sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Apocalipse (a loucura de ter esperança)

O movimento apocalíptico teve seu início por volta do século II antes da nossa era. Esse movimentro produziu muitos livros, dos quais, uma grande parte, ainda conhecemos. A bíblia registrou a presença de um grande livro dessa época. Falo de Daniel.

Para que possamos compreender esse movimento devemos imaginar, para algo bem mais próximo de nós, nossa época da ditadura. Onde, qualquer pensamento contrário ao governo instituído seria considerado crime e deveria ser suprimido com toda a força.

A linhas da nossa histórias são manchadas com muitas lágrimas, dores e sangues durante esse período. Isso porque, em algum momento, homens e mulheres ousaram acreditar no amanhã. Como bem diz Chico Buarque, sobre essa esperança: Apesar de você amanhã há de ser outro dia.

Da mesma forma esses escritores esperavam e criam no amanhã. Voltaram do exílio, mesmo nao estando livres, conseguiram crer na presença de Javé no retorno do exílio, mas foram passando de mãos de opressores para mão de opressores, chegando até a tutela dos Romanos. E, sem forças, o povo sede a descrença. Seus profetas  já não inspiram confiança, javé parece ter abandonado seu povo. No meio de tanta dor, de tanta lágrimas, alguém ousou dizer: amanhã há de ser outro dia.

Com suas linhas cheias de símbolos, sinais e mistérios, os autores, que se protegiam através de pseudonimos, enviam mensagens cifradas para o povo. Tinham o objetivo de dar a eles a crença no amanhã, no livramento, na paz, reencataram a vida daqueles que não viam mais motivo em crer em nada de bom.

Com o mesmo intuito, com a mesma perseverança, com a mesma fé teimosa, o autor do apocalipse escreve em seu livro sobre a esperança. Sobre a promessa de paz para um pequeno povo, chamado de cristãos, que temiam bastante o levante de um tal de Domiciano. Já tinham sofrido de forma imensurável nas mãos de um Nero César: Perseguidor implacável, falsa testemunha de acusação dos cristãos e um líder capaz de fazer atrocidades a um povo que era apenas diferente.

Com o medo do levante desse Domiciano, que mais parecia a reencarnação de Nero, a fé perde a força, a esperança e a luta por um mundo melhor é simplesmente abandonada. Então o autor detecta isso, e traz a mensagem da renovação da esperança e ensina os cristãos sem esperança, a, de forma teimosa, continuarem testemunhando e lutando por um mundo melhor.

O autor não é alheio ao sofrimento e nem está em um lugar seguro, ele mesmo se identifica como alguém que entende e sofreu na pele as consequências de ousar crer em algo melhor (pseudomimo): "Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo"(ap 1,9)

Suas palavras ganham tanta força que conseguem encontrar condições de consolar até os que foram mortos por se mantiverem fiéis ao compromisso do Reino de Deus: "E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram."(ap 6.11)

O autor é tão próximo do sofrimento do seu povo que diz, inclusive, que o próprio Cristo, Cordeiro de Deus, sofreu com essa perseguição: "E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto".

Cristo é o primeiro dos mártires da nova aliança. Logo, entende na pele a dor de cada um dos seus seguidores, e, justamente e somente assim, pode se identificar e ser solidário àqueles que, como ele, sofrem.

É por isso mesmo que o autor ousa dizer como será o fim da históra: "E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.
E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas."(ap 21,3-4)

A apocalíptica, antes de produzir livros que dão medo ou que trazem mensagens intocáveis, seu objetivo é consolar, animar e trazer a esperança à vida. Suas linhas trazem mensagens de luta e de fé. E não de abatimento ou de apatia, como que aguardando algo alheio ao desejo humano.

Da mesma forma utopias se levantaram em todo o mundo. Hoje, acredito eu, as pessoas deixaram de sonhar com essas coisas: não valorizam sua terra, nao valorizam seu povo, sua cultura, sua família, suas raízes, sua história, seu voto...

Mas eu vejo que há "autores apocalípticos" ainda hoje. Homens que lutam, que apontam e que desejam algo para além da realidade atual. Questiono bastante a mensagem que a igreja traz para o mundo: uma mensagem de ameaça, onde o Cristo que se identifica com o sofrimento do ser humano, presente no apocalipse, é substituído pelo Cristo que ameaça com o fogo do inferno àqueles que nã seguem a doutrina dessa ou daquela religião.

A mensagem de consolo, que renova a fé, é levianamente trocada por uma mensagem que vê dentro das catástrofes climáticas um cumprimento do desígnio sádico de um Deus "anti-Cristo", cultuado nas igrejas.

Eu prefiro o Deus apocalíptico, que não é o Deus da catástrofe, como está hj no imaginário popular devido o peso da palavra "apocalipse", que, originalmente, se trata de "revelação" e nao "destruição", como desejam muitas mentes ansiosas por vingança, por sangue e por um egradecimento de um Deus do seu próprio ventre. O que é bem contráditório com o humilde Cordeiro que foi ferido e morto.

Deixo uma mensagem, não apocalíptica, mas estacológica sim, presente em uma canção que mostra o desejo humano por isso que os autores apocalípticos lutaram e idealizaram:


Há um vilarejo ali onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa,
Vê o horizonte deitar no chão pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe,
Paraiso se mudou para lá

Por cima das casas, cal,
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando os caminhos,
Os vestidos, os destinos e essa canção

Tem um verdadeiro amor Para quando você for

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Três Frases, três visões que se unem (homenagem à turma)

Três frases: "quem é Deus?", "O mundo está em nós!" e "Se esperarem a mudança do mundo, se frustrarão". O mais incrível é que, ditas dessa forma, parecem não fazer parte de um mesmo assunto. Mas foram proferidas por três alunos em debate: Luiz Carlos Júnior, Valéria Macedo e Noemi Gomes, respectivamente.

Suas frases, ditas em calorosa "discussão", me chamaram muita atenção. Vou ordenar de acordo com o interesse da minha reflexão, óbvio que, com isso, tirarei do contexto algumas dessas frases.

Quem é Deus?

Sim... eu me pergunto, quem é Deus pra mim? quem é Deus para o outro? Certa vez perguntaram a Rubem Alves se ele acreditava em Deus, essa pergunta lhe rendeu um livro. Sua resposta foi simples: em qual Deus?

As pessoas criam seus deuses. Essa é a verdade. O Deus que servimos é exatamente o que somos, só que com poderes. Tudo aquilo que desejávamos ser, todas os limites que desejávamos transpor, transferimos para o nosso ídolo pessoal, que chamamos de "Deus".

Com isso eu ouso perguntar: quem é Deus? Quem pode responder essa pergunta de forma segura? Quem pode dizer que Deus é Pai, sem com isso lançar sua necessidade de ter uma boa figura de um Pai? Quem pode chamá-lo de Onipotente, sem estar dando a esse "deus" o seu próprio desejo por onipotência.

Quem é Deus? Precisamos de uma resposta que esteja para além das palavras humanas. Precisamos de uma resposta que sobrepuja todo o nosso desejo de ser divino.

A tradição das Escrituras (humana) fala de uma auto-revelação de Deus. Explora a idéia de que Deus se revela pelas coisas que criou. Com isso, quer dizer, que podemos responder um pouco dessa pergunta olhando tudo o que foi criado. E deve ser algo mais ou menos isso mesmo, pois há imagens indizíveis! Existem paisagens, beleza, harmonia e inteligência em toda a natureza.

Certa vez alguém disse: tudo o que falarmos de Deus não passará de uma imagem opaca do seu verdadeiro Eu.

Quem é Deus? Não podemos responder essa pergunta sem sermos partidários a nossa religião, a nosso pensar, enfim, a nós mesmos. Seria possível responder essa pergunta de forma livre? Seria possível dizer quem é Deus a partir dele mesmo? Acredito que não. E acredito que deva ser assim mesmo. Que justamente por não conseguirmos, conseguimos. Justamente por ser tão difícil, é tão fácil. E essa beleza misteriosa que intitulamos como Deus, é justamente o que o torna o que ele é: incógnita perfeita, mistério perfeito, amor imensurável, ser incapaz de compreensão, que não cabe em nada, mas preenche tudo.

Considerando que cada um traz em si uma resposta diferente para essa pergunta. Acredito que o ideal seja não procurar responder a pergunta, mas mergulhar-se no mistério que é esse Ser que não cabe em palavras, mas que deposita, dentro de nós, uma parcela de si mesmo.

Nessa perspectiva aparecerá a segunda frase:

O mundo está dentro de nós

A profundidade dessa frase me fez viajar. Num momento onde as pessoas acabam com a natureza e diminuem a atuacao dessa parcela divina, falada no texto anterior, essa frase me faz pensar como seriam as coisas se todos pensassem assim...

Vejo um discurso nas igrejas que afastam o mundo de nós. Não apenas o mundo como sistema (como no debate o Junior tentou expor), mas afastam o mundo mesmo. Essa criacao rica que devíamos chamar de nossa casa. O Leonardo Boff certa vez disse o seguinte que a palavra "humano" vem de "humus", que, assim, o ser humano é a própria terra que ganha consciencia, inteligência e se relaciona.

Fazemos parte dessa terra e ela faz parte de nós. Tal como temos em nós a parcela divina, e como Deus se revela em sua criacao, somos, também, parte dessa criação pela qual Deus se faz presente.

É um círculo onde tudo inicia e finaliza em Deus. Mas nao finaliza no sentido de fim, mas no sentido de finalidade! Deus é o princípio e o fim. Aquele pelo qual o mundo existe e a quem o mundo se destina.

Mundo esse, que temos dentro de nós. Que somos parte. Somos, portanto, originados de Deus, originados da Terra, destinados ao mundo, destinados a Deus.

Contudo, ao olhar para esse mundo, e ver o quanto ele sofre com o sistema. Não temos outra frase, se nao: 

Se esperarem a mudança do mundo, se frustrarão

De fato... não há esperança para o mundo. Isso é uma afirmação tão fatalista quanto real. Mas, diante dessa afirmação... ao passarmos por uma frase quem aponta para um Deus que é imensurável e que, ainda assim, está dentro de cada um de nós; Ao passarmos por outra que diz que o mundo, essa natureza, divina e material, está também dentro de cada um de nós, surge um problema: se não há  esperança para o mundo... não há esperança para o homem, nem esperança para Deus.

O mundo está em Deus, Deus está no mundo. O homem está em Deus (Jesus é homem!), Deus está no homem. O mundo está no homem, o homem está no mundo. Existe uma forte ligação entre Deus e sua criação, sua criação com ela mesma e ela com Deus. Se não há esperança para algum membro dessa ligação, então não há esperança para o corpo inteiro. Pois essa ligação estaria, diretamente, afetada.

Por isso triste, por isso deprimente. Por isso, perturbardora é essa frase. Mas eu percebo nela, algo que, talvez, a Noemi não tenha reparado: se ESPERARMOS a mudança do mundo.

Se esperarmos... já dizia o velho poeta: vem vamos embora que esperar não é fazer, quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Somos convidados por Deus a nos "por a caminho". A trilharmos um rumo. E não a nos mantermos nele. Não somos chamados a sermos expectadores da vida, porém, atores.

Nao esperemos a mudança do mundo. Mudemos nós mesmos. Mudemos nosso foco. Deixemos de nos perguntar "quem é Deus?" e passemos a viver esse "Deus desconhecido, que se faz conhecer". Olhemos para dentro de nós e encontremos a identificação com a natureza, com o mundo e com o próprio Deus. E, por fim, deixemos de esperar algo. Nao somos passivos no mundo, mas agentes. Se deixarmos de lutar, se deixarmos de fazer valer a pena, se deixarmos de ser "homens de fé, homens de coração de criança", então, ai sim... para o homem, para o mundo, para a criação e para Deus, não haverá esperança...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O lindo lago de Deus (Teologia e MPB)

Lindo Lago do amor
(Gonzaguinha)
"E bem que viu o bem-te-vi
A sabiá sabia já
A lua só olhou pro sol
A chuva abençoou
O vento diz "ele é feliz"
A águia quis saber
Por quê, por que, por qual será
O sapo entregou
Ele tomou um banho d'água fresca no lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água no lindo lago do amor"

Sim... não há dúvida! Eis mais um "hino ao amor" que Gonzaguinha nos presenteia, como todo o seu talento. Mais uma obra-prima que, certamente, poderia ser chamada de Hino. Não apenas no sentido religioso do termo. Mas no sentido da vida! Em respeito à vida, em respeito ao amor.

Gonzaguinha começa a música sem nos explicar do que se trata. Aparentemente a natureza fica intrigada diante de um mistério. Inclusive, "fofocas rolam" tentando descobrir do que se trata.  A intenção é envolver-nos na música. Curiosos, ficaríamos atento a cada diálogo da crição, procurando, com isso, identificar do que a natureza está falando. Até que, por fim, uma dica : O vento diz "ele é feliz". Embora ainda não fique claro, sabemos, contudo, que uma pessoa é o assunto da conversa. E, finalmente, o sapo nos explica e "entrega": Ele tomou um banho d'água fresca no lindo lago do amor . Não tinha acontecido nada demais. Fora o o fato de que - enfim - o homem decidira se banhar no "lindo lago do amor".

Acredito eu que essa canção, de letra e ritmo envolventes, se consciente ou não, traz uma forte mensagem escatológica. O momento onde tudo, mesmo a natureza, ficará perplexo diante do ser humamo. O momento em que o amor passará a viver no coração do homem, produzindo paz, alegria e admiração por todo lugar.

Este evento, o Cristianismo chama de segundo advento, judeus de vinda do Messias, budismo de Nirvana. Gonzaguinha, simplesmente, define como  mergulho no "lindo lago do amor".

Há um tom de pureza e de mensagem real nisso quando, como cristãos, olhamos para o círculo do apóstolo Paulo (Rm 8):
"Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.

Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou,
Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.

E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo"
.

(Cl 3)
"E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição".

A todo momento somos convidados a mergulhar no amor. Sempre recebemos esse convite do próprio amor. Que, segundo a tradição cristã, é o Deus mesmo (I João 4). Gonzaguinha apenas nos mostra o quão maravilhoso será o momento em que decidirmos aceitar tal convite. As tradições judaica e cristãs também chamam esse dia de: Dia de Javé (dia do Senhor). Quando ELE virá julgar o mundo. E nesse dia até a criação celebrará (Sl 96):

"Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra; brame o mar e a sua plenitude.

Alegre-se o campo com tudo o que há nele; então se regozijarão todas as árvores do bosque,

Ante a face do SENHOR, porque vem, porque vem a julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos com a sua verdade
".

Para que tal aconteça, não depende de Deus, nem da própria natureza, mas de cada um de nós. Aceitemos o convite e mergulhemos nesse "Lindo lago do amor", que é o próprio Deus.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Deus que não cabe em si (Por um Deus melhor...)

Por ser exato, o amor não cabe em si
Por ser encantado, o amor revela-se
Por ser amor, invade e fim

Eu preciso me recompor diante de palavras tão profundas. Costumo, de forma constante, fazer a confissão joanina: Deus é amor. Então, vamos substituir:

Por ser exato, Deus não cabe em si
Por ser encantado, Deus revela-se
Por ser Deus, invade e fim.

Não vejo Deus como um ser narcisista, que se ama, se completa e faz tudo para a sua glória. Que exige e busca louvores dos homens. Não encontro e não admito a imagem de um Deus que sabe quem é, mas deseja que o reconheçamos. Não... rejeito isso...

Fico tentando entender o que de fato passou na cabeça de Djavan ao dizer que o amor não cabe em si. E para conseguir entender isso vejo Deus... um Deus que não cabe dentro de seu eu; não é suficientemente forte para se segurar; não consegue se conter. Deus precisa sair de si, precisa se esvaziar, precisa ir de encontro a outro. Imagino Deus como aquele que não tem condições de se bastar.

E nessa saída de si, cria todas as coisas. O Deus que não criou as coisas para a sua glória – como diz algumas tradições das Escrituras – mas um Deus que não se conteve, não conseguiu se segurar, não coube dentro de sua própria natureza e por conta disso, cria a coisas. Como uma explosão de amor e de necessidade de expandir naquilo q foi criado.

Eu vejo um outro Deus... Vejo o Deus que é grande sim, mas de tão grande não precisa se dividir, precisa ir de encontro a alguém. Precisa se colocar em tudo: na natureza e no ser humano. O Deus que não cabe dentro de si, é aquele que se lança no outro e precisa estar no outro, quer estar no outro pq não tem condições de viver pra si. O Deus que preenche todas as coisas, pq é maior do que si próprio.

Um Deus que é encantado – que tem encanto, que fascina – e que portanto, se revela. Como não achar fascinante o pôr-do-sol? Justamente por ser fascinante, se revela. Não se esconde. De forma bem simples: aquilo que é belo se mostra. As coisas bonitas tendem a serem mostradas. Como diz Jesus: aquele que é nascido da luz, se achega para a luz, para que sejam reveladas suas obras, pois são feitas em Deus. Aquilo que é bom, bonito e encantado não consegue se ocultar. E assim, Deus, se revela em Jesus, se revela na criação, se revela na vida que nasce, se revela na dor consolada. Por ser encantado, fascinante, belo e lindo: Deus se revela.

Revela vem do latim: revellare, que quer dizer, literalmente: tirar o véu. Deus, não se deixa oculto atrás do véu. Deus tira aquilo que oculta-o e se mostra. Por ser encantado, por ser mais belo que o véu, por ser amor: não se esconde. O amor não consegue se ocultar, ele, sempre, sempre se mostra. Assim é Deus: não consegue se guardar-se, embora não consigamos compreende-lo plenamente, ainda assim, plenamente e misteriosamente, ele se revela em Jesus, segundo a carta aos Hebreus.

E por ser amor, Deus invade e fim...

O amor não pede licença pra chegar. Quando menos esperamos, amamos as pessoas. E de forma bem sutil, esse mesmo amor invade e não conseguimos segura-lo, quando ele resolve fazer isso. Assim é Deus... Preenche todas as coisas. Todas as coisas estão em Deus e Deus está em todas as coisas. Não é panteísmo, é pananteismo (pan= todo; en=em; theos=Deus). Esse é o amor... Esse é Deus... E esse fim, na realidade não é fim, é apenas o começo. Pois quando o amor penetra o coração ocorre o fim de sua ausência e o início sem fim de sua presença. O começo do amor, a inauguração do governo do amor e o início da vida em amor.

Por ser exato, o Deus de Jesus, não cabe em si, se revela, preenche tudo e fim.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre a Criação (Uma pequena análise sobre Gn 1)

Alvo de muitos debates e contradições, o Livro do Gênesis – Bereshit, em hebraico – é visto como o livro das origens: origem da criação, origem do desvio da humanidade, origem do povo da bíblia e etc.

O primeiro capítulo da bíblia traz uma mensagem que, por vezes, é posta de lado pelos defensores do evolucionismo, do criacionismo e do criacionismo-evolutivo. Longe de ser um texto que narra “como as coisas foram criadas”, guarda, na realidade, mensagens tão profundas que colocam de lado esses debates sem fim. Para isso, como já vimos ser importante em qualquer texto bíblico, cabe descobrir as situações sociais dos destinatários e dos autores do texto.

Partiremos desse ponto, veremos as situações importantes para o texto e, por fim, freqüentaremos as “reuniões” em que o texto era lido, para, assim, “ouvirmos” a mensagem de esperança, desafio e fé guardada nessas primeiras linhas da bíblia.

O reino de Judá havia sido massacrado pelo exército babilônico. Uma boa parte de sua população fora levada cativa para as terras da Babilônia (2 Reis 25); Estão sem rei (o ungido da linhagem eterna de Davi); sem templo (o lugar que Deus escolheu para invocar seu nome); sem terra (o lugar prometido por Deus para o seu povo). Os três pilares da fé judaita foram destruídos.

Misturados entre o povo do império, sem forças, são animados pelo próprio Jeremias a, enquanto não voltarem para casa, lutarem pelo bem da cidade do cativeiro e a viverem bem lá (Jeremias 29).

A Babilônia, como era comum na época, possuía deuses que justificavam, dentre outras coisas, sua existência, seu poder e sua situação econômica, social, cultural e, claro, religiosa. O panteão babilônico, cercado de deuses, servia, dentre outras coisas, como motivo para aumentar a exploração e para diminuir a cultura e a religião dos povos cativos. Seu deus supremo, Marduk, era adorado na figura do Sol. A Lua era adorada na personificação de Sin.

Uma forma de escravizar, por exemplo, estava na exploração dos cativos que só poderiam descansar em ciclos lunares de 15 em 15 dias, por conta das festas aos deuses. Momento em que a festa ao deus babilônico seria celebrada. Uma das principais era a festa do ano novo. Onde o hino da criação era entoado a Marduk.

Segundo a crença babilônica tudo havia sido criado durante uma guerra entre os deuses Marduk e Tiamat. Marduk foi escolhido por alguns deuses como chefe e líder da guerra contra Tiamat, a mãe de todos os deuses. Marduk, ao vencer a guerra, criou os céus e a divisão da terra e das águas.

Os mestres judeus viram nisso uma certa ameaça a crença em Javé e um forma de exploração. Precisavam, então, oferecer resistência cultural e religiosa. É aí que re-criam o hino da criação à sua maneira. Que, antes de explicar como Javé criou todas as coisas, procura apresentar quem é o Deus dos judeus; desmistificar e desmascarar os deuses babilônicos; e oferecer uma resistência à exploração do trabalho judeu.

Podemos reparar que o texto bíblico estudado trata-se de um hino, ou poema, pela sua forma:


  • Existe um refrão (E viu Deus que era bom); 
  • Há frases solenes que se repetem: “Deus disse”, “e assim se fez”, “houve uma tarde e uma manhã”;


A forma de repetição nos ajuda a ver que esse poema – ou hino – era usado na liturgia. Podemos até imaginar o “líder da leitura” falando: “Deus disse:...” E o povo, no fim da estrofe, respondendo: “E viu Deus que era bom. Houve tarde e manhã...”.

Vamos, agora, iniciar nossa análise do texto bíblico e comparar com algumas similaridades ou antagonismos em relação ao hino babilônico.

Gn 1

1.      No princípio criou Deus os céus e a terra.
2.      E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Trecho do hino babilônico:

Quando o céu acima não havia sido nomeado,
Nem abaixo era o mundo chamado por nome,
O Apsu primevo, o progenitor,
E Tiamat - aquela que gerou a todos eles,
Estavam misturando suas águas,

No texto bíblico, no princípio de tudo, não estava Tiamat – as águas salgadas – e nem Apsu,  esposo de Tiamat – águas doces. Mas estava Elohim, o Deus judeu. E ele mesmo criou os céus e a terra. Assim como no hino da criação babilônico, Tiamat, que representa o Caos, é eliminada por Marduk. No hino judeu o caos (terra sem forma e vazia e as águas sendo levadas pelo vento) é organizado pela palavra criadora de Elohim. As águas até estão presentes, mas é o “sopro de Deus” (ruah) que paira sobre elas.

3.      E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
4.      E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
5.      E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

Marduk é o Sol, e, portanto aquele que traz a Luz. Sin é quem governa a noite. Contudo, segundo o poema judeu, Deus cria o dia e a noite independente dos astros. É uma forma de colocar em segundo plano aquilo que exalta a divindade: a luz não vem de Marduk (do sol), e nem a luz da noite vem de Sin (da lua). Elohim criou o dia e a noite independente desses deuses. Mesmo eles não existindo, os dias e as noites existiriam - não há lógica, portanto estamos dentro do discurso mitológico e não do científico (lógico).

6.      E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.
7.      E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.
8.      E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
9.      E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi.
10.  E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom.

Trecho do hino babilônico:

Ele (Marduk) a dividiu (Tiamat) em dois, como um peixe para secar,
Metade dela ele levantou e fez uma cobertura, o  céu.
Ele esticou o couro e nomeou os vigilantes,
E ordenou que eles não deixassem as águas dela escapar.

No hino babilônico isso ocorre após a vitória de Marduk sobre Tiamat, no hino bíblico, contudo, Deus, com sua palavra criadora e sem violência, cria os continentes e os oceanos. Estes não são divindades são, como qualquer outra coisa, criações de Javé.

11.  E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi.
12.  E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
13.  E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

Não é fruto de nenhum deus ou nenhum ritual idólatra o fato da terra produzir seus frutos. Mas Elohim fez isso! Então não são os ritos pagãos que fazem com que a agricultura seja preservada, é o cuidado de Deus. E a força criadora do Deus de Judá que faz com que a plantação seja bem sucedida.

14.  E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
15.  E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi.
16.  E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
17.  E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra,
18.  E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.
19.  E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

Esse é o clímax da “guerra”. Os grandes deuses babilônicos se transformam em luminares. Não tem vida em si mesmos. E nem podem se reconhecidos como seres vivos. São “lâmpadas” e nada mais. Os autores até ocultam o nome dos deuses babilônicos. Isso é uma das maiores ofensas que se pode fazer a uma cultura ou uma religião na época. E os escravos judeus o fazem: Elohim não criou Marduk. Elohim criou um luminar e o que eles adoram é apenas isso, um luminar. Uma criatura sem vida criada por Elohim.

20.  E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.
21.  E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
22.  E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra.
23.  E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
24.  E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.
25.  E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.

Segundo o mito babilônico, as bestas foram criadas pelo abismo e pelas águas. Aqui, é Elohim que cria, inclusive os animais, as bestas e tudo o mais que tem vida.

26.  E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
27.  E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
28.  E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
29.  E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
30.  E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
31. E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

Nesse texto, os autores judeus elevam todo ser humano. Toda a humanidade é divinizada. Não é o rei babilônico aquele que representa e é filho dos deuses. Mas todo ser humano. Qualquer uma pessoa é imagem e semelhança e, portanto, representantes da divindade de Elohim.


Gn 2

1.      Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados.
2.      E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.
3.      E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera.

E agora a coragem da resistência: Mesmo Elohim, aquele que nunca se fatiga, descansou após trabalhar seis dias. Então, ele santificou esse dia e, por isso, os judeus não trabalharão mais do que seis dias na semana para os babilônicos. Tirarão o sétimo dia para descansar, e, assim, aliviar o peso da escravidão e lutar contra a exploração de suas forças; Se reunirão em torno do culto a Javé, mesmo em terra estranha; Fortalecerão sua crença, unidade e esperança de retorno à terra de onde foram retirados à força; E O sábado será o dia separado para isso.

Como vimos, antes de ser um texto que tem a função de descrever como Deus criou todas as coisas, o texto analisado, objetiva ensinar sobre Javé, fortalecer a fé do povo, resistir a exploração e a tentação da cultura e religião babilônicas. Mas e nós? O que podemos aprender dessa luta e dessa vitória que o povo teve ao, na teimosia da sua fé, sendo escravos, demonstrarem a superioridade do seu Deus sobre o deus dos seus senhores?

Quais são as tentações de nossos dias que procuram divinizar a criação em vez do criador? Quais são os sistemas que procuram criar pessoas inferiores e eliminam a mensagem de que todo ser humano tem em si a imagem de Deus? O que procura tirar do homem essa certeza coisificando sua natureza? Qual nossa atitude diante das criações de Deus que o poema ousa dizer ser “muito bom”? Qual nossa atitude diante dos trabalhos escravos ainda presente em nossos dias? Como agimos quando vemos uma exploração de mão-de-obra barata? Qual nossa atitude quando não é dado, ao trabalhador assalariado o direito de “descanso”, entendo esse descanso como muito mais do que um dia em que não se trabalha?

São tantas as perguntas que esse texto faz a nós, em nossos dias, que somos convidados, por ele, a sermos, muito mais, desafiados a lutar pela justiça social, do que por “Deus fez as coisas desse jeito e não como a ciência diz”. Eis a mensagem do texto analisado: Deus fez tudo bom para o bem, e para o bem e para o bom devemos levar tudo o que foi criado.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Rute X Neemias (uma abordagem contra o preconceito)

Neemias 13:23-30
Vi também naqueles dias judeus que tinham casado com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas.
E seus filhos falavam meio asdodita, e não podiam falar judaico, senão segundo a língua de cada povo.
E contendi com eles, e os amaldiçoei e espanquei alguns deles, e lhes arranquei os cabelos, e os fiz jurar por Deus, dizendo: Não dareis mais vossas filhas a seus filhos, e não tomareis mais suas filhas, nem para vossos filhos nem para vós mesmos.
Porventura não pecou nisto Salomão, rei de Israel, não havendo entre muitas nações rei semelhante a ele, e sendo ele amado de seu Deus, e pondo-o Deus rei sobre todo o Israel? E contudo as mulheres estrangeiras o fizeram pecar.
E dar-vos-íamos nós ouvidos, para fazermos todo este grande mal, prevaricando contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras?
Também um dos filhos de Joiada, filho de Eliasibe, o sumo sacerdote, era genro de Sambalate, o horonita, por isso o afugentei de mim.
Lembra-te deles, Deus meu, pois contaminaram o sacerdócio, como também a aliança do sacerdócio e dos levitas.
Assim os limpei de todo o estrangeiro, e designei os cargos dos sacerdotes e dos levitas, cada um na sua obra.

Como ler essas linhas de Neemias e não encontrarmos um claro exemplo de preconceito, monoculturalismo e etnocentrismo? Se formos sinceros, sim, encontraremos. Há quem diga que se olharmos com os olhos daquele tempo acharíamos que Neemias tinha plena razão. Será?

Antes de pensarmos sobre isso, vale aqui deixar claro que Neemias tem grande mérito: Graças a sua reforma o judaísmo conseguiu consolidar-se; Uma identidade se firmou na religião e na cultura judaica - ainda que outras identidades e culturas tenham nascido a partir de então; Neemias conseguiu trazer o sentimento de amor a Javé, à religião, à cultura hebraica e ao próprio idioma hebraico. Mas, como todo homem reformador, tem seus problemas, seus extremismos e seus opositores. Os maus opositores e os bons opositores que, com seus pensamentos diferentes, conseguem fazer o povo crescer  e exterminam a unanimidade. Como diz o Nelson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra".

Mas voltando ao texto, vemos nele a clara política separatista de Neemias. Com ela, procurava ele "limpar" os judeus de toda "influência" de estrangeiros, tanto de idioma -  o hebraico deve ser valorizado -  quanto de religião. Como será que isso foi recebido entre o povo? Será que de fato existe apoio tanto divino quanto do povo? O livro de Rute responde-nos essas e outras perguntas.

O que encontramos em Rute?

Rute é um livro que fala sobre um Elimeleque que sai das terras de Israel em direção às terras de Moabe a fim de conseguir pão. Esse fato se da na época dos Juízes. Lá, seus filhos (Malon e Quiliom) se casam. Morrem tantos os filhos quanto o pai. A mãe (Noemi) fica com as duas noras (Orfa e Rute). Orfa se vai, Rute, contudo, fica com Noemi e passa a cuidar dela. Mas tarde, segundo a lei, Rute se casa com um dos parentes de sua sogra e tem um filho, chamado Obede, que é pai de Jessé, pai do rei Davi.

Muitas coisas se pode tirar desse livro, mas vamos a algumas coisas que podem nos ajudar:
Elimeleque - Meu Deus é rei;
Noemi – Alegria, meu prazer, que muda seu nome para Mara - Amargura;
Malon - Doente;
Quiliom - Definhamento;
Orfa - Pescoço, Nuca;
Rute - Amiga;

Consideremos que Elimeleque – cujo nome é "Meu Deus é rei" – figura como o grupo dos que são fiéis ao projeto de Javé - "Javé é o nosso rei e não um homem", conforme o próprio Gideão (Jz 8,23) - opositores ao modelo de poder centralizado em uma pessoa. O nome dos outros homens mostra certa fragilidade na saúde, curiosamente eles morrem.
Orfa é pescoço, nuca (vemos a nuca das pessoas quando elas estão de costas), no sentido de "aquela que vai pra trás", é, também, curioso o fato de ser a nora que deixa Noemi. Rute, cuja tradução é amiga, é aquela que se mantém fiel a Noemi, não a abandona. Como já era de se esperar, pelos ocorridos ao outros personagens, seguindo a idéia do nome, Rute, se mantém fiel e se torna leal amiga de Noemi.

Essa característica na narrativa  - de que os nomes carregam a personalidade do personagem  - é característico de todo conto antigo. O quanto desse conto é histórico ou construído não é a grande questão. A grande questão é que esse livro foi escrito em resposta a política separatista de Neemias. O autor mostra que há moabitas que se posicionam como Rute: teu povo será meu povo e teu Deus será o meu Deus. Portanto, Neemias está bastante equivocado em obrigar os homens a se separarem de suas esposas e filhos. Causando dores desnecessárias. E o autor não pára por ai, ele ainda diz que essa moabita é bisavó do rei Davi. Aquele que figura o Messias que fará a obra completa, superior a obra de Neemias.

O Messias, portanto, será, em tese, mestiço. Nem o Messias de Deus é "sangue puro". Mesmo Deus coloca uma moabita como participante do seu projeto.

Em nossos dias existem políticas separatistas nas igrejas: mulheres não podem ser pastoras; não podemos casar com pessoas de outras religiões; em algumas igrejas nem como membros de outras denominações; Sem contar aquilo que de real se considera inferior: nao se dialoga com outras religiões, pressupõe que se é necessário "limpar" a igreja de toda influência "mundana". Existem "N" políticas separatistas nas igrejas. E isso impede que muitos cristãos saibam, de fato, viver em um mundo pluralizado cultura e religiosamente. É impossível de se ver Deus no outro, ou de ver o outro como membro dessa grande família.

O irônico é que, dentro da própria bíblia, temos a política de Neemias e a abertura do livro de Rute. Óleo e Água convivendo harmoniosamente. São projetos distintos, um que representa a voz sacerdotal, que é a religião oficial. A outra, contudo, é a religião do povo, aquela mais próxima da tradição profética. Que enxerga o mundo e as pessoas de uma forma mais sensível, sem os óculos da instituição. Sim, de fato são dois projetos distintos. Vencer o preconceito é muito mais do que olhar para o Livro de Rute. É, sim, perceber a presença desses dois distintos projetos na mesma coleção de livros da fé.

A mensagem de Rute luta contra o preconceito étnico e cultural. Mostra o Deus que se faz presente naquele que é desprezado. É de fato uma aula sobre humanidade, amizade, e sinceridade. Contudo, maior vitória sobre o preconceito é ver, de forma tão singela, a presença de duas opiniões que são antagônicas fazendo parte do mesmo projeto da fé: a bíblia.

Como diz Paul McCartiney e Stevie Wonder:

" Ebony and ivory
Live Together In Perfect Harmony
Side By Side On My Piano Keyboard,
Oh Lord, Why Don't We?"

"Ébano e Marfim
Vivem juntos em perfeita harmonia,
Lado a lado no teclado do meu piano.
Oh, Senhor, por quê nós não?"

Sim, viver em harmonia. Todas as raças, todas as culturas e todas as diferenças. Uma completando a outra. Uma fazendo parte do projeto da outras e ambas, na ajuda mútua, fazendo parte do projeto de Deus. Como nas veias do rei Davi corria sangue moabita e como nas veias do filho de Deus, segundo Mateus, corriam os sangues da Rute moabita e da jericóence, prostitura Raabe e, assim, Jericó e Moabe, junto com Israel contribuíram para o projeto de Deus, da mesma forma, façamos nós. Procurando não apenas respeitar, mas acima de tudo, aprender com o outro.

Comunhão sem fronteiras, eis uma das mensagens do livro de Rute.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Figuras Messiânicas

Estive pensando esses dias e sinto que devo, talvez, registrar esse pensamento. Acredito que a criação viva uma constante evolução. Sim, neste ponto concordo bastante com a teoria de Darwin. Mas o que me deixa intrigado é outro tipo de evolução, da qual, para mim, completaria a idéia de Darwin: a evolução comum do ser humano.

Creio que fomos destinados a evoluir internamente a tal ponto de vivermos de fato o Reino de Deus no mundo. Nesse sentido, creio que todos são diretamente destinaos ao Reino Utópico, de amor, justiça e igualdade.

Diferente, contudo, da evolução darwniana, creio que essa evolução dependa tão somente do próprio ser humano. Creio que o Novo Testamento chame isso de "Metanóia", mudança completa de direção. Mudança de mente. Um giro de 180 graus.

Mas vejo que Deus nos concede, a nós, homens e mulheres que ainda não vivem tal evolução, um encontro com aqueles que representam uma humanidade evoluída. É como se, para os nossos dias, fossem importadas pessoas que deveriam nascer milênios à frente.

São as pessoas que nasceram antes do tempo. Vieram para o momento evolutivo errado. Contudo, por estarem em acordo com a evolução humana, nos ensinam e ilustram, eles mesmos, um alvo que deveríamos traçar e alcançar.

São homens como Jesus, Ghandi, Dalai Lama e etc. Homens que não apenas contribuíram para sua crença, mas que, seus ensinamentos, ultrapassaram as fronteras religiosas. Há um tempo, um professor meu, Edson, Doutor em Teologia, disse o seguinte: existem pessoas que se esforçam para serem boas e outras que são naturalmente boas. Seriam essas, para mim, aquelas que figuram um degrau acima dessa evolução.

Essas pessoas não combinam com o nosso mundinho involuído. E por isso matamo-nas, desprezamo-nas e consideramos seus ensinos, muitas vezes, ensinos de pessoas "idiotas", "otárias", que deixam os outros se aproveitarem delas.

Erramos em pensar assim e em desprezar que a vida desses homens apontam para um ideal que não vivemos, porque, ainda não entendemos o quão importante é a vida dos outros em comunão com a nossa. E ainda não entendemos, por meio deles, aquilo que deveríamos ser.

Da mesma forma eu vejo o contrário, encontro pessoas que nasceram depois do seu tempo. Pessoas que atrasam o processo evolutivo. Que nos fazem ver sempre o que podemos fazer de mal. E o mais interessante é que são, justamente, as pessoas mais copiadas em seus atos. O desejo humano pelo regresso é assustador.

Enquanto temos diante de nós um longo caminho para alcançarmos a sombra desses homens e mulheres que são do "futuro" e nasceram no nosso "presente" - passado deles - para nos mostrar o que fomos destinados a ser, se assim desejarmos, temos, também, que desprezar o ensino daqueles que gostam de nos lembrar de onde viemos.

Não importa de onde viemos, a realidade é essa. O que importa é onde devemos chegar ou queremos chegar. Paulo nos ensina: esquecendo das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação que está em Cristo Jesus.

A soberana vocação é a humanidade perfeita. E que decidamos vive-la. E assim, o reino, que está em nós, se torne concreto para além de nós.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Encarnação, o caminho do (i)limitado

Muitos procuram definir Deus - que acredito ser indizível - como Onipotente, Onisciente e Onipresente. Respectivamente, segundo Priberam, seria: Pode tudo; sabe tudo; que está, ao mesmo tempo, em toda parte.

Acredito, contudo, que essa visão de Deus possui, atualmente, algumas deficiências. Ela representa aquilo que o homem, em diversas esferas, deseja ser. Dentro de cada um de nós existe o desejo de ser um deus. Mas não de participar da natureza divina e sim de sermos divinos e maus por essa divinização. São atributos impossíveis ao homem, mas que em sua viagem de perfeição, imagina que, assim, é aquele que é perfeito.

Deus, nessa concepção, não pode ser menor e nem igual ao homem. Tem que ser superior. E nada mais superior na mente humana do que: poder fazer tudo, saber todas as coisas e ninguém poder esconder nada de mim. São as características que o homem gostaria de ter. Não tendo, lança-se esses desejos para Deus. E chama esse Deus de seu. Para assim, de alguma forma, ser participante dessa natureza soberana desse Deus inalcansável.

O que, contudo, acho bem engraçado é não a forma com que os cânticos contemporâneos e salmos bíblicos falam de Deus, mas como a experiência bíblica fala sobre Deus.

Encontramos uma mensagem bem diferente no texto do envangelho joanino:

"E o Logos se fez carne, e tabernaculou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."

Deus se fez carne. É muito irônico o fato de que Deus abre mão dessa imagem que o ser humano tem dele. Embora eu, de fato, não creio que Deus seja essa triade fabulosa (onipresente, onisciente e onipotente), é inegável que Deus desconsiderou tudo isso para simplesmente ser uma pessoa.

Enquanto que muitos procuram fazer o caminho da exaltação, o caminho do infinito. Deus opta pelo caminho da humildade, do oculto, do desconhecido e da finitude. Muitos grupos de pessoas promovem o não-humano. Promovem a coisificação do ser humano e a aposta de ser um semi-deus. Religiões criam "apóstolos", "ungidos", "adoradores" e etc. Qualificações que "sobem" de degrau desprezando o simples fato de sermos todos iguais: todos membros da grande família humana.

Optamos por sermos superiores aos outros, equanto que o superior, opta por ser igual. Limita-se , se prende e se deixa prender, não tem forças para descer da cruz, e nem mágica para cicatrizar suas feridas. Enquanto muitos dizem: a carne é má. O logos se faz carne. Enquanto muitos se colocam como "ungidos intocáveis", o Ungido (Messiah) é ofendido, maltratado, ultrajado e oferece perdão a esses. As igrejas lotam de superstars, de homens e mulheres se idolatram e são idolatrados, enquanto o Único não permite que saibam que ele é o Cristo.

O caminho de Deus é a encarnação e o do homem tem sido a auto-divinização. O caminho de Deus é amor, o da modernidade é o individualismo. Deus entra no mundo pelas portas do fundo, e os líderes religiosos buscam os altares.

Deveríamos aprender com esse mesmo Deus, que nos motra que a limitação é justamente o caminho mais lindo e perfeito para a comunhão e para a vida no mais profundo sentido da palavra.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Para que (ñ) digam que (ñ) falei do Inferno

Acho que podemos brincar, neste tópico, com essas palavras. Acredito que elas nos ajudam muito a entender um pouco sobre como ler a bíblia.

Primeiro vamos nos localizar:

Hebraico: Sheol (lugar dos mortos) e Ge Hinom (do qual se translitera para o gregoa Geena), que sigfnifica vale de Hinom - também conhecido como Ge Ben Hinom (vale do filhoe de Hinom).

Grego: Hades (reino dos mortos) e Tártaro.

No Primeiro Testamento vemos claramente vários textos que usam muito a palavra Sheol. Sua tradução real seria "lugar dos mortos", ou, simplesmente, sepultura. Erradamente traduzem pelo vocábulo "inferno", da nossa língua, com o sentido de lugar de sofrimento eterno.

Os antigos não criam na eternidade da alma. A idéia de uma vida após a morte é dada somente no livro de Daniel e com o sentido de ressurreição dos mortos e não "além túmulo". Os textos nos revelam qual o pensamento comum sobre o Sheol:

"Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá." SL 49:15
"Na prosperidade gastam os seus dias, e num momento descem à sepultura. " Jo 21:13
"Porque na morte não há lembrança de ti; no sepulcro quem te louvará? " SL 6:5

Todos esses textos usam o vocábulo Sheol e a tradução, em algumas bíblias, está inferno. Em outros, corretamente, traduzida como sepultura.

O Segundo Testamento se baseou na LXX1 como textos bíblicos. E, nela, por estar em grego, a palavra Sheol foi traduzida como Hades.

Em todos os lugares no Segundo Testamento que citam o Primeiro, onde se encontra a palavra Hades, na realidade, está sendo traduzida, para o grego, a palavra Sheol. Temos que, obrigatoriamente, a nível de fidelidade ao texto original, manter seu sentido inicial. Vejamos um exemplo:

Atos 2 : 25 ao 27

Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha direita, para que eu não seja comovido;

Por isso se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; E ainda a minha carne há de repousar em esperança;

Pois não deixarás a minha alma no inferno , Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção;

Veja que no texto acima a palavra "inferno" aparece. Ela está traduzindo, para o português a palavra "hades". Pedro, nesse discurso está fazendo menção ao Salmo 16. Onde se poderá, no hebraico, encontrar, no lugar de hades, do texto grego usado em Atos, o vocábulo Sheol.

Agora, vamos continuar o texto de Atos, que é o discurso de Pedro:

"Homens irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura.

Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono,

Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada na sepultura, nem a sua carne viu a corrupção."

Veja que Pedro, na realidade, está usando a palavra inferno no sentido de sepultura: "Davi foi sepultado", "a alma de Criso nao foi deixada na sepultura".

Hades é, portanto, sepultura, para os primeiros cristãos. Contudo, os gregos dividiam o Hades em duas partes: Elysium e Tártaro. A primeira habitação dos vitoriosos e a segunda habitação dos ímpios. Essa idéia fortalece, sem dúvida nenhuma, a idéia de lugar de sofrimento. Contudo, vale dizer que essa palavra (Hades) é uma tradução usada pelos judeus para o Sheol, que, originalmente, não possui nenhuma divisão. É apenas sepultura. Não se pode misturar uma idéia pagã com uma idéia judaica. Devemos ler Hades apenas no sentido de Sheol do Primeiro Testamento. Mas, ainda assim, existe, uma única vez, a palavra Tártaro no Segundo Testamento.

Está em II Pedro 2:4
4 “Porque se Deus não poupou a anjos quando pecaram, mas lançou-os no inferno, e os entregou aos abismos da escuridão, reservando-os para o juízo;”

Repare bem. Aqui a palavra inferno é o "tártaro". Veja que, contudo, o autor nao está usando no sentido correto. Os "espíritos" estão presos, aguardando o julgamento. Aqui tem o sentido de julgamento, estes estão no "tártaro". Ou seja, são imundos, injustos. Uma forma de deixar claro a que espíritos se tratam. E não de narrar como estão ou se estão sofrendo. Aqui nada fala de sofrimento.

Creio que a palavra que causou toda a confusão seja essa: Geena. Essa palavra, como já falado antes, está se referindo a um lugar realmente rela: o Vale de Hinom (Ge Hinom). Esse lugar era o local onde os israelitas sacrificam seus filhos:

Jeremias 19: 2-5

"E sai ao Vale do Filho de Hinom, que está à entrada da porta do sol, e apregoa ali as palavras que eu te disser;

E dirás: Ouvi a palavra do SENHOR, ó reis de Judá, e moradores de Jerusalém. Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que trarei um mal sobre este lugar, e quem quer que dele ouvir retinir-lhe-ão os ouvidos.

Porquanto me deixaram e alienaram este lugar, e nele queimaram incenso a outros deuses, que nunca conheceram, nem eles nem seus pais, nem os reis de Judá; e encheram este lugar de sangue de inocentes.

Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento."

Após o término dos sacrifícios humanos, talvez por ser considerado um lugar maldito, ali se tornou o "lixão" da cidade de Jerusalém. Para lá eram levadas as carcaças de animais mortos e também corpos de indigentes ou mendigos. Lá também era o lugar de desova para os ladrões que eram pegos cometendo crimes. Era de fato um lugar de péssimo aspecto: "onde o fogo e o verme não morrem".

Ter seu corpo morto lançado no Geena era dizer que você teve uma morte indigna, que não tinha família ou que era um pecador. Isso tornou-se, então, para Jesus, figura do que seria morrer sem Deus:

Marcos 9:43

"E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga,"

Vemos, então, que, quando Jesus ou quando se trata do Geena ele é uma figuração da morte horrenda não tem peso nenhum de condenação ou sofrimentos eternos.

Bom, acho que serviu, pelo menos, para se pensar um pouco.

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1. Quando na diáspora - os judeus fora de território judaico - durante muito tempo a língua comum no mundo era o grego. E alguns desses judeus já não falavam mais hebraico. Então, para que continuassem mantendo sua religião, mesmo fora dos limites da Israel, foiram traduzidos para o grego os textos do Primeiro Testamento. Essa versão ficou conhecido como "dos setentas", alusão feita a um trabalho de tradução feito por 70 (ou pouco mais) de rabinos. Essa tradução foi a utilizada pelos apóstolos no Segunto Testamento. Tendo algumas imperfeições que chegaram, inclusive, a prejudicar o entendimento dos textos do Primeiro Testamento, originalmente em hebraico.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A indulgência da vida eterna

A morte sempre foi algo que me intrigou. Nunca gostei de pensar nela e nunca a desejei. Aliás, tenho uma frase que diz: morrer é lucro apenas para o apóstolo Paulo, eu quero continuar vivo.

Deixando a heresia de lado, na verdade, o que pretendo dizer é que não sei como é “do outro lado”. E sei que as promessas que existem, todas, ficam no obscuro da fé. Quer sejam essas as promessas da ciência ou da religião. Por mais que afirmem alguns que “retornaram à vida” depois de estarem "do outro lado", ainda assim permanecerá a fé no que é dito e não no que é comprovado. De fato: “a fé, não precisa de comprovação, do contrário, ela mesma já não se faz necessária”. Diria um sincero que crê.

Eu sou daqueles cuja fé não responde tudo. Morte, para mim, é a injustiça da vida. Como posso eu provar a vida, me apaixonar por ela, sentir o cheiro das flores, o gosto das frutas, o refrigério da água em um dia quente, o toque e abraço de um amor e de um amigo, me cercar de sonhos, sentir a alegria de concretizar uns e a frustração de ter que abandonar outros e quando menos espero, ser atacado por algo que me separa definitivamente dela, sem dó, sem pedir licença e sem ao menos me perguntar se desejo isso? Onde está a justiça no "sono eterno"?

Não, sinceramente a morte não me atrai. E fico contente em saber que não atraia nem mesmo ao filho de Deus: "Se possível passe de mim esse cálice". Relatam os evangelistas ser essa a oração na construção literária da certeza da morte. E o que mais me deixa surpreso é a própria bíblia dar a seguinte promessa, reafirmada pelo texto deutero-paulino: hora teu pai e tua mãe para que te vá bem e SE PROLONGUEM OS SEUS DIAS.

Longevidade, eis a benção dada por Deus. Alguém diria que em um período onde a vida após a morte não fazia parte do credo hebreu. Tudo bem, então, no momento em que os judeus não criam na ressurreição e nem no além, eles afirmam que benção é viver bem e muitos anos. O tempo passa e a vida já não se mostra tão favorável ao que respira. Então, os apocalípticos "inventam" a ressurreição dos mortos. Afirmando que, no fim, alguns despertarão para a vida eterna.

Vejamos... mais uma vez a morte é rejeitada. E agora como promessa de uma "nunca morte". A morte não é desejada pelos escritores e nem pelo mundo judaico. A bem da verdade é que a promessa acima, dada aos "filhos honrosos", não se cumpria. Por mais que homens e mulheres fossem fiéis a Javé, ainda assim, a vida podia ser triste, sofredora e má: opressores de todos os lados, liberdade cativa e miséria. Como dizia o profeta: “A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha. Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados, e não temos descanso. Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos fartarmos de pão”.

Sim, a vida perde seu sentido, então algo deve motivar a continuar, e os escritores apocalípticos resolvem esse problema com sua "invenção". Reencantam o mundo, dão esperança. E desde então se tem motivo para manter-se firme e fiel a Javé: o Dia do Senhor virá, trazendo vida eterna aos mortos. Trará a ressurreição.

O movimento de Jesus é filho dessa fé, que golpeia a falta de esperança com essa promessa. O apóstolo Paulo dedica boas linhas renovando a fé e a confiança na ressurreição dos mortos, em uma das cartas aos coríntios:
A ressurreição é para aqueles que reconhecem em Cristo o penhor da ressurreição e o primeiro de muitos. Assim como ele ressurgiu, outros ressurgirão - os que confiam nessa certeza apostólica.

Sim, mas quem afirma que ele ressurgiu? Mais uma vez somos desafiados a confiar na fé alheia e nela depositar nossa fé. Muito sábio foi um dos teólogos autores do evangelho de João que cria (ou relata) o encontro de Tomé e de Jesus: Bem-aventurado quem não viu e creu. Assim, se torna feliz aquele que, 100 anos depois do advento (mais ou menos a data da criação do evangelho de João), crê que o filho de Deus ressurgiu dos mortos em corpo.

Mas será que sempre terá que ser assim? Nossa fé depositada naquilo que nossos olhos não testemunharam. Alguns teólogos e biblistas famosos afirmam com toda a certeza que a ressurreição de Cristo foi ideológica. Que Cristo ressurgiu no coração dos apóstolos. Outra verdade que, dentre tantas, devemos acreditar, pq eles afirmam? Essa é a experiência deles e nós devemos crer no que dizem ou nos que vêem lá uma ressurreição histórica. Mas nossa opinião, nosso sentimento são colocados de lado? Somos herdeiros de mensagens. Apenas isso: herdeiros. Nada criamos, nada fazemos. E dizemos sim a tudo aquilo que é dito.

Falta de fé da minha parte? Não! Quem conseguir ler estas linhas até o fim, verá que encho de coragem e fé para reafirmar aquilo que os profetas afirmavam: Justiça!!!

Enquanto alimentamos a fé das pessoas de que existe um além túmulo, tiramos delas a responsabilidade de viver já! Enquanto consolamos com promessas que não podemos ter provas que se cumprirão, essas pessoas sofrem e morrem, com uma esperança vindoura. Mas não possuem forças suficientes para fazer dessa vida atual, presente divino, a verdadeira vida.

De que adianta enchermos o mundo de promessas do além, quando, na verdade, ninguém sabe como será? Onde fica a vida humana, terrena? Quem justifica aquelas pessoas que nem se quer, na vida vindoura crêem e a vida atual é apenas sofrimento? Que esperança para ontem temos a dar àquelas que só gostariam de um prato de comida? Vamos continuar a dizer como os vendedores de indulgências do passado, que falavam para a mãe de uma menina paralítica: “querida mãe, no céu, sua filhinha aleijada poderá correr para os braços do Senhor, compre a indulgência e garanta essa felicidade à sua filha”.

Não garantimos nada a ninguém enquanto não aprendermos a lutarmos pela vida humana. Enquanto essa mesma vida é ceifada e relativizada nas ruas pelas drogas, pelas armas de fogo, pelos estupros, pelas torturas, ameaças, fome e miséria, nós aqui dizemos: apesar de tudo isso, amanhã, no céu, tudo será bom!

Isso não é cristianismo! Isso não tem nada a ver com o seguimento de Jesus. Que, cria sim na vida eterna, mas, lutava pela concretização desta vida já e não no além. Pois seu discurso mesmo não falava nada de além, falava de "venha o teu reino" e não de "vamos ao teu reino". É o reino aqui e já que precisamos e para isso, também, precisamos nos engajar. Levantar as mangas das nossas roupas e trabalhar de forma verdadeira. Nao com programações de cumprimento de agendas. Mas de vida de luta e fazer com que essa vida, dádiva de Deus, não seja apenas uma passagem dolorosa para a vida além, mas o início da vida sem fim.

Nossa experiência não deve ser pautada na esperança dos outros, mas na nossa. E a esperança nossa, deve ser para uma utopia realizável enquanto o oxigênio terreno encher os pulmões dessas pessoas. E não para quando esse mesmo lhes faltar, pois assim, não voltarão para reclamar uma promessa não cumprida. Esperar e lutar por hoje nos coloca numa posição de compromisso que, muitas vezes, não temos condições de arcar.

Mas esse é o desafio do reino de Deus: viver já parte daquilo que nos foi prometido e promover, agora, a vida que, pela fé, aguardamos.

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago por Leonardo Boff

Saramago se considerava ateu, mas de um ateísmo muito particular. Entendia o "fator Deus" como veiculado pelas religiões e pelas Igrejas como forma de alienação das pessoas. Seu ateísmo era ético, negava aquele "Deus" que não produzia vida e não anunciava a libertação dos oprimidos.

Essa compreensão pude discuti-la pessoalmente num encontro em 2001, na Suécia. Ele viera a Estocolmo para um encontro de todos os portadores do Nobel. Eu lá estava, pois fora indicado para o prêmio The Right Livelihood Award. Convidou a mim e à minha companheira Márcia para um jantar. Foi um festim de espiritualidade mais do que de literatura. Levei-lhe um livro de contos indígenas, O Casamento do Céu com a Terra, e para a sua esposa Pilar um outro, Espiritualidade: Caminho de Realização. Ele logo foi dizendo: "quero o livro de espiritualidade, pois pretendo me aprofundar neste tema".

Falamos longamente sobre religião, Deus e espiritualidade. Negava a religião, mas não a espiritualidade como sentimento do mistério do mundo, da profundidade humana e do amor aos oprimidos. Mostrou sua admiração pela Teologia da Libertação por fazer do "fator Deus" uma força de superação da miséria humana. Fomos madrugada adentro, já em seu quarto de hotel, como se fôssemos velhos amigos.

O e-mail a seguir revela a experiência espiritual que juntos vivenciamos:
"Querido Leonardo, querida Márcia: para nós, o grande acontecimento em Estocolmo foi ter-vos conhecido. Não exageramos. (...) O tempo que estivemos juntos foi um banho para o espírito. Quem dera que em breve surja outra ocasião. Os anos são todos terríveis para aqueles para quem a vida é terrível. Às vezes as coisas correm melhor no mundo e isso leva-nos a pensar que estamos em paz, mas o mesmo não poderiam dizer os milhões de seres humanos cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E se de alguma maneira chegam a manifestar-se, os modos de as silenciar, não faltam. O vosso trabalho cria e reforça consciências livres ou em processo de libertação. (...)".

Ganhamos um amigo e a fé me diz que ele agora mergulhou naquele Mistério de amor que sempre buscou.

LEONARDO BOFF É TEÓLOGO E ESCRITOR

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Religião Artista (O hupokritēs)

O texto de Mateus preserva uma tradição que demonstra a "luta" que comunidade inicial teve com os Fariseus (partido religioso que adotava uma postura literal das Escrituras) - Mt 23:
13 Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.
14 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.
15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.
16 Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor.

Temos, comumente, a idéia de que Jesus está chamando os fariseus de hipócritas, por causa da tradução. De fato, o sentido é esse, mas a postura de Jesus é tanto agressiva quanto sarcástica. Fatalmente, depois desses textos, é bem comum quando se deseja chamar alguém de hipócrita, chama-l0 de "fariseu".

O fariseu, contudo, nada tinha desse sentido. Eram os "separados", os "consagrados". Aqueles que gozavam de privilégio diante do povo e que, durante muito tempo, foi quem sustentou a fé judaica no pós 70 dC, com a destruição de Jerusalém e do templo pelo, então, general romano Tito.

Mas voltando a Jesus, a palavra traduzida como "hipócritas", na realidade é ὑποκριτής (hypokritēs). Cuja tradução melhor é: ator, artista, aquele que interpreta. Era o nome usado para identificar os que vestiam máscaras e atuavam no teatro.

Jesus lança mão dessa nomenclatura para denunciar a religião vivida pelos fariseus de seu tempo. Eles encenavam sua fé, fingiam viver uma devoção que não tinham. Essa era a denúncia de Jesus: vocês são artistas, que comovem a todos, mas que não estão comovidos e não estão vivendo de verdade aquilo com que comovem.

Quando estamos vendo um filme ou peça sentimos a tensão, o medo, o desespero, torcemos para que um morra, para que outro sobreviva, choramos com as tristezas, etc. E na verdade, ninguém morreu, ninguém venceu e ninguém sentiu medo. Tudo truque da boa interpretação e do fundo musical.

Essa genealidade humana, que ensina, entrete ou emociona é usada por Jesus para dizer que esses mesmos efeitos os fariseus geravam. Conseguiam o respeito, admiração e temor das pessoas, sem contudo sentir de fato aquilo que usavam para conseguir tais méritos diante da comunidade judaica.

E em nosso dias? Quantos hypokritēs temos em nosso meio? Pessoas que chegam à midia como pastores mais que são verdadeiros lobos, que sugam dinheiro, moral, esperança e a felicidade do povo em nome de uma fé que nao possuem. Colocam peso nas costas do povo. Pesso esse que nao carregam e se misturam no meio das comunidades de fé. Isso, digo, nao apenas na religião protestantes (da qual venho) mas em todas as religiões. E os homens de boa vontade, se calam enquanto esses, que nada são, se fazem e, artisticamente, se tornam.

Cabe a nós a mesma posição de Jesus: denunciar para que a peça acabe e para que a realidade venha à tona. Pois, depois do espetáculo, tudo volta ao normal.

Ponhamos fim nos espetáculos que separam as pessoas de Deus e do próximo. Ou, ponhamos fim ao nosso espetáculo que engana e explora.

sábado, 20 de março de 2010

O Deus Mistério em Gilberto Gil

A canção que servirá para a nossa reflexão é “Se eu quiser falar com Deus”. Gilberto Gil compôs essa canção em 1980, a pedido de Roberto Carlos. Após a entrega da canção, Roberto não concordou com a forma a letra toda e preferiu não cantar. De fato a canção desafia o fundamentalismo ortodoxo cristão. Já que, principalmente no fim, ela se aproxima bastante com a tradição Budista.

Contudo, existe um forte paralelo nessa canção, também, com o cristianismo. Aliás, como Teólogo, ouso afirmar que essa canção é a canção do “Deus desconhecido”, sem contar, entretanto, que, o próprio Gil, em entrevista, afirmou isso. A canção atravessa a ordem de uma liturgia da entrada na presença de Deus, do encon­tro com ele e da caminhada na sua presença.

Roberto Carlos gravou, nos anos 90, uma resposta a essa canção. A música, composta por ele e Erasmo, tem como título “Quando eu quero falar com Deus”. Uma canção também bonita, mas que, a meu ver, parte daquela certeza ortodoxa que estamos acostumados e catequizados. Que não vejo nada contra, mas que, infelizmente, não é uma regra a todos os que vivenciam a oração ou a vida com Deus. Falo, nesse ponto, da tradição bíblica: Davi, Jeremias, Jó, Habacuque, Oséias, Daniel, Paulo, João e o próprio Cristo que, por diversas vezes, não viveram o que a letra do Roberto disse, embora também tenham vivido em outros momentos.

Não pretendo aqui comparar as duas letras, porque, de certa forma, concordo com as duas. Mas vou explorar a letra de Gil e fazer comentários sobre ela. A escolhi por ser “nova”, tem cheirinho de coisa fresca de diferença e de aprendizado, no sentido de desafio novo à religião cristã do século XXI. No momento onde certezas e previsibilidades fazem parte do convívio cristão comunitário, acredito que vale à pena mergulhar no “Deus desconhecido”, que, em nossa certeza-incerta, ousamos dizer que conhecer.

Não estou aqui fazendo apologia ao agnosticismo[1] e nem ao gnosticismo[2]. Prefiro o caminho de grandes autores que deixo a baixo antes de introduzir uma reflexão sobre a bela canção:

Platão: "É muito ousado querer negar que Deus é. Como também é muito impertinente querer adivinhar o que Deus é".

Santo Agostinho: "Podemos dizer que Deus é, e dizer o que Deus não é. Mas dizer o que Deus é supera toda capacidade humana"

Nicolás de Cusa: "Deus é uno e trino como essência. Como criador não é nem uno nem trino. Deus é infinito, e nada que a palavra humana possa expressar.

Kant: "O conceito de Deus é o mais inevitável para a razão humana. E também impossível de compreender pela razão humana”.

Henri Poincaré: "Por muito longe que a ciência avance nas suas pesquisas, perceberá que sempre há um limite nas suas conquistas. Ao longo das suas fronteiras encontram o Mistério. E por mais que estas fronteiras se dilatem, jamais resolverão o Mistério".

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Na estrofe acima Gilberto Gil expõe sua crença de que para se achegar diante de Deus ele precisa estar sozinho, em um momento íntimo. Ao mesmo tempo precisa ficar bem à vontade. Não permitir que nada lhe prenda: nenhuma formalidade e nenhuma regra. Ape­nas um momento de introspecção. De olhar para dentro de si. Abrir mão das dúvidas, dos medos, das vontades, não lan­çando expectativas para o momento. Apenas vivenciando-o, é a chegada na presença divina, o momento de sondar e convidar a ser sondado o coração.

Também acredita que o ideal não é marcar tempo e nem combinar um encontro, com dia e horário. Apenas se entregar ao momento “plenamente nu”, na Sua presença. Não pen­sar em ocultar nada de si e nem de Deus. Olhar profundamente para dentro de si e expor a Ele o que se consegue ver com esse olhar.

(Sl 51: 1-3,6,16)


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Nesta segunda estrofe, o homem já passou pelo primeiro momento. E agora se depara consigo. Senti profunda dor ao reparar o quanto de sujo, o quanto de mal se é. Não con­segue mais ousar pedir nada a Deus. Como Pedro, após a pesca Maravilhosa: Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador. Simplesmente abre mão de tudo porque não apenas crê que não mereça, mas sente-se imerecedor. Olha pra Deus e vê o quanto sua sujeira o torna imóvel diante d'Ele. Ou, quem sabe, nem seja sujeira de fato. Mas simplesmente se vê bem pequeno diante da grandeza que é Deus.

Mas algo o leva a ousar ser feliz, mesmo nesse momento. Porque, apesar de tudo isso, de toda sua pequenez e/ou podridão, Deus o aceita.

(Sl 51:3-5,17)


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Depois do triste, porém, plenamente didático encontro consigo. De se desmascarar diante de Deus e diante de si, e mesmo as­sim ser convidado a caminhar com ele, o ser humano precisa decidir. Decidir se aventu­rar nessa intimidade, nessa caminhada lado a lado com Deus. É a fé. A resposta do homem ao chamado Divino. Onde não se sabe aonde vai. Onde não se tem mais certeza de nada, apenas a confiança de que é Deus quem guia. E, embora, durante o percurso, se lance expectativas do que pode acontecer, o Grande Mistério, que é Deus, impede que a imaginação seja certeza. O importante é caminhar decidido, sem olhar pra trás, sem lamentar, confiando apenas em Deus. É a certeza do salto no escuro, que é a fé.

(João 3:8; Rm 11:33-35;)

Fiz questão de fazer paralelos com textos bíblicos para mostrar que, com algumas tradições bíblicas, o texto tem forte coerência. Óbvio que existem outros textos e outras reflexões que conduzirão para um caminho mais parecido com a canção de Roberto e Erasmo. O que denota a grande diversidade da crença bíblica. Contudo, já que existe tão diversidade, então, creio eu, que o melhor caminho seja o Desconhecido Revelado. Que se encontra na subjetividade do ser e do Ser. O Deus único que podemos dizer o que é, mas que não podemos dizer quem é. Que, segundo Hebreus, plenamente se revelou em Jesus, mas o mesmo Cristo, tão perto de nós, tão humano e tão divino, é, hoje, nosso maior desafio de compreensão.

Deus é isso pra mim: O Desconhecido-Revelado e o Revelado-Desconhecido. Aquele que se revela re-velando. Caminhemos por essa estrada (Jesus), que no final, dará em Deus. Que, contudo, é “nada, nada, nada, nada do que eu pensava”.


[1]Segundo o pensamento agnóstico – presente em muitos textos bíblicos – Deus não pode ser conhecido e nem revelado ao ser humano.

[2]O movimento gnóstico é antigo. João, no seu evangelho, é o que mais combateu o gnosticismo, ainda que exista reflexões gnósticas em seus escritos. Para alguns ele lança mão de argumentos gnósticos para combater o gnosticismo. Existe, ainda assim, algumas camadas nos textos que apontam para uma tradição gnóstica. Diferente do agnosticismo, os gnósticos se afirmavam como os “iluminados”, aqueles que conhecem os mistérios divinos porque o próprio Deus lhes revelou. São os conhecedores (gnoses = conhecimento).