terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Deus da cabeça das pessoas (sistematizando)


Assim diz o diabo (segundo o filme: O advogado do diabo):

“ - Para quem você está carregando todos esses tijolos? Deus? É isso? Para Deus? Escute aqui... vou te dar algumas informações sobre Deus:

- Deus gosta de observar. Ele é um gozador. Pense... Ele dá instintos ao homem. Ele lhe dá esse extraordinário dom, e o que faz depois? Eu juro, para a própria diversão... para a própria comédia cósmica particular... Ele cria regras contrárias.É a maior piada de todas: ‘Olhe, mas não toque’. ‘Toque, mas não prove’. ‘Prove. Não engula’.

E, enquanto você pula de um pé para o outro, o que Ele faz? Ele fica se mijando de tanto rir! Ele é um sacana! Ele é um sádico! Ele é um patrão ausente! Adorar isso? Nunca!

- É melhor reinar no Inferno que servir no Céu, não é?

- Por que não? Estou aqui com o meu nariz no chão desde que tudo começou! Eu nutri cada sensação que o homem foi inspirado a ter. Eu me preocupei com seus desejos e nunca o julguei. Por quê? Porque eu jamais o rejeitei, apesar de suas imperfeições. Eu sou um fã do homem! Eu sou um humanista. Talvez o úItimo humanista. Quem, em sã consciência... poderia negar... que o século XX foi inteirinho meu? O século todo, Kevin! ”

Como dizer que o diabo - encarnado de forma divina por Al Pacino - está errado? O que diz a igreja e todos os outros povos que possuem seus deuses? Que Deus estabeleceu leis que contradizem o instinto do homem que ele criou.

E, se de fato o diabo é o tentador, então, ele, realmente, incentiva que sejamos mais humanos do que Deus que nos obriga a sermos o que não somos. Se Deus de fato exige que eu deixe minha humanidade – mesmo que imperfeita – para seguir a regras impostas por ele e que, ele mesmo, não precisa seguir e não há quem esteja acima dele para que o questione ou reprove – como queria Jó (9,32-33).

Considerando o quão Deus é sobre tudo e todos, como dizem as religiões – inclusive a cristã - como posso aceitar que ele não tolere pecado? Por que criou leis tão contrárias ao ser que criou? Compreendendo o caráter mitológico do texto de Gênesis, pergunto: por que colocou algo no jardim para tentar Eva (tanto a fruta quanto a serpente)?

Sim... tenho que reconhecer, se Deus for tão grande como as religiões dizem, então, de fato, ele é sádico como diz o texto acima. E o diabo é o cara que nos ama. Acaso nossos pecados ofendem a Deus? Ele deixa de ser Deus se eu pecar? Aliás, por que ele chama de pecado o fato de obedecer os instintos que colocou em nós? No que o fere agir contra a sua lei? Fica mais fraco? Morre? Sofre? Por que me deu liberdade e exige que eu não seja livre? Se Deus é tudo isso que dizem as religiões, então, repito, Deus é mau, sádico, bobo e precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico!

Tenho que, portanto, rejeitar completamente que Deus seja isso! Não cabe em mim a crença em um Deus que seja tudo e ao mesmo tempo tão egoísta, mesquinho e bobo. O Deus que conheço e reconheço é o Deus de Jesus Cristo: o Pai.

Aquele que não apenas aceita, mas ajuda seus filhos, respeita suas decisões e está sempre de braços abertos. Que não lança no inferno seus filhos simplesmente porque esses discordam dele. Aliás, o Deus que conheço e reconheço, é o Deus que recebe o homem como ele é. Muito mais do que isso, se fez homem.

Jesus não é reconhecido como Deus pelos milagres que efetuou, mas pela vida que viveu, pelo amor que demonstrou, pela humanidade perfeita (em acertos e erros, em qualidades boas e más). Jesus é Deus porque, como diz Leonardo Boff, humano como ele, só pode ser Deus.

E Deus é reconhecido pela sua grandeza pelo amor incomparável e pela sua entrega total ao ser humano e a todas as suas outras criaturas. Um Deus vivo e atuante cujo poder que tem não é nem um pouco tentado a sustentar. Pelo contrário, encarna em seu mundo, se esvazia e se faz parte dele: morre nele; derrama seu sangue por essa terra; pisa o nosso chão; come nossa comida; aprende com seus mestres e ensina aos seus discípulos.

Um Deus igual. Igual em tudo! Que nos faz segundo a sua imagem e que se faz nossa imagem. Um Deus que prova todas as coisas da humanidade e, ainda hoje, é reconhecido em figura humana. Um Deus que não institui leis, mas que ergue o amor como vinculo da paz e da perfeição humana. Não por ter o ser humano instinto de ódio, mas porque todos são capazes de amar. Ainda que amemos apenas aqueles que nos amam, os amamos com sinceridade, sofremos sua falta. O convite de Deus não é que rejeitemos o ódio existente em nós, mas que permitamos florescer o amor que está em nós. Pois o ódio é apenas o esfriamento desse amor.

Deus não exige de nós o que não podemos fazer, pelo contrário, alimenta cada um dos nossos sentimentos e instintos, pois nos ama. O ser humano que impõe leis para controlar esses instintos, pois percebe neles, uma ameaça, diante do outro que lhe é semelhante. Deus nos convida a sobrepujar essas leis, de forma que elas não existam mais: ame faça o que quiser. O convite mais do que sensato de Agostinho demonstra com acerto a perfeição humana e a liberdade dada ao ser humano para ser o que se quer ser. Ainda que rejeitemos tal convite, ainda que outros convites nos sejam mais atraentes, nosso Pai não cessa de tentar nos reconquistar e não nos condena por uma má escolha.

Deus acolhe a todos, os bons e maus. Não importa o que fizeram ou deixam de fazer: faz nascer o sol sobre justos e injustos. Por Deus todos são dignos de receber as bênçãos e alegrias presentes na criação. Sua única exigência: amem para que possam gozar dessas bênçãos eternamente!

Ame e faça o que quiser, “O amor não faz mal ao próximo. De modo que o amor é o cumprimento da lei” (Rm 13.10).

2 comentários:

  1. Excelente texto! "ame faça o que quiser" é um ótimo convite, melhor ainda se formos capazes de aceitá-lo.

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  2. Em se tratando de argumento devemos dar o braço a torcer que Al Paccino usou todos muito bem colocados (O Diabo)"Sim com D maiúsculo por que não?!" Afinal ele tambem existe...
    ...Vejo tal descrição como um ginásio psicológico e confesso não gostar nenhum pouco disso porque acho que se fomos criados com virtudes e e vivíamos em um paraíso, por que colocar algo tão malicioso e definitivo? Bem, mas não cabe a mim tentar entender isso até por que não fui eu que fiz a burrice de "comer a maçã". Seguindo... o que temos hoje não é mais doque o ginásio psicológico que Adão e Eva enfrentaram... Concorda que pecar é bom? pecar é gostoso? Claro é facil, está na nossa natureza (isso em lembra a fabula do sapo e escorpião mas isso é outra história) nossa natureza é pecar, é ceder aos desejos da carne.
    Ao percebermos os obstáculos deste ginásio, aprendemos a lidar ou desviar deles e aprendemos a substitui-los por gestos autruistas e atitudes positivas e proveitosas para viver um reino aqui na terra.
    Ai! caraca.. o comment ficou enorme denovo, devagar eu aprendo ok?

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