sábado, 14 de novembro de 2009

Deus em Música (por um Deus paradoxal)

Existem muitas músicas que nos ensinam verdades sobre a existência humana e seu relacionamento com o sagrado. Essas músicas podem ser religiosas ou não. Hoje, acredito eu, muito mais as não religiosas do que as que fazem parte desse gênero, pois estas estão recheadas de teologias pobres e sem o mínimo de reflexão crítica.


Talvez a culpa disso seja o mercado gospel brasileiro que lança seus lixos como “ventos de avivamento”, que, na realidade, não passam de brisas quentes que trazem poeiras em dia de calor. Contudo há as raríssimas exceções. E existe uma música que, desde minha pré-adolescência, foi, e ainda é, a melhor música cristã , particularmente falando. Óbvio que existe todo um valor emocional, mas todos os valores são emocionais, não é possível valorizar algo de verdade sem que esse algo produza um efeito no interior do avaliador. E a música a que me refiro chama-se “Estrelas”, da banda Raízes:


Acima das estrelas há uma luz maior
Estrelas chamam de esperança
A luz de Deus, seu Criador
E por mais que contem todas elas, incontáveis seus sinais
Pois deu nome a cada uma delas, e hoje rege os seus corais


A primeira estrofe trata da soberania daquele é transcendental. Exalta a grandeza misteriosa (deu nome a cada uma das estrelas) daquele que é o criador de todas as coisas e está acima de tudo aquilo que de mais alto e belo foi criado. Sendo ele a grandeza acima de tudo, sem que haja algo acima dele. Aquilo que cria todas as coisas sem ser criado por nada; O bem supremo. Esse pensamento Tomaz de Aquino afirma ser exatamente o que ele pensa ser sobre Deus: não existindo bem maior do que ele; O motor que move todas as coisas, sem ser movido por nada; O existente necessário para que todas as coisas existam, sem que haja necessidade de ter algo existente antes dele para que ele exista. Causa primeira de todas as coisas, de forma que não exista nada que tenha lhe causado. E a suprema ordem.

As estrelas esperam nele. A própria criação, mesmo as que possuem luz em si mesmas vêem a luz de Deus como algo superior a sua própria luz. A criação reconhece a grandeza daquele que o criou.

A Glória descrita de Deus, não é comparável é mais
Seu Manto se estende além do Céu
Sua Glória reflete o Seu poder
Seus olhos são chamas de amor, Sua voz é coragem e fé
Ele é a esperança e a paz, que todos procuram no céu


Embora muitos textos bíblicos procurem descrever como é a glória de Deus, a música demonstra ser a glória de Deus superior a tudo aquilo que já foi descrito. Andando em plena harmonia com Agostinho, que afirma: tudo o que dissermos sobre Deus não passará de uma visão opaca do seu ser. O que confirma também o pensamento de Paulo de que, “no momento, o conheço em parte,(...) mas um dia o conhecerei como sou conhecido”.

Contudo no refrão já está introduzida uma outra forma de glória: a glória do amor. Todos procuram paz e esperança através das religiões. Ele é essa paz, ele é esse amor e essa esperança. Ainda que não saibam, todos os homens procuram na realidade a ele. Ainda que chamando-o por outros nomes. Ele é tudo o que procuramos.

Acima das estrelas há um amor maior
Por você entregou Seu próprio Filho
Que se tornou o vivo amor
A ainda que você o negasse
Rejeitando todo amor
Uma lágrima do céu cairia
Entre chuvas de amor


Agora, acima das estrelas não está apenas uma luz maior. Está também o amor maior. Deus é apresentado como o amor. O verdadeiro amor, o amor maior. Que se doa em seu filho, fazendo do seu filho o amor vivo. Vivo no meio do ser humano. Deus não é apenas o supremo ser acima de tudo, é também aquele que se doa da maior forma possível. O amor que se entrega na maior entrega possível. Deus não é apenas soberano acima de todas as coisas, é o servo mais humilde que existe, abaixo de todas as coisas.

Idéia essa que está, também, em pleno acordo com o cântico de Filipenses (texto que teremos um novo post comentando) – FP 2.6-8:

“o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.”

E o soberano sobre todas as coisas é afetado. Aquele que está acima de tudo – o Deus da primeira estrofe – agora é o Deus que chora, por ser rejeitado. Por não ter seu amor compreendido. Aquele de quem as estrelas chamam de esperança, aquele é exaltado acima da criação, chora diante da rejeição do homem. A rejeição desse ser tão pequeno o efeta de forma tão grande que o soberano, acima de tudo, é afetado pelo homem, e chora.E não chora abandonando sua criação, chora cuidando dela: mandando a chuva para regar a terra. É o Deus que, mesmo sendo rejeitado, não rejeita.

Essa é a face do Deus que eu conheço: o Deus acima de tudo e abaixo de tudo. O paradoxo da fé é apresentar um Deus que é Senhor e Servo ao mesmo tempo. O Deus que é soberano e que serve. O Deus que não precisa de nada – pois é soberano – mas que, por ser amor, precisa do objeto do seu amor: o mundo, o homem, as árvores, as águas, enfim, tudo aquilo que, por amor, criou.

Pegando emprestado um trecho da música Pétala de Djavan: Por ser exato o amor não cabe em si.

Deus é tão soberano – em amor – que não cabe em si. Precisa e se entrega ao outro. Repito: Deus não cabe em si.

E o maravilhoso disso tudo é saber que, mesmo tendo esta visão de Deus, ainda o conheço em parte, pois ele é tudo isso, e muito mais.