôssemos velhos amigos.

O e-mail a seguir revela a experiência espiritual que juntos vivenciamos:
"Querido Leonardo, querida Márcia: para nós, o grande acontecimento em Estocolmo foi ter-vos conhecido. Não exageramos. (...) O tempo que estivemos juntos foi um banho para o espírito. Quem dera que em breve surja outra ocasião. Os anos são todos terríveis para aqueles para quem a vida é terrível. Às vezes as coisas correm melhor no mundo e isso leva-nos a pensar que estamos em paz, mas o mesmo não poderiam dizer os milhões de seres humanos cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E se de alguma maneira chegam a manifestar-se, os modos de as silenciar, não faltam. O vosso trabalho cria e reforça consciências livres ou em processo de libertação. (...)".

Ganhamos um amigo e a fé me diz que ele agora mergulhou naquele Mistério de amor que sempre buscou.

LEONARDO BOFF É TEÓLOGO E ESCRITOR

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Religião Artista (O hupokritēs)

O texto de Mateus preserva uma tradição que demonstra a "luta" que comunidade inicial teve com os Fariseus (partido religioso que adotava uma postura literal das Escrituras) - Mt 23:
13 Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.
14 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.
15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.
16 Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor.

Temos, comumente, a idéia de que Jesus está chamando os fariseus de hipócritas, por causa da tradução. De fato, o sentido é esse, mas a postura de Jesus é tanto agressiva quanto sarcástica. Fatalmente, depois desses textos, é bem comum quando se deseja chamar alguém de hipócrita, chama-l0 de "fariseu".

O fariseu, contudo, nada tinha desse sentido. Eram os "separados", os "consagrados". Aqueles que gozavam de privilégio diante do povo e que, durante muito tempo, foi quem sustentou a fé judaica no pós 70 dC, com a destruição de Jerusalém e do templo pelo, então, general romano Tito.

Mas voltando a Jesus, a palavra traduzida como "hipócritas", na realidade é ὑποκριτής (hypokritēs). Cuja tradução melhor é: ator, artista, aquele que interpreta. Era o nome usado para identificar os que vestiam máscaras e atuavam no teatro.

Jesus lança mão dessa nomenclatura para denunciar a religião vivida pelos fariseus de seu tempo. Eles encenavam sua fé, fingiam viver uma devoção que não tinham. Essa era a denúncia de Jesus: vocês são artistas, que comovem a todos, mas que não estão comovidos e não estão vivendo de verdade aquilo com que comovem.

Quando estamos vendo um filme ou peça sentimos a tensão, o medo, o desespero, torcemos para que um morra, para que outro sobreviva, choramos com as tristezas, etc. E na verdade, ninguém morreu, ninguém venceu e ninguém sentiu medo. Tudo truque da boa interpretação e do fundo musical.

Essa genealidade humana, que ensina, entrete ou emociona é usada por Jesus para dizer que esses mesmos efeitos os fariseus geravam. Conseguiam o respeito, admiração e temor das pessoas, sem contudo sentir de fato aquilo que usavam para conseguir tais méritos diante da comunidade judaica.

E em nosso dias? Quantos hypokritēs temos em nosso meio? Pessoas que chegam à midia como pastores mais que são verdadeiros lobos, que sugam dinheiro, moral, esperança e a felicidade do povo em nome de uma fé que nao possuem. Colocam peso nas costas do povo. Pesso esse que nao carregam e se misturam no meio das comunidades de fé. Isso, digo, nao apenas na religião protestantes (da qual venho) mas em todas as religiões. E os homens de boa vontade, se calam enquanto esses, que nada são, se fazem e, artisticamente, se tornam.

Cabe a nós a mesma posição de Jesus: denunciar para que a peça acabe e para que a realidade venha à tona. Pois, depois do espetáculo, tudo volta ao normal.

Ponhamos fim nos espetáculos que separam as pessoas de Deus e do próximo. Ou, ponhamos fim ao nosso espetáculo que engana e explora.