sábado, 20 de março de 2010

O Deus Mistério em Gilberto Gil

A canção que servirá para a nossa reflexão é “Se eu quiser falar com Deus”. Gilberto Gil compôs essa canção em 1980, a pedido de Roberto Carlos. Após a entrega da canção, Roberto não concordou com a forma a letra toda e preferiu não cantar. De fato a canção desafia o fundamentalismo ortodoxo cristão. Já que, principalmente no fim, ela se aproxima bastante com a tradição Budista.

Contudo, existe um forte paralelo nessa canção, também, com o cristianismo. Aliás, como Teólogo, ouso afirmar que essa canção é a canção do “Deus desconhecido”, sem contar, entretanto, que, o próprio Gil, em entrevista, afirmou isso. A canção atravessa a ordem de uma liturgia da entrada na presença de Deus, do encon­tro com ele e da caminhada na sua presença.

Roberto Carlos gravou, nos anos 90, uma resposta a essa canção. A música, composta por ele e Erasmo, tem como título “Quando eu quero falar com Deus”. Uma canção também bonita, mas que, a meu ver, parte daquela certeza ortodoxa que estamos acostumados e catequizados. Que não vejo nada contra, mas que, infelizmente, não é uma regra a todos os que vivenciam a oração ou a vida com Deus. Falo, nesse ponto, da tradição bíblica: Davi, Jeremias, Jó, Habacuque, Oséias, Daniel, Paulo, João e o próprio Cristo que, por diversas vezes, não viveram o que a letra do Roberto disse, embora também tenham vivido em outros momentos.

Não pretendo aqui comparar as duas letras, porque, de certa forma, concordo com as duas. Mas vou explorar a letra de Gil e fazer comentários sobre ela. A escolhi por ser “nova”, tem cheirinho de coisa fresca de diferença e de aprendizado, no sentido de desafio novo à religião cristã do século XXI. No momento onde certezas e previsibilidades fazem parte do convívio cristão comunitário, acredito que vale à pena mergulhar no “Deus desconhecido”, que, em nossa certeza-incerta, ousamos dizer que conhecer.

Não estou aqui fazendo apologia ao agnosticismo[1] e nem ao gnosticismo[2]. Prefiro o caminho de grandes autores que deixo a baixo antes de introduzir uma reflexão sobre a bela canção:

Platão: "É muito ousado querer negar que Deus é. Como também é muito impertinente querer adivinhar o que Deus é".

Santo Agostinho: "Podemos dizer que Deus é, e dizer o que Deus não é. Mas dizer o que Deus é supera toda capacidade humana"

Nicolás de Cusa: "Deus é uno e trino como essência. Como criador não é nem uno nem trino. Deus é infinito, e nada que a palavra humana possa expressar.

Kant: "O conceito de Deus é o mais inevitável para a razão humana. E também impossível de compreender pela razão humana”.

Henri Poincaré: "Por muito longe que a ciência avance nas suas pesquisas, perceberá que sempre há um limite nas suas conquistas. Ao longo das suas fronteiras encontram o Mistério. E por mais que estas fronteiras se dilatem, jamais resolverão o Mistério".

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Na estrofe acima Gilberto Gil expõe sua crença de que para se achegar diante de Deus ele precisa estar sozinho, em um momento íntimo. Ao mesmo tempo precisa ficar bem à vontade. Não permitir que nada lhe prenda: nenhuma formalidade e nenhuma regra. Ape­nas um momento de introspecção. De olhar para dentro de si. Abrir mão das dúvidas, dos medos, das vontades, não lan­çando expectativas para o momento. Apenas vivenciando-o, é a chegada na presença divina, o momento de sondar e convidar a ser sondado o coração.

Também acredita que o ideal não é marcar tempo e nem combinar um encontro, com dia e horário. Apenas se entregar ao momento “plenamente nu”, na Sua presença. Não pen­sar em ocultar nada de si e nem de Deus. Olhar profundamente para dentro de si e expor a Ele o que se consegue ver com esse olhar.

(Sl 51: 1-3,6,16)


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Nesta segunda estrofe, o homem já passou pelo primeiro momento. E agora se depara consigo. Senti profunda dor ao reparar o quanto de sujo, o quanto de mal se é. Não con­segue mais ousar pedir nada a Deus. Como Pedro, após a pesca Maravilhosa: Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador. Simplesmente abre mão de tudo porque não apenas crê que não mereça, mas sente-se imerecedor. Olha pra Deus e vê o quanto sua sujeira o torna imóvel diante d'Ele. Ou, quem sabe, nem seja sujeira de fato. Mas simplesmente se vê bem pequeno diante da grandeza que é Deus.

Mas algo o leva a ousar ser feliz, mesmo nesse momento. Porque, apesar de tudo isso, de toda sua pequenez e/ou podridão, Deus o aceita.

(Sl 51:3-5,17)


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Depois do triste, porém, plenamente didático encontro consigo. De se desmascarar diante de Deus e diante de si, e mesmo as­sim ser convidado a caminhar com ele, o ser humano precisa decidir. Decidir se aventu­rar nessa intimidade, nessa caminhada lado a lado com Deus. É a fé. A resposta do homem ao chamado Divino. Onde não se sabe aonde vai. Onde não se tem mais certeza de nada, apenas a confiança de que é Deus quem guia. E, embora, durante o percurso, se lance expectativas do que pode acontecer, o Grande Mistério, que é Deus, impede que a imaginação seja certeza. O importante é caminhar decidido, sem olhar pra trás, sem lamentar, confiando apenas em Deus. É a certeza do salto no escuro, que é a fé.

(João 3:8; Rm 11:33-35;)

Fiz questão de fazer paralelos com textos bíblicos para mostrar que, com algumas tradições bíblicas, o texto tem forte coerência. Óbvio que existem outros textos e outras reflexões que conduzirão para um caminho mais parecido com a canção de Roberto e Erasmo. O que denota a grande diversidade da crença bíblica. Contudo, já que existe tão diversidade, então, creio eu, que o melhor caminho seja o Desconhecido Revelado. Que se encontra na subjetividade do ser e do Ser. O Deus único que podemos dizer o que é, mas que não podemos dizer quem é. Que, segundo Hebreus, plenamente se revelou em Jesus, mas o mesmo Cristo, tão perto de nós, tão humano e tão divino, é, hoje, nosso maior desafio de compreensão.

Deus é isso pra mim: O Desconhecido-Revelado e o Revelado-Desconhecido. Aquele que se revela re-velando. Caminhemos por essa estrada (Jesus), que no final, dará em Deus. Que, contudo, é “nada, nada, nada, nada do que eu pensava”.


[1]Segundo o pensamento agnóstico – presente em muitos textos bíblicos – Deus não pode ser conhecido e nem revelado ao ser humano.

[2]O movimento gnóstico é antigo. João, no seu evangelho, é o que mais combateu o gnosticismo, ainda que exista reflexões gnósticas em seus escritos. Para alguns ele lança mão de argumentos gnósticos para combater o gnosticismo. Existe, ainda assim, algumas camadas nos textos que apontam para uma tradição gnóstica. Diferente do agnosticismo, os gnósticos se afirmavam como os “iluminados”, aqueles que conhecem os mistérios divinos porque o próprio Deus lhes revelou. São os conhecedores (gnoses = conhecimento).

2 comentários:

  1. guardadas algumas diferenças interpretativas,pois afinal uma canção um poema,dificilmente sao interpretados da mesma forma,fascinante interpretação Silvio Cezar.A propósito que livros de introdução a teologia vc recomenda?

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    1. Oi, Kleber. Q bom q gostou da reflexão. Sobre sua pergunta, eu respondi pelo e-mail que me enviou a uns dias atrás.
      Um forte abraço,
      Silvio

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